Um ano de ti

Eu, tu, ele. Nós. Um filho, pelos olhos do pai.

Lilypie Baby Days

31.1.04

Vi-te nascer.
Foram vinte horas seguidas de contracções e mais dez de sala de parto. Foram as horas mais longas da minha vida. A epidural não correu bem, a tua mãe ficou paralisada de um lado e a sentir tudo do outro. Quando voltei ao quarto vindo de um dos muitos cigarros que me acompanharam no processo, ela estava a oxigénio. A cabeça inchou completamente de um dos lados, o olho quase tapado, depois, aquele tubo ligado às narinas e tantos frascos pendurados junto à cama, descendo em tubos até ao braço. Não lhe disse nada para não a assustar ainda mais, mas pensei que tudo estava a correr mal. «Aguenta, não te apagues, por favor», disse para mim mesmo, uma e outra vez.
Na sala ao lado estava uma mulher a gritar com quanta força tinha. Chamava pela mãe, pelo pai, por os santos e anjinhos. E gritava sem parar. Tanto a tua mãe como eu sentimos os nervos subirem à flor da pele. A tua mãe não gritava, nem gritou em nenhum momento do parto, mas chorou e pediu muitas vezes ajuda a deus. Nessa altura pensei que não iria aguentar, que sairia porta fora, que não era capaz de lá estar, com vocês, como era minha obrigação. Nem sei bem o que pensei. Uns dias depois, em conversa de maternidade, constatei que o marido daquela mulher, àquela hora, estava com os amigos nos copos. Não sei se isto quer dizer alguma coisa ou não. Mas eu não seria capaz.
Durante toda aquela noite enorme, estivemos sozinhos no quarto, com o tempo marcado pelo CTG, as contracções, as lágrimas da tua mãe e a minha impotência perante o seu sofrimento – que mais dizer senão que respirasse? Ela dizia que não queria ter mais filhos, eu que não queria assistir a mais nenhum parto. O ritmo do CTG entranhou-se de tal forma na minha cabeça que continuei a ouvi-lo, como um coração, durante dias e dias, quando dormia, no duche, no silêncio da casa que esperava por vocês.
Quando chegou o momento de nasceres, o efeito da epidural já tinha passado completamente e a tua mãe não podia receber mais reforços. Foi mesmo a frio. Deu para ela sentir tudo. Só me disse que não fosse espreitar «lá para a frente». Não fui, nem precisei. Estava ao lado dela, vi a tua cabeça aparecer no meio dos dedos da enfermeira. Atrás veio o teu corpo, roxo, sujo, trémulo. Sempre vivera na ideia de ser daqueles homens que desmaiam no momento crucial mas, perante tudo aquilo, aquela sequência tão lenta e tão rápida de acontecimentos, esqueci-me completamente de mim. Estive lá. Vi-te nascer, respirar pela primeira vez, chorar pela primeira vez.
A enfermeira pergunta-me se quero cortar o cordão. Respondo que sim e tenho a tesoura na mão. Dou um corte mas não separo tudo. Parecia que estava a cortar um choco. Nesse preciso instante pergunto «mas o que estou a fazer?». Só aí é que percebo a pergunta da enfermeira, a minha resposta, o que significa tudo aquilo. Mas era tarde para parar – e nunca se deve deixar nada a meio. Respiro fundo e dou uma nova tesourada. Separo-te da tua mãe e, com esse gesto tão simples, ligo o cronómetro da tua vida. Agora estás por tua conta filho. Terás de te alimentar, terás o sono e a vigília, terás um corpo a funcionar por si, terás a tua vida, só tua, por viver. Passaste a ser tu mesmo em tudo o que isso tem de pleno e assustador.
Choraste, tremeste, olhaste tudo com o pavor de um mundo novo, terrivelmente novo. Demasiado claro, demasiado frio, demasiadamente diferente de tudo o que conhecias. Peguei-te ao colo e, com o queixo a tremer, perguntei-te:
- Então gordinho, então amor?...
Calaste-te por um instante num reconhecimento que nunca saberemos se existiu ou não. Pensei que nesse momento iria chorar contigo nos braços, ainda meio sujo do sangue da viagem, enrolado num cobertor da maternidade. Pensei também coisas sem nexo, pensei que deveria ter feito a barba, que te deveria ter dito «bem-vindo, meu filho», que deveria parar aquele queixo que não me parava de tremer. Sempre te imaginara diferente, mais bonito, com menos cabelo e olhos azuis como eu. Achei-te tão feiinho, filhote. Mas antes de eu começar a chorar, tomaste a iniciativa e choraste pelos dois. Depois tiraram-te dos meus braços, meteram-te numa espécie de incubadora e foste embora.
A tua mãe chorava. De dor, de alegria, de tudo ao mesmo tempo. Estavam já a suturá-la e ela a dizer que sentia tudo. A barriga parecia um saco de borracha vazio. Toquei-lhe na procura do bebé que sabia lá não estar mas acho que ela nem se apercebeu. Ainda pude ficar um pouco mais, fazer-lhe uma festa, dar-lhe um beijo, limpar-lhe lágrimas. Havia toda aquela dor nela e também em mim, todo aquele cansaço mas, ao mesmo tempo e, de repente, tínhamos um filho. Deixáramos de ser dois para sermos três. Para a mãe começou muito mais cedo, porque te sentia. Para mim só começou verdadeiramente quando te vi sair para o mundo, para a vida. Só nesse momento é que percebi verdadeiramente que era pai, que há trinta e dois anos atrás o meu próprio pai me vira também nascer, me pegara ao colo e que tudo isso nunca me tinha dito nada até aquele momento, até fazer uma espécie qualquer de sentido, de encaixe perfeito – como um ciclo que se completa.
Nascer não é bonito. É doloroso. É intenso. É traumatizante para todos nós. Porque a dor para a mãe é brutal – e acredito convictamente que, se os homens tivessem filhos, eu entraria em estado de choque e morreria no parto. Para o pai é frustrante assistir a tanta dor e não conseguir ou poder fazer nada para partilhar ou aliviar essa dor. Depois é a ansiedade, o cansaço. Era o terceiro dia consecutivo acordado, o meu próprio sentido de equilíbrio começava a estar afectado. Ao mesmo tempo, nascer é lindo porque é único. É o início, o primeiro momento de todos os momentos. E estive lá, sempre ao lado da tua mãe, sempre, mesmo quando pensei que tudo aquilo era demasiado para mim, mesmo quando já só queria dormir e não me importava se dormiria na cadeira ou no chão do quarto, mesmo quando o sangue começou a tingir os lençóis duma forma que parecia não parar e fiquei cheio de medo por vocês.

Umas horas depois, quando ao fim do dia me deixaram ver-vos, achei-te mais engraçadinho. Ao outro dia, achei-te lindo. E, todos os dias, superas as minhas expectativas, já não em relação ao que imaginava mas pelo ser que és.
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Vamos começar por esclarecer alguns pontos. Nunca gostei de crianças. Sempre achei que a minha independência era mais importante. Depois, ouvir bebés a chorar baralha-me o sistema nervoso. Mas também nunca fui de opinião de não ter filhos. Afinal, uma coisa são os filhos dos outros, outra coisa, perfeitamente distinta, são os meus. Assim, foi de coração aberto que eu e tua mãe decidimos trazer-te ao mundo.
Um blogue sobre ti? Podia ter duas abordagens. Podia escrever-te por te achar um espanto, e relatar as tuas novas habilidades, dia a dia, truque a truque. Mas há imensos outros blogues que fazem isso, bem melhor que eu, além que é tema onde as mães conseguem sempre levar a melhor. Ou podia escrever-te porque não há muitos relatos visto pelos olhos do homem, dessa besta insensível, incapaz de sentir. Assim, escrevo-te isto tudo para que possas compreender.
Existem inúmeros livros sobre tudo o que um pai e uma mãe precisam de saber para cuidar do seu bebé. Mas o que pretendo é escrever algo diferente. Quero que saibas como foi um teu primeiro ano. Em breve vamos encher o álbum com todos os bons momentos que passamos juntos. E onde ficam os outros? Onde fica o desespero de deixarmos de ser dois para passarmos a três? Isto não é um best-of mas sim um worst-of. Este blogue faz-se daqueles momentos que vamos tentar esquecer. Aqueles onde acho que não vou aguentar, onde me apetece fugir, onde fraquejo.
É importante que compreendas que não és um erro nem um acaso. És fruto de um acto consciente de amor. Foste feito com amor e serás sempre criado com amor. Mas um filho muda tudo e, só quando fores pai conseguirás verdadeiramente compreender. E quero, acima de tudo, falar-te de ti num tempo que não lembrarás, e de nós, a aprendermos, a adaptarmo-nos a ti, às tuas necessidades e ritmos próprios. Talvez um dia quando leres estas páginas compreendas, ou talvez não, mas disso poderemos falar daqui a uns anos, quando for possível compreender as tuas próprias opções, o rumo que pretendas dar à tua vida.
Quando comecei a anotar estes pensamentos, não pensei publicá-los num blogue. Por um lado é demasiado privado, mas isso consigo resolver com o anonimato. Por outro lado, tenho esta ideia que devo anotar um ano - porque é um número certo, faz sentido, o teu primeiro ano de vida. E aconteceu outra coisa. Embora vá falsificar as datas de publicação para as acertar com as reais, descobri que não tenho escrito nada sobre ti. É verdade, tenho sido um pai desnaturado pois, perante a tarefa a que me propus, recuei, deixei para amanhã e, tu vais crescendo sem que o texto te acompanhe. Assim obrigo-me a escrever, porque vales a pena, porque isto não está a ser fácil, porque concluo que posso amar-te sem que me ames de volta e, mesmo assim, continuarás lá e a ser meu filho. E mesmo quando tudo correr mal, ainda assim, serás tu, o meu filho, visto pelos olhos do teu pai.
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