Um ano de ti
Eu, tu, ele. Nós.
Um filho, pelos olhos do pai.
31.3.04
Fazes hoje dois meses. Ao mesmo tempo que me parece pouco também me parece uma eternidade. Nem nas bandas desenhadas dos “Baby Blues” não me parece tão difícil como está a ser. É um longo percurso e penoso mas, ao mesmo tempo, já não imagino a minha vida sem ti. Só dois meses mas as frases «como está o Gordo?» ou «os amores da minha vida isto ou aquilo» parecem-me que sempre lá estiveram. Aos poucos tens-me ensinado um novo sentido para a vida. Estarei mais maduro por tua causa? Não sei, há momentos em que acredito que sim. Agora tiro o pé do acelerador mais vezes porque me lembro de ti, cada vez que me levanto durante a noite tenho de me certificar que respiras, penso nos CDs, livros e DVDs que não compro e não te levo a mal, compro-te prendas e todo o género de engenhocas quando preciso de um fato novo que não vou comprar tão cedo. Eu sei que nada disto é uma prova irrefutável de amor mas é uma forma de estar que há dois meses atrás não existia.
Lembro-me que dois dias antes de nasceres, a tua mãe teve o feeling que estava quase. Nesse dia levantámo-nos cedo, tomámos o pequeno-almoço numa Expo lavada de chuva e deserta de gente, fomos ver uma sessão de cinema ao meio-dia e tivemos a sala só para nós. Isto foi só há dois meses mas parece-me que uma vida passou entretanto. Sei que vou ser dramático mas, nestes dias em que um sorriso cansado e um beijo de boas noites é tudo o que a tua mãe e eu temos tempo para trocar, pergunto-me se a nossa vida voltaremos a encontrar tempo um para o outro.
Neste tempo, temos encontrado alguns momentos fantásticos, de rir até às lágrimas, assim como outros de lágrimas que não levam a nenhum riso. Mas é importante que saibas que não te trocaria nunca, por nada deste mundo. És um filho lindo e, bom ou mau, melhor ou pior, sei que tenho o resto da vida para te aprender.
A tua mãe está a tentar convencer-me que tens problemas de cabeça. Passo a explicar. Não é normal um bebé de dois meses dormir só oito horas por dia. Mas é o que está a acontecer. Eu não ligo muito a essa ideia da tua mãe, mas há alturas em que gostava mesmo de perceber o que se passa nessa cabecita. Que é estranho teres vontade de dormir mas não conseguires, é. Vê-se, na forma como bocejas, no esfregar dos olhos, como viras a cabeça para esconder a cara na fralda ou colcha. Depois ficas saturado e choras. Isto acontece sempre. Não é fome, não são cólicas, não é necessidade de atenção. São insónias. Será possível que já tenhas a mesma doença que eu? Esse esperar e desesperar por um sono que não chega?
A pediatra diz que não é defeito mas antes feitio. Mas será mesmo? Já tentámos de tudo, desde tentar adormecer-te com luz, sem luz, com barulho, sem barulho, com música, sem ela e em todas as combinações possíveis destes factores. Também já tentámos o colo, a ausência dele, deixar-te a chorar, ficar ao pé de ti a segurar a tua mão, automóvel (que ainda é o que dá alguns poucos resultados), estafar-te, as várias assoalhadas, ovo, espreguiçadeira, alcofa. Nada. A tua mãe até já se pergunta se será a cor do quarto! Mas já insónias? E se for? Que impacto terá no teu eu futuro? A sério, eu não acredito que tenhas qualquer problema de cabeça mas estou preocupado com esta situação. Estou mesmo.
Na próxima sexta-feira vamos outra vez à consulta de pediatria. Vamos bater outra vez neste ponto. Tem de haver alguma coisa que se possa fazer para saber se está tudo bem contigo ou não. Viver na dúvida é o pior. Sugestões, temos recebido várias. Vamo-las experimentando, aos poucos. Das mais clássicas, como estafarmos-te bem até passar a noite a passear-te de automóvel, temos riscado todas essas opções. Há uma que me agrada bastante mas tenho quase a certeza que a tua mãe não vai apreciar: sentar-te na máquina de lavar roupa quando estiver a torcer a todo o vapor. Parece-me uma ideia tão boa como qualquer outra!
A nova teoria da tua mãe é que talvez sejas como eu, que passei os primeiros seis meses de vida ao colo, e em movimento, para me conseguirem adormecer. Cada vez que paravam, eu berrava. Coitados dos meus pais! Tinham de fazer turnos para que cada um conseguisse dormir um bocado. A minha mãe diz que, para conseguir fazer alguma coisa em casa, tinha de me pendurar às costas ou ao peito e era assim que cozinhava ou limpava. Será que “herdaste” esse meu feitio? Como eu espero que não. Podias ter herdado os meus olhos, que a tua mãe bem contente ficaria, apesar do estigmatismo e da miopia. Mas não vamos entrar em transe, vamos ter calma. De certeza que não há-de ser nada. Daqui a uns tempos já dormes como um carneirinho e vamos todos adorar!
30.3.04
Há dias que não valem a pena. E no meio desse vazio há situações que dão um sentido onde não o havia. Ainda não me adaptei a esta dualidade. Da gargalhada ao choro, ou da seriedade ao riso. Ontem foi um bom exemplo do quando mudas a nossa vida a um ritmo superior à nossa capacidade de adaptação. Tu cresces, marcas o ritmo e nós corremos atrás de ti, a tentar entender-te.
Saí do emprego às nove e tal. O trabalho é cada vez mais e há assuntos que não podem mesmo ficar para amanhã. Liguei do carro para a tua mãe. A conversa habitual:
- Então? Tudo bem? – Perguntei.
- Não.
- O que é que se passa?
Nesta altura é-me fácil imaginar tudo o que possa correr mal. Pareces-me saudável mas até tremo perante estas respostas da tua mãe.
- Hoje, ele ainda não se calou nem dormiu. Estou farta disto. Não aguento mais!
E ouvi o fungar de lágrimas a acompanhar estas palavras. Bem, pelo menos estás bem.
- Amor, tens de ter calma.
- Dizes isso porque não estás cá!
Não. Não estou com vocês o dia todo. Da noite também é pouco o tempo que tenho para vocês. É um facto. Mas seria melhor se me despedisse para tratar da família? Sei que estou a divagar. Mas fico desarmado. E vou para casa já preparado para o pior.
Depois de jantar tardíssimo, fico a lavar louça até quase à uma da manhã. Lavo a de ontem e a que não me apeteceu lavar na noite anterior. Participar faz-me bem, ao menos posso ser útil, contribuir naquele trabalho o que não contribuo no resto do tempo em que estou fora. Enquanto lavo pratos, copos e talheres ouço-te chorar até à exaustão. A tua mãe de volta de ti a tentar decifrar-te. É mama? É fralda? Cólicas? Não é nada, ou é birra, ou apenas estares com a pica toda e quereres ainda mais paródia quando já estamos a cair para o lado. Desligo o intercomunicador para não te ouvir. Filho, cala-te por favor.
Depois da louça já nada me apetece. Nem escrever, nem ler, nem sequer lavar-me. Quero dormir, desligar, pensar que o dia seguinte será melhor. Mas ainda sou preciso, a fralda transbordou. Solícito, pego-te nos pés para que a tua mãe te limpe. Os pés já tinham ido ao “bolo” e fico com as mãos cheias de trampa. Regas tudo com um chichi e deixas cair a chupeta quando temos as mãos sujas. Choras até eu conseguir ir a correr lavar as mãos e dar-te a chucha. A tua mãe chora. As lágrimas rolam-lhe cara abaixo. Ficamos os dois calados a ver. Eu, contigo ao colo, e ela, com a bomba do leite que não puxa nada.
Fomos para a cama e senti que o dia não valeu nada, foi o riscar de mais um quadrado no calendário. Afinal, o que fiz de útil? Que momentos tive para meu gozo? Passei o dia e noite a correr atrás do tempo, a riscar pendentes, a cumprir tarefas. Quando finalmente apagamos a luz continuas a reclamar. Cada vez que a chucha te cai da boca choras até que um de nós se levante para ta dar. É preciso ir lá, abrir os olhos, sair da cama, sentir o frio e o desequilíbrio de nos levantarmos estremunhados. Custa muito. A certa altura decidi demorar um bocado mais a responder e começaste a chuchar nos dedos. Geralmente metes metade da mão na boca e tentas encontrar aí a substituição da chupeta. Foi lá a tua mãe.
- Estava a chupar o dedo.
- Metade da mão. – Respondi.
- Não, o dedo mesmo.
- A sério? Ele já sabe chuchar no polegar? - Pergunto, num rasgo súbito de pai babado.
- Era o indicador.
- Oh! Que tristeza de filho! Esse é o dedo errado!
Passado um bocado nova chamada. Fui lá e tirei-te o indicador da boca. Com jeito dobrei-te os dedos e empurrei-te o polegar para a boca. Quando percebeste a diferença vi na tua cara que foi uma ideia luminosa. De facto um polegar é muito melhor que um indicador! Eu estava estafado e a tua mãe tentava dormir mas não pude evitar o riso. Aprendeste a chuchar no dedo! Mesmo que não o tenhas descoberto sem a minha “ajuda”, o certo é que vi a primeira vez que o fizeste e isso apagou o resto. Pelo menos não conheci esse momento em diferido, pelos relatos da tua mãe, ou ainda com um «sim, ele costuma fazer isso». Guardaste qualquer novidade para mim, e senti que assim também estou ao teu lado a ver-te crescer, a acompanhar-te.
Voltei para a cama a desejar desesperadamente dormir. E foi com o teu choro que acordei esta manhã, tomei banho e fui para o emprego.
26.3.04
Por vezes sorris. Ainda não é frequente. Vai acontecendo. Também, é raro estar em casa para ver quando acontece. No outro dia comentei os teus sorrisos com um colega meu. Ele disse-me que, nesta fase, qualquer sorriso são gases. Até pode ser que seja verdade. Não sei, nem vou achar que és tão mais desenvolvido que a maioria e sorris porque sabes que adoramos quando o fazes.
Sem opinar porque sorris, deixa-me falar-te do teu sorriso. Começa por abrires a boca toda. É uma visão gira porque, como não tens dentes, é uma boca cheia de gengivas. Ainda não fazes barulho de riso, julgo que seja normal. Mas o que realmente me fascina são os teus olhos. Os teus olhos fecham-se ligeiramente e ficam brilhantes. E todo esse olhar sorri só por si. É um abraço terno e sincero quando sorris.
Estes sorrisos vão ficar guardados. São algo que não quero mesmo perder. Ao longo da vida vais aprender a sorrir e a rir como os "adultos" mas, tenho a certeza que em nenhum momento o teu sorriso será tão verdadeiro como agora. E mesmo que sejam gases, estes sorrisos serão sempre uma recordação do bebé que és.
25.3.04
Ao jantar, a conversa foi parar a baptizados. Não há grande novidade pois, já tínhamos decidido não te baptizar.
- Mas sabes que, se um dia ele quiser ser baptizado temos de o fazer - disse a tua mãe.
- Eu sei. Respeito isso. É algo que eu prezo, as convicções. Detesto é a falta dela. Uma coisa é respeitar uma convicção, outra coisa é impingir uma ideia só porque é a nossa. Se ele quiser ser baptizado eu dou-lhe todo o meu apoio, desde que seja ele a decidir isso por ele.
Nós só casámos pelo civil. Embora a tua mãe seja crente, eu sou ateu. Se calhar, levo as convicções demasiado a sério, mas acho que respeito verdadeiramente as crenças dos outros. Se casasse pela igreja, estaria a ser hipócrita e, ao mesmo tempo, a desrespeitar quem acredita porque, ou assumiam todos que eu estava ali por estar, o que era um desrespeito, ou então ficavam no papel desconfortável de fingir que não sabiam que eu não acredito.
Seja como for, a conversa continuou para uma sessão de perguntas e respostas, enquanto estavas ali, ao nosso lado, a dormir, aninhado no teu «ovo».
- Então e se ele quiser deixar crescer o cabelo? - Perguntou a tua mãe.
- Tudo bem.
- E se ele quiser fazer um piercing?
- Tudo bem, mas não antes dos 15/16 anos. - Respondi.
- Então e se ele quiser fazer uma tatuagem?
- Aos 18. - Respondi cheio de convicção.
- Mas nós temos!
- Sim, mas enquanto com um piercing tens sempre a opção de tirar, quando te fartas, quando passa de moda, etc., uma tatuagem é para a vida toda. Por isso fiz a minha aos 30! Repara, em ti já nem se notam os furos dos piercings!
- E festas? Quando é que o deixamos sair à noite? - Perguntou a mãe.
- Quando quiser.
- Quando quiser?
- Sim, até termos confiança nele, combinamos assim: ele diz-me onde é, a que horas começa e acaba. E eu vou lá pô-lo e buscá-lo. - Respondi.
- E namoradas?
- Isso, ele que arranje sozinho.
Olhamos para ti e continuavas a dormir. Calmo, sereno, em paz contigo e com o mundo. Olhámos um para o outro e começámos a rir. Como é que podemos fazer planos para um futuro ainda tão longe? E mesmo que planeemos, de que vale tudo isso? Tu vais ser diferente de tudo o que possamos imaginar. O que me lembra que, mais cedo do que julgo e por muito liberal que consiga ser, estarei rapidamente naquela categoria onde nunca me imaginei, serei um «cota».
E tu? Que pensarás tu disto tudo quando, daqui a uns anos, leres estas linhas? Vais-te rir imenso à custa dos cotas! Então é isto envelhecer...
Há dias melhores e dias piores. É assim a vida, sempre, em tudo. Neste caso concreto nem eu nem a tua mãe andamos bem. Ela está estafada pois, absorves todo o tempo que ela tem e mais algum. No meu caso, ando a bater no fundo, cansaço, desmotivação, falta de objectivos ou forças para os perseguir - essencialmente, emprego. E é muito fácil fazer de um filho uma barricada. É fácil vê-lo como o motivo para tudo o que nos corre mal. Acontece que tu és o único que não tem culpa nenhuma, absolutamente nenhuma.
Isto é apenas para que saibas que há dias em que nos chateamos, eu e a tua mãe, de uma forma que não costumávamos chatear antes de existires. Depois, quando falamos como deve ser sobre os assuntos, chegamos ao consenso. Entendemos que o cansaço baralha-nos o pensamento, que estamos ainda na rebentação de ti e que, a seu tempo, tudo encontrará um novo percurso, com tempos e ritmos próprios.
Pelo caminho magoamo-nos, e tu sabes disso, como quando anteontem berravas com quanta força tinhas e, quando viste a tua mãe chorar, calaste-te. Tu percebeste que ela estava saturada, não percebeste? Continuas a ser um mistério, continuo a olhar para ti, para a expressão neutra que muitas vezes tens e pergunto-me o que te estará a passar pela cabeça. Ao mesmo tempo, penso que, de alguma forma, já sabes o que se passa à volta, já aprendeste a ler-nos a alma.
Nós também vamos aprendendo, embora da forma mais dura, a adaptarmo-nos a ti, a todo o imenso trabalho que nos dás, ao quanto temos de deixar para trás, por ti. Talvez se um dia leres isto percebas que deste mesmo muito trabalho. Mas está descansado que não te vamos apresentar factura! Sei que eu e a tua mãe havemos de conseguir criar-te. O difícil é conseguirmos manter a calma e o sorriso quando tudo nos dói mas, mesmo aí, estamos a fazer progressos.
23.3.04
Especificações técnicas:
Peso: 5670gr.
Ontem à noite estavas ao colo da tua mãe e choravas. Era birra de sono, o que começa a ser habitual. Ela queria ir para a casa de banho e passou-te para o meu colo. Eu estava deitado no sofá a ver uns vídeos antigos no VH1, nem sei o que esperava, talvez adormecer rapidamente - o que não era difícil com um litro de cerveja no estômago. Além disso, não me apetecia levantar, andar contigo ao colo, mexer-me. Seja como for, deitei-te ao meu lado no sofá e, cinco minutos depois, dormias profundamente.
O ponto que me comoveu foi, num momento em que abriste os olhos, ensonado, agarraste-te ao meu roupão, com ambas as mãos. Eu sei que é um movimento reflexo, não há uma intenção por detrás. Mas naquele momento pareceu-me que tinhas medo que eu fugisse, que te abandonasse e agarraste-me como se fossemos as últimas pessoas no mundo. Eu tinha uma vontade enorme de urinar e quando a tua mãe voltou já me torcia todo com dores na bexiga mas não queria de forma alguma quebrar aquele elo, aquele momento em que, mesmo a dormir, me conquistavas um pouco mais. Numa altura em que me sinto tão em baixo, ter esse teu carinho involuntário deu um outro sentido à noite.
19.3.04
Hoje é dia do pai e vieste visitar-me ao emprego. Foi o nosso primeiro dia do pai. Cheguei a pensar que não virias. A tua mãe perdeu-se no caminho. Ligou-me em desespero, aos gritos, confusa, baralhada. Tentei explicar-lhe o caminho mas ela repetia que ia voltar para casa. «Mas é fácil!», repeti vezes e vezes. Ela tinha o sol a bater-te em cima, tu a chorar com calor e a transpirar com roupa a mais, os carros de trás a apitarem, ela sem saber onde estava. Não me ouvia. Sabes como é a mãe, não me ouvia. Eu também não estava nos melhores dias. Expliquei-lhe imensas vezes e ela continuava com o «vou voltar para casa!». A certo ponto não me contive e gritei-lhe que voltasse. Desliguei-lhe o telemóvel e atirei com ele para cima da secretária. Foi uma parvoíce monstra. Ela não merecia. É certo que estava tão desnorteada que não ouvia mas, seja como for, o que fiz não se faz. E mais tarde tive de pedir desculpa. Felizmente ela não voltou para trás.
Quando aqui estiveste, não deves ter reparado, mas empurrava-te o carrinho com um orgulho transbordante. Acho que te mostrei a toda a gente. Ser pai não faz de mim mais ou menos homem, acho que não é por aí que se mede o que quer que seja. Afinal, há pais que são uma desgraça, assim como outros que, não sendo biologicamente pais, conseguem ser tudo para um enteado ou enteada. Não é por aí. Talvez tenha sido um pouco o orgulho parvo do estilo «mas não é lindo o meu filhote?». Talvez, reconheço que por vezes caio nessa esparrela. Foi também a felicidade de te ter comigo no nosso primeiro dia do pai. Assim como o facto da tua mãe não ter voltado para trás e a coisa ter ficado por ali mesmo.
Começaste a tua existência por me oferecer um perfume dos que gosto e um postal "escrito por ti"! É fantástico. Nos últimos anos foram inúmeras as bugigangas sem interesse e até, as vezes em que não ofereci nada ao meu pai. Durante quanto tempo me oferecerás coisas que realmente goste? E quando não for a tua mãe a decidir por ti, virás ter comigo a perguntar o que realmente pretendo? Saberás, por ti, escolher algo que deseje? Eu sei que neste momento é pedir-te demasiado. Mas se falo nisto é porque só ao perguntar-me sobre este assunto vejo o quanto tenho falhado para com o meu próprio pai. Eu não faço ideia do que ele gosta!
À noite ligo para o meu pai e dou-lhe os parabéns. Ele responde-me com um «parabéns para ti também». Foi uma estreia e acho que ficámos ambos comovidos com a novidade da situação. Pois é. Agora o dia do pai já não é só dar mas, também é receber. Não só as prendas mas, essencialmente, os votos de afecto, amor e agradecimento. Ainda não consegui perceber a situação com total clareza mas sinto que foste preciso tu para me sentir cada vez mais próximo do meu próprio pai que, afinal, sempre esteve lá, para os bons e maus momentos mas, sobretudo, para os momentos em que eu nem quis saber. Será que é preciso sermos pais para aprendermos a ser filhos?
12.3.04
Especificações técnicas:
Peso: 5230gr.
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