Um ano de ti

Eu, tu, ele. Nós. Um filho, pelos olhos do pai.

Lilypie Baby Days

30.11.04

Às quatro e tal da manhã, os cinco minutos que um biberão demora a aquecer parecem horas. Quando estamos a dormir profundamente depois de um tempo indefinido de insónias. Quando sentimos o frio rondar-nos a pele mal destapamos cara e orelhas. Quando estala o grito no silêncio e estamos demasiado estremunhados para perceber o que se passa, a não o facto de estares a gritar. Quando saímos da cama em tropeções, ainda a dormir, a sentir o momento mais frio da noite.
Depois a tua mãe fica contigo ao colo enquanto eu vou preparar o biberão. Vocês mantêm uma ligação invisível que me exclui durante a noite. De mim não aceitas o biberão de noite. Nos meus braços não adormeces, choras. É certo que não tentei muitas vezes, apenas as suficientes para saber que não gostas e, o sono faz-nos optar pelas soluções mais práticas. A tua mãe abraça-te, tira-te da cama, embala-te e numa sabedoria que só as mães sabem ter, diz-me que é fome, que vá preparar-te um leitinho. O tempo, à medida que passa por nós, torna-te mais fácil, mais compreensível, mais adaptado a nós ou possivelmente nós muito mais adaptados a ti. Sinto-te cada vez mais fácil, mais simples. Custa-me cada vez menos. Faz parte da aprendizagem, creio.
Aos encontrões a paredes, esquinas e ombreiras de portas, descubro o caminho para a cozinha. Tiro um biberão do esterilizador, encho com água, oito colheres de leite em pó, aqueço durante cinco intermináveis minutos. Testo no pulso. Está bom. Levo-vos o leite. Cego pela transição da claridade para a escuridão mal vos consigo ver. Eu e tua mãe trocamos gestos secos, rápidos, uma vez mais, baseados na optimização da rotina, do destilar da comunicação até ao eminentemente prático. O mínimo. Como quando cheguei a casa já dormias, ainda não te tinha visto. Faço-te uma festa rápida nos cabelos enquanto a tua mãe troca rapidamente a chupeta pela tetina morna do biberão. Saio o mais silenciosamente que consigo, mesmo assim ainda bato com o ombro no roupeiro. Felizmente era mesmo fome e não ligas.
Volto à cozinha, à janela, onde fumo um cigarro a tremer com o frio da noite. Com isto são cinco da manhã. Toda a vizinhança fechada na sua própria tranquilidade. Os carros estacionados, as ruas desertas, um céu enevoado e baixo de nuvens. Muito frio. E o calor do cigarro a arder-me entre dedos. Depois volto para a cama, onde ainda repousa o meu calor. Onde me sinto descongelar. Onde fico deitado de barriga para cima a ouvir-te sugar o leite do biberão. Poucos minutos depois a tua mãe deita-se a meu lado. Bebeste quase tudo, diz-me. E em pouco tempo, o silêncio preenche novamente todo o espaço, o calor abraça-nos, e finalmente, o sono deita-se connosco e as horas passam breves até que a madrugada se desvaneça na manhã de um novo dia.
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28.11.04

Por vezes, passear-te é muito semelhante a passear um Rottweiler. Com toda a tua vontade, energia e vivacidade, e mesmo não andando sozinho, sendo nós a apoiar-te o corpo enquanto vais ensaiando os teus passos, acabamos por correr, por suar, atrás de ti. Ainda hoje tivemos mais uma prova disso mesmo. Fomos à Baby Feira Mix.
Assim que sentiste os pés no chão, não paraste mais. Numa cabana em madeira para as crianças brincaram, quiseste entrar pela janela. Sem que ninguém te convidasse, gritaste lá para dentro, dirigiste-te às crianças que brincavam lá dentro, ainda puxaste os cabelos a uma rapariga, enquanto rias e os teus olhos brilhavam de contentamento, enquanto batias com a mão na madeira, enquanto inclinavas todo o corpo para entrares pela janela e juntares-te às outras crianças. Quando a rapariga a quem puxaste o cabelo saiu da cabana, quiseste ir atrás. Muito mais velha que tu, acabou por fugir de ti. Eu com as costas a doerem, da posição incómoda de estar dobrado a meio para te segurar por baixo dos braços, e tu, feliz, contente, inebriado com tantas cores, bonecos, crianças, vida à tua volta. Quando precisei de descansar um pouco, sentámo-nos numa mesa para criança, com papéis brancos e lápis de cor. Quiseste comer todo o arco-íris que se espalhava sobre o tampo. Ao teu lado estava a uma criança a pintar. Cada vez que ela escolhia um lápis tu roubavas-lho. Depois a menina dizia muito baixinho que estava a precisar daquela cor e eu devolvia o lápis que entretanto tentavas abocanhar. Ao mesmo tempo que o suor me escorria pelas costas e tu tentavas mergulhar numa gigantesca caixa de Lego, senti-me deslumbrado pela tua alegria, pela tua voracidade em tudo ver e em tudo mexer. Não paravas, simplesmente não paravas. Lanchaste de pé, aos pulinhos sobre as minhas pernas, enquanto a tua mãe tentava acertar-te com a colher na boca o melhor que conseguia. Ainda correste a feira inteira pelos teus pés, rindo, sorrindo e chamando a atenção de quem vias por onde passámos. Como sempre, imparável, na facilidade com que te “metes” com adultos e crianças, no fascínio com que exploraste o espaço, no rigor com que tocavas todos os objectos que te interessavam, o tempo que os apertavas entre o indicador e o polegar.
Quando saímos, chovia. Deixámos o carro a duas ruas de distância. Carreguei-te ao colo. Foram duas ruas que atravessámos deslumbrados, eu contigo, e tu com a chuva. Olhavas para o céu, abrias e fechavas as mãos como se pudesses agarrar as gotas grossas e esparsas que tombavam sobre a cidade cinzenta na tarde deste domingo. No caminho, adormeceste na cadeira do carro de que tanto gostas. Foi a primeira vez que adormeceste sem birras, sem reclamares pela tua cama. Eu e a tua mãe trocámos um sorriso quando te vimos de braços abertos, as palmas das mãos abertas, viradas para cima. E os olhos fechados num sono sereno. Quando parámos à porta de casa, desliguei o carro e ficámos ali os três, eu de mão dada com a tua mãe. A tarde anoitecia-se por fim. Apenas ouvíamos a chuva a estalar sobre o carro. E tu pacífico, a dormir.
Estás a crescer. E eu maravilhado em testemunhar-te essa vida.
|| 23:00 ||

27.11.04

O fascínio obsessivo do pormenor. Sempre. É mais forte que tu. O que te interessa é o detalhe, a insignificância, o que mais ninguém vê. Ao mesmo tempo, a alegria e o prazer nas pequenas coisas. Olho para uma porta e penso que é apenas uma porta. É uma miopia da idade adulta – fechamos os olhos da percepção, tomamos tudo por compreendido e adquirido. Se viajasse a um lugar desconhecido, olharia para cada detalhe, agora no dia a dia, acabamos por viver cegos do que nos rodeia habitualmente. Esqueço-me que, para ti, este é um mundo excepcionalmente novo, pleno, denso com todas as coisas. Não vês uma porta, uma gaveta, um qualquer objecto como eu. Não consigo evitar o riso que me provocas ao ver-te fascinado com qualquer coisa que te desperte a atenção, especialmente tudo o que é pequeno, minúsculo.
As portas fascinam-te indescritivelmente. Não são os veios da madeira, ou as cores, ou os puxadores – é algo para além de tudo isso, algo que não consigo ver ou entender. Passas imenso tempo diante de qualquer porta, tocando, batendo, abrindo e fechando até entalares os dedos. Quanto maior for o barulho, maior o teu riso, o teu gozo inexplicável. Uma migalha de pão, uma etiqueta de um boneco ou de uma peça de roupa, qualquer objecto. Brincas, tempo e tempo, com prazer, com risos, com uma satisfação enternecedora. Sinto-me rendido em todos esses momentos, quando te vejo perseguir uma migalhita de pão que insiste em escapar-te entre os dedos, quando ficas muito sereno a revirar um boneco para lhe apanhares a etiqueta, que depois miras, observas, e voltas a ver. São três fases distintas. Começas pelo toque, é por aí que um objecto tem de te cativar segundo uma métrica que só tu conheces. Depois de virares e observares de todos os ângulos, abanas. Fazer barulho, qualquer que seja, é bom, pontua na tua consideração. Passadas essas duas fases: boca. É aí que intervimos. É aí que ora fazes birra, ora testas a persistência aos limites. E também já sabes o que é «não», de preferência dito por mim, num tom autoritário que não é nada meu, que me faz virar a cara para o lado e sorrir. É nesse exacto instante que paras, olhas para mim, vês e ouves-me dizer a palavra «não» e depois, logo a seguir, e sem desviares os olhos dos meus, boca. Já sabes perfeitamente. E és teimoso e persistente. Quando estou com o tempo e paciência suficientes, ficamos ali imenso tempo num ciclo infinito, tentas abocanhar, eu digo que não e impeço-te, paras, volta tudo ao início. Geralmente ganhas, ou seja, eu perco a paciência e tiro-te das mãos o objecto da disputa. Se formos rápidos a distrair-te, não há birra. Quando não somos, temos choro durante um bocadinho. Mas também não és muito insistente, rapidamente arranjas outro objecto qualquer para o teu fascínio e tudo volta à estaca zero.
Também já sabes ser sorrateiro, quase discreto, como esta tarde, em que tivemos a visita do Rafael, que é pouco mais novo que tu. Não gostas muito de contacto corpo a corpo, isso já nos apercebemos. Agarrarem-te, darem-te beijos ou acariciarem-te não te agrada, evitas. Mas não estranhas o colo de quem não conheces ou a quem não estejas habituado. Também não te importas de brincar e interagir com outras crianças. Também não me parece que sejas ciumento por nos veres com outras crianças ao colo, ou possessivo para com os teus brinquedos. Deu para experimentarmos tudo isso com o Rafael e com os pais. Eles pegaram em ti, nós pegámos nele, sentámo-vos juntos e não houve o mais pequeno problema. Felizmente não estranhas. Mesmo quando fomos a casa deles, não tiveste o mais pequeno problema em quereres agarrar a cadelita pequena que lá têm – e que muito mais sensatamente, fugiu de ti. Da mesma forma em como hoje tu e o Rafael brincaram com os mesmos brinquedos, numa abordagem de “ora te tiro o brinquedo, ora mo tiras a mim”. Por isso, por todo o à-vontade, ninguém reparou quando sorrateiramente, puxaste a peúga do Rafael por baixo do tabuleiro da tua cadeira e ficaste muito sereno, discreto, até, de ar sorridente e peúga em punho. Até o Rafael demorou algum tempo a reparar, olhando horrorizado para os pés e vendo um dentro da peuguita quentinha, e o outro ao frio, com os dedinhos a esfregarem um no outro. Tu, calmíssimo, um exemplo de serenidade e fascínio, por todos os pormenores.
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23.11.04

Um pai. Um filho. E uma tristeza enorme pelo meio. Foi assim que me senti hoje quando saíste com a tua mãe. Habitualmente eu saio primeiro e são vocês a levar-me à porta. Hoje foi ao contrário. Eu de roupão. Eu ainda remeloso. Eu mal acordado a ver-vos esperar pelo elevador, os dois a olharem para mim. Tu sentado no teu carrinho, com um casaco e capuz que te fazem ainda mais redondinho, o meu gordinho. A tua mãe atrás. Fiquei ali, à porta, a olhar para vocês e a ser olhado de volta. Aqueles segundos pareceram-me eternos, intransponíveis, imensos. Apesar de tudo estar bem, apesar de ser um dia apenas ligeiramente diferente por vocês saírem antes de mim, apesar de tudo, uma tristeza enorme dentro de mim, uma sensação de perda, uma vontade doida de vos agarrar e pedir que fiquemos os três em casa, juntos, só mais um bocadinho, só para te fazer festas, para vermos juntos os desenhos animados, para te deixar puxar e amarrotar as fotografias que temos penduradas no frigorífico, ou arrancares o aspirador do suporte da parede, ou derrubares todos os DVDs alinhados no móvel da televisão. Mas tu estavas calmíssimo, tão estranhamente sereno. Olhavas para mim. E que verias tu em mim? Verias a tristeza que sentia sem saber explicar? Fiquem só mais um bocadinho. Hoje, fiquem só mais um bocadinho, assim, os três juntos.
Depois, entraram no elevador. Trocamos um adeus a que ainda não sabes ou não queres responder. Gestos rápidos. Cruzados num instante suspenso da pressa da manhã. Depois, a vida arrancou novamente e só ficou uma vaga sensação de tristeza. Até à noite, quando cheguei, tarde como sempre, mas com muitas, muitas saudades.
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15.11.04

Preencho uns papéis simples. Nada de extraordinário. Como de costume, deixo andar até ao último dia do prazo. Mesmo no último dia, guardo para a noite, para quando já dormes, quando me sento na sala com uma luz fraquinha e aí apenas escuto o silêncio que desce sobre a casa. Junto os papéis à minha volto, uso um livro do Astérix como secretária. Vou preenchendo. Quando finalmente chego ao último formulário, deparo-me com a frase “beneficiários em caso de morte”. Preencho na primeira linha o nome da tua mãe, a data de nascimento e o deselegante termo “esposa”. Digo deselegante porque afinal trata-se da mulher com quem decidi passar todos os dias da minha vida, a pessoa para quem tenho de estar sempre, a pessoa a quem disse que sim na “saúde e na doença”, no bom e no mau, nos dias de felicidade e no dia de tristeza. É uma pessoa de tal forma única e especial que do nosso amor surgiste tu, meu filho – também tu único e especial em todas as formas possíveis. E para mim, o termo esposa é longínquo, distante, impessoal – em última análise, o amor formalizado no seu oposto. Na linha imediatamente abaixo, preencho o teu nome, a tua data de nascimento, o grau de parentesco: filho. Começo por estranhar ver-te assim preenchido num formulário insípido. Os teus dados – filho. És sempre tão mais que apenas um nome, uma data de nascimento e um parentesco que me faz confusão a redução de ti a uma entrada num formulário. Como podes ser tão pouco no papel?
Entretanto, a tua mãe termina a sua higiene nocturna e vem aninhar-se no sofá, ao meu lado.
- Então? Já preencheste tudo?
- Estou no fim.
- E isso é o quê? – Pergunta.
- Isto é um papel a dizer que, se eu morrer, vocês recebem uma ninharia.
Ela lê o papel com atenção. Vê o teu nome lá gravado. Também a ela faz confusão. Diz-me que precisas de um pai, sempre. Que se torna estranho, tão estranho, preparar assim a eventualidade da minha morte. Entendo-a perfeitamente. É confuso viver a vida preparando-nos sempre para a morte, uma morte que, simultaneamente, julgamos impossível, demasiado distante, absurda. A tua mãe não chora mas fica com aquele brilho de comoção no olhar que lhe conheço tão bem. É a primeira vez que te formalizo num papel como meu “herdeiro”. Mas há tanto que te quero dar, tanto para além de ninharias materiais. Há uma educação, uma forma correcta e justa de estares na vida, tomares sempre as tuas opções mas saberes tomá-las sempre com uma boa consciência. Há momentos, momentos que terão certamente um fim que desejo adiar ao máximo, tantos momentos ainda que quero viver com vocês. A vida, quando espremida a tudo o que se resume, deixa-nos apenas uma desordenação de momentos, bons e maus, mas todos eles vividos, batalhados, sofridos ou amados. Momentos. No fundo, como registo este momento em que, reduzindo-vos ao ridículo de uma linha num papel, me lembra o quanto preciso de vos viver mais e mais. E ainda mais.
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14.11.04

Hoje montámos a nossa árvore de Natal. Eu não sou de grandes festas nem comemorações mas a tua mãe é. Há imenso tempo que perguntava quando preparávamos a casa para o Natal. Ainda consegui adiar a decoração festiva por alguns fins-de-semana, mas de hoje já não deu para passar. Depois de minutos enfiados na dispensa, surgiram luzes coloridas, bolas imensamente vermelhas e de vários tamanhos, a estrela que brilha no topo e a árvore – ou a capoeira das galinhas, como dizem os nossos amigos e familiares. Tenho uma estima doida por aquela árvore, até porque pode ser tudo menos uma árvore. Trata-se de um imenso cone em arame que vi numa montra, ainda não tínhamos casado sequer. Mas decidi que aquele cone desmontável em três segmentos era a «árvore de natal» perfeita. Foi num sábado de manhã em que tive de ir trabalhar. A tua mãe estava na nossa casa em arrumações e quando lá cheguei delirou com a compra. Desde aí que todos os anos montamos a gaiola com pompa e circunstância. Não há presépio. Limitamo-nos à capoeira, às luzes coloridas e às bolas vermelhas. Depois, à medida que o Natal se aproxima, os embrulhos amontoam-se junto à “árvore” numa verdadeira escala de proximidade natalícia. As únicas prendas que não se juntam a esse molho, são as que ofereço à tua mãe. Essas têm de ser escondidas fora de casa até ao último minuto. Ela tem um olfacto certeiro para tudo o que lhe cheire a prenda e, sem este método, é impossível surpreendê-la.
Este ano, para além da habitual alegria de montar o palco natalício, há ainda a adicional de ser o teu primeiro Natal “cá fora”, a ver, tocar e ouvir a magia ou o apelo consumista da época. Decidimos montar tudo contigo presente, sentado na tua espreguiçadeira. Eu montei a estrutura de fazer inveja a quaisquer torres Watts, depois de destrinçar arames, endireitar encaixes, garantir um mínimo de estabilidade. A engenharia do processo fascinou-te. Mas nada te fascinou tanto como as bolas vermelhas carnudas que a tua mãe pendurou, nem, especialmente, as luzes coloridas. Quando, no final da obra, te satisfizemos o desejo há tanto patente de mexeres na árvore, foi o delírio! Puxaste arames, mordeste as luzes arrancaste uma bola e se fosse o trabalho conjunto entre mim e a mãe, terias conseguido derrubar toda a imensa capoeira das galinhas! Ainda me pergunto (pergunta parva, claro) como é que um anjinho de nove meses e meio tem tanta força e energia. Mas a tua mãe já decorou a minha resposta “oficial” para as tantas pequenas coisas que fazes e nos surpreendem: ele é um bebé, não um parvo. Agora não podemos ter as luzes acesas contigo por perto. Este ano, o Natal promete...
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13.11.04

Detesto papéis. Sempre detestei. Tudo o que envolva classificar, arquivar, guardar deixa-me numa profunda neura. Na maioria dos lares, é o homem que “trata” de tudo o que são papéis, facturas, declarações de IRS e afins. Na nossa casa esse papel é, felizmente, desempenhado pela tua mãe. Se não fosse a paciência diligente com que separa tudo, classifica, arquiva e arruma, possivelmente não entregaria as inúmeras declarações, certificados e outras burocracias com que se preenche e documenta uma vida. Algumas coisas, muito simples, estão ao meu encargo: abrir a correspondência; arrumar o cesto onde, todas as noites, despejo os bolsos. Coisas que, na linguagem própria da tua mãe, até um homem consegue fazer. O que é certo é que já aconteceu correr tudo à procura de contas que ficaram por pagar porque me esqueci de separar as cartas, ou um dos cheques do teu abono que ficou por receber porque não cheguei a abrir o envelope durante o mês e tal de validade.
Hoje não falhou. Olhei para o cesto pejado de papéis e papelinhos e meti mãos à obra. Um a um, revi pacientemente centenas de talões de multibanco, facturas, rabiscos apressados, listas de compras e bilhetes de cinema. Alguns papéis tinham dois anos! Se há papéis que nada despertam, outros há que me abrem um mundo de lembrança, uma vida inteira de momentos perdidos. Descobri um talão de uma loja de roupa de dia 29/9/2003. Ri sozinho e chamei a tua mãe quando vi este papelinho. Nesta tarde fomos a uma das ecografias. Estivemos a olhar para ti. Lembro-me da sala minúscula, do médico sisudo, de poucas falas, sem nos dar grande espaço para perguntarmos tudo o que a ansiedade nos leva a conjecturar (na altura estava muito preocupado por nunca te ver nada que parecessem orelhas). A certa altura, ele perguntou se queríamos saber o sexo do bebé. Respondi prontamente que sim. Ele corrigiu-me: a mamã quer saber? E a mamã queria saber, muito, muito. Então vocês têm aqui um “pilas”. Suavemente, as lágrimas escorreram dos olhos da tua mãe. Eu fiquei a olhar para o monitor. Um filho. Sou pai de um menino. Desde o primeiro instante que desejávamos um rapaz. Desde o primeiro dia. Acho que sabia dentro de mim que serias um rapaz. Lembro-me de ter dito à tua mãe, no primeiro dia da gravidez: vai ser rapaz como eu, vai ser aquário como eu, vai ter como nome próprio um dos mesmos nomes que eu. Naquele momento, senti que tudo se concretizava. Um desejo tornado realidade, evidente, aos meus olhos. Quando saímos da ecografia, entrámos no primeiro centro comercial que encontrámos e compramos-te uma camisa à “homem”, de flanela quadriculada, com um macho nas costas, com todo o corte e feitio típico de um adulto. Foi uma brincadeira, é certo, mas foi a primeira coisa que comprámos exclusivamente para ti, sabendo já o teu nome, a tua identidade, conhecendo já a pequena vida que crescia harmoniosa no mistério da tua mãe. Um momento que não se esquece.
Outra das facturas é de 26 de Outubro. É uma simples factura de restaurante. Nessa noite decidimos jantar fora. Um restaurante italiano, como eu gosto. Encontrámos um casal meu amigo que não via há anos. Quando os conheci eram namorados. Quando me surgem à frente estão casados, com filhos. Uma história que correu bem – tão raro nos dias que correm. Enquanto conversávamos a tua mãe sentiu algo estranho acontecer dentro dela, algo de intimo, só entre ela e tu. Algo que não voltou a sentir mais durante a gravidez. Não há forma de confirmar a ideia dessa sensação. Disse-me: senti o bebé virar, ele deu a volta. E ainda hoje vivemos convictos que, naquele momento, decidiste que era a hora de encontrar um novo conforto dentro da tua mãe, um novo passo no processo de criação da tua vida.
Não consigo disfarçar o sorriso com que encarei a factura da bateria do carro. É de 30 de Janeiro. Nessa noite já não dormimos. A tua mãe estava com contracções certas, ritmadas, exactas, de cinco em cinco minutos. Sabíamos que estávamos na iminência de ti. Era uma questão de horas. E o carro decidiu ficar sem bateria. Lembro-me da loucura de tarde. Corri todas as lojas e supermercados com o meu sogro, desesperado por uma bateria compatível. E não havia em lado nenhum. Era possível encomendar mas para entrega imediata estava fora de questão. Ligava constantemente para a tua mãe, em casa com a tua avó. De cada loja que saia ligava. Tudo bem? O intervalo entre as contracções ainda está igual? Estás bem? Quando finalmente encontrámos uma bateria, houve outro problema qualquer com o carro. Fomos para a maternidade no carro do meu sogro.
Mas a nostalgia das facturas não fica por aqui. Há ainda a do restaurante chinês, onde almocei no dia em que nasceste. Por um lado insuflado de uma felicidade maior que eu, por outro lado, cansado, triste e abatido. Saber-me ali a comer quando vocês estavam longe, onde eu queria estar, onde a minha cabeça e coração ainda gravitavam. Acho que foi o primeiro momento em que senti uma necessidade física de nunca vos perder de vista, de só querer estar onde vocês estão. Foi uma sensação estranha, discordante, ambígua. Tal como entrar em casa e vocês não estarem lá. A nossa casa ainda sem a tua vida lá dentro. Sem a tua mãe. Tornou-se um sentimento opressivo. A última factura foi da florista. Das duas e pouco da tarde. Quando decido gastar uma exorbitância num ramo de flores para a tua mãe. Tinham de ser flores diferentes. Nada de rosas, nada de habitual. Quando cheguei à maternidade levava um ramo lindo, gigante, de amarelos, laranjas e vermelhos carregados. Descobri que as flores não podiam ficar perto de vocês por causa do pólen mas ainda assim, valeu a pena. Como tudo o que faço por e para vocês vale a pena.
Facturas. Nada mais que simples papelinhos, insignificantes, inúteis. Pedaços de papel esquecidos num cesto de verga sobre um microondas. Um cesto onde despejo todos os dias um pouco de vida. Contudo, nestes papelinhos sem valor redescubro um valor que transcende todas as palavras possíveis, nos registos das nossas vidas, fragmentos da tua própria vida, dessa porção de vida anterior à própria vida. Pormenores de um tempo que nunca recordarás por ti, que se perdem, esfumam, como se não tivessem existido. Agora guardo esses papelinhos como se fossem fotografias. Espero que, um dia, quando vires no teu álbum uma factura, me perguntes porquê. Aí falar-te-ei dos tempos em que só existias dentro da tua mãe e do meu coração, da forma como tinhas os sonos acertados com os da tua mãe, da forma como ela acordava, vira-se devagar na cama e, só quando fazia uma festa na barriga e te dizia “bom dia” começavas a mexer com grande alegria. Momentos tão simples. Momentos tão plenos. Tão nossos. Tão únicos.
|| 23:00 ||

12.11.04

São nove da manhã e estamos os três numa pastelaria a tomar o pequeno-almoço. Acordámos cedo, muito cedo. À nossa volta, são imensas as pessoas que entram e saem na sua pressa ou vagar. Os ensonados, os despertos. Há os que levam bolos e sandes embrulhados para mais tarde, os que preferem sair com os jornais matutinos dobrados debaixo do braço. Bebo um galão, tomo os comprimidos e fico a olhar para vocês. Tu, hoje tão dócil, ao colo da tua mãe. Eu a saborear, sem sequer me preocupar por serem horas de estar no emprego e ainda nem ter iniciado a viagem diária para o escritório. Não quero saber. Neste momento nada me preocupa menos. Haverá tempo. Tempo para correr, para esperar e desesperar, tempo para trabalhar. Enquanto ouço uma confusão de chávenas, copos, vozes e passos, sorrio. E sorrio pela alegria que se eleva de todas as coisas simples, tão simples como, pela primeira vez, tomarmos o pequeno-almoço em família a um dia de semana em que, apesar do frio, o sol brilha lá fora.
|| 18:44 ||

9.11.04

Não sei o que é ser pai. Sempre vivi com a convicção que mal tomasse o meu filho nos braços, compreenderia com uma clareza cristalina a essência da paternidade. Quando te vi pela primeira vez nenhuma das minhas dúvidas se esclareceu. Agora, passados todos estes meses (que ora me parecem uma vida, ora um breve instante) continuo tão pasmo e ignorante de ser «pai» como sempre fui. Talvez ser pai não seja algo em concreto mas antes a soma de muitas coisas, e chamo-lhes coisas pois não sei que mais lhes chamar, subjectivas, algo de completamente inexplicável. Talvez que nesta linha de pensamento, mais para me apaziguar as dúvidas que propriamente para esclarecer, conclua que ser pai também ser mais isto ou aquilo, uma soma, um acréscimo a esse indizível incontornável. Hoje digo que ser pai também é continuar a sorrir quando fazemos asneira e sofremos por dentro, para dentro. E aprendo-o de uma forma estúpida – como só assim o poderia alguma vez aprender.
Gostas de estar de pé, agarrado a qualquer objecto que te prenda a atenção. Só que ainda não aprendeste a usar o teu próprio corpo para te equilibrares. Assim, estás de pé, agarrado a um móvel ou outra coisa qualquer e ris. Depois decides que queres agarrar-te a outro objecto qualquer e cais quando largas o primeiro. Ok. Até aqui tudo bem. Como pai solícito que me esforço por aprender a ser, estou lá, com o teu tronco entre as minhas mãos, duas gigantescas tenazes com uma vida tenra entre elas. Dou-te a liberdade de movimentos que tanto anseias, ao sabor dessa curiosidade voraz de quem quer o mundo inteiro e já. Ora afrouxo um pouco, ora aperto um pouco mais. Das vezes que afrouxo essas guias paternas, pareces um imenso plano rebatendo-se geometricamente para o chão. Volto a apertar no último instante, quando todo tu te aproximas do chão, quando só eu te posso segurar, quando sei que sou a diferença entre a verticalidade e a queda iminente a cada milímetro. Ao contrário da minha expectativa, deliras com a brincadeira. Escancaras de riso essa boca coroada por dois pequenos dentes, os tais que apareceram, desapareceram e que finalmente voltaram a mostrar-se em definitivo. Pautas o riso com umas palminhas encantadoras, essas duas pequenas mãos que se procuram num gesto que tanto nos anima e diverte. Nós, as quase quedas, as palminhas e os risos.
Tendo tu o gosto pela queda, decido que devemos procurar sítios mais altos. Quando maior a queda, maior o gozo, claro! Seguro-te de pé na bancada na casa de banho e deixo-te entrar em queda livre rumo a um chão longínquo. Claro que não te largo, nem por uma fracção de segundo que seja, mantenho-te firme entre as minhas garras tão paternas, enquanto cais num improviso desnorteado de kamikaze. Só me esqueci que a casa de banho não é assim tão ampla, e bates com a cabeça na esquina da nossa banheira. O barulho é aterrador. Estanco, abrupto, com a consciência da asneira que fiz. Os olhos da tua mãe, à nossa frente, abrem-se como duas imensas lanternas, dois faróis incandescentes, raiados de pavor. No instante seguinte estalas de choro – é tudo o que ouvimos. Puxo-te para cima. Todo eu olhos sobre a tua cabeça. Digo à tua mãe: continua a sorrir, não é nada! Mas estamos os dois apavorados. Queremos apenas fazer-te acreditar que não foi nada de mais, apenas uma pequena pancada. Opto por agir assim na esperança que, à medida que te aproximas de uma infinidade de quedas, cabeçadas e outros percalços, não te tornes piegas, que aprendas a superar sozinho os teus próprios acidentes. Vejo à minha volta crianças que quando caem choram até os pais os levantarem e, quando novamente de pé, está tudo bem. Vejo também outras que caem e se levantam sozinhas, sem fitas, sem birras. Algures entre tudo isto estarás tu, com o teu próprio feitio e maneira de ser. Não sei qual o certo ou o errado. Não deve existir sequer uma abordagem correcta para te educar nestas situações, apenas uma infinidade de tentativas e erros até te tornares adulto e resolveres a tua vida à tua própria maneira. Entretanto, opto por aqui, por estar atento e preocupado mas não te transmitir a urgência e perigo das situações, dar-te antes a imagem que tudo isso é normal. E é o que faço quando volto a pôr-te de pé sobre a bancada. Tu choras, nós sorrimos e brincamos enquanto te olhamos apreensivos para a cabeça. Está lá a mancha vermelha mas não há sangue. Em breve cantará um galo. Tu, na inocência que só os bebés sabem ter, choras e bates palminhas ao mesmo tempo. Estás dividido entre a dor e a paródia. Parte-se-me o coração sentir-te essa divisão, essa incerteza. A bateres palminhas e a chorar. O quereres agradar e o sofreres, em simultâneo. Que asneira, a minha. Como se não bastassem as tuas próprias asneiras ainda seres vítima das minhas. Felizmente não foi grave e sinto que tive muita sorte. Mais uma vez, a sorte esteve do meu lado, totalmente. Nunca me perdoaria se te magoasses a sério. E fica-me a lição do quanto custa sorrir-te quando sei que meti água, que não fui um pai consciente, protector.
|| 23:00 ||

2.11.04

Especificações técnicas:
Peso: 10,050kgs. Estatura: 76cm. P.Cef: 45,8cm.
|| 23:00 ||