Um ano de ti
Eu, tu, ele. Nós.
Um filho, pelos olhos do pai.
29.9.04
Cada dia que passa traz consigo uma novidade, aumenta o meu espanto de ti, o milagre absurdo de testemunhar a tua vida espreguiçar-se e pular um pouco mais. Hoje o teu jantar atrasou-se porque decidiste trocar completamente a rotina e adormecer quase à hora de acordares. Como só dormiste meia hora em todo o dia, a tua mãe fez-te a vontade e só te acordámos depois de jantarmos quando, apesar de tudo, a noite está feita e podemos finalmente sentir tudo mais devagar. Para mim foi óptimo este atraso, qualquer hipótese de te ver, de estar contigo é sempre um motivo de alegria.
A minha alegria aumentou ainda mais quando, ao sentarmos-te na tua cadeira, vimos um ponto branco na tua gengiva, um minúsculo ponto, ali, mesmo a meio do teu sorriso estremunhado. Nem queríamos acreditar. Mesmo contigo a reclamar, puxámos bochechas, queixo, nariz, tudo o que nos permitisse ver um pouco melhor, ter a certeza. Ao fim de algum tempo concluímos que o teu primeiro dente nasceu hoje para os olhos de todos nós. Ainda é só a pontinha mais tímida do dente, mas é inegável, bem no centro do teu maxilar inferior. Com atenção, reparámos que no mesmo sítio do maxilar superior, há já um prenúncio esbranquiçado, uma iminência de dente. Talvez esse segundo rompa amanhã.
Eu sei que tudo isto é perfeitamente natural, o mais natural que possa existir na vida, contudo, sinto-me pasmado pela perfeição dessa mesma vida, pela felicidade que é presenciar tudo isto, por tudo o que não consigo exprimir ao ver-te crescer. É perante todo este espanto que me esforço por registar este dia, exacto, preciso, inconfundível com todos os outros dias da tua vida. Isto não aconteceu ontem nem amanhã mas hoje, eternamente hoje. Sorrio ao pensar no quanto algo tão simples me faz sentir tão mais pai: hoje nasceu o teu primeiro dente.
28.9.04
A tua mãe tinha razão: já não paras quieto no andarilho. É um espectáculo ver-te correr a casa toda ao sabor da tua curiosidade naquela engenhoca “prodigiosa” que te dá tanta liberdade. Estava convencido que ainda tinha algum tempo para começar a arrumar CDs, DVDs e livros soltos por todos os cantos mas afinal, já começaste a indagar tudo o que consegues alcançar. Não são precisos mais que alguns segundos para os ouvir caírem-te das mãos ou descobrir-te calmamente a roer um filme ou livro.
Hoje de manhã, enquanto me preparava para sair, lá andaste atrás de mim a ver tudo o que fazia. Se ia à casa de banho, aparecias à porta, se voltava ao quarto, ali estavas a querer agarrar tudo e a rir para mim. Se há uma semana te sentávamos no andarilho e te aborrecia aquela imobilidade, agora já não tens qualquer dificuldade em rumar à direcção pretendida, ou em acertar com as portas. Estás verdadeiramente na fase da navegação à vista.
No fim-de-semana também tive oportunidade de te ver deitado, de barriga para baixo, a conseguires chegar aos objectos que te atraem. Ainda não gatinhas, o peso do traseiro ainda te deve parecer muito, contudo, arrastas-te eficazmente, parece que estás a nadar bruços, com destreza e rapidez. Não há dúvidas que descobres uma nova forma de liberdade. Sorridente e veloz, deitas mão a tudo, a tua curiosidade aumenta na proporção da amplitude dos teus “passeios” e da casa que, pelo menos por agora, se desdobra em novos mundos por explorar. E ris, ris tanto. A mim, nada mais me ocorre senão rir também, como se crescêssemos juntos. Quem sabe se não é mesmo isso que estamos a viver?
24.9.04
Tenho dificuldade em encontrar palavras que descrevam razoavelmente estas duas últimas semanas, especialmente a que termina hoje. É costume dizer-se “rei morto, rei posto” e foi com brevidade que o novo chefe assumiu funções. Se na primeira semana ainda conseguiu manter alguma cordialidade, esta semana está igual a ele mesmo, ou seja, intratável. E só o consigo caracterizar através de uma frase que ele mesmo proferiu há uns anos “vocês são todos uns egoístas, vão para casa, para os filhos, que eu fico cá a trabalhar”. Esta semana voltou a esse pensamento noutra tirada fantástica: tenho quarenta anos e não tenho filhos porque é preciso trabalhar. Assim, é-me de todo impossível descrever a pressão e a quantidade de trabalho destes últimos dias. Foi demais. Na verdade, hoje é sexta-feira e foi o primeiro dia desta semana em que consegui ver-te acordado – tivemos cinco minutos esta manhã, mesmo antes de ir para o emprego. Nos restantes dias as nossas agendas não permitiram encontrarmo-nos. Só me ocorre a palavra estupidez para descrever o facto de vivermos na mesma casa e eu não ter tempo para te ver, estupidez sobreviver neste ritmo, estupidez consentir continuar a relegar para segundo plano o mais importante na minha vida.
Muitas vezes, antes de tomares banho, consigo ver-te ao colo da tua mãe uns minutos pela webcam. Nunca é muito e o som não funciona mas é um momento revigorante, ver-vos aquele bocadinho, ao vivo e em directo, num cantinho do meu monitor enquanto estou fechado no escritório a terminar tudo o que não pode ficar para amanhã. É sempre hilariante ver-te agarrar tudo o que consegues alcançar, puxares, levares à boca. Por vezes, apanhas o fio da câmara e tudo se parece uma montanha russa enquanto a tua mãe tenta tirar-te a câmara das mãos ou da boca. Até já aprendi a escrever apressadamente e por antecipação umas mensagens de relato para aquele filme mudo. Riu-me por dentro enquanto te invento a conversa. “Dá cá a câmara! Eu quero comer a câmara já! E isto? O que é isto? Hum... já sei, vou comer isto!” E o isto podem ser todos os papeis ao teu alcance, o teclado, o rato ou as deliciosas canetas transviadas que rondam o teclado. Já aconteceu ficares com o ar mais cândido que se possa imaginar com o fio do rato na boca e o “roedor” balouçando à laia de pêndulo. Mas esta semana limitei-me a responder: agora não, desculpa, não tenho tempo. Todas as noites.
Em casa, não me atrevi a entrar no teu quarto enquanto dormes. Sou desajeitado, tenho os pés grandes e uma tendência enorme para pisar o que não devo, o único objecto que possa fazer barulho ou distribuir pontapés em tudo o que vá aparecendo no caminho e que não vejo às escuras. O meu momento de consolo nestas noites, tem sido encostar-me à ombreira da porta e ficar ali, às escuras, a ouvir-te respirar levemente na quietude da noite. E depois vou para a cama e espero que o sono chegue rápido para me aliviar de um cansaço enorme, esmagador e cada vez mais profundo. Nestas alturas apercebo-me como o cansaço parece uma raiz que alastra silenciosa e submersa dentro de mim. Ontem de manhã, enquanto conduzia para o emprego, os olhos começaram a encher-se de lágrimas sem que me apercebesse porquê, sem nenhuma razão aparente. Enquanto tentava conduzir com a visão enevoada só pensava “o que passa comigo? Mas o que se passa comigo?”. Foi assustador.
Pior que o cansaço, é saber o quanto perco de ti todos os dias. Tanto nas grandes como nas pequenas coisas. Há umas semanas que fazias dois sons (não são obviamente palavras nem conceitos) distintos: papapapa e mamamama. Neste momento, a tua mãe diz-me que só dizes “mamamama”. Respondi-lhe: é natural, não vê o pai. Mas isso é tudo menos natural! Qual a naturalidade de vivermos na mesma casa e não nos vermos? Segundo a tua mãe, ainda não gatinhas mas já te vais arrastando em direcção aos objectos que te interessam. Eu ainda não vi nada disso. Porque não estive cá. Mais: temos em casa um andarilho (ou voador, como diz a tua mãe, ou aranha como se dizia na minha infância) que nos emprestaram e onde, por desconfiança em relação a tal engenhoca, só te sentamos dez minutos de manhã e dez minutos de tarde – sempre sobre controlo atento. É claro que a semana passada te aborrecias porque “aquilo” não andava sozinho. Bem resmungavas, batias com a mão nos plásticos como quem diz “anda burro!” mas o “burro” não andava. Aparentemente, agora já andas de um lado para o outro (embora de lado) pelo teu próprio pé. Todos esses pequenos primeiros momentos, perdidos, porque estava fechado num escritório a trabalhar até à exaustão, até ao momento em que o cérebro vê muitas vezes a mesma frase mas já não a lê, até a folha de cálculo parecer uma vedação e até o processador de texto não passar de uma guilhotina.
É praticamente meia-noite de sexta-feira. Dormes. Estou derreado e sei que não conseguirei adormecer tão cedo. Não faz qualquer sentido mas sinto-me cansado demais para conseguir adormecer. Tenho, contudo, uma esperança. Este fim-de-semana vou estar contigo, ver-te, tocar-te, sorrir dos teus avanços e gracinhas novas, rir das caretas que fazes perante os teus insucessos. E, acima de tudo, saborear tanto quanto consiga o ser teu pai e estar a teu lado nessa felicidade.
15.9.04
Há muitos anos atrás ouvi uma história que me foi relatada como verdadeira e que fixei pelo contraste entre os filhos na sua irreverência típica e os pais na sua eterna canseira dessa irreverência e preocupação constante. Aparentemente, o herói desta história foi sempre um traquina. Marcava todos os seus dias com mais uma travessura que deixava os pais exasperados. A mãe, de nervos em franja, dizia-lhe: tu não mereces nem o leite que mamaste! Passaram anos nisto. Mais tarde, na adolescência, quando só via à sua frente o caminho da guerra ultramarina ou uma vida sem futuro no campo, optou pelo “salto” para França. Escolheu a viagem clandestina, as privações, as hostilidades de um país e idioma desconhecidos, o trabalho brutal, sem qualquer segurança ou condições condignas. Contudo, devido àquelas estranhas coincidências e ocorrências de que se faz uma vida, tudo lhe correu bem, muito melhor do que alguma vez correria se não optasse por aquele salto na noite mais fria da alma. Naquela época não se ligava para casa, não se faziam férias de verão, uma carta muito ocasional era tudo o que mantinha unida uma família e, durante muitos anos, foi tudo o que os lembrou da existência uns dos outros. Muitos anos mais tarde, quando tirou férias pela primeira vez, chegou a casa dos pais de noite, muito tarde, de uma forma tão inesperada como a que viu partir. Quando a mãe, estremunhada de sono e embrulhada num xaile, lhe abriu a porta, ele diz-lhe: minha mãe, diga-me lá quantos litros de leite lhe bebi que eu pago-lhos já todos!
Os meus pais nunca chegaram tão longe nas “críticas” às minhas travessuras. A época foi diferente, ou então fui eu, ou eles, que nos portámos de forma diferente, ou que entendemos de outra maneira todas as recomendações que invariavelmente ignorei, todos os momentos que os preocupei para além do razoável. Mas a minha mãe ainda hoje diz: um filho tira-nos anos de vida! Claro que nunca percebi completamente esta ideia. E claro que as minhas reacções mudaram muito ao longo da vida. Desde uma infância em que me sentia magoado com essa frase, passando pela adolescência em que disparava um ofensivo “eu não pedi para nascer”, até à idade adulta em que comecei a aceitar aquela ideia com um sorriso nostálgico de muitas, imensas, traquinices que resvalam na memória como água. Agora entendo perfeitamente todo o conceito.
Ontem foste para o hospital. Agora que o escrevo, já não me parece nada de mais, mas ontem, quando a tua mãe me liga para o telemóvel, a chorar contigo por trás a gritar a plenos pulmões, e me diz que caíste, que te magoaste, que não paras de chorar com dores, e quando eu disparo uma série de perguntas e não consigo entender as respostas ou sequer o que ela dizia, pois só dizia “ele caiu e a culpa foi minha! E agora? Ele magoou-se!”, aí pareceu-me que o mundo me fugia debaixo dos pés. O que me conheço de mim já me demonstrou várias vezes que, nestes momentos, mantenho uma frieza implacável para fora e sofro tudo para dentro. Calculei quanto tempo precisaria para chegar a casa, o trânsito que iria encontrar, o melhor caminho. Lembrei-me que os meus sogros vivem mais próximos. Telefono-lhes: vão com ele para o hospital. Falo outra com a tua mãe. Pergunto ao certo o que se passa. Ela chora. Estavas deitado na nossa cama e rebolaste enquanto ela foi ao teu quarto buscar fraldas. Caíste da cama, de barriga para baixo, bateste com a cara no chão. Tens um galo na testa e o nariz esfolado. Mas há sangue? Não, não há. E tu choras desalmadamente. Tento acalmar a tua mãe para que ela te acalme. Não funciona. Continuo a trabalhar enquanto os teus avós correm para nossa casa. Por dentro o mundo retorce-se e gira, é um turbilhão. Comento casualmente o que se passa e rapidamente me falam na linha de apoio telefónico “dói dói trim trim”. Ligo à tua mãe e dou-lhe o número de telefone. Liga já! E continuo às voltas com tudo o que tenho para fazer, pensando que, de um momento para o outro, poderei ter de sair disparado para o hospital e, a acontecer, será o fim do mundo. Quando uns minutos mais tarde a tua mãe liga, diz-me que aparentemente não há nada de errado. Em todo o caso, insisto numa radiografia à cabeça. E lá vão vocês para o hospital. Por fora sou calma, por dentro tremo.
Quando saio do emprego, às nove e tal, estás a chegar a casa. Aparentemente está tudo bem mas temos de te observar durante vinte e quatro horas, procurar os sintomas típicos: sonolência, vómitos, comportamentos pouco habituais, a visão. A tua mãe diz-me que bolçaste. Mas bolçar não é vomitar, pois não? Claro que não consigo manter muito mais tempo a calma aparente, a ilusão de controlar o que não é controlável. No caminho espremo completamente o carro, muito para lá do razoável mas quero ver-te, tocar-te, sentir-te bem. Quando chego a casa já estás deitado. Jantamos, cansados, desmoronados. A tua mãe continua a culpabilizar-se, chora. E se alguma coisa não fica bem, pergunta. Tento tranquilizá-la. Está de rastos. Eu não me sinto melhor mas digo-lhe que vá dormir que eu fico na sala, de plantão. Assim fazemos.
É quando estou deitado no sofá, a tentar ler qualquer coisa, que as dúvidas se tornam piores, mais agudas e implacáveis. Interrompo a leitura a cinco minutos. Deves estar com dores no corpo, cada vez que te viras na cama acordas a chorar. Só podem ser dores, o que é natural, mesmo não tendo nada, pelo menos o sentires o corpo dorido ninguém te tira. Para mim é uma aflição. Depois, fico ali, com o livro nas mãos sem conseguir concentrar-me. Olho para o teu chapéu azul de ganga, enrolado em cima da mesa e fico a pensar se alguma coisa não corre bem. É uma dor tão grande e tão profunda que me parece uma pequena morte antecipada. E se? Ao mesmo tempo refuto-me: qual se?! Não há se nenhum! Tudo está bem! Nada poderá em tempo algum correr mal contigo! É angustiante, tremendo, questionar, por um segundo que seja, o mundo sem ti, ou contigo mas mal. Não há se! Fico ali muito tempo, a olhar para o boné e a sofrer, só na solidão da noite me permito sentir tudo o que empurrei para longe do meu pensamento durante a tarde. Cada vez que acordas corro para o teu quarto. Numa das vezes escorrego e quase caio pelo caminho, mas nada disso tem importância. Quando chego ao pé da tua cama, toco-te, observo-te com uma atenção cirúrgica. Passamos a noite nisto. Uma noite longa, imensa, branca.
Hoje de manhã, acordaste bem disposto. Tal como é habitual, puxas-me o nariz, o cabelo, especialmente aquela madeixa mais grisalha que me cresce bem no alto da testa e à qual achas tanta piada. Rimos todos numa felicidade que nunca te saberemos explicar. O mais complicado passou. Tudo está bem contigo e isso é uma felicidade bem maior que mil alvoradas juntas. Agora entendo bem quando os filhos nos tiram anos de vida, ou quando “não merecem nem o leite que mamam”. É um amor que nos faz morrer por dentro nestas aflições e nem sequer levamos isso a mal. Nestes momentos, é um sofrimento indescritível mas, quando passa, tudo está bem, sorrimos, beijamo-nos e seguimos em frente. Penso, com alguma pena, coitados dos meus pais, o que passaram comigo! E o pior, é saber que esta “fase” das nossas vidas, ainda só está a começar.
7.9.04
Especificações técnicas:
Peso: 9370gr. Estatura: 72cm. P.Cef: 44,6cm.
5.9.04
O meu chefe morreu esta madrugada. Não era muito mais velho que eu. Deixa uma única filha da qual não chegou sequer a ver o segundo aniversário. A combinação foi fulminante: stress, tabaco e café. A mesma que uso diariamente. Não consigo deixar de pensar como tudo isto é uma estupidez indescritível. Matamo-nos a trabalhar ou por outros motivos perfeitamente insignificantes e a vida acaba de um momento para o outro, sem aviso, sem negociação, sem uma segunda hipótese, sem que a cheguemos a viver por completo. Nunca te beijei tanto como hoje. Nunca pensei que, a cada momento, corro o risco de nunca te levar à escola pela primeira vez, de não jogar contigo à bola ou irmos ao cinema juntos, de não te aconselhar, melhor ou pior e não te ver crescer. Corro o risco de não te celebrar todos os inúmeros aniversários onde farei diferença, de não te ver casar e de nunca poder pegar num filho teu ao colo. É demasiado triste imaginar-te um futuro sem mim. Pode ser egoísmo pensar assim mas não o consigo evitar. Imaginamos sempre que a morte só acontece aos outros, que passa perto de nós sem nunca nos tocar que, de alguma forma, nos esquivaremos eternamente. Por muito que saiba que não é assim, continuo a imaginar-me sempre no teu futuro. Imagino que quando morrer já não te farei assim tanta falta e terei uma boa fatia da tua vida, desta nossa vida que vamos construindo e partilhando. Tudo isto obriga-me a pensar no que posso e no que não posso fazer para viver um pouco mais de ti. Afinal, ando a matar-me para quê? Feitas as contas, o que é realmente importante? De um momento para o outro, tudo se acaba, e afinal, se sabemos para onde todos corremos, porque continuamos a correr?
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