Um ano de ti

Eu, tu, ele. Nós. Um filho, pelos olhos do pai.

Lilypie Baby Days

27.6.04

Chegámos há pouco do baptizado do Guca. Estamos estafados. Ainda não o conhecíamos pessoalmente. Mas esta história começa um pouco antes e tenho de voltar atrás para que tudo isto te faça sentido.
Nos primeiros meses de gravidez, a tua mãe conheceu a mãe do Guca num fórum para grávidas. Em termos de gestação tinham apenas três dias de diferença. Rapidamente começaram a trocar emails, depois números de telemóvel e, quase sem darmos pelo tempo, combinaram encontrar-se. Só havia um pormenor, pequeno, quase insignificante: nós moramos em Lisboa e eles no Porto. Dividiu-se o mal a meio, combinou-se na Figueira da Foz. Lá foram as «barrigudas», de sete meses, com os maridos atrás, para um encontro do qual não sabíamos mais que o ponto de encontro. Onde ou como começa uma amizade, ignoro. Mas sei que nós gostámos logo deles, assim como eles gostaram de nós. Primeiro passeámos na praia, tirámos fotografias às barrigas, falámos imenso dos planos, expectativas e receios próprios de quem tem em si os filhos e ainda não os deu ao mundo e à vida. Depois almoçámos e passeámos mais um pouco. Regressámos com a certeza de ter novos amigos. E assim foi. Os emails continuaram, cada vez mais, todos os dias, a qualquer hora.
Poucos minutos depois de nasceres, já fora do bloco de partos, liguei para os amigos e família a dar a notícia. A mãe do Guca, quando atendeu, estava sentada na sanita: tinham-lhe rebentado as águas. Doze horas depois de ti, às 10 da noite, nasce o Guca e tivemos a certeza que as nossas vidas tinham, de alguma forma, arranjado forma de se cruzarem. Desde então, temo-los visto quase todos os dias via webcam. Escrevemo-nos, mostramos os nossos miúdos, telefonamos quando a internet nos falha. Os trezentos quilómetros de distância não têm significado nada. Mas ainda não nos tínhamos encontrado pessoalmente desde a Figueira da Foz.
O Guca foi baptizado hoje. Arrancámos ontem depois de almoço rumo ao Porto. Os primeiros cento e cinquenta quilómetros correram bem. Estiveste sossegado no teu ovito. Chegámos a pensar que dormias. Mas não. Quando parei numa estação de serviço para fumar um cigarro, dei a volta ao carro e espreitei pelo reflexo do vidro para te ver. Até me assustei. Tudo em ti era seriedade, e os olhos esbugalhados, não fosse alguma coisa escapar-te. Depois de pararmos para comeres, na Mealhada, foi o caos. Como não tinhas dormido nada, tornaste-te insuportável, rabugento. Foram mais cento e poucos quilómetros contigo a gritar. Mas a gritar mesmo!
Chegámos a casa deles completamente derreados. Já não te podia ouvir. Estava pelos cabelos. Para cúmulo, não adormeceste logo. Bem que montamos uma cama de viagem. Bem que a tua mãe te tentou adormecer de toda a maneira (e ela tem muito mais jeito que eu, que começo logo a rir-me para ti) mas nada. Imagino os nossos amigos, quando viram entrar porta dentro duas pessoas desgrenhadas e uma criança que parecia uma sirene. E conhecemos finalmente o Guca, que é o oposto de ti. Até a chorar é meigo, discreto, ao contrário de ti, meu filho, que pareces a sirene de um carro de bombeiros no mês de Agosto. Quando finalmente adormeceste, já era tarde e o jantar foi sussurrado, por meias palavras e debaixo de um cansaço que nos vergava. Ao outro dia, tínhamos de nos levantar muito cedo e tudo ficou por dizer. Trocámos prendas, jantámos, demos banho aos miúdos e depois tudo se precipitou, rápido, para as poucas horas de sono ainda disponíveis.
Hoje acordámos muito cedo. Havia um baptizado por fazer. Os pais do Guca ainda tinham quinhentos mil assuntos por tratar e a cerimónia realizava-se mais para norte, na aldeia dos avós. Claro que não dormiste nada durante a manhã. Andaste mal disposto e acabaste por bolçar... na roupa da tua mãe. Seja como for, lá fomos. Primeiro a quinta, onde te tentámos adormecer ingloriamente. Depois a igreja. A tua mãe queria fotografar a cerimónia, pelo menos era essa a ideia. As igrejas do norte do país costumam ser muito bonitas por dentro, embora reservadas e austeras por fora, vivem na beleza e no detalhe da talha. Mas não vi nada disso. Entrei contigo no ovo e pousei-te na última fila dos bancos. Nesse mesmo instante começaste a chorar e saí. Foi tudo o que vi do baptizado. Poucos minutos depois saiu a tua mãe, que disse ouvir-se mais o teu choro lá dentro que as palavras do padre. No final da cerimónia foi nos braços dela que adormeceste. E assim te levámos de volta para a quinta.
O almoço correu muito calmamente. O Guca esteve sempre ao pé dos pais. Apesar de não dormir, sorria, resmungava um pouco e não deu a mais pequena chatice. Mesmo quando está zangado, é mais sossegado que tu bem disposto. Claro que tu estavas num dos quartos, comigo e a tua mãe a tentarmos, à vez, adormecer-te. Choraste, gritaste com quanta força tinhas e, ao fim de um bocado, cada vez que um de nós sai-a para o terraço, os convidados perguntavam se já tinhas conseguido adormecer. Foi tal a birra que te tornaste conhecido de todos! A dada altura, deitamos-te na cama ao lado do Guca, que tinha encostado às boxes para troca de fralda. Ele olhou para ti e riu-se. Tu, que não és de estranhar, rebentaste em lágrimas. O mais engraçado, foi vê-lo a dar-te a mão, como se quisesse tranquilizar-te. Conversas de bebés, talvez. E assim a tarde passou rápida. Depois de dormires uma hora ou pouco mais, tivemos de regressar. Para trás ficaram Guca e pais, com tudo o que não houve tempo para dizer, para conversar, para partilhar. Sempre a correr.
O regresso foi melhor que a ida. Muito melhor. Só choraste uns quantos quilómetros e até acabaste por adormecer. Tu e a tua mãe, o que foi, aliás, o melhor momento da viagem. Já estávamos perto de Lisboa. A paisagem parecia de um Alentejo profundo e verdadeiro. Colinas suaves. Casas brancas de portas e janelas debruadas a azul. E uma vegetação rasteira. O sol escondia-se no horizonte e tudo dourava de calma. Olhava para o espelho retrovisor e via a tua mãe a dormir. Tu também dormias, depois da birra. Foi nesse momento, na calma e na tranquilidade do fim do dia, que senti que tudo fazia sentido, que tudo estava bem e em paz.
Quando chegámos a casa, vimos que já sabes perfeitamente qual é a tua casa. Ficaste radiante quando viste os teus bonecos, a tua cama, as milhentas pequenas coisas que te preenchem os dias. Diz-se que não há lugar como a nossa casa. Vimos nos teus olhos que vives essa máxima. Mesmo rabugento, quiseste brincar com o que encontravas. E rias muito. Estavas bem melhor que nós.
Agora, junto os pensamentos e tento perceber o que foi este fim-de-semana. Há tanta coisa e é sempre tudo tão confuso. Tu, nós, os amigos, o cansaço, as correrias. Por muito que escrevesse nunca conseguiria dizer tudo. Sei que, no sono que não me larga, sobressalta-me especialmente um momento que, nem sei porquê, não esquecerei tão cedo. E nem sequer é importante de uma forma objectiva. Mas continuo a rever uma altura em que a tua mãe estava a tentar adormecer-te, lá na quinta. Saí para o terraço e decidi dar uma volta pela propriedade. Foi talvez o único momento em que me senti verdadeiramente alheio. As uvas pendiam das videiras enroscadas na latada. Um cão ladrava na distância. Moscas e abelhas estancavam voos e azáfamas, demoravam-se no ar, suspensas diante dos meus olhos. Enquanto andava, sentia aquele cheiro intenso a terra, a uma terra que nos sobe raízes pelos ossos e nos transforma noutra coisa. Tudo à minha volta era beleza. Não um gozo estético mas sim uma força terrestre, imparável, intensa e carnal. Olhava para o céu, de um azul perfeito, imaculado, um agasalho que a todos serve. E via os limões por baixo desse céu, a crescerem.
|| 23:00 ||

20.6.04

Estamos os três deitados no chão do teu quarto. Temos um brinquedo qualquer de onde pendem bonequitos com sons, texturas, cores. Acima de tudo, o fascínio das cores. Ficamos ali muito tempo a brincar contigo – e o que é muito? A tua mãe segura o brinquedo de um lado, eu seguro do outro. Tu, entre os dois, mexes. Puxas, empurras, procuras ali qualquer coisa que nós já não sabemos ver. E ris. É lindo quando ris imenso nessa alegria que só tu sabes. É um momento simples. Um instante, apenas, nas nossas vidas. Mas tão simples que espanta, faz-nos esquecer o tempo e ficamos. A família junta, a nossa família, no prazer das pequenas coisas enquanto, na janela, o sol despede-se de mais um dia e pinta o quarto a ouro.
|| 23:00 ||

17.6.04

Há coisas que entendo na perfeição. Outras não.
Mas porquê que as mães insistem que os filhos têm sempre frio?!
Lembro-me, divertido, dos episódios deste género a que assisti. Inúmeros, imensos. As mães que aquecem demasiado a água do banho até os miúdos fugirem escaldados, as que transportam as crianças como se vivessem no Árctico, as que, mesmo no verão, têm medo que os bebés se constipem e vai de atafulhá-los em camisolas, casacos e sei lá mais o quê. Desde que nasceste que esta história também se passa connosco. Como se costuma dizer, “pela boca morre o peixe”...
As frases da tua mãe:
- Mas achas que ele assim tem frio?
- Não achas de devia pôr mais um cobertor na cama?
- Mas, pelo menos, mais uma mantinha?
- Vou tapá-lo melhor com o lençol.
E tu suas, imenso.
Já com o «ovo», a tua mãe só se decidiu a tirar a cobertura polar quando parecia que viajavas dentro de uma máquina de lavar roupa, com as costas empapadas de suor e o cabelo molhado.
- Mas não achas que assim ele vai ter frio?
- Visto-lhe mais um casaquinho.
- Mas na rua está frio, e quando escurecer vai ficar ainda mais frio.
- Pode constipar-se.
Ainda agora, à noite, a tua mãe acorda, acende luz e vai ver se não precisarás de mais uma roupinha na cama, porque de noite arrefece... Mas é verão! Tu estás quente e até te destapas!
Ò filho, explica-lhe tu...
|| 23:00 ||

16.6.04

Regresso ao trabalho. Penso que é um alívio e não é. Se as férias cansaram, o trabalho continua igual a ele mesmo: brutal, intenso, esgotante – quem ler há-de pensar que trabalho num talho, mas não. Sou apenas mais uma peça numa engrenagem que se pensa, reinventa, absorve todas as peças até não se distinguirem do todo. A distância ajuda sempre a ver melhor. Agora sinto pena pelos momentos em que não soube ter mais paciência, mais carinho. Os momentos em que não consegui ser o pai que desejava.
É fácil queixar-me quando as coisas não correm como gostaria. Por vezes, até há motivos para a queixa mas, com estes dias de permeio, apenas concluo que o hábito faz a queixa. Habituamo-nos à contrariedade e fazemos disso o estado normal, tudo nos irrita, tudo está contra nós.
Agora, maior parte das vezes, quando chego a casa estás a dormir. A tua mãe já te deu banho e jantar. Dormes. Se acordas e reclamas a chupeta, vou a correr dar-ta. Mas só para te ver, para conseguir apanhar ainda um rasgo, por muito pouco que seja, de ti. Gosto quando me aproximo da tua cama e sorris à minha chegada como se sentisses saudades. Para mim é uma alegria enorme e, ao mesmo tempo, uma tristeza. Sinto que estas duas semanas nos aproximaram. Por muito que me tenhas esgotado, fizeste-me sentir mais “pai”.
Insisto em recordar tudo mas, em especial, os maus momentos. Sempre me conheci assim, em tudo. É-me mais fácil recordar a gritaria que costumas fazer antes de adormeceres que o teu sorriso sem dentes ou o brilho dos teus olhos quando estás feliz. Recordo melhor a minha falta de paciência que os momentos em que me fazes rir com as tuas graçolas.
Estes meses mostram-me que, se não aprender a lidar com a forma como encaro os momentos, acabarei por perder de todo a tua infância, transformando-a num contínuo pesadelo de recordações. Irrito-me comigo próprio quando penso ou falo de ti e só me ouço relatar cansaços e coisas que desejava fazer mas não consegui. Tenho de me esforçar mais por valorizar os bons momentos. Até porque os bons momentos existem, temo-los vivido, mas só o consigo entender depois. Há muitos péssimos momentos, mas há também o encostares a cabeça no meu ombro e acalmares, o agarres os meus dedos enormes nessas mãos minúsculas e não largares, o ouvires-me falar e rires ou tão simplesmente quereres falar de volta e ainda não saberes como o fazer. Tanto tu como eu merecemos não só mais, como, acima de tudo, melhor. Serás tu a minha redenção?
|| 23:00 ||

9.6.04

A tua mãe. As perguntas dela e as minhas respostas.

- És adepto da frase «se soubesse o que sei hoje não queria ter filhos»?
- Não.
- És adepto da frase «se soubesse o que sei hoje teria filhos mais tarde»?
- Não.
- Então?
- Sou adepto da frase: tenho este filho e estou a gostar.

E estou. Gosto a sério. A cada dia que passa maior é a minha certeza que chegaste na altura certa e é bom partilharmos uma mesma vida, um mesmo tempo com tudo o que há de efémero e irrepetível nesses instantes. Mesmo quando fico saturado. Quando, nestas duas semanas, não consigo ter mais que cinco minutos seguidos de sossego e digo que nunca mais chega a altura de voltar ao emprego. A tua mãe diz que agora é que lhe dou valor – sempre dei, mas estou a compreender melhor – ao mesmo tempo, diz que desde que fiquei em casa tu estás mais activo, mais eléctrico – penso que também seja verdade. De facto, andas impossível.
Comecei estas “férias” cheio de planos, de pendentes que finalmente tencionava resolver. Temos um quadro branco numa parede onde desenhei um calendário com o que queria fazer em cada dia. Tudo me parecia perfeito para umas férias. Ao fim de poucos dias o desfasamento em relação ao planeado era já inconciliável. E já nem me dou ao trabalho de actualizar o planeamento. Com a tua rabugice temos andado estafados. Ando cansado do emprego e a necessitar de férias urgentes mas não é nestas duas semanas que encontro esse descanso.
Tudo isto faz parte de ser pai, do percurso que todos os pais sempre fizeram e farão. Ou talvez seja um percurso novo para o homem. Talvez estejamos numa época em que o homem está mais próximo da família nas grandes e pequenas coisas. Uns por se interessarem mais, outros porque as ocupações das mulheres a isso os obrigam. Certo é que independentemente da época, todos nós temos de nos habituar, custe o que custar – e há dias em que custa muito. Não me considero nenhuma excepção e, acredito, o que digo sempre foi e sempre será sentido por todos os pais e mães do mundo.
Estou a explicar tudo isto porque é importante que se entenda que se ama um filho ao mesmo tempo que não se tem paciência para o aturar. É um equilíbrio desequilibrado. E esta antítese faz sentido quando se tenta conciliar tudo, quando não se tem outra hipótese senão respirar fundo e continuar em frente mesmo carregados de sentimentos tão distintos – não confundir com contraditórios, pois que o amor está sempre lá e é verdadeiro, ao mesmo tempo que a impaciência e a saturação não mudam esse amor. Mesmo cansado, o que me interessa é que ao fim do dia, quando apagamos as luzes e adormecemos continuo convicto de que tudo vale a pena.
Assim, há que ter paciência.
|| 15:52 ||

7.6.04

Eu não diria que foi sorte de principiante, mas quase. Depois de uma estreia suave e pacífica na fase das sopas, rapidamente decidiste fazer caretas, virar a cabeça e chorar à segunda colherada de sopa. A fruta, continuas a devorar com um apetite maior que tu. Depois há também dias em que comes tudo, sem problemas, como se nas vésperas não tivesses detestado. És completamente irregular.
Uma vez que os teus hábitos alimentares mudaram e, com a agravante de ora comeres melhor, ora pior, o teu relógio biológico está completamente desregulado. Tanto dormes em sossego como acordas rabugento em horários estranhíssimos. A fase de relativo sossego que havia antes de passares para a sopa baralhou-se completamente. Andamos a aprender tudo do início.
Já descobrimos que há alturas em que te conseguimos enganar. Ainda tentámos dar-te uma colher de fruta seguida de uma colher de sopa e assim sucessivamente. Não resultou. Tentámos seguidamente misturar a sopa com a fruta e enganar-te assim. Até agora é o que ainda vai resultando – mas tem dias... O pior é não perceber do que realmente gostas ou não porque nem isso é linear. Se não comesses nunca a sopa, eu compreendia. Mas ora decides comer, ora decides não comer – e estamos a falar exactamente dos mesmos ingredientes, nem sequer é de sopas diferentes.
Também já descobrimos que comer, para ti, tem de ser em ritmo acelerado. Nada de uma colher, limpar boca (ou cara talvez seja mais adequado) e depois dar-te nova colherada. Não. Tu não paras. Ou suamos a dar-te as colheradas o mais rapidamente que conseguirmos ou fartas-te dos intervalos e depois já não queres comer nada. E não é nada fácil chegar a estas “descobertas”. São horas de choros, de “agora vamos tentar antes assim”, de “mas afinal o que é que tu queres?” e de pequenas grandes alegrias quando finalmente comes e dormes tranquilo.
E também já aprendeste a “pulverizar-nos” de comer...
|| 15:48 ||

4.6.04

Inexperiência de pais: no outro dia não te calavas, rabugento ao máximo, estava na altura de dormires e, em vez disso, choravas sem parar. Depois de termos feito tudo o que nos ocorreu para te adormecer, e de acordo com todos os horários a que nos habituaste, lembrámo-nos que talvez fosse efeito das vacinas. Demos-te um Ben-u-ron. Um bocado depois percebemos que era fome. Desculpa lá, filho.
|| 15:44 ||

2.6.04

És um reguila, sempre foste. Quando falamos com os nossos amigos eles perguntam sempre “o que anda o gordo a tramar agora”. Também sabemos que és doce e meigo, mas está-te no sangue seres irrequieto, curioso, com um apetite voraz por tudo o que desconheças. À medida que se aproximava a hora de te dar a provar sopa pela primeira vez, preparávamo-nos para o pior. Claro que não o disse à tua mãe mas ainda me passou pela cabeça forrar a cozinha com plásticos e vestirmos umas gabardinas. Na minha ideia, imaginava já sopa pelas paredes, pelo chão e pelo tecto. Uma verdadeira calamidade, portanto.
A tua mãe preparou-te uma sopa com batata, cenoura e alface. A avaliar pela louça espalhada pela cozinha, parecia um banquete para dezenas de pessoas. Sempre que há novidades é assim, já estamos habituados, depois, com o tempo, aprendemos a gerir melhor a quantidade de louça suja assim como o próprio processo de “fabrico” da tua alimentação.
Com a tua mãe sentada à mesa, sentei-te ao colo dela e ficámos na expectativa – era hora. Tu estavas bastante bem disposto e olhavas para o prato como quem vê um brinquedo novo. Quando a tua mãe te levou a colher à boca, comeste, com o ar de quem sempre esteve à espera daquele momento. E depois daquela colher começaste a reclamar por mais, e mais, até teres comido a sopa toda, e a fruta esmagada e teres ainda bebido uma boa dose de água. Não cuspiste, não fizeste birra, não estranhaste – nada. Aproveitei para fotografar a ocasião e ainda bem que assim o fiz. Porque, se correu muito melhor que o esperado, não deixou de ser cómico ver-te com sopa na cara toda, na cabeça, mãos e até numa perna.
Eu e a tua mãe olhávamos incrédulos um para o outro. Esperávamos tudo, menos o facto de aceitares tão bem a colher, a própria comida e o facto de não ser mama mesmo sendo a tua mãe a dar-te de comer. Esperamos que não seja a chamada “sorte de principiante”. Mas, perante a tua satisfação e o apetite com que devoraste 200ml de comer, acreditamos que gostas mesmo de novos sabores, de comeres como nós e de te “sentares à mesa” connosco. Afinal, consegues sempre surpreendermo-nos como e quando menos esperamos.
|| 17:45 ||
Nunca tinha ido contigo às vacinas. Como em tantos outros momentos, tens ido apenas com a tua mãe, enquanto trabalho, estou longe, e apenas sei o que a tua mãe me conta ao fim do dia, quando já estamos demasiado cansados para falar com tempo e detalhe do que quer que seja. Mas hoje não faltei. Levei-te ao colo para o posto de saúde. Entrei contigo para a sala e deitei-te na marquesa. Segurei-te as mãos quando te espetaram duas cavilhas enormes nas pernas. Achei um horror, pensei que te furassem os ossos. Sei que é para o teu bem mas faz-me confusão a desproporção entre o tamanho das agulhas e as tuas coxas.
Quando te espetavam, tinha as tuas mãos nas minhas, a minha cara quase encostada à tua. Vi a tua cara ficar muito roxa. Vi-te abrires muito a boca e não acontecer nada. Depois, no instante seguinte, lágrimas grandes e redondas rolaram-te por essa face macia abaixo, da garganta subiu-te um grito que já não conseguias conter, a dor, uma dor imensa. A enfermeira disse que geralmente choram mais os avós que as crianças. Embora eu não tenha chorado percebo isso perfeitamente. Como não sentirmos dentro de nós a dor indefesa de quem amamos? Custou-me muito aquele momento. Porque sentir-te a dor dói-me, porque te segurava nas mãos e depois dei-te muitos beijos mas não te pude evitar as dores que sentiste, porque achei as agulhas demasiado grandes para o teu corpo ainda tão pequeno, tão frágil. Acho que, apesar de tudo, te portaste muito bem. Aguentaste o melhor e o máximo que conseguiste, só depois veio a necessidade do mimo – que te dei até não quereres mais. Talvez eu seja um pai piegas – e nem sequer perco tempo a pensar nisso – mas acho-te tão indefeso ainda e, desejo tanto proteger-te de tudo o que te possa magoar, que qualquer coisa me parte o coração.
Descobri ainda outra coisa – e apesar de ter esta sensação há bastante tempo, ainda não a tinha conseguido entender concretamente. Contigo estou a viver duas vidas. Ao mesmo tempo que te vejo crescer e te acompanho na tua própria vida, recordo situações da minha própria infância das quais nem sabia guardar memórias. Desta vez foi algo tão simples como a careta que fizeste quando te deram uma das vacinas em gotas que detestaste. Nesse momento, lembrei-me nitidamente do sabor amargo, desagradável, dessa vacina. E nem sabia que essa recordação estava guardada, contudo, recordei o caminho que fazia de casa ao posto de saúde, a sala, os corredores, os móveis e, acima de tudo, esse mesmo sabor que também tu detestas. Talvez ao longo de todos estes anos tivessem inventado um novo sabor para a mesma vacina mas, aparentemente, tudo continua igual. Vejo tudo isto como uma dupla prenda, que nunca saberei agradecer completamente. Por um lado a satisfação espantosa de estar na tua vida, de te acompanhar em todos os momentos que posso e que mesmo assim são sempre menos do que desejava, por outro lado e da forma mais inesperada, lembrares-me que, mesmo quando já o tinha esquecido, também eu um dia fui criança.
|| 11:00 ||

1.6.04

Amanhã vamos dar-te a primeira sopa. Estamos ansiosos. Desde que nasceste que só conheces mama. Da forma como nos últimos dias olhas para nós quando comemos, já percebeste que nos alimentamos de uma forma diferente da tua. Estás curioso, nós também. Vamos entrar num novo capítulo desta aventura. Daqui em diante, tudo será diferente. Pergunto-me como irás reagir ao desmame. Sei que mais cedo ou mais tarde te habituarás mas será fácil? No fundo, o verdadeiro corte do cordão umbilical, não é à nascença, começa agora.
|| 23:00 ||
Especificações técnicas:
Peso: 7600gr. Estatura: 66,7cm. P.Cef: 42cm.
|| 15:00 ||
Hoje é Dia da Criança.
Quando tudo o que se possa dizer e escrever sobre o tema já foi feito, ocorreu-me um pensamento muito simples: a sorte que nós temos. Conheço, e todos os dias ouço mais, histórias de casais que fazem tudo para terem filhos e não conseguem; casos de crianças com todos os géneros de perturbações; casos de pais que maltratam, abusam e abandonam os seus próprios filhos; basta-me ver um noticiário para ver crianças vítimas de guerras, violência, fome, doenças e miséria.
Perante tudo isto concluo que, pelo menos até agora, temos uma sorte imensa em ter-te como filho, e espero estar sempre à altura de ser teu pai e conseguir dar-te todo o amor, carinho e protecção que precisas e mereces. Nada disto muda o mundo mas, se conseguir ser um bom pai, pelo menos ter-te-ei proporcionado um futuro, servindo de exemplo, mostrando-te que há sempre um caminho bom e melhor, algo que um dia tu próprio possas ensinar aos teus filhos. E se para mim já é tarde para poder mudar o mundo, quem sabe tu ainda vás a tempo.
|| 09:00 ||