Um ano de ti
Eu, tu, ele. Nós.
Um filho, pelos olhos do pai.
30.4.04
Um filho provoca todo o género de mudanças nos pais. Se a maioria delas são bastante visíveis, algumas são quase imperceptíveis e, só descobrimos que já ocorreram quando menos esperamos e das formas mais estranhas.
Hoje a tua mãe quase bateu com o carro para te dar a chupeta. Quando me ligou para o emprego a dizer que estavam em casa e que estava tudo bem, relatou-me o episódio. Estavas a chorar e tinhas deixado cair a chupeta. A conduzir, desviou os olhos da estrada para ta dar. Quando voltou a olhar para o caminho, estava na faixa contrária com um autocarro de frente. Ambos guinaram e foi isso que vos salvou de um choque frontal. Segundo ela disse, «hoje vi a morte de frente». Noutra altura qualquer ter-lhe-ia perguntado «como era a morte». E ela responderia que «era grande e dizia Volvo». E assunto teria ficado por aí. Desta vez não foi assim.
Ao jantar chamei-lhe a atenção para que não volte a repetir a acrobacia. Se choras, que te deixe chorar. Se não conseguir, que encoste. Depois perguntei:
- E se me ligassem para o emprego a dizer que tu e o meu filho tinham morrido?
- Oh. Arranjavas outra mulher e tinhas mais filhos.
Ela ainda não se tinha apercebido dessa mudança subtil. Insisti:
- Agora imagina que era ao contrário. Que te ligavam a dizer que eu e o gordo tínhamos morrido.
E aí sim, ela percebeu perfeitamente tudo o que eu estava a dizer.
Até esta tarde, ainda não me tinha apercebido totalmente do horror que deve ser sobreviver à família, especialmente aos filhos. E ainda não fazia ideia que tinha desenvolvido uma sensibilidade diferente para estas questões. Quando a tua mãe me relatou a peripécia dei por mim a pensar «e se eles tivessem morrido?». É medonho. Tenho a certeza que nunca deixaria de ser um destroço, seria pior que eu próprio morrer. Espero nunca saber o que é sobreviver a um filho mas julgo que deve ser uma sensação insuportável, não só de dor, claro, mas também de fracasso. Quando criamos um filho esperamos conseguir orientá-lo na vida, dar-lhe tudo para que encontre o seu caminho e, de alguma forma, chegue a bom porto quando um dia lhes faltarmos. Se existe uma fatalidade então falhamos esses objectivos, não conseguimos guiá-los, protegê-los – é o fracasso último de um pai ou de uma mãe.
Gradualmente vou descobrindo todo este género de transformações no meu estar e sentir. Com a certeza que, uma vez descoberto, este receio ficará comigo para o resto da vida.
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Peso: 6810gr.
27.4.04
Por vezes, a tua mãe diz que não gosto de ti. Há momentos em que se diz tudo. E nesta altura esmeramo-nos no que dizemos um ao outro. Um filho traz todas as pequenas coisas que sempre detestámos à superfície, torna-se um desgaste. A culpa não é tua, filho, nunca foi. Trata-se de nós, da nossa resistência estafada, da facilidade em vitimarmo-nos e considerarmos que as culpas estão sempre fora de nós, nos outros. Acredito que não há culpas, apenas aquilo que sempre lá esteve e que só nestes momentos adquire importância. Num casal, há milhentas razões para atritos. Quando tudo está bem, nem se notam. Quando a pressão, o cansaço, as privações aumentam, tudo isso salta à vista e torna-se grande, visível, importante. Nessas alturas falamos apenas para magoar, é uma política de terra queimada.
A tua mãe diz muitas coisas da boca para fora, apenas para magoar. Tal como eu, quando fico sem paciência, quando digo tudo o que me passa pela cabeça desde que estilhace, estrague, magoe. Diz que não gosto de ti, que para os outros pareço um super pai, um «daddy cool» que não sou, que sou muito mais sensível a escrever que na realidade, que sou egoísta. Algumas das coisas são quase verdade, outras não. Sou tão humano como o próximo e erro mais do que gostaria. Sim, sou muito mais sensível na escrita que na realidade – sempre fui assim, consigo entender-me muito melhor com os meus sentimentos escrevendo que falando ou agindo. Nunca falhei uma consulta ou uma ecografia mas chego todos os dias a casa às nove e tal da noite por sair tarde do emprego. Por cada fralda que troco, a tua mãe troca-te cem, duzentas? Sou muito compreensivo mas acontece por vezes chegar a casa e ainda ter de fazer jantar e lavar louça – em algumas dessas vezes passei-me por completo. Não li livros sobre bebés porque preferi ler romances. Tens quase três meses e apenas umas quantas fotos com a tua mãe enquanto eu tenho resmas contigo. Como de costume, tudo se esconde nas pequenas coisas, não é?
Quanto a não gostar de ti, isso seria impossível. Há dias em que consigo gostar muito mais que noutros. Já aconteceu estar tão chateado que olhavas e rias para mim e eu ignorei-te completamente, foi um erro e ainda me magoa pensar que pude ser assim. Acho normais as alturas em que me apetece atirar-te pela janela, afinal, quem disser que nunca sentiu esse desespero, mente com certeza. Mas nunca poderia não gostar de ti. Tenho a certeza absoluta que és o amor que nunca passará. Porque apesar de seres tu, e espero que sejas sempre «muito tu», és também um pouco de mim. Mesmo quando sou egoísta e reclamo que gastamos tanto tempo a preparar-te para sairmos que, quando estás pronto, já não me apetece, ou quando digo que «a minha vida não pode ser só isto» porque não tenho tempo para ler, escrever, passear e ver a quantidade de filmes que via antes. Tudo isso é verdade e esses momentos aconteceram. É-me sempre mais fácil pensar em tudo aquilo que queria fazer e não faço do que ocorrer-me sequer que a tua mãe pode estar a sentir exactamente o mesmo mas sem qualquer hipótese de fazer as coisas de outra forma. Acredito que ambos acabamos por nos fazer de vítimas, de uma ou outra forma. Existes porque assim o quisemos, porque o desejamos e, embora agora sejas obra tua, no sentido em que és um ser autónomo, continuas de alguma forma a ser um acto nosso, portanto, nunca poderemos ser vítimas, fomos nós que te quisemos.
Acredito que um percurso surge entre muitos caminhos errados ou becos sem saída. Se um dia leres isto, acabarás por ter uma opinião sobre tudo o que estou a escrever, tudo o que sinto. Pode ser que entendas, pode ser que não. Sei que criarás o teu próprio juízo e eventualmente, poderá não ser agradável. Mas, para mim, a única coisa verdadeiramente importante, é que compreendas que não existem super pais, apenas pessoas que erram, falham, tentam outra vez e erram novamente. Desde que percebas que não sou perfeito mas sou esforçado, viverei em paz com a minha consciência. Nunca serei um pai perfeito mas serei certamente o melhor pai que conseguir.
26.4.04
A nossa relação tem-se construído por momentos. Há o amor, claro, que está lá sempre, de uma forma que nem é possível explicar. Mas há também uma outra relação, algo que se constrói numa espécie de pano de fundo, que é o quanto nos conquistamos um ao outro. Essa outra relação, esse carinho, têm-se construído por momentos, aos poucos, devagar. E talvez assim seja porque não estou contigo o tempo todo e muito de ti dilui-se no intervalo dos dias que passam, e porque ainda não interages muito com o mundo exterior – há a tua mãe e pouco mais.
Há pouco tivemos um desses momentos em que me cativas, em que me fazes sentir que já te sou importante, que já faço parte da tua vida. Bem vistas as coisas, não é nada de mais e penso que muito do que vejo, é apenas o meu desejo de assim o ver. Mas convenço-me que são os nossos momentos, únicos, especiais.
Agora andas na fase em que «descobriste» que tens mãos. É uma maravilha ver-te a olhar para as tuas mãozinhas, pequenas, delicadas, miniatura de homem. Mexes os dedos, mexes as mãos, leva-las à boca, procuras uma forma de entendimento, algo que te explique como funcionam os dedos, que espécie de milagre é aquele que faz com que os dedos e mãos se mexam de acordo com a tua vontade.
Há pouco, estavas na cama e fui dar-te a chupeta. Agarraste os meus dedos. Depois, num assombro bom, viste maravilhado como podias agarrar-me as mãos, percebeste (ou assim quero acreditar) que aqueles são os meus dedos, que afinal, eu também tenho mãos e, de uma forma que ainda não entendes na perfeição, as tuas mãos podem tocar nas minhas, podes agarrar-me, puxar-me as mãos para ti quando queres festas, que tens já essa capacidade de agarrar o pai.
É certo que tudo isto é piegas, lamecha, provavelmente infundado e incerto. Mas é a minha forma de te ver e sentir, é a forma como te vou gravando para sempre num tempo demasiado acelerado, efémero. Em breve, tudo isto estará para trás de nós e preciso de ter a certeza que, pelo menos nas palavras, te vou guardando assim, pequeno, indefeso, quase em branco, para que ao olhar para trás entenda como se fez assim a tua (nossa) vida que me escapará mais depressa do que alguma vez desejarei.
16.4.04
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Peso: 6460gr.
Demorou mas foi. Acertei-te com o tempo dos homens, o ritmo próprio dos calendários, luas e marés. Desde que nasceste que queria escrever-te, fixar-te nas palavras, prender esse teu, nosso, momento de forma que nunca me esqueça. Embora me dês mais e mais momentos para com eles encher a minha existência, custava-me deixar pelo caminho parcelas daquele instante incontornável. Poucos dias depois de nasceres, publiquei num outro sítio um pequeno texto. Mas não chegava. Lia aquelas palavras e não conseguia voltar a sentir tudo outra vez.
De todas as vezes que tentava acertar-te nas palavras que escrevia, bloqueava, deixava os dedos esquecerem-se das teclas, revia-te sem te conseguir transcrever para essa minha visão da memória que é a escrita. Entenda-se que ainda não estou satisfeito com o resultado. Mas já consigo ler e sentir-te, não só a ti como a mim e à tua mãe, em todo aquele sangue e ansiedade com que vieste ao mundo.
O teu nascimento encontrou finalmente o seu
lugar, no tempo próprio da vida e da memória. 31 de Janeiro de 2004, 9 e 55 da manhã.
15.4.04
A nossa interacção não é muita, na realidade, quase nenhuma. Nesta altura é assim, ainda não fazes muitas gracinhas, ainda não falas comigo, nem me procuras com as mãos, nem mostras que gostas ou não de estar comigo. É natural, só daqui a uns meses é que tudo isso começará a acontecer, como tudo na vida, rápido demais. Mas hoje conseguiste partir-me o coração num dos raros momentos em que me pareces contradizer toda esta ideia da falta de interacção. É que nem sequer precisaste de esforçar-te, bastou mesmo estares lá.
Acordaste às cinco e tal da manhã com fome. A tua mãe decidiu mudar-te a fralda e durante os minutos seguintes choraste com quanta forma tinhas – imagino os vizinhos! Ainda tentei dormir, em vão, até o despertador me tirar em definitivo da cama. Eram seis da manhã e fui para o banho a resmungar.
Antes de sair, passei pelo teu berço, só para te ver e dizer um «até logo» silencioso. Estavas acordadíssimo. Querias paródia. Tentei dar-te a chupeta mas não quiseste, preferias rir-te. Em silêncio, tentei outra vez dar-te a chucha e, com o indicador, fiz-te sinal para estares calado. Quando voltei à carga, recusaste, fizeste beicinho e um ar de abandonado que me partiu o coração. A tua mãe não viu, estava a tentar recuperar algum do sono perdido noite fora. Claro que não me podia ir embora assim, não dessa forma. Que interessam mais uns minutos desse trânsito que odeio? Que interessa tudo o mais se ficas triste comigo – já, tão cedo?
Fiz-te cócegas no queixo, como gostas, com a ponta do meu dedo. Riste. E esse momento valeu por um dia inteiro. Insisti em cócegas, festas e palavras doces. Ao fim de um bocadinho (tão pouco) ajeitei-te de lado, aconcheguei a roupitas e dei-te a chupeta. Ficaste assim, de olhos muito abertos, a chuchar, com essas mãos pequeninas a segurar, como habitualmente vemos os coelhos fazerem com o comer – isto ainda devem ser efeitos da Páscoa. Estavas satisfeito e fizeste-me feliz por isso.
Por vezes, todos nós nos contentamos com tão pouco que torna-se impressionante a forma como nos recusamos, a nós, aos outros, esse pouco de qualquer coisa que nos tornaria felizes. Todos nós quisemos, em tempos, mudar o mundo e, quando achámos impossível, contentámo-nos em viver com ele o melhor que conseguimos. Mas talvez mudar o mundo comece em todas as coisas simples que esquecemos no dia a dia. Compreenderás alguma vez esta ideia?
13.4.04
Não descobrimos a pólvora. Mas quase. Depois de muita investigação, mesmo muita, acredita, descobrimos que, deitando-te de barriga para baixo, dormes como um carneirinho. Não te passa pela cabeça como a nossa vida, especialmente a da tua mãe, melhorou significativamente. És um tipo muito porreiro quando dormes. Depois de uma valente sesta sorris por tudo e por nada, de uma docilidade a toda a prova. À noite, já conseguimos deixar-te na cama, de olhos abertos, sem desembrulhares uma sinfonia de choro em dó maior – dó para os nossos ouvidos, entenda-se, que ouvir-te chorar provoca-me sempre um nó cerebral.
Não te podemos deixar sozinho quando dormes a sesta. Nesse aspecto, estou sempre a dizer à tua mãe que nem por um minuto que seja enquanto não tiver confiança em ti e nas tuas capacidades de sobrevivência. Eu, vê só, que quando tens alguma coisa digo sempre à tua mãe «não ligues, isso passa, não é nada». Mas o pavor que vires a cara para baixo e sufoques deixa-me em pânico. Podes ter borbulhas, bolçar, chorar, febre, eu sei lá que mais. Nada disso me afecta. Podemos sempre agarrar em ti e levar-te ao médico ou, em último recurso, ao hospital. Agora a ideia de poderes sufocar silenciosamente enquanto dormes, isso não!
Seja como for, ainda não és um exemplo de bom comportamento e tempos sossegados mas, e isto deixa-me de sorriso nos lábios, estamos os três a caminho e havemos de lá chegar.
11.4.04
Hoje é dia de Páscoa, a tua primeira Páscoa. Ainda estás longe de saber que é um dia com significado religioso. Por enquanto, este dia é-te igual a todos os outros, comes, dormes, sujas fraldas, choras nos intervalos, fazes-nos rir umas vezes e desesperar umas quantas outras. Daqui a uns anos vais apreciar, pelo menos, as amêndoas, os ovos de chocolate e uma série de histórias com coelhinhos. Mas ainda é cedo. Mesmo assim, na quinta-feira decidi trazer um ovo de chocolate, não para ti mas para a minha namorada, que antes de ser tua mãe era já minha mulher, amiga, companheira e uma série de outras coisas que tento não esquecer nem deixá-la esquecer-se. Assim, Páscoa que se preze tem de ter ovos de chocolate.
A surpresa foi grande, com direito a abraços, beijos e sorrisos. Confesso, filho, que com esta boa acção, marquei uns quantos pontos nas tarefas da casa. O diálogo foi exactamente o que esperava:
- Mas sabes que agora não posso comer chocolate porque lhe faz cólicas...
- É assim – respondi – comas ou não chocolate, o Gordo vai ter sempre cólicas, portanto...
- Então eu como. Mas só um bocadinho. – Respondeu a tua mãe, sorridente.
- Claro, aos poucos. A validade é até ao verão.
- Não vai chegar até lá.
Estou a controlar o chocolate. E está a desaparecer a um ritmo apreciável. Por enquanto ainda não tens cólicas mas, se tiveres, a culpa não é só da tua mãe. Fui eu que achei que a tua primeira Páscoa devia ser comemorada. Quando perceberes as mulheres verás que fiz bem. E desculpa lá qualquer dorzita.
7.4.04
Que um filho pode ser uma barricada, não é novidade, já o disse há uns tempos. Mas apercebo-me agora que também podes ser, e és, uma desculpa. E isto não quer dizer que seja forçosamente mau mas antes que, como se costuma dizer, tens as costas largas.
Quando a tua mãe e eu nos casámos, optámos, mais até por insistência minha, por não comprar máquina de lavar louça. Defendi nessa altura que, lavarmos a louça juntos, todas as noites, era uma forma de mantermos um convívio saudável, um momento para conversarmos enquanto repartíamos uma mesma tarefa, em si, chata. A verdade é que esta perfeição durou algum tempo, ao fim do qual, ora lavava um, ora lavava o outro. Havia sempre mais qualquer coisa para fazer, logo, o mais prático e rápido foi dividir para despachar.
Desde o teu nascimento, a tua mãe não tem tido tempo para lavar a louça. Há noite, também não me apetece nada estar de volta da cozinha até à meia-noite, como tem acontecido. Assim, não tardou muito para termos o seguinte diálogo:
- Agora dava jeito comprar uma máquina de lavar louça. – Disse a tua mãe.
- Pois dava.
- Somos três, há mais louça...
- É verdade. Sempre era mais fácil. – Disse eu.
Desta forma, decidimos comprar a dita máquina o mais depressa possível, dentro do orçamento que se conseguir arranjar. É claro que o facto de sermos três não produz mais louça – por enquanto só mamas. Portanto, estás obviamente a servir de desculpa para as tarefas a que ambos nos queremos esquivar. Ou para justificar o que queremos ter.
Mediante este espírito – o teu bem, portanto – estou certo que a tua mãe concordará em comprarmos, lá para o verão, a playstation, claro. Ou não.
6.4.04
Um filho pode ser o melhor anticoncepcional conhecido. Pelo menos foi o que concluí há uns dias, em conversa com um amigo meu, também ele um pai recente. Por natureza, os homens não repartem as experiências menos viris, as vezes que encostam nas boxes ou que têm de se contentar com um duche frio. Mas às vezes falam.
- Então ainda andas a pão e água? – Perguntou o meu amigo.
- Mais ou menos.
- Também eu.
Desde o momento em que há um bebé na casa, deixa de haver tempo para o casal. O beijo de boa-noite torna-se o ponto alto da vida a dois. Das poucas vezes em que há tempo (depois de todas as vinte mil tarefas domésticas que são necessárias fazer), falta o intimismo, o estado de espírito certo. Sem percebermos como, acabamos por regredir a uma fase que julgávamos esquecida para sempre na nossa juventude em toda a sua ocasionalidade e pressa.
- Está dormir. Vamos aproveitar?
E tentamos, a correr, com medo de te acordar, sem cumprir todos os preceitos próprios a esse género de momentos, antes que chegue outra vez a hora de mamares. Depois choras e pára tudo. Quem aproveitou, aproveitou. Quem não aproveitou, aproveitasse. Como é possível fazer seja o que for contigo a chorar?
Sei que o tempo resolve tudo. Esta é a fase mais complicada a todos os níveis. O que é certo é que, um bebé, pelo menos nesta altura, torna qualquer casal activo em monges franciscanos. Espanta-me como é possível fazer filhos depois do primeiro.
4.4.04
Na sexta-feira, tal como estava previsto, fomos à consulta de pediatria. A tua mãe falou do teu problema com o sono e lá desabafou os seus receios relativos à tua cabeça. A pediatra foi peremptória: problemas na cabeça temos nós.
Estás saudável. Foste visto dos pés à cabeça e estás perfeitamente bem. Quando ao sono, não há dúvidas que tens mau feitio, mas isso não é defeito. Segundo ela, cada criança é um mundo, o que funciona com uma pode não funcionar com outra. Mesmo o que funciona algumas vezes não é garantido que funcione sempre. Cabe-nos a nós, os alegres papá e mamã, descobrir qual a forma de te adormecer.
Foram discutidas várias abordagens, as que tentámos, as que ainda não tentámos, as que a própria pediatra utilizou nos seus três filhos. Aconselhou-nos a evitar os caminhos fáceis. Segundo ela, há muitas mães que habituam os filhos a adormecer ao colo, ou de carro – é errado. «Quando a criança adquirir um hábito ela vai-vos exigir sempre esse hábito, é como um ritual.» Não devemos então habituar-te a coisas que nos custam imenso mas que acabamos por fazer só porque resultam, como por exemplo, passar a noite a conduzir ou a passear pela casa contigo ao colo. Quanto mais deixarmos que isso aconteça, mais nos custará e, esse género de sacrifícios pessoais paga-se caro.
Contou algumas histórias reais e arrepiantes, culminando com a de uma mãe cuja filha, com um ano e tal, obriga a dormir no chão do quarto para que esteja sempre ali ao seu lado, de mão dada! Contou-nos ainda que, com um dos seus filhos, teve de cantar a canção de Natal todos os dias, durante um ano, era esse o ritual do sono. Mas o que custa cantar sempre a mesma canção todos os dias se depois se pode dormir descansado?
Voltamos então à estaca zero. Temos de experimentar tudo e, ver com que abordagem é que reages melhor. Afinal, o que te adormece? Hoje foi mesmo andar de carrinho. Na consulta levámos na cabeça pelos nossos medos e fomos aconselhados sobre o que não devemos fazer mas, hoje lá recorri ao que não devia. Não te calavas. Tentámos a televisão, em canais de conversa, de música, filmes, novelas e jogos de futebol. Nada. Tentámos uma fraldinha a tapar-te a cabeça, a espreguiçadeira, ovo, cama e alcofa. Nada. Quando estávamos pelos cabelos, agarrei no teu carrinho e aí fomos nós os dois (a tua mãe tinha que fazer mas desconfio que queria mesmo era uns merecidos minutos de sossego) fazer o bairro a pé.
Depois de ter toda a gente a olhar para mim enquanto te empurrava avenida acima e tu choravas a plenos pulmões (deviam pensar que te estava a raptar!) lá te deixaste adormecer e foi assim que ficaste mais uma hora e tal. Eu sei que isto não me vai saber nada bem às tantas da manhã e, aposto, à chuva, quando achares normal só adormeceres com uma voltinha pelo bairro. Mas espero até lá descobrir outra forma qualquer de te adormecer. Para bem do teu conforto e das nossas cabeças, não da tua, mas da minha e a da tua mãe.
2.4.04
Especificações técnicas:
Peso: 5830gr. Estatura: 61,3cm. P.Cef: 39,5cm.
Há momentos em que um pai não consegue ser egocêntrico. Habituamo-nos com demasiada facilidade a ver o mundo só (única e exclusivamente) pelos nossos olhos. É assim que te tenho visto. Quando penso em ti, há uma tradução simultânea, uma voz de fundo que fala em privação de sono, de um choro que se atira de encontro às paredes do meu cérebro como uma bola de flippers incansável, nos projectos que deixo arrumados para daqui a vinte anos. Enfim, é uma lista que poderia continuar indeterminadamente. Mas há momentos em que essa tradução cala-se um pouco e deixa-me ver melhor tudo o que se está realmente a passar. Foi o caso desta noite.
Eram quase duas da manhã e eu tentava dormir. Tínhamos-te dado banho já passava da meia-noite e estávamos todos (estou-te incluir, vê só!) estafados. Eu tinha-me deitado e a tua mãe continuou com todos os inúmeros afazeres próprios de ti. Na altura, estava sentada na cadeira a dar-te mama. Entre a luz que me incomodava e o barulho do teu sugar e engolir, entrei naquele estado que não é, nem vigília nem sono, mas antes um ir e vir do esquecimento.
Numa das vezes em que abri os olhos, achei tudo muito sossegado. Talvez demasiado sossegado. Olhei melhor. A tua mãe estava a dormir, de cabeça pendurada e cabelo desgrenhado, contigo ao colo. Como achei que estavas muito quietinho, levantei-me. Tu também dormias, de boca aberta, como se mamasses, mas sem a mama. Havia leite que ninguém se lembrou de estancar já seco nas tuas bochechas, queixo, pescoço e nas vossas roupas.
Foi nesse momento que me apercebi que, para mim está a ser complicado, mas eu estou fora enquanto a tua mãe está dentro. Ela está contigo todas as vinte e quatro horas de todos os dias. Para ela, não és um emprego onde se entra tarde e sai cedo. Ela não telefona de vez em quando a perguntar se está tudo bem. Ela está lá, apenas, sempre. E na noite, quando tenho de dormir porque trabalho, ela continua a levantar-se para te dar mama, para te trocar a fralda. Achei aquele momento profundamente injusto. Não é assim, nestas pequenas situações, cómicas até, que se começa a separar o que é do homem do que é da mulher? Se a mim me custa, a ela custa ainda mais. Se eu, no pouco tempo que passo com vocês, digo mundos e fundos, ela continua a sorrir-te mesmo quando chora, e a tratar de ti mesmo quando não tem vontade, quando lhe apetecia... Mas afinal, o que lhe apetecia? Acho que nem lhe perguntei.
Falamos facilmente de igualdade de direitos mas este continua a ser um mundo de homens. E, quando me passo por entrar no quarto e nem saber se cheira mais a bolçado ou a cocó ou a outra coisa qualquer, é tão fácil pensar que a tua mãe tem tempo, porque está em casa, todo o dia, enquanto eu trabalho. E talvez, quando ela regressar ao trabalho continue a ser fácil encontrar uma explicação para o que ela poderia ter feito e deixou por fazer.
Filho, há muito trabalho na vida de um pai, há mesmo, mas apesar de teres nascido homem e como tal, neste mundo, a vida ser-te mais fácil, nunca deixes de agradecer à tua mãe. Por muito que lhe agradeças nunca será o suficiente. Eu fui criado na ideia que existem homens e mulheres, cada qual com as suas funções próprias e distintas. Mas tenho aprendido que, afinal, só existem dois tipos de funções, as de homens e mulheres, e as que não deviam ser feitas por ninguém. Aos poucos tenho-me tornado um homem melhor. Espero saber educar-te para um futuro em que possas viver nessa realidade. Talvez esse seja o melhor agradecimento que possas prestar à tua mãe.
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