Um ano de ti

Eu, tu, ele. Nós. Um filho, pelos olhos do pai.

Lilypie Baby Days

31.5.04

Fazes hoje quatro meses e continuas um mistério para mim. Aos poucos vou-te desvendando, compreendendo, mas muito devagar. Na maioria do tempo, continuo espantado de como te desconheço. Dou por mim parado, a olhar para ti ao colo da tua mãe e penso “este é o meu filho, mas como é possível?”. Já lá vão quatro meses e ainda não me pareces verdade. Por vezes, receio que sejas um sonho do qual possa acordar de um momento para o outro, um sonho que não quero que acabe, um sonho bom.
Já sei o que te faz rir, o que precisas para dormir. Vou descobrindo as diferentes necessidades que te mudam o timbre do choro. Nada do que sei sobre ti se compara com o que a tua mãe sabe, claro. É habitual perguntar-lhe o que queres, o que precisas, e ela responder-me “esse choro é fome” ou “está com sono”. Mas tudo isto é ao mesmo tempo secundário, apenas o essencial para te manter bem. Há depois o resto, tudo o mais, tudo o que não tem explicação e me espanta. Olho para ti, toco-te a face, as mãos, os pés e pergunto-me o que significas, o que é ser pai, o que é ser o teu pai. Já passámos por muito mas continuo tão pasmado e cheio de interrogações como no dia em que soubemos que a tua mãe estava grávida de ti. Se continuo tão igual ao que sempre fui, como és possível, em que ponto mudou assim tanto a minha vida sem que eu nada perceba?
Ao mesmo tempo, olho para ti e pergunto-me para onde está a ir todo este tempo que voa para além da compreensão. Estás enorme, cresces a cada instante, tornas-te o homem que um dia serás, mais depressa do que me parece justo e razoável. É o teu caminho, a tua vida e esse é um percurso que nunca mudará. Mas será necessário ser tão rápido? Quando te vejo, tenho de me esforçar por lembrar de como eras há uns meses atrás. Já não imagino o tamanho das tuas mãos ou dos teus dedos quando nasceste. A cada dia que passa menos recordo o que já foste. Por um lado, ver-te crescer assim enche-me de felicidade, por outro, sinto quase tristeza pela rapidez com que tudo se passa nesta vida.
Entro hoje de “licença de pai”. A tua mãe decidiu que só volta a trabalhar daqui a duas semanas. Assim, durante este tempo, estaremos os três juntos, a família completa. Sabe-me bem poder saborear-te a tempo inteiro durante uns dias. Ainda por cima, como estamos todos juntos, fico com a vida facilitada – é mais fácil ter a tua mãe por perto do que ter de descobrir sozinho como tratar de ti. Estou contente. Posso finalmente conhecer-te a todas as horas do dia. Nunca te achei tão giro como agora. Gosto da forma como olhas para as coisas e as queres agarrar, da forma como ris quando deixas cair a chupeta e eu ta vou dar. Mesmo faltando ainda muito tempo para aprenderes a falar, já fazes imensos barulhinhos engraçados. Aos poucos, começamos a desenvolver interacção e isso está a ser a luz dos meus dias.
|| 23:00 ||

23.5.04

Ontem fiquei chateado contigo. Agora já passou mas ontem fiquei mesmo chateado. Fomos os três ao casamento de uns amigos nossos. Preparámos isto durante imenso tempo. Comprámos prenda, alinhámos roupas para nós e para ti, calculámos horários, levantámo-nos de madrugada para dar tempo para banhos, cabeleireiro, mama e trocas de fralda... Eu sei lá. Foi uma loucura pegada para tudo bater certo.
Uma hora antes do casamento começaste a chorar com birra. E, quando o noivo chegou à igreja demos-lhe a prenda, pedimos desculpa e fomos embora. Há limites para tudo e, tanto eu como a tua mãe, estávamos fartos de te ouvir chorar ininterruptamente. Fomos para casa dos meus pais – que era a mais próxima do local – e, aí, dormiste o resto da tarde na paz mais serena que se possa imaginar.
Conheço os noivos há 12 anos. Numa das fases complicadas da vida que é a passagem de estudantes a trabalhadores, estivemos sempre lá, uns para os outros. Eles estiveram no meu casamento. Senti a nossa ausência ao casamento deles como uma falha minha.
Enquanto esperávamos no carro, um casal perguntou-nos se não adormeces embalado no carro. Adormeces sempre, menos ontem. Mas não dormiste durante a manhã? Quase toda. Cólicas? Nada. Decidiste apenas que, ou te dávamos uma cama para dormires uma valente sesta, ou então não te calavas. Decisão essa que cumpriste à letra. É impossível ouvir um bebé a chorar uma hora, sem se calar um segundo, e com o volume no máximo. Pelo menos eu não consigo.
Passei o resto da tarde furibundo. Com uma neura do tamanho do mundo. Ainda tomei um comprimido para as dores de cabeça que não me largavam. Disse tudo e mais alguma coisa. Disse que só me apetecia dar-te uma tareia e isso ainda foi pior porque tanto a tua mãe como os meus pais quase me crucificaram por tal pensamento. Claro que eu nunca iria fazer uma coisa dessas. Mas estava furioso. Eu sei que não tens culpa, se choravas é porque querias dormir e não conseguias. Sei disso tudo perfeitamente. Ainda me disseram que me chateio por pouco, que isto ainda não é nada, que um filho é isto mesmo e muito mais, que eu fui bem pior.
Apesar de nunca se estar preparado para ser pai e todos os dias fazerem parte de uma habituação que nunca vai acabar, eu só queria ter um bocadinho em que tudo corresse bem. Não me parece que seja pedir demais. E fiquei chateado por não o ter conseguido. Tal como a tua inocência, também a minha ira me parece defensável.
Hoje já me começo a afastar um bocado do que se passou. Até já sorriu quando me lembro da tua mãe sentada no banco de trás do carro, a tentar sossegar-te de toda a maneira, e tu ao colo dela, a chorar e espernear sem parar, a babares-lhe a camisa “especial” de casamento impecavelmente passada a ferro e que depois já parecia ser usada como camisa de dormir e com uma mancha enorme numa das mangas. E eu fora do carro, ao sol, a fumar sem parar, quase urrava, com o suor a alagar-me todo, a igreja ainda fechada e só um ou dois cães deitados no alpendre, adormecidos pelo calor. Olhava para vocês, dava mais uns passos, acabava o cigarro e voltava para o ar condicionado do carro e para o teu choro. Uns minutos depois já não te conseguia ouvir e saía para o calor. E repetia o ciclo todo uma vez mais.
Um dia havemos de rir disto. Poderá, até, parecer-nos cómico ou trivial. Mas ontem não. Ontem chateei-me a sério. Hoje estás um anjinho. Neste momento, dormes feliz, ignorando completamente o que estou para aqui a escrever.
|| 23:27 ||

14.5.04

Especificações técnicas:
Peso: 7220gr.
|| 19:11 ||

11.5.04

Onde começa a tua existência?
Pode ser que comece quando tiveres consciência de existires. Mas onde fica esse instante, esse primeiro momento em que sabes que és tu, um tu único e que não é mais ninguém? Penso que te descubras de fora para dentro. Nesta altura descobriste que tens mãos e começas a desconfiar que tens pés. Passas horas a olhar para as mãos, mexes dedos, desenhas com elas estranhas coreografias e leva-las à boca. Aparentemente só é real o que consegues provar. Precisas de abocanhar o mundo para o conhecer. Mas terás noção que tu existes? E podemos nós considerar que só existas a partir dessa consciência?
Também podemos considerar que existas a partir do momento em que tenhas um nome. Podemos até esquecer que um nome não significa nada, é uma convenção, um som. Se assim for, existes a partir do dia quatro de Fevereiro, quando te fui registar e deixaste de ser um “nado vivo” para passares a ser tu. De facto, para os sistemas bizarros pelos quais catalogamos o mundo com tudo o que abarca, antes de teres um nome não existias, era como se estivesses fora deste mundo. Contudo, mesmo considerando um nome como a definição da existência, tu ainda não sabes o teu, logo, será correcto usar esta definição?
A definição mais habitual é o nascimento, esse momento em que saíste para o mundo e te separei para sempre da tua mãe. Até aí, eram um só corpo – de uma certa forma. Afinal, as tuas funções vitais eram mantidas pelo corpo da tua mãe. Tecnicamente, só se nasce quando se está pronto para vingar “sozinho” no mundo exterior. E será essa a data que trarás contigo para o resto da vida como o começo de ti. Terás consciência desse momento? Penso que não. Penso que a consciência só vem muito mais tarde. Quem sabe isso seja um mecanismo de auto defesa, uma forma de nos poupar a um sofrimento traumatizante ou a uma fonte de perguntas para as quais estamos sem qualquer resposta cedo demais.
Prefiro pensar que o momento zero da tua existência foi o momento da fecundação. O instante em que a engrenagem dos genes rodou e se alinhou para te criar, único, para sempre tu em tudo o que és. Parece-me um bom momento. Talvez até o melhor dos momentos. Foi daí, desse acto espantoso pela simplicidade, que tudo ganhou forma. Foi aí que começaste. Lembro-me de ti nas ecografias, nos pontapés e outros movimentos que fazias na barriga da tua mãe. Lembro-me também de te decidirmos um nome, ainda antes de nasceres. Mesmo nessa altura, para nós, tu já não eras apenas uma abstracção mas tu, só tu.
Faz hoje um ano que foste concebido. O momento em que a centelha de vida se acendeu para ti. Um ano desta aventura sem fim, de ti, de uma vida a três. Nós sabemos que foi nesse dia e, mais tarde, a medicina confirmou-o. Ainda não sei se sabes que existes mas, se algum dia leres estas toscas palavras, saberás que neste momento existes há um ano, na tua vida e nas nossas. Ao mesmo tempo que me parece já tanto tempo, continua a parecer-me tão pouco.
Para o resto do mundo, na sua mecânica obscura, este aniversário não existe. Para eles, o teu relógio só começou a contar a partir do momento em que te saíste para o mundo e choraste pela primeira vez. Não há mal nisso, sabemos que é uma convenção tão boa ou tão má como outra qualquer. Portanto, se para nós existes há um ano, para os outros existes há pouco mais de três meses. Nisto tudo, o tempo quase não existe, não tem importância. Tu existes, e isso justifica, ou vai justificando, tudo.
|| 23:25 ||

10.5.04

Desligo o intercomunicador e olho para ti. É a minha rotina, a minha última tarefa diária. Dormes. Já te disse que és lindo quando dormes? Talvez este seja o único momento do dia em que tenho tempo para te pensar, para te sentir de uma outra forma que não só a infinita correria para que tudo seja feito. Por vezes temos tempo para brincar. Por vezes, consigo andar contigo ao colo sem que seja apenas para te adormecer. Mas mesmo isso é raro. Ainda mais raro é ter tempo para só olhar para ti e pensar nos milhares de sentimentos que me enchem num turbilhão. Tenho este momento, em que desligo o intercomunicador e olho para ti, antes de me deitar.
Fico ainda um instante a ver-te dormir. Quando dormes, nessa expressão serena, esqueço tudo o que detesto lá fora, nesse mundo que um dia também será o teu. Vejo-te dormir, de chupeta na boca. De vez em quando chuchas umas quantas vezes, apressadamente. Depois paras. Talvez seja esse o teu sonhar. O que sonhas, filho? Sonharás que mamas? Sonharás com uma vida anterior ao nascimento? Sonharás de todo? Torna-se absurdo perguntar-me isto. Já passei por esse mesmo início e não me lembro. Como poderia então procurar em ti as respostas para as minhas próprias perguntas?
Sei que, quando dormes, penso que tudo vale a pena, que tudo faz um sentido qualquer para o qual não há palavras. Dormes na tua paz. Aproximo-me da tua cara para ter a certeza que respiras. E sei que também eu posso dormir tranquilo, em paz, profundamente. Sei que estamos a fazer um bom trabalho, apesar da birra que fizeste para adormecer, apesar de nos teres obrigado a jantar à vez, apesar de todas as pequenas inúmeras coisas com que nos preenches todo o tempo e mais algum.
Depois de me despedir de ti, num «boa noite» silencioso, vou para a cama, na ilusão que este é o melhor dos mundos, um mundo bom, um mundo perfeito. E espero que durmas bem, que durmas sempre bem pois, enquanto assim for, enquanto te puder ver dormir, o mundo ainda tem um bom motivo para ser vivido. Penso ainda que és lindo quando dormes.
|| 13:58 ||

2.5.04

Hoje é Dia da Mãe. Sem o saberes fizeste com que este fosse o primeiro para a tua mãe. Sempre fora ela a oferecer as prendas e hoje, pela primeira vez, foi ela a receber. Nem sabes o que lhe ofereceste, por agora não escolhes, não sabes. Por ti, ofereci um postal à tua mãe. Não te inventei palavras, escrevi-as mesmo em meu nome. Agradeci o quanto ela se esforça mesmo quando já está para lá dos limites, o quanto me sinto grato por vê-la ser mãe todos os dias e a todas as horas, o quão doce consegue sorrir-te mesmo quando chora desesperada.
Espero que um dia saibas agradecer-lhe, não porque seja uma dívida, que não é, mas antes pelo acto de amor que é criar-te, amar-te, dedicar-te todas as forças, momentos e levar-te assim, pela vida. É isso que deverás, um dia, agradecer.
Para cúmulo, o dia passou a correr, para conseguir visitar as duas avós. Pouco dormiste e ficaste insuportável. Fizeste das piores birras que te conhecemos. Mesmo agora, às onze da noite, estamos demasiado estafados para falar, para jantar, para pensarmos sequer que hoje é o dia da tua mãe, e que todo o pouco que escrevi ficou por lho dizer de viva voz – fica para depois, para outro dia, para quando houver tempo. Como tantas outras pequenas coisas que vão caindo sem que possamos apanhá-las a tempo.
É pena que não seja um dia mais calmo, com mais tempo para nós, para as palavras certas, para o saborearmos como novidade que é.
|| 23:00 ||