Um ano de ti

Eu, tu, ele. Nós. Um filho, pelos olhos do pai.

Lilypie Baby Days

31.10.04

Nove meses. Já passaste tanto tempo “cá fora” como aninhado no ventre da tua mãe. Nove meses de gravidez. Nove meses de vida. Diz-me: está a valer a pena? Agarro em ti, olho-te. Procuro nesses olhos enormes uma resposta, um sinal, qualquer coisa que me diga que estamos no caminho certo. Sei que procuro algo que requer quase uma vida inteira para ser formulado. Procuro demasiado.
Sei apenas que, todos os dias, cresces um pouco mais, aproximas-te um pouco mais de ti, de quem realmente serás um dia, do teu verdadeiro eu. Apenas te consigo dizer que, cada dia contigo na minha vida me aumenta a certeza que a minha vida está a valer a pena. Mesmo com todas as minhas faltas e limitações. Mesmo quando aos fins-de-semana divido mal os tempos entre ti, a tua mãe e o jogo de computador onde, de há umas semanas para cá, me esqueço de mim. Mesmo quando continuo a fazer as mesmas perguntas parvas (onde estão as toalhas do Gordo? onde sempre estiveram desde que ele nasceu!) e quando nem sei muito bem como interagir contigo. Mesmo quando tudo o que me apetece é olhar para ti e não dizer nada, não fazer nada, olhar-te apenas, como se te procurasse bem no fundo de ti.
Se alguém me perguntar o que te fascina, não sei. Qual a tua fruta preferida, não sei. Se gostas de vitela com legumes, não sei. Sei tão pouco sobre ti. Pais e mães perfeitos não existem mas estou ciente que ainda é muito longo o meu percurso, que ainda não aprendi nada, que estou aquém das minhas próprias expectativas como pai. Contudo, também sei que a minha vida sem ti já não faria qualquer sentido. E para ti, está a valer a pena?
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21.10.04

Passo dois dias fora. Faço das tripas coração para chegar mais cedo a casa. Às cinco da tarde bato à porta. A tua mãe abre contigo ao colo. Estou doido de saudades. Sorris imenso. Pai babado. Só que não é para mim, é para a porta. Não desisto facilmente e meto-me à tua frente. Desvias-te. Eu não interesso nada. O que importa são aqueles efeitos tão giros no lado de fora da porta da rua. Mesmo ao colo da tua mãe dás saltinhos e esticões, tens de mexer naqueles relevos fascinantes! Pai destroçado. Isto foi ontem.
Hoje, sem mais nem menos, só tens olhos para mim. Pedes o meu colo. Puxas-me nariz, cabelo e óculos. Palras para mim. Até te manténs meigo quando te faço festas no cabelo. E ris! Não há pai que aguente.
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4.10.04

A tua mãe faz hoje 29 anos. É estranho escrever-te assim, a partir deste momento presente. Que idade terá ela, ou eu, quando leres estas linhas? Possivelmente, nessa altura seremos aos teus olhos criaturas totalmente diferentes. A não ser quando se é pai ou mãe muito jovem, a consciência dos «pais» chega sempre numa idade em que eles já são “velhos”. Alguma vez te ocorrerá que já fomos realmente jovens? Quando tiveres a minha actual idade, eu terei (se ainda andar por cá) 64 anos. Nessa altura, quando olhares para nós, o que verás? Imaginarás que os nossos corpos já foram elegantes e firmes? Que as rugas nem sempre estiveram lá e existimos numa era pré reumático?
Recordo uma noite de verão, na minha infância, em que passeava à noite com os meus pais e irmão. No calor suspenso da minha memória descíamos a pé a avenida. Não havia muito mais para fazer a não ser dar a “voltinha” ao quarteirão. Já não recordo com clareza a fisionomia dos meus pais, mas lembro-me nitidamente de andar pela mão do meu pai enquanto o meu irmão seguia pela mão da minha mãe. A dada altura o meu pai começou a ficar para trás. Perguntei-lhe porquê. Para olhar para a tua mãe, respondeu-me. A minha mãe seguia meia dúzia de passos à nossa frente como uma alta ânfora, delicadamente equilibrada no cimo dos sapatos de salto. Imagino-a vestida de preto. Só agora, quando recordo este fragmento já tão longe na minha existência, entendo melhor o passar da vida por nós, ou nós por ela. Cada vez que olho para os meus pais (já tão velhinhos) só vejo o problema do joelho do meu pai, o cabelo e bigode grisalhíssimos, o esforço a subir as escadas. Da minha mãe há a coluna que não lhe dá descanso, as rugas que lhe enfeitam os olhos e cara, a elegância apagada. Não dá para imaginar que foram jovens, que se apaixonaram, cuja única razão de ser na vida não tenha sido sempre a de pais e, acima de tudo, que eu e o meu irmão tenhamos surgido do amor entre eles. A idade torna os pais tão assépticos aos olhos dos filhos.
Hoje a tua mãe faz 29 anos. Quando começares a chamá-la por palavras, será natural que passe a ser A Mãe. Eu também deixarei de ter nome, passarei a ser O Pai. Aos poucos, ficaremos assexuados, reduzidos aos nossos papéis de protectores, às identidades que os filhos nos trazem na eterna cadeia da raça humana. Quando um dia pensares nisto, a Mãe será sempre quem tratou de ti, quem se levantou de noite todas as vezes que choraste, quem te lavou, quem te alimentou, quem te fez festinhas mesmo quando não tens feitio para meiguices (pelo menos por agora). Quem te deu todo o amor do mundo, e acredita que é mesmo todo, ao ponto de não sobrar nenhum para ela mesma, nem, muitas vezes, tempo para comer ou para dormir. E ainda assim terá sempre um sorriso único, especial e que talvez chegues mesmo a achar enigmático sem perceberes porquê. Ao longo da tua vida, quase esquecerás que ela tem um nome só dela e recordá-la-ás sempre pela missão que decidiu desempenhar – sim, tu não pediste para nascer, nem és um acaso, um acidente, ou um erro, és o fruto do amor entre duas pessoas que querem muito. E ser tua mãe é uma missão que ela executa de uma forma fantástica, como só uma mulher fantástica consegue. Mas hoje, só por hoje, deixa-me avançá-la uns passos à frente da minha imaginação desvairada, deixa-me suspendê-la assim no eterno, sem antes nem depois como se o tempo nada mais fosse que um dos teus brinquedos coloridos, e olhar para ela, apenas isso, saboreá-la em todo o seu corpo tão vestido de mulher. Apenas isso. Enquanto somos novos. Enquanto o depois ainda não chegou.
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1.10.04

Especificações técnicas:
Peso: 9730gr. Estatura: 73,8cm. P.Cef: 45cm.
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