Um ano de ti

Eu, tu, ele. Nós. Um filho, pelos olhos do pai.

Lilypie Baby Days

31.1.05

Um ano de ti. Parabéns, meu filho! Hoje é o teu primeiro aniversário. Ao mesmo tempo que sinto uma alegria e felicidade transbordantes sinto também que te entrego agora ao perpétuo e injusto ciclo da vida medida ao ano. Para trás fica essa brevidade contabilizada por meses, semanas e dias. Um ano – ao mesmo tempo tanto, e tão pouco. Em dada altura, reza assim o meu poema preferido: “Apalpo agora o girar das brutais, líricas rodas da vida”. E é exactamente isso que hoje sinto, quando te dou a mão e sei que entraste nessa brutal e lírica engrenagem dos anos. Completas o primeiro de todos eles, daqui em diante, será apenas somar as datas sobre o dia de hoje como uma amarga repetição. Durante estes meses em que te relatei vivi com a ideia que talvez te pudesse manter fora do tempo dos homens, manter-te bebé, tão eternamente meu. Mesmo hoje, olhando para as fotografias que temos acumulado ao longo deste percurso, vejo o quanto mudaste, o quando estás tão maior que esse bebé que os meus olhos continuam a dizer-me seres tu no que isso mais possa significar de indefeso e dependente. Talvez todos os pais imaginem os seus próprios filhos como bebés suspensos no percurso da vida, talvez os fixem assim, eternamente recém-nascidos, numa sobreposição desvairada da imaginação. Penso este «talvez» com a certeza prévia de nunca aceitar verdadeiramente que cresças, que tu próprio encontres o teu lugar nessa corrente infinita da vida e que assim sejas, um ser independente procurando a tua própria razão no tempo tão estupidamente breve que nos é dado. Sei apenas que, olho para ti, e continuo a ver a cabecinha tão redonda e o olhar malandreco com que nasceste, olho para os teus dedos compridos e fininhos entretidos no magicar de uma engenhoca qualquer e recordo a primeira vez que se fecharam em torno do meu indicador, agarro-te pelos incontáveis motivos que nos preenchem a actividade dos dias e revejo-te recém-nascido, acabado de nascer, ainda mal limpo e embrulhado num cobertor, nos meus braços, pela primeiríssima vez, nos meus braços. Tudo isto acabará por se esbater nesse tempo brutal que teimo em parar, nesse tempo injusto na sua brevidade. Sei que tudo passa, tudo se esquece, tanto o bom como o mau, e a vida nada mais é senão uma alegria breve. Mas como eu gostaria de fixar esta brevidade para o resto das nossas vidas! Hoje sinto-me exactamente assim, como se diz popularmente, com o coração nas mãos. Ou então, apenas sentimental e dramático.
Um ano de ti. Como é possível já ter passado um ano? Ao olhar para trás e ver o quanto escrevi de nós, penso que tudo ficou por ser escrito. É claro que houve uma imensa inocência minha ao pensar que escrever-te fixaria para sempre a memória de todas as coisas. Contudo surpreendo-me pelo pouco de ti que consegui efectivamente captar nestas notas. Um ano de ti, tão pouco de ti. Porque não existem ainda todas as palavras que um pai precisa para transmitir a essência de um filho ou o espanto da sua própria paternidade. Se, em tempos, me perguntei porque não escreveriam os escritores que aprecio sobre os seus filhos, só agora entendo que não o fizeram porque sabiam de antemão ser impossível fazê-lo com as palavras disponíveis – certamente seria necessário inventar novas palavras, novas gramáticas, novas linguagens. Resta-me conformar com o que consegui, com o quase nada que escrevi e pedir-te desculpa por não te ter escrito mais e de melhor forma.
Eu digo que um filho muda tudo. E o que é esse tudo? Olho para nós e tenho a certeza absoluta que nem tu sabes o que é ser filho, nem eu sei o que é ser pai. Antes de começar este relato, antes de nasceres, antes da verdadeira mudança em mim e na minha vida, acreditei que, ao longo deste ano, descobriria todas as respostas para essas perguntas tão simples. Estava de tal forma errado que só agora consigo concluir que apenas descobri os limites da minha presunção. Aprendi a mudar fraldas, a limpar chichis e cocós, e uma série infindável de pequenos procedimentos para te manter em funcionamento – e o resto? Do resto, nada sei, continuo tão espantado, curioso e questionado como no primeiro instante. Eu digo que um filho muda tudo. Sei que, ao longo deste nosso primeiro ano, muitos foram os amigos que se afastaram, os que me disseram que mudei, os que deixaram de encontrar em mim tudo aquilo que, de alguma forma, nos aproximava e mantinha num estado de amizade, mas sei também que fizemos muitos novos amigos, pessoas maravilhosas, reunidas em torno do amor aos seus filhos. Vejo agora, só agora, que durante este ano dei demasiada importância a tudo o que perdi quando, afinal, deveria ter apreciado muito mais e melhor tudo o que ganhei. Aprendi também a conhecer-me melhor, a focar-me no que importa, a entender que não posso deixar-me arrastar pelo cansaço e pela mudança e acomodar-me ao que me é dado e como me é dado. Para além de pai, continuo a ser um indivíduo com vontade própria, com objectivos na vida, com necessidades, desejos e ambições. Um filho não é uma invalidez. Continuo a acreditar que tudo o que preciso e desejo é atingível e realizável, apenas tenho de dar voltas diferentes das que inicialmente imaginei. Aprendi também que nunca ninguém está preparado para ser pai. Podemos ler todos os livros e ouvir todas as experiências dos outros, podemos pensar “eu não serei assim”, ou “não cairei nos erros dos meus pais”. Contudo, todos somos pais perfeitos antes – e apenas antes – de termos os nossos próprios filhos. Todas as convicções e certezas que me enchiam antes de ti desapareceram por completo. Por muita diferença de idade que tenhamos, por incomparável que seja a diferença entre as nossas experiências de vida, tenho a certeza que, desde o primeiro momento, ambos perguntamos e mesma e exacta questão: e agora? Cada filho é um infinito de diferença. Passámos este primeiro ano a negociar, tudo, sempre. Cada sono, cada refeição, cada brincadeira, cada “não faças isso” ou outra coisa qualquer, é uma negociação entre nós – é com a experimentação, com o procurar outras abordagens ligeiramente ao lado, com uma soma incalculável de sucessos e fracassos e algum desespero que chegamos a um ponto de equilíbrio no nosso entendimento. Sei que muitas das nossas opções vão correr mal. Sei que, por muito que nos esforcemos, haverá no futuro algum ponto em que reconheceremos que não te educámos da melhor forma. Mas pais perfeitos não existem, apenas pais esforçados, que se questionam, que amam sempre, que sabem que, apesar de todos os esforços, algumas coisas correrão bem, outras mal.
Um ano de ti. Nesta altura, arriscas os “primeiros passos” sozinho, ainda hesitante, num moroso processo de tentativa e erro. Vemos na tua cara a satisfação do pouco que alcanças, é um pouco que já parece tanto, quando sais do teu parque, te levantas, e andas pelos teus próprios pés até ao corredor, de rabinho pesado e um sorriso resplandecente coroado por três dentes e meio. São estes momentos que me tranquilizam no meu questionar de todas as coisas, são estes momentos que fazem sentir mais seguro de mim, mais descontraído, mais calmo e confiante, em última análise, mais maduro. Ao longo deste ano, desde o momento do teu nascimento até ao chamares-nos por “papá” e “mamã”, saberes já os nomes de bastantes dos inúmeros objectos que te rodeiam, estes teus primeiros passos, ainda tão a medo, sinto que tanto eu como a tua mãe percorremos um longo caminho, feito de avanços e recuos, feito de bons e maus momentos, mas acima de tudo, pavimentado de amor e, se é impossível sermos pais perfeitos, temos pelo menos a sensação de estarmos a fazer um bom trabalho, o melhor que conseguimos.
Um ano de ti. E o que dizer por fim? Atrevo-me a generalizar, a arriscar uma frase onde tente despejar tudo o que aprendi até agora, mesmo sabendo que tudo em mim muda e se transforma, mesmo sabendo que este é apenas o princípio de uma aventura que desejo longa, infinita, uma vida onde me imagino sempre a teu lado, de mão dada, como teu pai, teu amigo e teu companheiro de jornada. Mesmo desconhecendo o dia de amanhã, ou especialmente por o ignorar, arrisco dizer: um filho ensina-nos a olhar para o futuro, saboreando o presente e vivendo em paz com o passado.
Quando nasceste, decidi escrever-te o primeiro ano da tua vida. Não relatar apenas os bons momentos como também, especialmente, os outros momentos, aqueles onde os pais fraquejam e hesitam. Quis também relatar-te as minhas interrogações, as minhas dúvidas, o impacto de ti na minha vida e no meu ser. O relato está feito. Bem ou mal, justo ou injusto, completo ou incompleto, chegou ao fim. Cumpro agora o meu objectivo. Se tudo correr de acordo com a minha ideia, passar-se-ão muitos anos sem que saibas desta longa missiva, desta carta de um ano, tosca, imperfeita, muito incompleta mas sempre escrita com muito amor. Se, o eterno acaso da vida assim nos permitir, oferecer-te-ei estas páginas quando estiveres prestes a ser pai, para que então conheças este “pouco de nós” do qual não terás qualquer recordação. É certo que nessa altura já terás uma opinião formada sobre mim. Talvez até por isso seja interessante para ambos leres estas palavras e pensares então o teu pai de uma forma diferente. O filho pelos olhos do pai tornar-se-á então, o pai pelos olhos do filho.
Um ano de ti. Este relato termina aqui. Resta-me apenas acrescentar mais uma frase para esse futuro incerto: Aconteça o que acontecer, amo-te muito, meu filho, amar-te-ei sempre, obrigado por existires.

|| 09:55 ||

23.1.05

Gosto de te ver no banho. Não sei porque não falei nisto mais cedo mas, para mim, foi sempre um momento divertido e especial. Gosto da irreverência, por vezes exasperante, com que mexes em tudo. Nesta altura já não te contentas com a quantidade de bonecos que saltam contigo para a banheira. Tem-los de todas as cores e feitios, uma parafernália de distracção. Contudo, muito melhor é puxar o tubo, mexer nas torneiras, puxar a corrente do ralo, tentar sair da banheira a meio do banho e insistir em arrancar a pala que te protege os olhos e ouvidos do champô. Por vezes, o banho é sincopado, dado a fugir, negligenciando uma ou outra parte, quando é impossível manter-te sentado sobre o tapete colorido de borracha, o tapete-peixe no fundo da nossa banheira, onde há já bastantes meses tomas o teu banho.
O teu primeiro banho, pelo menos em casa, foi dado a quatro mãos, comigo e a tua mãe atrapalhados, sem sabermos como nos mexermos, numa espécie de natação sincronizada mas baralhada de todo. Foi na altura em que um banho ou uma troca de fralda pareciam um cirurgia complexa, requerendo uma equipa especializada, uma coreografia bizarra e meticulosa, um sem número de procedimentos parecidos com o lançamento de uma nave espacial. Recordo esse tempo com uma certa nostalgia. Talvez o mais normal fosse esquecer tudo isso, rir-me até dos nossos sincronismos atabalhoados, contudo, recordo essa inexperiência com doçura, talvez até com o desejo de voltar a passar por tudo isso uma vez mais. Recordo que detestavas tomar banho. Nunca chegámos a perceber o porquê, afinal, tinhas passado toda a tua vida de molho, portanto, o prazer do banho deveria ser natural, reconfortante. Agora, na minha memória, eras minúsculo nas minhas mãos, um corpinho ainda tão frágil, tão bebé, tão absolutamente recém-nascido. Lembro-me do teu esforço em manter pés e mãos fora da água – era esse o teu esforço. Ficavas muito quieto, muito sossegado, cómico até, com o ar mais desamparado do mundo, pés e mãos no ar, fora da água. Eu segurava-te e tentava lavar a parte de cima, a tua mãe, a de baixo. Isto numa banheira que rapidamente se tornou minúscula. Lembro-me que, quando começaste a sentar-te, a tua mãe ficava tristíssima de não chapinhares. Na altura, o Guca já chapinhava, víamo-lo nos vídeos que a mãe dele nos enviava por email. Tu, nada. Quieto. Imóvel. Estagnado à espera que aquilo acabasse depressa – com pés e mãos fora da água. Mal imaginávamos o «vandalismo» que se aproximava. Assim que passaste para a nossa banheira, decidiste (com cuidado) explorar bem a área. Aos poucos perdeste todo o medo. O chapinhar cresceu para uma lavagem integral das paredes e chão da casa de banho. Evoluímos ainda para um não quereres sair do banho e, neste momento, difícil é segurar-te dentro da banheira.
Relato-te estas peripécias como se costumasse dar-te banho. Mas, a verdade é que não dou. Tenho um medo pavoroso de te dar banho. É estranho porque, felizmente, não tivemos qualquer má experiência. Fugiste-me das mãos uma ou duas vezes e engoliste um pirolito, mas nada de mais, também aconteceu com a tua mãe e ela dá-te banho como a coisa mais natural do mundo. É estranho porque, eu e ela trocámos a atitude. Lembro-me que no início era ela que tinha medo e eu era mais afoito a enfiar-te dentro de água. Agora é o oposto. Se acontece só estar eu em casa à hora do banho, aviso logo a tua mãe que não há banho para ninguém, não dou, recuso-me. Não me importa nada que fiques “porco” por um dia. Talvez seja por estares mais irrequieto, ou por eu ser distraído e ter sempre medo de não conseguir controlar todos os teus movimentos. A morte por afogamento é rápida e silenciosa, dizem. Mas daí a bloquear completamente perante a ideia de te meter dentro de água e lavar integralmente sem que nada de mal nos aconteça, vai uma grande distância. Talvez um dia aprenda a lidar com esta fobia. De preferência, antes de aprenderes a tomar banho sozinho.
O banho é também o momento em que olho para ti e vejo o teu corpo como é. É raro não te ver quatro números acima do teu, com várias camadas de camisolas, e peúgas, e mais um casaquinho. Por vezes, nem sei como és por baixo de toda a roupa com que te vou fixando na memória. És sempre mais qualquer coisa nas polaroids da minha lembrança. Aqui estás com as calças de ganga das joelheiras, ali com a camisola desportiva vermelha, com número nas costas, ou com as peúgas de fantasia e anti-derrapantes iguais às da tua mãe. É quando te vejo despido na banheira, reduzido ao irredutível de ti que me apercebo como és nessa matéria ingrata que é o corpo que nos calha. Ao mesmo tempo que sei ser uma patetice completa procurar parecenças, tentarmos encontrar-nos num outro corpo que não é o nosso, por vezes, surpreendo-me com as parecenças que herdaste. Segundo a tua mãe, és muito parecido comigo de “cabeça”. Costumo brincar com ela a perguntar-lhe se só herdaste de mim, então, os defeitos. Claro que é uma brincadeira (até para bem do meu próprio ego) mas o seres irrequieto, observador, a resistência ao sono – sais a mim. A tua cara, segundo “toda a gente”, é a da tua mãe. Eu não confirmo nem desminto. Acho que é cedo para saber e, em última análise, só quero que sejas parecido contigo. Contudo, dois pormenores onde a parecença vai ao ponto da fotocópia: os teus polegares são iguais aos meus, curtos, mal feitos, em forma de frigideira; os dedos grandes dos pés, são sem dúvida a réplica dos da tua mãe, rechonchudos, as pregas da pele dão-lhes sempre um ar encaracolado. Fora as parecenças, gosto de olhar para ti, gosto de te ver na alegria de ti, de seres e estares, ainda na ignorância de tudo o que virá depois. Cada vez que te vejo sentado na banheira, nas tuas prospecções próprias e impróprias, penso sempre que te quero fixar assim mesmo, para sempre, ao longo de toda a minha vida. E pensar, num dia próximo do meu fim, como tu foste, quando eras pequenino.
|| 23:00 ||

16.1.05

- Onde está o papá? – Pergunta a tua mãe.
Estás sentado na tua cadeira, a tentar enganar a sopa que não há meio de comeres. Ela pergunta e tu viras-te na minha direcção, apontas-me com a tua pequena mão, cinco dedinhos a apontarem para mim. Depois dizes: “pa” – deixas o som ecoar bem, para de seguida acrescentares, um perfeito – “pá”. Exactamente assim, sem hesitações, sem falsas partidas, sem enganos. E sorris imenso quando vês, na tua frente, no alvo desses dedinhos, um homem devastado, não por nenhuma maldade ou injustiça, mas apenas pela comoção de uma palavra perfeita, única, que o abala completamente na sua certeza do mundo e da vida. “Papá”. Sou eu, filho. Ao contrário das tentativas no passado, em que dizias “pa pa pa” e não existia qualquer ligação a nada de concreto, agora tenho a certeza que já me reconheces como o teu pai entre todos os homens do mundo. Todos nós somos únicos mas, nesse momento, sou mais único que qualquer outro homem. Nesse instante, nomeias-me para todo o sempre como o teu pai.
Concluo que é fácil deitar por terra um adulto, é fácil ter tudo o que se quiser, satisfazer todas as vontades e apagar todos os erros. É tão fácil! Naquele momento, poderias ter tudo o que quisesses, bastaria pedires. Se alguma asneira fizeste, foi instantaneamente absolvida. Acho que, pela primeira vez, me senti completamente assente na expressão “pai babado”. E achaste imensa piada. E depois disso repetiste-o muitas vezes até adormeceres. E de todas elas, quase não quis acreditar na felicidade de te ouvir essa palavrinha tão simples mas cujas ondas de choque me abanam até ao mais profundo de mim.

|| 23:00 ||
Só muito raramente nos apercebemos da passagem do tempo. Como hoje.
Almoçámos com dois amigos meus, daqueles que têm ficado, no bom e no mau. Conhecemo-nos há quinze anos e, julgo que só hoje me perguntei como já passou tanto tempo. Não é facto de já estarmos casados e, portanto, já não sermos apenas os três amigos mas, sermos também, três casais. É talvez algo de mais subtil, profundo, em cada um de nós. Como um deles estar a poucos dias de ser pai pela primeira vez. Ou do outro estar a planear uma viagem à China para adoptar uma criança, depois de todos os exames imagináveis, depois de todos os tratamentos possíveis, ao fim de várias inseminações artificiais correrem mal. Num momento em que me afasto contigo ao colo, para te distrair um pouco com a televisão, o pré papá ansioso diz à tua mãe:
- Nunca imaginei aquele marmanjo com um filho nos braços.
Eu também não, contudo, o marmanjo sou eu e, o filho, és tu.

|| 19:00 ||

15.1.05

Almoçamos chinês ao som das músicas da carochinha. Antigamente refilava muito com a tua mãe quando ela se sentava à mesa de avental, agora nem reparo, nem quando ela se esquece nem nas raras vezes em que sou eu a sentar-me de avental. Assim como agora não reparo ou não me incomodam as vezes em que a cozinha parece um acidente de avião. Quando há oportunidade, limpa-se; no resto do tempo, vive-se com as condições que existem – ganha-se essa tolerância à desarrumação.
Enquanto comemos, observas-nos da tua cadeira, que estacionámos bem no meio da cozinha para que te sintas mais integrado nos momentos familiares. A tua curiosidade apenas tem como rival a tua impaciência. Já nos habituámos a comer o mais rapidamente possível. Quando queremos almoçar com o tempo próprio que um casal necessita para conversar, decidir ou dizer apenas as coisas tolas que os adultos apaixonados tendem a dizer, temos de te deixar umas horas com os avós e almoçarmos, assim, sozinhos, com tempo.
Tens andado impossível de alimentar. Tudo o que te levamos à boca é rejeitado no instante seguinte. Não sabemos se te fartaste de tudo o que te damos ou se é apenas birra. Mas é sem dúvida um retrocesso, quando já era relativamente fácil alimentar-te. Hoje, teve de ser com música, comigo a folhear livros com ilustrações garridas (e não interessa de quê), com a tua mãe a perder totalmente a paciência contigo só para, no momento seguinte, descobrir uma nova paciência pronta a ser empregue. Há isso, também, o aprendermos que a paciência nunca se esgota. Seja como for, quando acabaste de almoçar, nem a música desligámos. Almoçamos mesmo ao som da “loja do mestre André”.
E tu observas tudo o que fazemos, desde o que comemos e bebemos à forma como o fazemos. Enquanto falamos, viras a cabeça alternadamente para nos descobrir na mímica dos lábios um significado qualquer que faça sentido na tua compreensão. Queres provar, também, a nossa comida. Se acompanharmos a refeição com pão, sabemos que temos de o repartir contigo – é um fascínio. Por muito satisfeito que estejas do teu próprio almoço (geralmente antes do nosso), há sempre lugar para uns bons nacos de miolo de pão, de qualquer tipo de pão, que deves classificar como uma iguaria pois os teus olhos brilham, rir, mexes as pernas da forma que já aprendemos ser um sinal próprio e inequívoco de satisfação. Enquanto comemos chinês, vou-te passando para as mãos uns pedacitos de miolo de pão. Consigo assim “comprar-te” mais uns minutos, não muitos, apenas o suficiente para conseguirmos despachar o comer sem uivos ou choros. Se entretanto te saturas, tudo o que tens sobre o tabuleiro da cadeira vai para o chão. Deves achar que é melhor forma de reclamares toda a nossa atenção. É deliberado e sistemático. Bonecos, objectos diversos, o livro das focas – chão com tudo isso, um objecto de cada vez. É ao sprint que terminamos a refeição que supostamente devíamos ter almoçado no restaurante mas que, afinal, acabamos por comer em casa – abençoado take-away.
Esta calma (porque hoje o almoço até está a ser calmo) acontece depois de uma semana de noites mal dormidas. Uma semana em que não conseguiste dormir mais que umas sestas curtinhas antes de te engasgares outra vez com a expectoração que quase te bloqueia a respiração. Noites em que acordámos de duas em duas ou de três em três horas, aflitos por estares a chorar, também tu assustado por não respirares bem, por aquela massa invisível que te incomoda e mantém acordado, ou que quase te sufoca enquanto dormes. É impressionante como, nesta altura, até uma simples constipação pode ser uma ameaça – esquecemo-nos disso à medida que crescemos, passamos a menosprezar todas as pequenas doenças vencidas. Mesmo hoje, durante a manhã, lá andámos a aspirar-te as narinas enquanto fazes um berreiro do tamanho de uma casa. Já me habituei aos chichis em repuxo, para cima de mim, ou para a parede, ou para roupas próximas. Já me habituei a limpar-te os cocós – tarefa que, por vezes, correu francamente mal. E o bolçado, as manchas de comida que, após dar-te de comer, levo alegremente a passear na minha roupa sem que me aperceba. Nem me fez qualquer confusão estar a aspirar-te as narinas enquanto a tua mãe faz uma força enorme para te segurar a cabeça e, a certo ponto, olhar para os meus dedos e ver fios mucosos entre eles. Já nada disso me impressiona ou enoja ou me desperta outro pensamento qualquer que não o da maior normalidade possível. O que me impressiona é ser assim confrontado com o meu lugar no mundo e na vida. O que te faço, alguém o fez por mim. O que te faço, farás um dia por alguém. É assim que o círculo se encerra. É assim que a vida me mostra tão claramente que, o presente que sou está ligado a um passado e a um futuro, que é impossível dissociar-me de todos os que me antecederam e de todos os que me sucederão. Os meus pais passaram exactamente pelo mesmo, e antes deles os meus avós, e antes deles todos os outros até chegarmos ao primeiro homem e mulher à face da Terra. É imemorial. Tratar de ti é, ao mesmo tempo, o melhor agradecimento que posso prestar aos meus pais, afinal, não estou a dar nenhum amor, nenhum carinho ou cuidado que não tenha recebido já. É nestes actos tão pequenos e simples que toda a existência humana ganha perspectiva. Dar e receber. Receber e voltar a dar. Almoçamos chinês - cansados, ensonados e apressados. E penso neste tão perfeito ciclo da vida enquanto te dou mais um pedaço de miolo de pão.

|| 17:28 ||

13.1.05

Cresces sem que eu dê por isso. É a tua mãe que me relata a tua vida, aquela que deixo de presenciar por estar a trabalhar. Quando estou contigo, pareces-me sempre igual, o que é também uma forma de dizer que me pareces sempre diferente. Vejo o teu cabelo crescer, as feições de bebé transfigurarem-se lentamente nas de uma criança. Mas talvez espere secretamente que não cresças nunca, como se pudesse conservar-te eternamente bebé, um filho, o meu filho, assim – para sempre.
Agora treinas alguns sons que se começam a parecer com palavras. Ainda não usas o indicador mas apontas de “mão inteira” para o que te desperta curiosidade ou desejas. Pouco vejo desses momentos. É a tua mãe que me conta como lhe pedes bolachas, como depois do banho pegas na escova do teu cabelo e a tentas pentear, como te olhas ao espelho e já sabes que «aquele» bebé és tu, ou ainda como procuras o Ben quando ela te pergunta onde está e, uma vez descoberto, apontas com a mão toda e dizes “Bê”, mesmo que o «Bê» já não esteja lá muito funcional depois de tantos carinhos teus, mesmo que acenda num olho um sinal de mais e, no outro, um sinal de menos – o que não é de todo o funcionamento correcto. Diz-me ainda que andas a praticar a palavra “papá”. Ainda não ouvi essa palavra na tua boca. Talvez seja uma surpresa que me estejas a preparar. Contudo, a cada dia que passa, o teu pequeno mundo aumenta, tornas-te maior, ainda desconhecendo que, quanto maior fores, mais pequeno serás no tamanho do mundo todo. É o despontar da tua consciência de todas as coisas, um dos primeiros sinais de uma ininterrupta viagem de auto descoberta. Os primeiros passos interiores do resto da tua vida. E custa-me muito saber desses passos em diferido, apenas pelas palavras da tua mãe, embora esteja conformado que existem e existirão sempre inúmeros momentos que, simplesmente, não verei. São as trocas que fazemos na vida, todos os dias, a cada momento. Se não trabalhasse, nunca teríamos as condições para que existisses. Portanto, sobre esse ponto, nem vale a pena divagar mais.
Também a nossa relação muda. Embora seja uma mudança imperceptível, muda todos os dias – ou melhor, todas as noites. Durante muito tempo pensei que te era completamente indiferente. Talvez fosse, não sei, nunca o saberemos. Mas sei neste momento que ris quando chego do emprego e ainda estás acordado, que estendes os braços para mim e que, poucos minutos depois, sou eu que me sento junto à tua cama e te leio um pouco mais de um livro para crianças, numa sessão de leitura sempre improvisada e que ignoras totalmente, mas que faço questão de repetir uma e outra vez para que me sinta mais pai e tu mais filho. Depois, a tua mãe sai do quarto e choras, não entendendo ainda que não é para sempre. É nessa altura que te abraço e te faço festas no cabelo que começa a ondular, que te digo que está tudo bem, que estou contigo e que gosto de ti. É assim que te deito, te aconchego a roupa e te desejo que durmas bem. E durante uns minutos ficamos os dois tão próximos que até me custa respirar. No escuro, ouço apenas o sugar na chupeta, a tua procura de um lento resvalar para o sono. A tua respiração abranda. Mais uma festa. Apenas mais uns instantes junto a ti, porque me custa afastar, porque te custa saberes-te sozinho. E só depois saio do quarto, o mais silenciosamente que consigo, mesmo sabendo que ainda estás acordado e que sabes que estou a sair – a tua mãe não te consegue deitar assim tão facilmente. Sei que esta forma é nossa (este método, como lhe chamo), uma pequena cumplicidade entre um pai e um filho extraordinariamente curiosos relativamente a esta vida que lhes calhou, porque não nos escolhemos um ao outro, “acontecemo-nos” e, nesse acaso fecha-se inteiro o milagre das nossas vidas.

|| 23:00 ||

2.1.05

As férias chegaram e partiram com a brevidade de uma tarde enevoada. Coisa louca, passar as duas últimas semanas do ano em férias, quando há tanto trabalho, quando há tanto ainda para tratar antes de fechar o ano, quando, quando, quando. Mas eu não mudei as férias – desta vez não. Precisava mesmo de parar, esquecer o emprego, a correria habitual, as tiradas de problemas que surgem sempre juntos e ao trambolhão. Acima de tudo, precisava de estar contigo e com a tua mãe e, nesse tempo, estar também um pouco comigo – reflectir finalmente sobre muitas pequenas coisas que me rondavam o pensamento e que fui sempre adiando para outra altura.
Aproveitámos para reviver um pouco a amizade. Talvez seja mesmo por aí que começaram as férias. Mais ou menos um ano depois, as “barrigudas” reencontraram-se no mesmo lugar, à mesma hora, da mesma forma. Tudo igual. Só que agora já não são barrigudas. Tu e o Guca já vivem cá fora, neste outro mundo muito menos quente e protegido. Fomos à Figueira da Foz. Poderíamos ter combinado o reencontro em qualquer outro lugar mas não seria a mesma coisa. Claro que a viagem não correu tão bem como eu gostaria. Mas portares-te bem seria pedir demais. Completámos o último terço da viagem animados pelos teus “muuuus” e com direito a uma paragem em quatro piscas em plena auto-estrada para limpar uma colossal golfada de vómito – nada que não esperássemos. A partir daí as coisas correram bem melhor. Apesar de nunca se conseguir dizer tudo o que se vai guardando para esses momentos, houve tempo para conversar, para tirar imensas fotografias mas, essencialmente, para rirmos e recordarmos os momentos desta amizade “barriguda”.
Mas esta viagem foi apenas uma trégua porque, no dia seguinte, começaram as últimas compras de Natal. Fiquei saturado de tantas lojas, de tantos sacos e apertos e empurrões. E depois, escolher à pressa, escolher prendas por escolher, escolher quando nem sei o que quero oferecer apenas tira ao Natal um pedaço do seu gosto especial. Até à noite de consoada impossível parar. Tanto eu como a tua mãe cansados, irritados, a discutir sem motivo, só porque o tempo escasseava e ainda havia tanto por fazer, tantas compras, tantos preparativos, tantas prendas por entregar em casa de amigos e família. Foi muito mais do que desejava. Quando finalmente chegou o dia de Natal, já estava farto dele. Para aumentar ainda mais o meu descontentamento, este ano programámos de uma forma diferente a distribuição do tempo com os teus avós – para nos poupar algum trabalho e para evitar interferir tanto com a tua rotina. Os meus pais não gostaram e acabei por não os ver no dia 25. Custou-me imenso – a presença deles era a única prenda que lhes pedia, nada mais, apenas estarem connosco, conversarmos um pouco, sorrirmos enfim. Não foi uma tragédia nem o fim do mundo, apenas uma contrariedade que podiam ter evitado, um pequeno gesto que me teria sabido imensamente bem.
Tal como já desconfiava, foste sem dúvida o grande premiado pelo Pai Natal. Não podendo de forma alguma queixar-me (eu ou a tua mãe), recebeste imensas prendas. Até pessoas com quem nunca falei nos fizeram chegar “uma lembrancinha para o menino”. Surpreendente, no mínimo. Com tantas coisas à tua volta, nem sabes bem com que brincar. E, aliás, agora temos um problema semelhante que é o de não saber bem onde arrumar... Para além disso, não me parece que tenhas percebido bem o que são prendas – é natural, ainda és tão pequeno. Por vezes, os laços, o papel colorido, ainda te despertam a atenção durante um curto período de tempo mas, de uma forma geral, não te sentes muito fascinado pelas prendas. Continuas a preferir as coisas improváveis. O meu relógio. Os comandos da televisão e DVD. Uma cenoura. A tua fralda. As portas cá de casa. Não consigo entender mas são de alguma forma as coisas simples e corriqueiras que mais te atraem, de uma forma arrebatadora, total. Passas imenso tempo a contemplar qualquer um destes objectos. São, talvez, os marcos mais importantes desse teu mundo pessoal.
Pensava que na segunda semana de férias, teria finalmente o sossego que procurava. Mas pensava mal. Nessa semana começaram a querer romper novos dentes. Depois de ter melhorado e afinado o meu método para te adormecer, quando já me parecias gostar de ser adormecido por mim, chegam essas dores e andamos tudo para trás, voltamos à estaca zero. Uma semana medonha: tu impossível, rabugento, birrento, total e completamente desregulado. Os sonos da noite e do dia misturam-se, tornam-se irregulares e incertos por igual. Tanto eu como a tua mãe entramos num ciclo de ainda maior cansaço. Nos momentos piores, a tua mãe pergunta-me se estamos em crise. O “nós” que somos não está em crise, apenas o “eu” de cada um de nós. É demasiado cansaço, demasiadas pequenas coisas que, quando somadas, escavam um buraco negro na vida de um casal. O ano de 2004 foi maravilhoso mas também violento. Agora, sinto que passámos os meses a tentar gerir o caos, onde a desesperança rondou muitos dos nossos dias. Olho para trás e apenas penso no mais de ti que desejava ter saboreado e que agora se perde irremediavelmente. E estou sempre a repetir para mim mesmo: aproveita tudo, aproveita agora porque amanhã já é tarde.
À medida que a passagem de ano se aproxima, desenvolves febre, um mal-estar adicional. Passámos duas noites acordados, não dormes, choras muito, andamos contigo ao colo e não sabemos o que fazer para te acalmar nas maiores crises. É frustrante ver-te, sentir-te a dor em cada lágrima e não puder (ou não saber) fazer rigorosamente nada que te possa aliviar – sempre achei que ser pai também é isso, é cumprir a promessa que todos nós fazemos secretamente de, perante tudo e todos, te proteger sempre. No dia 31 de Dezembro, à hora a que completas onze meses, decidimos levar-te ao hospital. Espero cinco horas dentro do carro, cheio de sono, calor, um estado de tal forma enrolado por dentro que nem me apetece comer, não me apetece nada. Passadas essas horas a tua mãe diz-me que é laringite, que temos de ter cuidado, podes não conseguir respirar durante a noite – acho demasiado dramático mas ela garante-me que a médica a alertou para esse perigo. Sais do hospital com um aerossol feito. Desmarcamos o jantar. Tentamos dormir um pouco no último entardecer do ano. Consegui dormir meia hora antes de acordares novamente. Depois, só muito depois, voltas a adormecer. À meia-noite e dois minutos deste ano, enquanto na rua estalam foguetes, chocalham tachos e tampas, tocam buzinas e se comemora a passagem de ano com a enorme euforia de quem quer mesmo ver 2004 pelas costas, estou parado, às escuras, de pé junto à porta do teu quarto. Tenho medo que acordes assustado com tanto barulho. Fico ali um, dois, cinco minutos. Só quando tenho a certeza que dormes bem volto para a janela e fumo o primeiro cigarro do ano, pensando que deveria ser o último.
Hoje é domingo. Amanhã estarei de volta ao emprego, à rotina sufocante de todas as certezas, de todo o stress e ansiedade. E destas férias? O que ficou? O que ganhei e o que perdi? Ficam-me alguns bons momentos. Fica-me o estar deitado no chão do teu quarto, contigo a brincar, a explorar esse pequeno mundo à tua volta, depois puxares os joelhos para baixo da barriga, fazeres força e todo o teu corpo empreender um esforço coordenado de mãos e joelhos e começares a gatinhar – quando a tua mãe passa por ali, fica parada à porta, a ver, e apenas lhe digo, “vês? aprendeu a gatinhar”. Ficam-me os momentos em que saí orgulhoso do teu quarto, depois de te adormecer sem lutas, suavemente, com festas no teu cabelo que começa a ficar comprido e revolto. Mas ficam-me também os momentos em que julguei desesperar contigo, em que apenas precisava de um pouco de sossego, tranquilidade, silêncio à minha volta e não consegui – os momentos em que achei que nunca mais queria ter férias, em que não me acho à altura de tudo o que exiges de mim, incapaz de todo o carinho, calma e paciência que me obrigas a ter e que nunca mais aprendo a conseguir. Sensações contraditórias. Porque és o melhor na minha vida, és mesmo. Agora que te conheço, agora que chegaste, a minha vida sem ti não seria vida, apenas um vazio, um espaço oco, denso da certeza que seria impossível de preencher. Agora és tudo. Há a tua mãe e um amor único por ela, é certo, mas tu, tu entraste pela minha vida dentro e mudaste tudo – tudo – a minha forma de ser, de ver o mundo, de estar na vida. Acho que estes meus momentos de desespero ainda são as ondas de choque, o lento caminho para o homem melhorado que tenho de ser, mas apenas isso, nada mais que isso. Porque ao final do dia, apenas me posso sentir feliz por existires, e nós junto de ti, a ver-te crescer.

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