Um ano de ti

Eu, tu, ele. Nós. Um filho, pelos olhos do pai.

Lilypie Baby Days

27.2.04

Especificações técnicas:
Peso: 4680gr. Estatura: 56,7cm. P.Cef: 37,3cm.
|| 22:01 ||

17.2.04

Especificações técnicas:
Peso: 4100gr.
|| 22:03 ||

16.2.04

No sábado fizeste duas semanas. Foi dia dos namorados. Pela primeira vez eu e a tua mãe não fomos almoçar ou jantar fora. O almoço foi uma romântica lasanha fria pelas 5 da tarde. Depois dela te dar de mamar, trocar a fralda duas vezes e voltar a dar mama. Quando almoçamos já nem vontade tínhamos de comer. Mas ficámos felizes por acender uma vela, brindarmos ao futuro e devorarmos o comer em dez minutos pois já se aproximava a hora de acordares para nova mamada. Além disso havia ainda o chassis do teu carrinho que se partiu após três ou quatro saídas à rua e que precisava de ser trocado e tantas, tantas pequenas coisas por fazer. As tarefas agora nunca acabam e sentimo-nos corredores de maratona que nunca podem parar pois a estrada não acaba nunca e, por muito cansados que estejamos, há sempre mais qualquer coisa que não pode esperar para depois.
Tens crescido imenso. Nesta semana não te pesámos nem medimos mas olhando para ti estás maior. Bem maior. As tuas mãos, a tua cabeça, as bochechas. Não paras. Ocupas-nos todo o tempo e mais algum, toda a atenção, toda a vida. Têm havido momentos engraçados. Mas no geral fica-nos o cansaço, a falta de paciência e as primeiras discussões contigo no centro. Eu sei que tudo isto deve-se unicamente à fadiga mas não temos conseguido agir de outra forma.
A tua mãe está cada vez mais esgotada. Em vez de melhorar apenas piora. O choro tem sido uma constante, os momentos em que está farta de tudo. Há alturas em que temo que se vá abaixo. Têm sido assim os nossos dias. Da minha parte está a ser difícil também. Gostava de conseguir ajudar mais ou pelo menos ajudar melhor.
|| 14:18 ||

7.2.04

Fazes hoje uma semana de vida. Ainda não é muito tempo mas, quando hoje olho para trás, já mal consigo ver a vida que existia antes de chegares. Nesta última semana tudo mudou, como se fossemos outras pessoas numa outra realidade qualquer. Não houve ainda um único momento em que me possa sentir arrependido ou infeliz de existires mas o cansaço é bastante pior do que alguma vez imaginei. Nesta semana que passou tenho-me sentido no limite da minha resistência - e estou de férias! Não sei como será quando voltar, na próxima segunda feira, ao emprego mas, ou me habituo ou não vou conseguir dar conta do recado.
Segundo todos os termos possíveis de comparação, és um bebé calmo. Só nos acordas quando tens fome. Não tens feito birras, as cólicas são raras e a tua vida tem-se resumido a comer e dormir. Mesmo assim, acordamos várias vezes durante a noite para mamares. Mais ou menos de três em três horas. Tanto eu como a tua mãe estávamos habituados não propriamente a dormir muitas horas mas a dormi-las seguidas. Agora tentamos habituarmo-nos a dormir várias pequenas sestas durante a noite. Este ritmo está a esgotar-me. Sinto-me permanentemente esgotado, apático, sem forças. Obrigo-me a escrever, ler e ver alguns filmes que alugo no clube ao cimo da rua mas, na escrita não consigo alinhar as palavras, não me lembro do que leio e os filmes tornam-se cansativos pois os olhos ardem-me e teimam em fechar-se.
Temos insistido que a nossa vida não pode mudar, que temos de continuar a ser como éramos antes de chegares, com os mesmos hábitos e forma de estar. Isso não está a acontecer bem assim. Todo o tempo do dia e da noite gira em torno das tuas necessidades. Primeiro estás tu, depois estás tu e só no fim estamos nós. Lavamo-nos, vestimo-nos e comemos quando conseguimos. Organizamos as idas à rua nos intervalos das mamadas e trocas de fraldas. Quando um vai à rua, o outro fica em casa disponível para ti. Poucas palavras trocamos que não sejam sobre ti. À noite caímos na cama e desejamos adormecer o mais depressa possível para tentar recuperar um pouco do sono acumulado. «Boa noite. Dorme bem». Neste momento é todo o diálogo que conseguimos manter.
A tua mãe chora nos intervalos. Eu não choro mas vontade não me falta. Neste momento o que passamos não é vida mas sim uma sobrevivência ridícula, um simulacro de qualquer coisa mais. Dou por mim a desejar dizer qualquer coisa à tua mãe que a possa aliviar do cansaço que sente mas não sou capaz. Falham-me as palavras e, na maioria das vezes, uma festa é tudo o que consigo dar. É pouco. Ela sente-se perdida nas dúvidas sobre as suas capacidades maternas e por não conseguir ter um minuto para ela própria. Quando te dá de mamar mal consegue ter os olhos abertos. Baralha as coisas, esquece-se de tudo, repete vezes sem conta a mesma pergunta à qual respondo sempre a mesma coisa. Para ela está a ser muito duro. Apesar de tudo fala-te sempre com a mais doce das vozes, mesmo que as lágrimas ainda lhe caiam.
Esta tarde estiveram cá os teus avós. Estão radiantes. Passaram a tarde agarrados a ti e descobrir semelhanças ou diferenças na tua fisionomia em relação às nossas. Para mim foi um esforço enorme esta tarde. Fui um bom anfitrião mas tudo o que realmente desejava era apenas meter-me na cama e esquecer-me do mundo e de todas as pessoas. A tua mãe optou por se refugiar o máximo tempo possível no escritório, agarrada ao telemóvel, refugiada de todos nós. Eu compreendi e lidei com a situação o melhor que consegui. Ela não tem culpa, está apenas cansada.
Para mim o dia começou mal. De manhã tive de ir comprar algumas coisas para oferecer durante a tarde como lanche. Estamos praticamente sem dinheiro. É dia 7 e estamos falidos, não há dinheiro que chegue para comer até ao fim do mês. Não sei como iremos lidar com isto mas esta situação agonia-me. Fui rigoroso a separar o dinheiro, mal recebi, para ter a certeza que chegaria para tudo. Algures nestes dias gastámos mais do que devíamos - na verdade, mais do que podíamos. Se isto continuar assim vou ter de considerar seriamente a hipótese de arranjar um segundo emprego, qualquer coisa, à noite. Qualquer coisa que nos permita sobreviver melhor. Os meus pais perguntaram-me se precisava de alguma “coisa”. Quase chorei nesse momento. Acho que eles perceberam que isto não anda fácil mas eu mantive sempre que tudo está bem, é apenas cansaço. Da mesma forma como quase choro quando saio à rua para entregar ou levantar um filme no clube vídeo, ou quando estaciono o carro e fico uns minutos sentado ao volante, sozinho, a pensar como vou desenrascar-me. Mesmo assim, quando penso no que ganho, concluo que pertencemos à chamada classe média-alta. Imagino então todos os outros que espremem a vida a uma miséria.
|| 14:14 ||

6.2.04

Especificações técnicas:
Peso: 3680gr. Estatura: 53cm. P.Cef: 35,2cm.
|| 22:04 ||