Um ano de ti
Eu, tu, ele. Nós.
Um filho, pelos olhos do pai.
31.8.04
Dormes. Deitado de barriga para cima, pernas e braços abertos. A cabeça repousa sobre um dos lados, virada para a fralda de que necessitas para adormecer. Entro e saio do quarto sem fazer qualquer barulho, só para te ver, para partilhar um pouco dessa paz que te envolve, dessa serenidade que se apaga no tempo porque só uma criança consegue abandonar-se assim ao sono. Por enquanto a cama ainda é espaçosa, ainda te permite virar para uma qualquer direcção numa doce inconsciência do espaço. Ali dentro, tudo te deve parecer um mundo.
Fazes hoje sete meses. Para onde está a fugir o tempo? Aprecio a doçura de cada dia que passa e sei o quão pouco vejo de ti, o quanto perco por não termos mais tempo. Sempre construí a minha vida com inúmeros ideais e projectos. Tudo o que tenho, tudo o que sou foi conquistado palmo a palmo, mantido com um esforço maior que eu. Agora, olho para ti e tudo o mais me parece tão vago, tão insignificante. Gostava de ter mais tempo para nós, para te ver crescer, para te saborear cada dia que passa, cada pequena vitória ou cada simples sesta.
Saio do teu quarto grato por aqueles instantes, aqueles míseros e curtos e instantes. Esmagado pela doçura de um sono. Abismado pela rapidez com que a vida passa por nós, por todos nós. Já passaram sete meses? Temos pela frente uma vida inteira de momentos e acontecimentos a partilhar. Sei disso e quero agarrar tudo, viver tudo contigo. Por outro lado, a cada dia que passa “pertences-me” menos, tornas-te mais tu, mais total e independentemente tu e sinto um medo ridículo de te perder, ou de me perder de ti. É bizarro, por um lado quero ver-te crescer, por outro, adorava que nunca crescesses, que ficasses sempre assim – o bebé que és, só meu e da tua mãe, tão nosso, só nosso. Sete meses? Já?
30.8.04
Os primeiros dias em que te alimentaste de papas e sopas foram, no mínimo, curiosos. Oscilaste entre adorar e detestar. Não foi uma adaptação nem fácil, nem insuportável. Julgo que foi “normal”. Contudo, nas refeições em que estavas mais propenso a não quereres comer, foi necessário distrair-te. Se não te “concentrasses” muito no acto de ingerir até corria bem. Uma vez que a mãe já tinha o trabalho de conseguir acertar com a boca e gerir o grosso bolo de papa ou sopa que insistia em sair, sobrou para mim a outra pequena tarefa de te distrair. Nem consigo contabilizar a quantidade de estratagemas que usei. Acho que tentei de tudo. Por fim acertei. Tens uma girafa cor de laranja e amarela com argolas coloridas à volta do pescoço, com um apito embutido no corpo e um outro som numa das patas. E gostas de me ouvir “tocar” aquele bizarro instrumento. É claro que nunca tive qualquer jeito para a música nem sequer a capacidade de manter o ritmo. Não sei se foi isso que te divertiu ou apenas uma certa pena das tristes figuras que fazia, acabado de chegar a casa, sentado à mesa, ainda de gravata e ar estafado, agarrado a uma girafa sonora e a tentar coordenar todos aqueles sons numa música qualquer. À laia de homem dos sete instrumentos, nesta versão são apenas três, ali ficava toda a duração do teu longo jantar. Apito, argolas, pata. E cantei de tudo. Todas as canções que sempre achei detestáveis integraram um repertório improvisado exclusivamente para o teu riso. Acho que me tornei bastante bom naquela tarefa.
Agora, andas numa fase em que não queres comer. Nada, de forma nenhuma. Mais uma vez, todas as noites lá estou eu, agarrado à girafa musical, tornando-me assim estrela forçada da música popular, tocando, cantando, fazendo caretas e levando o fôlego para além das minhas capacidades. Há uma quase insignificante inovação. À medida que os meus “dotes” musicais melhoram, também o teu grau de exigência aumentou. Agora requeres coreografia. Eis-me então cantando, dançando, sincronizando a minha cabeça com a da girafa que aprendi a detestar. Se já podia integrar uma boys-band? Ainda não mas, se continuares assim, daqui a umas semanas podemos partir em tournée. Los chichos de la girafita!
26.8.04
Pergunto-me se um instinto nasce connosco e nunca muda ou se, por outro lado, se descobre, cria e evolui. Talvez não exista uma resposta para esta questão, ou então uma infinidade delas, quem sabe. O que é certo é que nunca reconheci em mim o instinto de pai e agora, ter-te na minha vida, está a mudar tudo, ou talvez apenas mude a minha percepção desse “tudo”.
A meio da tarde fui beber um café com alguns colegas. Na fila, à nossa frente, estava uma mãe recente com o seu rebento. Senti-me embevecido a olhar para aquele bebé ainda tão pequenino, tão “recém-nascido”. Orgulhosa, a mãe disse-nos que tem apenas três semanas. Três semanas? Ninguém tem três semanas! Um dos meus colegas, também ele pai embora mais amadurecido no tempo que eu, pergunta-me se já estou com saudades. E estou. Estou mesmo. Ao mesmo tempo que me maravilho e desespero contigo, sinto já uma saudade imensa daquelas primeiras semanas, em que tudo em ti era uma miniatura de homem. Lembro-me especialmente dos teus dedos, tão infinitamente pequenos, tão perdidos nas minhas mãos. Pergunto-me sobre este instinto. Olho para trás e não o vejo. Olho-me agora e sei que o sinto com todas as forças de que sou feito.
22.8.04
Um momento de felicidade na minha vida. Qualquer um, em qualquer tempo. Mas momento de felicidade consciente, momento em que possa dizer “isto é felicidade”. Sem dúvida o aqui e agora, neste fim de tarde de domingo, neste Agosto lento e sufocado. Agora.
Eu e a tua mãe víamos um filme. Entretanto acordaste, particularmente bem disposto. Trazemos-te para o sofá e paramos o filme que retomaremos mais tarde, se possível. A sala pinta-se de todos os tons quentes do entardecer. Não temos pressa para nada. Tu nada reclamas. Estamos os três deitados no mesmo sofá. Tu com um body verde alface, o sofá cor de laranja. Nós os três. A tua mãe beija-te de um lado, eu do outro. Brincamos, rimos, fazemos-te cócegas até à gargalhada. E tu puxas narizes e cabelos, arrancas óculos, puxas-nos. Nos teus olhos, um brilho de felicidade genuína. E brincamos. Neste momento, tomo consciência da felicidade que sinto.
Tu ainda vives na inconsciência das coisas. Desconheces que a felicidade só existe em momentos e nunca num estado contínuo e permanente. Da mesma forma como a infelicidade, a alegria e a tristeza. Tudo são momentos e é deles que se soma uma vida. Ainda não conheces a angústia de te saberes condenado à liberdade absoluta, em tudo o que isso tem de assustador, vivendo para a morte e sem que nada exista para lá dela. E se só a ideia da morte dá valor ao instante da vida, descobrirás, um dia, que nessa angústia só a solidão é real, uma solidão avassaladora, permanente, total, uma solidão impossível de partilhar com quem quer que seja pois todos vivemos encerrados e reduzidos à nossa própria e única solidão. E espero ainda que aprendas que só o amor nos oferece uma saída, proporcionando um sentido a essa solidão, tornando a vida possível e inestimável. Mas sempre em pequenos momentos. E agora, olho para ti, para os teus olhos e sorriso, para a tua mãe, para nós encostados, abraçados, rendidos num riso inocente e sei. Sei que neste preciso instante estou feliz.
20.8.04
A tua mãe liga-me a meio da tarde. Estou no café, na pausa para o lanche que se resume a mais um café sobre os muitos que já bebi – demasiados até. Desde que nasceste, o telemóvel nunca está desligado, nem sequer em reuniões. Cada telefonema da tua mãe adquiriu uma urgência que nunca imaginei possível. Atendo imediatamente.
- Sim? Tudo bem?
- Oi... O gor... tá... er... pa...
- O quê? Não estou a perceber nada?
- Gor... er... pa!...
Repetimos isto várias vezes até só entendermos a ligeira irritação que se ergue de ambos os lados da chamada. A tua mãe desliga. Está certamente num sítio com má cobertura. Espero um minuto, dois. Ligo.
- Então? O que é que se passa?
- Estou a conduzir. Não me dá jeito falar. Tinha isto em alta voz para ouvires. O gordito estava a dizer papá.
- O quê?!
Despacho o resto da tarde e saio cedo ou, pelo menos, mais cedo que o habitual. Não quero saber do trabalho! O meu filho disse papá! Voo para casa. A estrada abre-se à minha frente como uma bandeira desfraldada. Saiam-me da frente. Deixem-me passar!
Chego a casa e agarro em ti ao colo. Diz papá, filho! Sou eu, o papá! Vá lá, diz papá. Tenho risos, sorrisos e pequenas gargalhadas. É bom, é lindo mas diz então a palavra mágica que me arrancou tão abruptamente à minha rotina. Nada. Conversas muito naquela tua língua que me lembra uma aula de japonês ou os filmes do Kurosawa, essas “palavras” que dizes em tom grave e arrastado enquanto olhas fixamente para um boneco, mirando-o de todos os ângulos possíveis como se o visses pela primeira vez e o quisesses fixar para sempre.
Em breve, estou eu e a tua mãe a disputar a tua atenção, eu dizendo “papá” e ela “mamã”, empurrando estas palavras com todos os gestos que nos lembramos e que possam de alguma forma tornar-te clara a associação. Quando nos faltam os gestos, metemo-nos à frente um do outro, lutando pela tua total atenção. Olhas-nos calado. Sorris. Devemos parecer-te doidos, empurrando-nos, fazendo gestos, repetindo as palavras. Possivelmente somos. Divertimos-te. Mas não disseste papá nem mamã.
Quando, depois do banho, jantavas, eu arrumava a casa de banho. Já se tornou de tal forma rotineiro que demoro cada vez menos tempo. Enquanto lavava e limpava os patinhos, depois de ter arrumado frascos e limpo a tua banheira, ouço-te dizer claramente “pa... pa... pa... pa...”. Entro de tal forma desvairado na cozinha que tu e a tua mãe ficam quietos, estáticos a olhar para mim. A sopa a escorrer-te em grosso fio a um canto da boca. A tua mãe com a colher parada a meio do percurso. Diz outra vez, filho. Diz outra vez. Claro que não dizes.
Mais tarde, enquanto eu e a tua mãe jantamos ao som do teu miar no intercomunicador, discutimos melhor a tua “palavra”. É claro que não disseste papá. É claro que perante a tua mãe, defendo até à inconsciência que o disseste, obviamente. Na melhor das hipóteses, poderias estar a dizer papa, ideia que me parece fazer mais sentido. Mas julgo que nem isso aconteceu. Embora não conheça qualquer dado científico sobre este assunto, penso que nesta altura ainda não saibas que as coisas têm nomes. Para ti, aquele urso com que adormeces é “aquele” urso, não um urso genérico, nem uma representação de urso, nem nada mais que aquele objecto concreto e específico. O “pa” de hoje deve ser apenas o começares a articular sons de forma semelhante à que usamos na linguagem, só que sem qualquer linguagem por trás. É claro que não senti qualquer desilusão por isso mas antes uma satisfação enorme por ter acompanhado mais um pequeníssimo passo na tua evolução, não uma palavra mas um pequeno som que nos aproxima ainda mais. Mesmo sabendo e entendendo tudo isto, continuo a dizer à tua mãe que disseste claramente “papá”, embora ela não me pareça convencida...
16.8.04
Estas foram as férias mais difíceis, até agora. Se as anteriores se resumiram sempre ao cansaço e algum desespero, chegando a achar que preferia trabalhar a estar em casa convosco, desta vez consegui saborear-te. Não que isso elimine todo e qualquer cansaço, porque basta o facto de seres criança para que exista sempre demasiado a fazer e para que toda a atenção seja canalizada para ti, só para ti. Contudo, nunca me soube tão bem estar contigo como agora.
De acordo com a tua mãe, agora dás-te muito melhor comigo porque aprendi a “ligar-te”. Não consigo ter uma opinião tão extrema. Julgo apenas que agora já percebeste que tens um mundo à tua volta com pessoas dentro. Tu próprio procuras o contacto. Talvez a relação de um pai e de uma mãe com um filho seja muito diferente. Eu nunca tive contigo a cumplicidade que tens com a tua mãe desde o momento zero. É tão simples como ser no corpo dela que “nasceste”, ou ser ela a amamentar-te. É uma química de pele com pele que nada pode alterar. Mas agora já sabes que não é só ela que existe. Agora brincas, ris, gargalhas comigo e de mim. Finalmente entendemo-nos. Isso muda tudo na nossa relação.
Durante estas férias dei-te todo o meu tempo. Estive sempre, sempre, disponível para ti, para os momentos de brincadeira e para os momentos em que apenas trocámos festas. É comovente estar junto a ti e ver, sentir-te, a mão minúscula tocar-me cara e cabelo, aprender-me as feições. Ambos nos esforçámos por dar e ter mais de cada um. Entretanto, aprendeste gracinhas novas. Sinto também que aprendes todos os dias a aproximar-te do meu mundo. No fundo, ambos aprendemos a conquistarmo-nos mutuamente. Agora sim, quero mais e ainda mais tempo contigo. Agora imagino futuros nossos, momentos únicos, um papel de pai que anseio por desempenhar da mesma forma como todos os dias te imagino ainda mais nesse papel de filho que efectivamente és.
Custou-me muito voltar ao emprego. Hoje, quando cheguei a casa, ainda estavas acordado. Foi deslumbrante entrar no quarto e rires para mim, sentir-te essa alegria de me reconheceres e apreciares a minha presença, com as gracinhas que todos os dias aumentam em número e género. É um sentido qualquer que se revela e encanta. Estamos todos a aprender. Nós contigo, tu connosco. A família cria raízes, consolida-se, cerra-se no sentimento de que nada nos poderá separar, somos nós e, nesse nós, somos tudo.
12.8.04
A tarde arrastou-se suspensa de um calor absoluto. Tudo se imobilizou na horizontalidade de um sol implacável, vergando animais e homens à sua inclemência e obstinação. Nada se ouvia na estagnação da tarde excepto um ou outro automóvel que rasgava o silêncio num contra-senso absurdo. Passámos assim toda a tarde, refugiados na penumbra de uma casa adormecida, sonolenta, prostrada na pouca frescura que conseguimos encontrar. O suor empapou-me pele e roupas. Cada cigarro fumado à janela constatou apenas o aguardar do depois, uma valsa lenta como toda a vida em tardes de verão. Aguardar.
Ao fim da tarde levantou-se do chão uma brisa ligeira, leve, quase seca. Prenúncio, contudo, da frescura que afaga ervas secas e folhas. Os pardais foram os primeiros a abandonar os ramos abrigados das árvores empapadas de verde e procurarem todas aquelas coisas secretas que só uma alma de pássaro sabe entender. Depois vieram as crianças atrás de uma bola, trazendo os gritos e alegrias fugazes das férias, de um tempo maior que eles, ilimitado, pleno.
Perto da nossa casa existe uma quinta transformada em parque onde há relva fresca, um lado com patos marrecos, escorregas, repuxos vivos e alguns animais domésticos para que as crianças não aprendam o que é um porco ou uma cabra pelo canal do National Geographic. Decidimos levar-te até lá. A ideia começou de uma forma simples. Estamos de férias, sem outros horários que não os teus, entediados do refúgio nestas paredes, procurando desesperadamente qualquer coisa para fazer que nos possa distrair e que também para ti possa ser interessante. Vamos então ver as cabras raquíticas.
Peguei no telemóvel, no maço de tabaco e disse “estou pronto”. E estava. Bastaria meter-te no carrinho e empurrar-te por essa meia dúzia de ruas até ao parque. É claro que não estava a ver completamente a situação. A tua mãe pediu-me que fosse à janela ver se estava frio ou calor (porque daqui a pouco anoitece...). Está um fim de tarde abrasador. Depois, as dúvidas da tua mãe. “Achas que lhe vista manga curta ou comprida?”, “calças ou calções?”, “é preciso levar a mochila, claro, para levarmos o biberão, um ou dois brinquedos, talvez seja melhor levar também uma meias para o caso de ter frio...”. Começo a subir pelas paredes. Vamos enfiando coisas na mochila. O biberão, a Rã Renata, boné, peúgas, o kit de troca rápida de fraldas. Nem sei bem ao certo o que levamos. Preparamo-nos para todas as contingências. Talvez uma expedição ao fim do mundo requeira menos aparato. E o tempo passa...
Quando estamos “quase” prontos, decido que afinal vamos de carro, caso contrário, só veríamos vultos de animais no recorte do luar. Pressiono a tua mãe. Quero sair. Sob protesto lá vos consigo arrancar de casa, sabendo que não estamos a trazer todas as coisas essenciais à “viagem”. Quando chegamos ao carro a tua mãe lembra-se que talvez o automóvel esteja muito quente por dentro. Há que esperar à sombra enquanto o ligo, abro janelas, potencio o ar condicionado para lembrar um clima árctico. Entretanto decides bolçar. Eu a querer arrancar e a tua mãe a limpar-te com o babete que trazia limpo na mochila. “Afinal vês como fiz bem?!”. Nesta altura eu já estava impaciente, na verdade, preferia voltar para casa a ir onde quer que fosse. O suor escorria-me em bica. A roupa colava-se-me ao corpo num abraço desconfortável. Tudo me parecia excessivo e sufocante. Demorámos quanto tempo em preparativos? Uma hora? Mais?
Conseguimos por fim ver as cabras desgrenhadas, sujas e remelentas. Até vos tirei algumas fotografias à laia de safari fotográfico. Ficaste fascinado e querias obviamente agarrar os bichos, atirar-te do colo da tua mãe para o lago e morder repuxos e relva. Contudo, se ver-te tão entusiasmado foi fantástico, voltar a casa foi um alívio. Temos as fotografias tremidas, desfocadas, desenquadradas mas também testemunho intemporal de ti com olhos esbugalhados para bichos que desconhecias, memória fixa de um bocado bem passado. A mim fica-me também este preâmbulo quase cómico de um fim de tarde de Agosto, em que ver as cabras se revelou uma aventura. Quem sabe seja esta a sensação de um qualquer Indiana Jones no momento do regresso...
9.8.04
Da passada quinta para sexta-feira mudámos-te de quarto. Saíste do nosso quarto para dormires agora no teu próprio. Aquele que, ainda antes de nasceres, pintámos, decorámos e, de certa forma, amamentámos como o teu espaço. Lembro-me das horas que lá passámos quando ainda eras apenas um novelo de vida no útero da tua mãe, imaginando as tuas reacções, a tua vida futura repleta de brincadeiras e pequenas actividades. Arquitectando espaços para as tuas roupas e brinquedos. Aqui fica o hipopótamo da roupa suja, além a cama, com o roupeiro deste lado para ficar um espaço amplo para espalhar bonecada. Horas. Olhando para a cama pronta que te esperava. Saboreando por antecipação o milagre de ti.
Sempre mantivemos a opinião de te mudar o mais cedo possível. Antes de te habituares demasiado ao nosso quarto, cheiro e presença. Antes mesmo de transformar a mudança num processo demasiado longo e penoso. Se, por um lado, nos diziam que pensávamos mudar-te demasiado cedo, por outro, ouvimos histórias arrepiantes, de bebés que se enraízam de tal forma na vivência dos pais num mesmo espaço a ponto de ser quase impossível a mudança. Não, para nós é-nos inconcebível manter-te no nosso próprio espaço mais tempo que o necessário, embora nunca possamos saber qual o momento certo para te mudar. Definimos assim uma data perfeitamente arbitrária – seis meses. Aos seis meses passarias para o teu espaço. E assim fizemos, aproveitando as minhas férias como salvaguarda para as noites que imaginámos difíceis.
Durante a tarde de quinta-feira, empurrámos e desviámos móveis, limpámos pós antigos, lavámos tudo o que tinha de estar limpo no teu cantinho desta casa, nesse espaço que te apresentei como teu quando no dia em que chegámos a esta casa vindos da maternidade. Contigo ao colo, mostrei-te toda a casa, explicando-te a função de cada uma das assoalhadas tal como o meu pai fez comigo trinta e dois anos antes, quando, pela primeira vez, transpuseram comigo a porta da rua. «Este é o teu quarto, filho», lembro-me. Foi assim que te mostrei aquele rectângulo de casa só teu.
Para a tua mãe, este, foi o pior momento. O momento em que percebeu que a vida não pára nunca, em que o tempo é uma mera ilusão, em que foi confrontada com a realidade do teu crescimento. Penso que, de uma certa forma, foi como se te estivéssemos a arrancar dos seus braços. Senti nitidamente que lhe custou imenso ver que o seu bebé estava a ficar-lhe mais longe no espaço, mais afastado do seu abraço, da sua atenção permanente, da sua área de protecção. Eu não senti nada disso, por estranho que me pareça, uma vez que sou tão sensível ao fluir do tempo e ao absurdo incompreensível de tudo isso. Era mais uma tarefa que tinha de ser feita. Ao mesmo tempo que era, talvez, um reposicionar da vida na sua ordem normal. O meu filho no seu quarto. O nosso quarto devolvido à nossa intimidade. O nosso espaço.
Só senti o verdadeiro embate da mudança nessa noite. Demorei muito tempo para conseguir adormecer. Mesmo com o intercomunicador ligado, atento a cada som, a cada pequena oscilação, senti que faltava qualquer coisa. Senti-te a ausência como um espaço vazio incómodo. Mesmo sabendo ali tão próximo, no quarto ao lado, a sensação de faltar qualquer coisa no nosso quarto foi tremenda. Foram horas até conseguir adormecer. Não deixa de ser irónica a transferência de sensações. Sempre pensei que sentiria o que a tua mãe sentiu da mesma forma como sempre a imaginei a não dormir na tua ausência.
E tu? Como eu disse à tua mãe, para nós, dormes no nosso quarto há seis meses. Para ti, tens dormido no nosso quarto toda a tua vida. Não se podia esperar que fosse uma adaptação fácil. Durante a primeira noite só adormeceste ao colo. Cada vez que acordaste foi um berreiro. Passámos a noite a caminho da tua cama para te embalar. Mesmo assim, acho que correu muito bem. O pior foi mesmo essa noite. Para cúmulo, e por motivos puramente estéticos, a tua mãe sugeriu posicionarmos a cama numa posição relativa oposta à que tinha no nosso quarto. Penso que isso tenha sido o pior. Sempre te surgimos de um lado, do lado para onde te virávamos ao dormir. Julgo ser muito complicado adaptares-te facilmente a uma mudança tão profunda. Quando, no dia seguinte, sugeri reposicionarmos a tua cama na mesma posição relativa que tinha no nosso quarto, tudo melhorou, embora tenha demorado alguns dias até te habituares ao teu novo espaço. Durante o dia só adormecias ao colo assim como acordavas sempre com uma sensação de pânico, quase abandono. Não deixa ainda de ser curioso ver como olhas para a porta do meu quarto cada vez que te levamos ao colo para a tua cama, como numa vaga esperança de regresso ao “teu” antigo espaço.
Agora, passados estes dias, já estás praticamente habituado. Noites e dias já passam como anteriormente. Nunca dormes de uma forma linear nem seguida mas, pelo menos, fá-lo de uma forma normal. Também já me habituei à tua distância. Tento compensar o vazio com um sentido de maior participação nos pequenos actos. Vou mais vezes dar-te a chupeta durante a noite. Faço questão de, todas as noites, acompanhar-vos, quando a tua mãe te deita, e digo «dorme bem, meu filho», beijando-te a testa como quem apaga a luz. Os sentimentos são mais incertos que aquilo que habitualmente supomos. Imaginava a tua mudança de quarto de muitas outras formas mas nunca assim, nem sequer pelos actos em si, mas por aquilo que eu próprio viesse a sentir. Contudo, sei que agora vives no teu próprio quarto, rodeado dos teus próprios objectos, imerso num sono que, mesmo irregular, depende única e exclusivamente de ti. Sobra-nos o resto do tempo. Compensa-me a alegria que transmites quando me aproximo da tua cama e te digo «bom dia!». E essa alegria é de tal forma pura e genuína que nenhuma palavra a poderá algum dia descrever.
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