Um ano de ti
Eu, tu, ele. Nós.
Um filho, pelos olhos do pai.
12.12.04
De nós os três, tu és quem perdoa melhor. Hoje, tive a certeza. Talvez por hoje ter sido um dia particularmente mau, pior ainda que mau, daqueles que consideramos para esquecer. Mas eu não quero esquecer, prefiro antes agrafar o dia de hoje com as palavras que encontrar – para que fique, para que aprenda. Se todos nós temos altos e baixos, o que é perfeitamente normal, hoje, para mim, foi um baixo muito fundo. Se não tivesse passado a noite em claro com terríveis insónias, poderia ter-me sentido melhor. Mas a verdade é que, desde que, há duas semanas, deixei de tomar os anti depressivos (o preço que ainda pago por ter perseguido e alcançado todos os objectivos que estipulei para este ano) as insónias, o cansaço extremo e o abatimento voltaram em força. E o dia começou com uma noite em branco, seguida de uma total desorientação e incapacidade de concentração. De manhã, a tua mãe avariou uma das maquinetas fundamentais de cozinha e tu também estiveste rabugento, numa ladainha persistente, cansativa. Uma vez que ando outra vez sem forças para o que quer que seja e ontem foi-me esgotante passar a tarde num centro comercial a abarrotar de gente nas compras de natal, tínhamos decidido passar o domingo em casa para carregar baterias para mais uma semana de trabalho. Após o almoço arranquei sozinho para o centro comercial, em busca de um robot de cozinha que resolvesse de vez os problemas à tua mãe. Se era importante comprar hoje qualquer coisa que substituísse a máquina avariada, também foi um péssimo momento para o fazer. Passei imenso tempo no trânsito, quase meia hora já dentro do parque de estacionamento à procura de um lugar, e depois, quando finalmente subi as escadas rolantes para o Colombo, a confusão acertou-me em cheio como uma verdadeira bofetada. Para onde quer que me virasse não conseguia dar umas quantas passadas sem ser obrigado a parar, a ziguezaguear, procurar espaços para ultrapassar as famílias numerosas que passeiam em bando. E o barulho de fundo, o burburinho incessante, irritante. Para tudo existiam longas filas de espera. Para beber um café, estive na fila. Depois, fui ao hipermercado comprar Fissan e, para pagar as quatro embalagens do creme e dois livros de histórias para crianças, estive na fila, atrás dos perus, dos salgadinhos, das garrafas de vinho e de sumo, dos rolos de papel higiénico e de alumínio, do pão, dos pensos higiénicos e de imensas latas de todas as cores e conteúdos possíveis. Quando finalmente saí daquela fila, enfiei-me na loja dos electrodomésticos. Foi ainda pior, ainda mais confuso e esgotante. Só ao fim de muito tempo consegui fugir dali para fora. Quando entrei no carro, com as lágrimas quase a rebentarem-me nos olhos, tremia e começava a sentir as tonturas habituais que me têm surpreendido nos últimos dias. Depois foi o regresso a casa, o lento regresso a casa, onde cheguei de rastos, esgotado.
Quando acordaste, ainda nem tinha tirado o casaco. A tua mãe estava a preparar-te o lanche. Fui eu quem te fui tirar da cama e entreter até se fazer a hora do banho. Continuaste rabugento como de manhã, talvez mais cansativo, ou talvez eu já não conseguisse ter paciência nenhuma. Querias mexer em tudo, puxar tudo. Ao mesmo tempo, nada te prendia a atenção, nada te contentava. Não estavas bem em lado nenhum nem de nenhuma forma. Era sempre o sítio onde não estavas ou o objecto que não tinhas que te atraíam. Desde essa altura até finalmente adormeceres um bocado para lá da hora a que supostamente deverias, fartei-me de gritar contigo, de agarrar em ti bruscamente e sentar-te direito quando querias explorar as redondezas. Houve momentos em que te ignorei por completo ou em que te gritei que te calasses, que parasses quieto, que largasses isto ou aquilo. Antes do banho, andavas de andarilho atrás de mim e foste para um sítio que eu não queria, com um forte esticão empurrei-te para o meio da cozinha. E o que tive em troca? Que queixa? Que juízo? Olhaste para o relógio que temos na parede e riste muito, olhavas para mim, depois para o relógio e rias com uma felicidade genuína. E é assim que me desarmas, que me obrigas a reflectir no que faço. Especialmente hoje que fui tão pouco pai. Mesmo que hoje me sinta a enlouquecer e tenha medo, mesmo que, assim que acabar de escrever, tome um daqueles comprimidos que o médico me receitou para situações de S.O.S. e me enfie na cama, mesmo assim, tu não mereces que te ignore, que te grite como gritei, que te despreze como hoje fiz – nunca te tinha tratado assim. Todos os dias, mereces mais e melhor de mim, e hoje fiquei chocado comigo mesmo. Desiludido, até. Agora, que vou certamente dormir, sei que tu, na tua inocência genuína de criança, ainda não conheces o rancor, a sensação de injustiça, as culpas, as ofensas. Tu, ao continuares a rir para mim, a puxares-me, a palrar para mim, perdoaste-me, fizeste-me sentir perdoado, sem sermões, sem vinganças, sem confianças perdidas ou abaladas. E ao mesmo tempo que essa tão sincera absolvição me enche de felicidade, ainda me faz sentir pior.
10.12.04
Como hoje tudo se atrasou na tua rotina, quando cheguei a casa ainda estavas acordado. Apanhei-te mesmo a tempo de ires para a cama. Depois de te deitarmos, começámos a aquecer o jantar, que entretanto esfriara, feito que fora para duas horas antes. Entretanto decidiste que ainda não querias dormir. Começaste a chorar. Talvez seja uma fase, não sei. Agora andas assim. Tens sono e não queres dormir. Reclamas, no teu reclamar típico de cama, contudo, quando te metemos na cama recusas-te a adormecer. Tens adormecido ao colo da tua mãe. Eu decidi que me calhava a mim “resolver o assunto”. Antes de ir para o teu quarto, disse à tua mãe que começasse a comer, que certamente demoraria. E demorou.
Estás na tua cama e todo o teu esforço é para te levantares e andares de um lado para o outro agarrado às grades. É um esforço descomunal para te içares de entre os cobertores até às grades. Fazes tamanha força que chegas, por vezes, a bolçar. Ainda por cima, não desistes. O sono era tanto que chegavas a deixar cair a cabeça sobre as mãos cruzadas nas grades – mas sempre de pé. Como não suportas vir ao colo para adormecer (nesta altura o meu colo só te serve para meio de transporte, nunca de rendição) fiquei sentado ao lado da tua cama. Sussurrava-te baixinho que dormisses, dizia-te que és impossível, dava-te a tua fraldinha do “sono” de que tanto gostas e precisas quando chega o momento de dormir, e certificava-me que tinhas a chupeta na boca. À medida que o tempo passava, os teus risos e a tua algaraviada não cessavam nem paravam. Pulavas, batias com as mãos na parede, puxavas-me o nariz, puxavas o coelho de peluche que, por pouco, deixava de ficar suspenso no móbil sobre a cama, caías, redondo de sono, bêbado de sono. Mas com um esforço cada vez maior, erguias-te sempre, para meu espanto e incompreensão. Ao fim de muito tempo, com uma irritação e cansaço crescentes, comecei a sabotar a tua actividade. Debrucei-me sobre a cama. Querias levantar-te e tinhas o meu corpo a ocupar o espaço essencial para te conseguires erguer, portanto, o teu percurso era menor e mais cansativo pois causava-te desconforto – como alguém com um metro e oitenta andar dentro de uma assoalhada com metro e meio de altura. Mas nem assim desistias. Insistias sempre, mesmo que fosse apenas para cair, insistias novamente. O teu esforço, lembrou-me da clássica cena cinematográfica em que o herói leva um soco e cai, mas mesmo sabendo que vai apanhar outro e mais outro, levanta-se sempre, optando por morrer de pé, como as árvores. Já bastante irritado, acabei por te manter na posição de deitado. Deitei-te mesmo, tapei-te o melhor que consegui e depois mantive a minha mão sobre o teu traseiro de forma a não conseguires mesmo levantar-te. Choraste um pouco e aninhei-te a fralda. Depois fugi dali para fora o melhor que consegui. Tempo: uma hora.
Quando cheguei à cozinha, a tua mãe já tinha jantado, obviamente, e só o meu prato restava na mesa. Aproveitei para fumar um cigarro. Perguntou-me se não ia comer. Respondi-lhe que já nem tinha vontade. Ah! Agora entendes o que eu passo para o adormecer, não é? Disse-me com ar triunfante. A questão é que eu sempre compreendi, e sempre lhe dei o valor. E além disso, arranjei uma forma de te obrigar a dormir sem colo e sem te tirar da cama. Por muito desgastante que seja para os nervos, quer os meus, quer os teus. E nesse momento, às onze da noite de uma sexta-feira com uma semana de trabalho sobre os meus ombros, dei por mim a pensar porque não és diferente – um bocadinho que seja. Acontece que, por vezes, tenho medo das coisas que penso, daquilo que desejo, porque de uma forma ou de outra, tudo aquilo que desejamos acaba sempre por se concretizar, portanto, aprendi a ter sempre muito cuidado com o que desejo. E depois penso que só tenho motivos para me sentir feliz contigo, como és. Penso que é um pensamento devastador desejar-te diferente de ti. Afinal, nós somos felizes e, todos os dias, me devo sentir feliz só por esta pequena família que somos. São tantos os relatos que ouço, tantos os casos que conheço de famílias onde a felicidade se esqueceu de parar que só posso estar completamente derreado para poder desejar que sejas de outra forma. Uma amiga de uma amiga nossa vai dar à luz uma criança que, numa das mãos, só tem dois dedos. E os que nascem inválidos, deficientes, atrofiados? Por cada não sei quantos milhares de bebes nascidos saudáveis e perfeitos, há um que recebe a factura dessa felicidade, uma criança que nunca será completa para a vida, que nunca viverá da mesma forma que todas as outras à sua volta. Mesmo com pais extremosos, que amem incondicionalmente essa criança, esse injusto “desvio” estatístico estará lá todos os dias, a todas as horas, entre essa criança e todas as outras. Essa factura é tão tremendamente injusta que chego a pensar que opostamente a nossa felicidade também acaba por ser injusta. É uma ideia esmagadora. E é uma ideia persistente, com diferentes cambiantes ao longo da tua vida. Durante a gravidez, as ecografias sempre nos tranquilizaram, mas só quando te vi nos meus braços e pude fazer uma contabilidade rápida dos teus membros é que me senti verdadeiramente tranquilo. Mas essa tranquilidade durou pouco, logo passei para outro desassossego que é o medo de não evoluíres normalmente, ou de, a dada altura, começares a regredir e deixares de ser uma criança normal. A sério, tenho medo, um pavor enorme perante a ideia que algo possa vir a correr mal. Depois penso que, para que tu, meu filho, e mais umas centenas de crianças tenham “sorte”, alguém algures pagará a factura. E no meu pensamento torna-se tão injusto ser infeliz como ser feliz. Ao mesmo tempo, sinto-me tão feliz por estarmos deste lado, do lado da felicidade, mesmo que sejas um terror para adormecer, mesmo que sejas um “osso duro de roer”, mesmo que estafes a tua mãe e a mim, és como és e nunca serias mais meu filho ou melhor se não fosses assim.
Acabei por jantar após o cigarro. Já passava das onze. Mesmo aquecido duas vezes, o comer estava óptimo.
5.12.04
Nós os três e um prato de arroz. É inexplicável a porcaria que consegues fazer com um único prato de arroz. Como a tua comida sempre foi passada, queremos começar a habituar-te à fascinante arte da mastigação, vulgo “dar ao dente”. A ideia, em si, é simples. Coze-se um arrozito, mete-se no prato e, depois de comeres a tua refeição normal, quando já estás alimentado e satisfeito, damos-te algumas colheres com o arroz para começares a dar uso a esses dentitos de coelho.
É claro que, da teoria à prática, há espaço para um mundo. E bem o pudemos constatar. Começou com o simples acto de cuspires os bagos de arroz. Nada de mais. Continuámos a insistir. A questão tornou-se mais séria quando quiseste conhecer a textura e densidade do produto propriamente dito, dentro do prato, portanto. Assim, sem arregaçar mangas nem qualquer prurido, afundaste mesmo as mãos no arroz e começaste a experimentar o que podias fazer. E aí, valeu tudo. Enormes pedaços de arroz começaram a espalhar-se por todo o chão da cozinha. Acabámos por aprender que o arroz serve de plasticina, como nos demonstraste ao comprimi-lo e desfia-lo entre os dedos. O arroz serve para atirar. As mãos cheias de arroz são óptimas para esfregar na cara. Resumindo ligeiramente o que aprendemos esta noite, o arroz serve mais ou menos para tudo, menos para comer.
A certa altura, quando nos apercebemos que não ias mesmo decidir-te por mastigar o arroz ou engoli-lo sequer. Decidi dar-te algumas explicações. Uma vez que não usaste colher, eu também não. Meti os dedos no teu prato de arroz e tirei um bocado, que meti na boca e mastiguei com toda a lentidão e exagero que consegui. Eu mastiguei de boca aberta, fiz um barulho atroz a mastigar, em suma, quebrei todas as regras de boa educação à mesa que me ensinaram. Tu achaste imensa graça. Para ti, estas explicações práticas fizeram-te rir a valer. Especialmente a parte em que disse à tua mãe que “explicasse” também e ficámos os três a meter as mãos no teu prato de arroz, comigo e com a tua mãe a demonstrar as nossas habilidades mastigadoras e perante a nossa própria surpresa por conseguirmos comer de forma tão exposta e sonora.
Se foi divertido o tempo que passámos às voltas com o teu arroz? Sem dúvida que foi. Se foi limpo? Nada. Se deu trabalho depois a limpar o chão da cozinha e descobrir bagos de arroz branco colados nos sítios mais incríveis? Deu sim senhor. Agora, se tu comeste um bago que fosse de arroz? Não, nem um único.
4.12.04
Temos um cão. A tua mãe deu-lhe o nome de Ben. Para mim é apenas Canídeo. Mas não é um cão de verdade. Alimenta-se com quatro pilhas alcalinas AA e não passa de uma versão robótica do melhor amigo do homem. Pequeno, em plástico cinzento, com umas orelhitas e cauda mecânicas, dotado de movimento. Ladra e gane em playback. Uma mímica de vida, especialmente no andar, quando as patitas plásticas fazem um som caracteristicamente artificial nos ladrilhos do chão. A ideia de ter um cão “a sério” num apartamento continua a parecer-me inaceitável, desumana. Qualquer ser merece atenção, carinho, condições e respeito. Como dar tudo isso a um animal que passe um dia inteiro sozinho, fechado num apartamento onde só veja os donos umas poucas horas (sempre as piores em termos de paciência e disposição) à noite e fins-de-semana? Não, por muita pena que tenha, um cão de verdade está, pelo menos por agora, excluído dos nossos planos.
Contudo, os pais projectam-se a eles mesmos nos filhos, em tudo o que ainda está por ser. Nos supermercados de brinquedos, todos nós (os pais) voltamos à ilusão da infância, a maturidade suspende-se, esquece-se de nós e nós dela. Enquanto deambulávamos pelos corredores à procura de dois ou três brinquedos para oferecer no Natal, ouvi um pai dizer, apontando para um enorme camião de plástico, uma réplica dos camiões da construção civil: por mais uns euros levamos aquele, que sempre tem controlo remoto, agora ele ainda não vai perceber, mas qualquer dia vai saber apreciar. Afinal, quem ia «realmente» guiar e brincar com o camião? Sinceramente, não vejo nada de errado. Afinal, todos nós fomos crianças. Até acho positivo que um pequeno recanto de nós continue sempre infantil, uma criança pequenina que vive dentro de nós só para nos lembrar de sorrir quando ninguém espera que o façamos. Embora o controlo orçamental me imponha sempre outras prioridades verdadeiramente mais urgentes e importantes, ainda não perdi a esperança de comprar a Playstation...
A todos os níveis, é complicado perceber que tu, concebido e “amamentado” por nós, tens uma vida tua, só tua, feita de milhentas conexões misteriosas mas totalmente pessoais e intransmissíveis. É esse o nosso verdadeiro bilhete de identidade, mais que um nome, mais que um número, mais que uma impressão digital ou até uma cadeia de ADN, todo o indefinível que cada um de nós é e que mais ninguém, nunca, será. Mas não deixa de ser difícil entender que há uma parte de ti que não és tu, uma parte que não existe em ti mas sim na minha expectativa de ti. É como se fosses dois: aquele que és verdadeiramente e aquele que eu imagino (desejo) que sejas. A situação do Canídeo é apenas um episódio engraçado dentro desta ideia. Acho que, lidar com esta dualidade, será um desafio se atravessará no nosso caminho, uma e outra vez ao longo da vida que nos surgir juntos. Como em criança quis ser astronauta, gostava que tu fosses astronauta. Esse o lado que projecto em ti. Por outro lado, o teu caminho é, deve e será sempre só teu. E tu deverás ser sempre quem achares que és. E isto tudo porque o eu criança (assim como a tua mãe versão criança) ficou fascinado por um cão robótico que não existia na minha infância – e teria dado tudo para ter um robot assim. Projectámos em ti o nosso próprio desejo de um brinquedo, acreditando, ou querendo acreditar, que o apreciarás, que o desejas também, à imagem de nós. Portanto, olhámos para o “bicho” sob todos os ângulos possíveis, confirmámos o pedigree e trouxemo-lo connosco para casa. Chama-se Ben.
Ben conhece Gordito. Gordito conhece Ben.
Em poucas horas, o Ben perdeu uma orelha e cauda salvou-se por pouco. Ao contrário de um animal verdadeiro, o nosso Canídeo não sabe, nunca saberá, que tem de fugir de ti pois, a tua curiosidade, carinho e vontade de brincar são imensas, devastadoras, demasiado fortes para a robustez plástica de um bicho sem alma. Mesmo assim, é fabuloso saborear-te o sorriso iluminado, o riso, o espanto e a alegria genuína que só um bebé sabe transmitir face ao puro prazer. As horas correram rápidas numa euforia e algazarra estupenda – o ladrar do cachorro, os teus gritinhos felizes, nós nas imensas pequenas tarefas com que construímos o fim-de-semana, entre béu-béus, entre “não faças isso! não metas o Ben na boca!”, entre recuperar o estafado cachorro quando ficava de patas para o ar convencido que andava, ou quando ia contra portas, móveis e portas, e encaixar novamente a orelha. A certa altura, o cachorro pedia festas e carinho (traz botões e sinais próprios) enquanto tu fazias birra para comer. Estava eu absorto na fatigante luta de te convencer a comer e andava a tua mãe com roupas debaixo do braço a caminho da máquina de lavar e parava a meio do percurso para fazer festas ao cachorro. De repente a família aumentou e os carinhos, a atenção, são igualmente distribuídos. São estes pequenos momentos que me levam a acreditar que deves ter irmãos ou irmãs. Porque vejo que, mesmo na confusão, mesmo no cansaço, mesmo na correria, há sempre tempo e amor para mais, nem que seja para fazer uma festa numa cabecita de plástico atestada de fios e circuitos impressos. Estes momentos são mais fortes que as vezes em que a tua mãe me diz que vai enlouquecer e eu acredito, ou em que sou eu que lhe digo que vou enlouquecer e ela sabe que é verdade. Ou as vezes em que ando pela casa às escuras (nunca acendo a luz, decorei todos os recantos, todos os espaços) e tropeço em brinquedos desarrumados, no andarilho que ficou abandonado no corredor. Ou quando levo à boca o biberão que a tua mãe deixou no lugar do copo para a água. Há uns tempos, estavas ao meu colo, e a tua mãe andava de tal forma cansada que, em vez de te dar o biberão a ti, insistia em dá-lo a mim – apesar dos meus protestos, demorou a perceber o pequeno equívoco.
Agora, tanto tu como o Ben dormem tranquilos. Só que a ele eu desliguei o interruptor. É muito mais fácil ter algo que se liga e desliga de acordo com a nossa disposição. Um filho não se desliga – é um sentido único, para o bom e para o mau, é a fuga para a frente. Uma vez concebido, é para o resto da vida. Nós, a família quase sempre feliz, para o resto da vida.
3.12.04
Especificações técnicas:
Peso: 10,5kgs. Estatura: 77cm. P.Cef: 46,4cm.
2.12.04
Tens dez meses e dois dentes. Há momentos em que me pareces autónomo, uma vida já feita, um pequeno adulto. Sei que tudo muda no tempo. Sei que as pessoas mudam no tempo. Mas por vezes, só por vezes, pareces-me já completo, uma miniatura de um tu futuro, distante na vida. Nesses momentos, eu e a tua mãe somos acessórios, assistentes pessoais de um homem sem tempo para tratar de todos os seus assuntos. A cada dia que passa espanto-me perante o milagre da vida. Olho para ti e penso que nem sempre exististe, que nem sempre foste, contudo, apresentas-te aos meus olhos completo, com uma personalidade que não mudará muito, com um corpo perfeito, teu, só teu. Espanto-me. Agora existes, agora és. Reduzo o meu pensamento ao lugar comum que ronda o inexplicável: agora tu és tu.
Ao mesmo tempo, pergunto-me quando de ti é aprendizagem e individualidade. Que percentagem de ti é rotina, mecanismo, mímica ou repetição? Eu sei que é impossível (felizmente) traduzir um ser humano em números. Sei que existe em cada um de nós uma zona secreta completamente fora de todas as equações e fórmulas dos homens. E podem inventar nomes, teorias, análises estatísticas e uma infinidade de gráficos esplendorosos mas, o «eu» que cada um de nós é, estará sempre para lá de qualquer definição ou catalogação – o «eu» é único, indizível, impossível de pronunciar. E como sabemos onde começa o nosso «eu» e onde acaba tudo o que nos é inculcado? Onde acaba o manual de “boas maneiras” e começa a poesia efémera que habita cada um de nós? Não vou encontrar resposta. Não vou sequer procurá-la sob risco de me tornar prisioneiro de uma quimera. Apenas o pergunto quando a tua mãe me diz para te lavar os dentes antes de ires para a cama. Pergunto estupefacto: lavar os dentes? Sim, claro, responde, desde que ele tem dentes que os lava de manhã e à noite, e olha que ele gosta. Não quero acreditar, mas lá vamos os dois para a casa de banho. Num copo só teu, uma pequena escova azul. Uma escova minúscula, de um tamanho verdadeiramente infantil. Pego nela, molho-a e aproximo-a da tua boca. Tu, com o ar mais natural do mundo, abres a boca, tendo o cuidado de baixar o lábio para exibires os dois dentes órfãos que tens. Passo a escova, não a tentas morder, nem roubar, nem fazer nenhuma das tropelias habituais. Aceitas a lavagem de dentes como a coisa mais lógica de se fazer antes de ir para a cama. E eu penso, apenas isso, penso que parte de ti age com tal naturalidade. Estou a lavar os dentes à parte robótica de ti, ou é aquele que sempre foste e sempre serás que acha assim tão natural a lavagem?
Quando chego contigo ao quarto, a tua mãe pergunta:
- Então, não gostou?
- Sim... Gostou. Eu é que não sabia que ele gostava.
Enquanto dentro de mim me limito a aceitar o espanto. E a pensar um pouco sobre quem és. Ou quem estamos a fazer de ti.
1.12.04
Estou contigo ao colo e vamos à janela da cozinha. Entre nós e os outros prédios estende-se o relvado, com a erva agora fresca e verdejante, alguns pedregulhos perdidos, e os plátanos. As folhas amadurecem para uma cor amarelada atravessando várias cambiantes de verde. É um amadurecimento que lhes cresce de dentro, lembram-me limões – são bonitas, tranquilas face ao vento que as empurra, puxa, despenteia. Junto a cada uma delas, amontoa-se um tapete de folhas caídas, ainda vivas, ainda amareladas – um tapete que o vento espalha depois, no ritmo próprio do Outono. Esta estação do ano traz consigo uma beleza própria, é uma beleza serena, melancólica, uma beleza para se ver de uma janela ou em passeio calmo num fim de tarde, quando os lumes se acendem nas lareiras e com a luz tomba também o cheiro da madeira queimada. É necessária uma certa paz para se poder apreciar a beleza das árvores que perdem a folhagem, da relva salpicada de folhas, da chuva miudinha que marca o ritmo das horas, dos dias, dos meses.
Durante uns instantes, ficamos os dois à janela. A ver o Outono lá fora. Desvio os olhos da paisagem para ti e vejo-te sereno, tão calmo, a veres a mesma beleza que eu, talvez a sentires exactamente o mesmo que eu, talvez com palavras diferentes, ou com uma intensidade distinta, mas sem dúvida, preso no mesmo sonho. Um pai com o seu filho ao colo. Ambos encostados ao vidro meio embaciado. Roubando, juntos, um absurdo instante à eternidade. Antes de te lembrares que és criança e a vida não pára. Antes de bateres com as mãos no vidro e procurares novos objectos, outras coisas que te despertem a atenção. Um instante, apenas. Mas um instante enorme, gigante, profundo, do tamanho do mundo, da vida, do amor que há entre os pais e os seus filhos.
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