Um ano de ti
Eu, tu, ele. Nós.
Um filho, pelos olhos do pai.
31.7.04
Meio ano de ti.
Estás muito mais calmo que nos primeiros meses. Se ao início devo ter-me aproximado de um esgotamento psíquico qualquer, sinto agora que essa fase se desvanece lentamente no tempo. Mas nem por isso tudo se transformou em rosas com céu límpido e azul por trás. Aos poucos vamos encontrando formas de te compreender e habituar à nossa vida sabendo sempre que somos e seremos nós quem mais nos teremos de habituar à tua própria vida com todas as exigências que tal aproximação acarreta. Há momentos para palavras bonitas, sorrisos e dezenas de fotografias felizes. Assim como há todos os outros momentos de um quase desespero, de palavras mordidas, de dias que passam sem qualquer entrada no livro de bordo imaginário da memória. Por vezes, penso que há tanto para lembrar como para esquecer. Mas um filho nunca é um erro – ou, pelo menos, tu não és. Da mesma forma que nunca se odeia um filho nem se lhe apaga a lembrança. Habituamo-nos a sentir mais carinho por tudo o que acontece de bom assim como vamos relegando para segundo plano as contrariedades consideradas “próprias” de uma criança na vida dos pais. Não adianta florear mais a questão, é mesmo assim.
Neste momento já entendemos que só fazes birra para dormir. Cada ser tem uma relação única com tudo o que o rodeia. Assim como existem relações simples, de igual forma existem complicadas. Tu dás-te bem com tudo, menos com o sono. Talvez seja uma das particularidades que herdaste de mim. Preferes ver tudo, querer tudo, fazer o que quer que seja a dormires. Em ti, o sono é a derrota de uma longa e penosa luta que travas contigo próprio e connosco por acréscimo. Quando finalmente adormeces é porque não consegues manter-te acordado mais tempo. Mesmo assim, acredito que temos muita sorte. Não tens problemas de saúde, comes bem e, durante a noite, dormes pelo menos seis horas quase seguidas. O único problema é o dia. Durante o dia só dormes de uma a três horas. Divides essas horas em períodos de dez minutos, de trinta, por vezes, de uma hora seguida. Para adormeceres uns minutos tens de chorar imenso tempo. Quando estás bem disposto substituis o choro por um balido, um chilrear ou um miar, eventualmente, nos dias em que estás muito bem disposto, palras. De uma forma geral, quando finalmente adormeces, estamos extenuados, exaustos das viagens persistentes para te dar a chupeta, do teu choro ou dos teus gritos, esmagados pelo peso das tarefas que temos forçosamente de realizar mas que vão deslizando para a noite ou para o dia seguinte por não nos dares tempo para as concretizar. Mesmo assim, eu e a tua mãe demorámos todo este tempo para entender algo de tão simples como a singularidade da tua relação com o sono. Nunca foram cólicas, nem dores, nem problemas «de cabeça» como a tua mãe chegou a temer. És assim, preferes não dormir. E nós vamos aprendendo a lidar com isso.
O cansaço nunca acaba. Acho que nunca acabará. É desmoralizante quando penso nisso. Sinto-me melhor agora que quando tinhas dois ou três meses. Contudo, sempre pensei que a minha capacidade de aprendizagem e concentração eram dados adquiridos e permanentes. Agora apercebo-me que até ler a mais simples das revistas ou jornais me cansa, que o conteúdo passa-me ligeiramente ao lado e o meu rendimento no emprego tem vindo a diminuir consideravelmente. Se antigamente lia sem receio um qualquer “tijolo” de Dostoievsky, agora tenho de me contentar com contos, de preferência muito curtos. E mesmo esses, tenho a sensação de não os compreender em pleno. A tua mãe não está melhor que eu. Andamos num estado em que tudo nos faz muita confusão, tudo se torna muito complicado. Ir a um centro comercial, por exemplo, provoca-nos dores de cabeças e uma sensação de desorientação. Num acordo tácito, começamos a evitar todos os sítios com muitas pessoas. Por vezes, evitamos sair de todo.
Este cansaço reflecte-se em tudo. Nesta altura tudo és tu e as tarefas que têm de ser feitas. Não há tempo, disposição, vontade para mais nada. Quando paramos, adormecemos. Os dias marcam-se no calendário pelas tarefas que temos a fazer. Não estamos em crise mas estamos sem dúvida em pausa. Acredito que esta seja a pior fase. Depois só poderá acalmar, melhorar de alguma forma. Ouvi dizer algures que muitos divórcios acontecem no primeiro ano de vida do primeiro filho. Vamo-nos mantendo firmes, crentes até. E isso tem sido a plataforma mínima para a estabilidade.
Há ainda o dinheiro. Ou a falta dele. É cada vez mais complicado tapar todas as despesas que se abrem como fendas traiçoeiras. Vivemos no arame, sem qualquer espaço para enganos ou deslizes. Como se costuma dizer, “é chapa ganha, chapa gasta”. A cada dia que passa, aumenta a lista de coisas essenciais a comprar, sem falta. Espanta-me como vamos conseguindo. E nunca o gerúndio se aplicou tão bem como agora – conseguindo. Perguntava-me como é que o Governo (independentemente do partido que o constitui) ainda tinha coragem para se perguntar porque diminui a nossa taxa de natalidade quando são precisos bebés e que, sem eles, não há quem nos assegure o amanhã. Quando é tão óbvio que, quando se estuda até mais tarde, quando os empregos são uma insegurança, quando os ordenados não chegam sequer para um casal comprar uma casa, qualquer ser sensato pensa seriamente inúmeras vezes antes de optar por filhos. Ainda por cima, quando as mulheres casadas e, especialmente, as que são mães, continuam a sofrer de todos os géneros de discriminações profissionais. Não seria simples, e crucial até para o desenvolvimento económico e social do nosso país, criar mais e melhores incentivos sérios e honestos para aumentar a nossa população? Agora já não me pergunto com a cegueira do Governo, finalmente entendi: os nossos dirigentes não gostam de fazer publicidade enganosa quanto ao futuro do nosso povo, por isso, preferem continuar a contemplar o problema para não serem confrontados com a solução. Mas isto é apenas a minha opinião e eu sempre fui conhecido pelo meu mau feitio... A nós enviam-nos todos os meses um cheque de trinta euros. Chega para comprar duas latas de leite, ou então, um vírgula qualquer coisa pacotes de fraldas. Mas não chega para ter e criar bebés. Uma pergunta simples: os subsídios para a criação de caracóis ou avestruzes não serão significativamente melhores?
Este registo. A ideia inicial era simples: guardar-te o primeiro ano de vida visto e sentido por mim, pelos meus olhos, dedos e palavras. No fundo, são dois objectivos distintos. Por um lado, relatar uma vida, a tua. Por outro, partilhar uma visão que, pelo menos na minha opinião, seria rara e que é a de ver um filho pelos olhos do pai e não, como habitualmente, pelos olhos da mãe. De uma forma geral, todos os relatos que ouço por parte dos pais são sempre cor-de-rosa, maravilhosos, verdadeiros álbuns fotográficos falados. Têm de existir certamente mais que isso num filho. Interessou-me assim contar esse mais, esse para além do trivial que nos preenche os dias. Julguei até que poderia compreender e relatar o que é ser pai – que todos concordamos ser diferente de se ser mãe mas sem que saibamos explicar o como e o porquê. Ao fim destes seis meses sinto que falho por inteiro.
É frequente apontar frases ou situações que não quero esquecer num caderno preto. Chamo-lhes âncoras pois são a forma de fixar um ponto que, mais tarde, quando consigo descobrir algum tempo para escrever, me desbloqueiam o conjunto ou sucessão das memórias permitindo-me escrever tudo o resto. A partir de uma frase que represente correctamente o momento, consigo ir recordando o resto desse mesmo momento de uma forma sistemática e numa espiral que desce cada vez mais fundo, como uma broca. É assim que funciona o meu sistema de memória. Por vezes recordo porções impressionantes de memórias através de um cheiro, de uma frase dita ou ouvida. Do padrão do papel de parede reconstruo a casa. Como disse inicialmente, todos os textos deste registo são escritos posteriormente à data que os identifica. Na verdade, na data em que tal situação ou pensamento ocorrem, posso anotar apenas meia dúzia de palavras no meu caderno. Mais tarde, folheio o caderno, pego nessa frase e reconstruo o resto na minha lembrança, escrevendo assim o texto. Tudo isto me parece linear excepto o facto de existir uma distância intransponível entre o que penso ou sinto e o que consigo escrever. É a primeira das falhas. As palavras contam muito pouco. Talvez alguém com o génio suficiente ou com o dom da escrita soubesse transpor esse fosso. Eu não consigo. Das poucas vezes que releio o que escrevo contrapondo-o às minhas recordações tenho a clara certeza que tudo (ou pelo menos o que realmente importa) ficou por dizer, reduzindo-se assim a uma questão de tempo até se desvanecer por completo no anoitecer da memória. Como escreveu Mário Cesariny, “entre nós e as palavras há metal fundente” – e como essa ideia me parece verdadeira, não só pela magia fundente do metal como, acima de tudo, no que ele tem de intransponível.
Outra das grandes falhas neste percurso é sem dúvida a falta de resposta à minha pergunta: o que é isso de ser pai? Passado todo este tempo continuo tão pasmado como no primeiro dia. Tudo em ti é mistério e novidade, mesmo os pormenores que se repetem milhentas vezes ao dia. Uma coisa é relatar um acto, outra totalmente distinta é transmitir o que dele sentimos ou conseguirmos entender sequer o que sentimos. Até porque não quero relatar a tua vida como uma lista de supermercado. Se um acto concreto é apresentado é apenas porque detrás desse acto se levanta uma ideia, uma reflexão, um sentimento, algo que transcende o acto em si. Se assim não fosse, bastar-me-iam as fotografias. Mas a única conclusão que consigo atingir é que não faço a mais pequena ideia do que é ser pai. É ter mais responsabilidades? Sim, mas não só. É o amor? Sim, mas também não é só isso. E isto sem entrar em terrenos mais filosóficos como a repercussão de toda a espécie numa nova vida projectada no futuro ou ainda, de uma forma mais simples, perguntar-me se serei um bom pai – pergunta essa para a qual nunca poderei encontrar resposta sem primeiro entender a definição de “ser pai” e, mesmo que atinja essa definição, presumo que a resposta nunca poderá ser dada por outrem que não tu.
Para além de todas as definições, processos e dificuldades da escrita como acção, há, claro, o pequeno facto de andar demasiado cansado para pensar, escrever, e pensar a escrita. Os textos que me deixam são cada vez mais confusos, com um fio condutor dúbio, com os pensamentos por desenvolver até à sua última instância. As frases atropelam-se mutuamente, as palavras estrangulam as ideias, tudo é reboliço, alvoroço e confusão. Estes textos lembram-me cada vez mais as pessoas que nunca acabam uma frase obrigando assim o seu interlocutor a, na sua própria cabeça, colar as palavras que faltam, criando assim sentidos totalmente novos. É assim que me sinto. Escrevo mas não atinjo a conclusão. Quando sei que há tanto por expressar e quando sinto que se torna impossível escrever sobre ti sem que o faça também sobre mim, tudo me parece rascunho, farrapos de pensamento, meia memória de ti.
30.7.04
Está tudo bem. Se no outro dia estivesse assim, não lhe teria receitado nada. Boas férias, até Setembro – Foi assim a consulta desta manhã.
29.7.04
Chego a casa à meia-noite e dez. A tua mãe dorme, no sofá, vencida por mais um dia de ti. Eu não estou melhor. Custa-me cada vez mais trabalhar até tão tarde. Nem vou considerar que seja «a velhice» contudo, a concentração é-me gradualmente mais difícil e esgotante. Ainda consegui despir-me, lavar-me, trocar algumas frases com a tua mãe. Os dois, deitados às escuras no sofá. O calor à nossa volta e o abatimento dentro de nós.
Uns minutos depois acordaste. Sabíamos que tinhas de acordar por volta da uma da manhã. Acordaste antes, a chorar compulsivamente. Enquanto a tua mãe te foi acalmar, lá corri para a cozinha para preparar biberão e gotas. Para o leite são oito colheres e 240ml de água. As gotas são quarenta e cinco. Àquela hora já custa muito contar o que quer que seja. Tu gritas. A tua mãe pergunta se ainda demoro muito. Deixo cair gotas pelo caminho. Lá vou, todo torto, casa fora, de biberão numa mão e colher com as gotas que sobram na outra. Custa-me dar-te as gotas. Quando a tua mãe me deu a ler o papelinho com as instruções, contra-indicações e afins, fiquei completamente arrepiado. Insónias, arritmia, distúrbios psíquicos, enfim, a lista parece-me interminável. Mas tem de ser. Neste momento tens de eliminar a farfalheira que te enche os pulmões. Só que ficas completamente impossível quando tomas as gotas. Queres dormir e não consegues. Choras horas a fio. Vemos que te esforças por dormir e algo mais forte que tu te impede o sono. Ver-te assim parte-me o coração. Ontem estiveste acordado desde as quatro da tarde até às onze e pouco da noite. Não conseguias adormecer de maneira nenhuma. Se amolecias ao colo, mal a tua mãe te deitava na cama despertavas. É demais para uma criança da tua idade.
Isto começou há uns dias. A médica auscultou-te e não gostou do que ouviu. Tosse, pieira. Complicado foi entender os conceitos. Para a tua mãe, tinhas tosse de cão. Para a médica, de foca. Para mim, tosse é tosse. De qualquer forma, pediu uma radiografia ao tórax de urgência, sem relatório. Pode não ser nada, disse-nos, provavelmente não é, mas também pode ser alguma reacção alérgica, por exemplo. Há que ver. Gosto desse pragmatismo na pediatra. Sinto-me mais tranquilo com uma personalidade «pão pão, queijo queijo». Gotas, vapores com mais gotas, radiografia. A radiografia já está. A chorar. Com a tua mãe e avô a agarrarem-te entre as chapas frias do raio-X. Primeiro de frente, depois de lado. Repetir até ficar em condições. Como é que se diz a um bebé «não mexe, não respira»? Agora ainda temos de mostrar à médica. Saber então o que se passa dentro de ti.
Enquanto a tua mãe de dava o biberão, eu observa-vos sentado na beira da cama. Ela a cabecear, tu a agarrares-lhe os dedos, o biberão, os cabelos. A lutares entre a vigília e o sono. Gosto de olhar para ti. Acho-te cada vez mais bonito. Gosto de te ver ao colo da tua mãe. Quando ela te levantou para arrotares, pousaste a cabeça no ombro dela. É bonito ver-te assim, rendido àquele abraço. Os bracitos pendurados ao longo do corpo, a cabeça pousada, de lado, no ombro dela. É um dos vossos momentos que considero mais materno. É uma relação, uma confiança, uma cumplicidade que nenhuma palavra pode negociar nem nenhum dinheiro pode comprar. Ainda não o fazes comigo. Nunca adormeceste ao meu colo. Acredito que o tempo nos aproximará ainda mais e, algures no futuro, também eu te sinta assim, totalmente entregue a mim.
Depois de comeres, foram os vapores. Ali estive, um quarto de hora, talvez. Com a mangueira da máquina enfiada na tua cama, a máscara próxima da tua cara. Uma torrente de vapor a inundar-te boca e narinas, a escarafunchar-te os pulmões como uma invasão. Os teus dedos, tão finos e compridos, a desfiarem a fralda com que escondes a cara, essa tua companhia essencial ao sono. Acho que adormeceste por cansaço, quando já não aguentavas mais, derrubado pelo apelo irresistível da noite.
Quando finalmente apagámos a luz, só se ouvia o relógio de pulso da tua mãe. Faz-me confusão. Lembra-me o relógio de parede de casa dos meus pais. Nas inúmeras noites em que o sono tardava, só ouvia o passo certo daquele relógio. É como se o tempo não se limitasse a escorrer mas antes me obrigasse a notar a sua dolorosa e arrastada passagem. É horrível sentir o tempo a passar, lembra-me a finitude da vida em tudo o que isso tem de absurdo e inaceitável, ao mesmo tempo que sei que nunca nada poderá contrariar essa ordem natural da existência – agora existo, depois não existirei. Do pulso da tua mãe liberta-se ainda uma fosforescência azulada. Embora os ponteiros sejam verdes no seu brilho, rapidamente se diluem num azul indefinido. É como o led do modem, quando ela se esquece de o desligar, inunda o corredor desse verde azulado. Há vinte e poucos anos, os meus pais ofereceram-me um Dataman. Não era mais que uma calculadora em forma de astronauta, vinda do planeta dos números. O ecrã era preto e os números verdes. À noite, enfiava-me debaixo do lençol onde tudo se iluminava daquela mesma luminosidade e tentava adivinhar os números secretos, treinar contas que rapidamente se revelaram impossíveis e frustrantes. Rapidamente percebi que o meu «dom» não passava por números. Não deixa de ser interessante pensar nisso por um instante: qual será o teu dom? Acredito que todos nascemos com um. Podemos chamar-lhe qualquer coisa, apetência, inclinação, talento, o que quisermos. O importante nesta teoria é que todos nós fazemos algo com maior facilidade que tudo o mais. E não estou a falar de arte. O «dom» de uma pessoa até pode ser a arranjar canos ou abrir valas. Mas é certamente algo que dá prazer fazer, algo que não só se domine com maior facilidade que qualquer outra coisa – a apetência natural – como também dê, ao fim de cada dia, a satisfação e o prazer de o ter feito. Demorei muitos anos para encontrar o meu dom e ainda não tenho a certeza absoluta de ter acertado. E tu? Qual será o teu?
Enquanto deambulava nos meus pensamentos e procurava o caminho mais fácil para o sono, iluminado por essa ligeiríssima luz azulada, tentei ouvir-te a respiração. Só ouvia o relógio da tua mãe e alguns automóveis espaçados no silêncio da noite. Como sabia que não adormeceria sem ter a certeza de estares bem, levantei-me e fui mais ou menos às apalpadelas para junto da tua cama. Ao fim de um ou dois minutos deitei-me novamente. A tua mãe, estremunhada, ainda me perguntou «então?». Está a respirar, respondi-lhe. E só então consegui abandonar-me ao sono. Não ao meu sono ligeiro de sempre mas ao sono que descobri depois de nasceres, um sono de tal forma profundo e esgotado que não ouço nada, nem a ti, quando choras. Agora ando assim. Podes chorar e gritar à vontade que não acordo. Durante a noite, se não for a tua mãe a ouvir-te e dar-te chupeta ou tranquilizar-te depois de um pesadelo, eu não acordo. E de manhã, é um martírio para me conseguir levantar. De alguma forma, quando durmo, subtraio-me realmente ao mundo.
28.7.04
Especificações técnicas:
Peso: 8680gr. Estatura: 71cm. P.Cef: 43,5cm.
19.7.04
São quase duas da manhã. Tu e a mãe dormem. A casa é o silêncio. Termino o livro que me entreteve esta noite: Inventar a solidão, de Paul Auster. Os livros dele sempre me perturbaram por me obrigarem a pensar. Não que habitualmente não pense. Embora pensar não seja assim tão trivial como usar o cérebro. De uma forma geral, pensamos num dado assunto e chegamos a uma conclusão. A partir daí não pensamos mais nesse assunto e vivemos com a conclusão que arquivámos numa qualquer gaveta da memória. Os restantes pensamentos aplicam-se ao corriqueiro, à esperteza saloia do dia a dia: compro, não compro; vou por aqui ou por ali; faço isto ou faço aquilo. Existe mérito e necessidade no imediatismo do pensamento mas, reduzir toda a actividade pensante a esse imediatismo é castrador, é vestir uma morte antecipada, é um absentismo do eu.
Ao ler livro, penso mais uma vez no que é ser filho e no que é ser pai. Eis uma ideia que não pára quieta, pelo menos para mim. Chego a uma conclusão e, de cada vez que a penso novamente, chego a uma nova, diferente, conclusão. Ao longo de todo o primeiro texto, o autor reflecte sobre a sua relação com o pai. Esta reflexão acontece imediatamente após a morte do pai e numa altura em que o seu próprio filho – do autor – tem aproximadamente um ano. Ao longo de um longo e doloroso processo, somos confrontados com a crítica ao homem que foi o seu pai. Apercebemo-nos que é o facto do autor ser, também ele, pai que o levam a um novo encarar do pai. Se inicialmente, somos confrontados com um pai que desilude, no final desta descida ao inferno da memória o próprio autor conclui que também ele foi uma desilusão de filho. E esta conclusão dá que pensar.
A vida só tem um sentido. E vivemo-la como se fossemos imortais. Esta “liberdade” relativamente à morte, dá-nos toda a margem de manobra para nunca questionarmos quem somos para os outros ou o quanto guardamos deles. Penso que um dia o meu pai morrerá, eu morrerei e até tu, meu filho, morrerás. E nesta certeza, pergunto-me o quanto ficará por dizer e sentir entre todos nós. Eu quase não me lembro dos meus avós. Por parte do meu pai, o meu avô chamou-se Júlio e a minha avó, Mariana. Não me lembro deles. Feições, actos, palavras – tudo isso se foi. Não sei que outros nomes tinham – tirando o apelido do meu avô e porque o meu pai o usa, eu uso e também tu o usas. Mas penso que o meu próprio pai também foi criança e tem memórias de uma vida, memórias que o tempo apagará e ficarão tão perdidas no tempo como tudo o mais. Sei apontar todos os defeitos e qualidades do meu pai. Mas que pensará ele de mim? Teremos conseguido dar tudo o que podíamos um ao outro? Por vezes penso que não. Penso que poderia ser muito mais e melhor filho. E estes pensamentos aplicam-se de igual forma ao lado materno da família. O mesmo desconhecimento ou falta de lembrança para com os avós. A mesma sensação de incompleto para com a minha mãe. E passa tudo tão depressa.
Pergunto-me o que lembrarás de mim e da tua mãe, dos teus avós. E os teus próprios filhos – que recordarão eles de nós? Contaram histórias passadas connosco? Guardarão as nossas fotografias? Ser pai dá-me uma breve ilusão de imortalidade. Penso que viverei para além de mim no teu sangue, na tua recordação e no teu amor. Mas é uma ilusão tão passageira... Que foi feito de todos os inumeráveis que vieram antes de nós? Quem os lembra? Onde ficou a sua memória? E para todos os que nos virão depois de nós até ao anoitecer da espécie humana – o que seremos? No livro 1984, de George Orwell, diz-se a certo ponto: nós somos os mortos. E somos, todos sem excepção. Mas se o somos, que nos resta então senão a singularidade deste instante que nos acontece?
Na solidão da noite, penso uma vez mais tudo isto. E não é um pensamento de morte ou falta de sentido para tudo. Encontro nesta ideia uma base de amor. Porque se este instante é tudo o que tenho de palpável, então nada mais me resta senão o amor dos meus e o amá-los de volta. Porque para além disto, nada é realmente importante. E mesmo sabendo que nada somos na longa fila da descendência, sinto-me bem ao pensar em amor. Penso que tenho de amar mais, amar melhor, os que me precederam, e tu, o meu futuro. Quando entro no quarto, vejo-te dormir, assim como a tua mãe. Quando me meto na cama, sorrio, sinto-me um homem feliz.
Nota mental: um dia, faremos a árvore genealógica da nossa família.
15.7.04
Não tenho tempo. Quantas vezes ouvimos e contamos esta história? É mais uma das situações que sempre disse que evitaria. E tal como a maioria dos pais e mães, são mais os dias em que não tenho tempo que o oposto. Só que, cada dia que passa, é um pequeno universo de novos acontecimentos, de bocadinhos de ti que quero agarrar, guardar escrevendo, fixar nas palavras a memória que perderei no somatório dos dias, que se diluirá no turbilhão da vida. Porque, no fundo, resume-se a uma verdade muito simples: tudo passa. Olho para trás e recordo. Mas apenas consigo recordar acontecimentos isolados, um resumo de vida, como se a minha memória fosse um curriculum vitae com, no máximo, duas páginas. E tanto que se vai perdendo, debotando, lenta e irrecuperavelmente. Sou o que recordo e a saudade de tudo o que esqueço. Não uma saudade dos acontecimentos em si mas antes o conseguir recordá-los.
Ao mesmo tempo, nunca me senti tão próximo de ti como agora. Nas últimas semanas tenho aproveitado melhor o tempo para estar contigo. Vou mais vezes dar-te a chupeta quando acordas e choras. Participo mais. Acompanho ligeiramente mais os teus dias. Dedico mais tempo a olhar para ti apenas, ou a fazer-te festas. Gosto quando retribuis. Há umas semanas que, tanto eu como a tua mãe, estamos a investir nesse acto tão simples mas tão profundo em tudo o que possamos considerar humano. Se antes arranhavas e empurravas e tentavas arrancar-me os olhos, agora já abres a mão para sentir realmente a cara, em tudo o que são pêlos, borbulhas, relevos e texturas. Ainda me puxas o nariz, mas isso é natural, não sou propriamente um Cyrano mas sou relativamente narigudo. E adoro fazer-te festas, no cabelo, nas bochechas, passar a ponta do indicador no perfil do teu nariz e sentir a tua mão na minha cara. Há comunicação, um entendimento maior que tudo nestes pequenos gestos de carinho.
Se, por um lado, a nossa relação evolui, por outro sinto-me mal por não te conseguir escrever. Esforço-me por valorizar mais cada momento que nos acontece. Como diz a tua mãe, ser pai todos os dias e não esperar que tenhas não sei quantos anos para querer, nessa altura, começar a ser pai. E sinto que este esforço vale a pena. Ao mesmo tempo, sinto a frustração de te estar a viver mais e não o fixar nas palavras por não ter tempo. É uma situação que me preocupa. Porque o ser humano é preguiçoso por natureza. Mais facilmente nos habituamos a não ter tempo e fazer disso uma desculpa permanente, do que tratamos realmente de mudar o necessário para ganhar esse tempo. É mais um esforço, uma luta interior que terei de vencer. Entretanto, vão ficando as fotografias. Inúmeras. Imensas. Tu com sopa até às orelhas. A fazer birra. Sozinho no parque a brincar sereno e intrigado com os bonecos. De boca escancarada de espanto e um cómico fio de baba pendurado. Tu e as imagens de ti. Porções de vida fixas ao acto mas não ao sentimento, que não consigo registar mas que também não quero esquecer.
8.7.04
Especificações técnicas:
Peso: 8120gr. Estatura: 69,5cm. P.Cef: 43cm.
5.7.04
Na sexta-feira, ao fim da tarde, a tua mãe foi chamada de urgência para um trabalho. No meio de muito stress, saí mais cedo para tomar conta de ti. Foi o nosso primeiro voo solitário. O que começou bem rapidamente descambou para o caos. Quando chegámos a casa, ainda tentei dar-te banho, apesar de estar em cima da hora de comeres. Claro que não consegui. Andava contigo pendurado no colo, já rabugento, enquanto com o outro braço tentava puxar a tua banheira para a casa de banho, juntar as coisas necessárias e que não fazia ideia onde estavam assim como a própria roupa estava escondida num local misterioso qualquer que só a tua mãe conhecia. Quando percebi que já não conseguia dar-te banho atalhei para a papa.
Das boas intenções aos actos há uma longa distância a percorrer. Às primeiras colheradas já choravas. Achei que era birra para comer e que não serias mais teimoso que eu. Achei mal. Enquanto te engasgavas, cuspias, berravas e tentavas atirar-te para fora do meu colo, eu atafulhava uma colherada a seguir a outra, sem parar. Mesmo quando te engasgavas e tossias, eu enfiava-te mais comer para a boca. Ainda passámos uma boa meia hora nesta fita.
Só parei quando os teus olhos, vermelhos de tanto choro, se começaram a fechar e todo o teu corpo se amolecia nos meus braços. Só aí percebi que a birra, afinal, era de sono e não de fome ou mau feitio. Soluçavas, tremias de tanto choro. Tinhas papa em toda a cabeça, no nariz, no pescoço e na roupa toda. Levei-te para a cama e, mal te pousei, viraste-te sozinho de lado, agarraste-te à fralda que gostas de usar para tapar a cara e assim ficaste, exausto, a soluçar. A minha insensibilidade partiu-me o coração. O meu e o da tua mãe, quando chegou a casa.
- Mas então não viste logo que era sono? Quando é assim deixa-lo dormir que depois ele logo pede comer. Coitadinho do miúdo, a querer dormir e tu a enfiares-lhe comer pela boca abaixo, sujeito a engasgar-se a sério e sufocar.
Não me senti nada bem com a situação. Mais tarde, muito mais tarde, a tua mãe deu-te mama à hora prevista e dormiste bem o resto da noite. Na manhã de sábado, ao acordares, fomos dar-te os bons dias à cama e suspirei de alívio quando olhaste para mim e sorriste num desses maravilhosos sorrisos de que só tu és capaz – estava perdoado!
A conclusão deste pequeno episódio é simples. Estás com cinco meses feitos e ainda não percebo nada de ti. Por um lado, são os pequenos truques que desconheço, como por exemplo, ver que a tua mãe à noite, depois de te dar mama, te dá a chupeta para acelerar o arroto. Estou contigo e continuo a não saber interpretar os teus sinais mais simples. Tens sono? Tens fome? Tens dores? Queres brincadeira? Não sei. Talvez não me aproxime o suficiente, talvez não preste a atenção necessária. Talvez seja uma infinidade de coisas que não esteja a fazer bem ou de todo.
Por outro lado, pergunto-me cada vez mais sobre o que é ser pai. Lembro-me que comecei cheio de ideias, de planos e intenções. Agora, ao fim destes meses, não faço ideia do que é realmente ser pai. Relato acontecimentos, bons e maus, tento entender-te, tento melhorar-me. Mas o que torna a minha experiência e visão únicas? Em que é que a minha experiência é diferente da tua mãe, por exemplo? Sei que ela tem muito mais trabalho que eu, é certo. Mas tirando isso, o que distingue a forma como te vemos? A ideia inicial deste blogue sempre foi relatar-te através da minha visão e experiência – a de um pai – mas continuo sem entender onde fica essa singularidade. O tempo passa, tu cresces, mudas. Continuo pasmado. Não pelo que entendo e aprendo de ti, mas por tudo o que não consigo entender. Perguntam-me o que é ser pai e eu continuo a responder que não sei.
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