Um ano de ti
Eu, tu, ele. Nós.
Um filho, pelos olhos do pai.
1.2.05
Ao longo do ano que passou, relatei neste blogue a vida de um filho pelos olhos do pai, do meu filho. Como todos vocês sabem, o objectivo foi muito claro desde o primeiro instante: escrever-lhe, a ele, para ele, o seu primeiro ano de vida. Rapidamente me apercebi que só com a “pressão” típica de um blogue conseguiria levar esse objectivo a bom porto. Sem essa “pressão” não haveria esforço e rapidamente este ano se resumiria a meia dúzia de notas dispersas, vagas e, no fim, perdidas para sempre. Duma forma talvez egoísta, precisava de vocês para cumprir o meu objectivo.
Contudo, ao longo destes meses, os vossos comentários foram muito mais e melhor que uma mera “pressão” por novidades. Ao fim dos primeiros posts senti que estava não só a dar mas, essencialmente, a receber experiências, conselhos e muito ânimo e carinho da vossa parte. Gradualmente, este projecto deixou de ser um “ano dele” para se tornar num “ano nosso”, de todos os inúmeros visitantes assíduos do blogue, de todos os pais e mães sem os quais este “ano” não poderia existir. Sei agora que este ano foi tão meu como vosso. Nos vossos comentários e nos emails que me enviaram ao longo deste ano, foram, sem dúvida, os melhores leitores e companheiros de viagem que alguém possa alguma vez desejar. Lamento que a minha falta de disponibilidade não me tenha permitido responder aos vossos comentários e emails com a devida atenção. Os apontadores para os vossos blogues também foram negligenciados e pouco consegui acompanhar dos inúmeros blogues de pais e mães cujas palavras de amor e carinho com que relatam os seus filhos tanto me enterneceram.
Reparei ainda que, quando comecei este blogue, poucos eram os homens a escrever exclusivamente sobre os filhos. Actualmente são imensos. Não tenho a veleidade de pensar que abri um caminho ou dei um exemplo. Congratulo-me sim pelo privilégio que tive em assistir a um “perder da vergonha” masculina em abrir o coração sobre o amor que temos pelos nossos filhos.
Custa-me terminar este blogue. Agora que gosto tanto de vos relatar a minha experiência como de conhecer as vossas, agora que me sinto parte de uma comunidade imensa e invisível de pais e mães reunidos à volta de um tema tão comum e tão forte. Nunca me passou pela cabeça continuar este relato. Sempre achei que, uma vez cumprido o meu objectivo, esta vontade de relatar o meu filho se esgotaria, que sentiria mesmo algum alívio no final. Contudo, sei que o meu coração continua cheio de palavras desconhecidas de um amor que desvendo diariamente. Talvez mais por esse motivo do que por qualquer outro, esta aventura continua...

em...
http://umpoucomaisdeti.blogspot.com
A todos vocês, que nos leram ao longo deste ano, o meu mais sincero
Obrigado.
31.1.05
Um ano de ti. Parabéns, meu filho! Hoje é o teu primeiro aniversário. Ao mesmo tempo que sinto uma alegria e felicidade transbordantes sinto também que te entrego agora ao perpétuo e injusto ciclo da vida medida ao ano. Para trás fica essa brevidade contabilizada por meses, semanas e dias. Um ano – ao mesmo tempo tanto, e tão pouco. Em dada altura, reza assim o meu poema preferido: “Apalpo agora o girar das brutais, líricas rodas da vida”. E é exactamente isso que hoje sinto, quando te dou a mão e sei que entraste nessa brutal e lírica engrenagem dos anos. Completas o primeiro de todos eles, daqui em diante, será apenas somar as datas sobre o dia de hoje como uma amarga repetição. Durante estes meses em que te relatei vivi com a ideia que talvez te pudesse manter fora do tempo dos homens, manter-te bebé, tão eternamente meu. Mesmo hoje, olhando para as fotografias que temos acumulado ao longo deste percurso, vejo o quanto mudaste, o quando estás tão maior que esse bebé que os meus olhos continuam a dizer-me seres tu no que isso mais possa significar de indefeso e dependente. Talvez todos os pais imaginem os seus próprios filhos como bebés suspensos no percurso da vida, talvez os fixem assim, eternamente recém-nascidos, numa sobreposição desvairada da imaginação. Penso este «talvez» com a certeza prévia de nunca aceitar verdadeiramente que cresças, que tu próprio encontres o teu lugar nessa corrente infinita da vida e que assim sejas, um ser independente procurando a tua própria razão no tempo tão estupidamente breve que nos é dado. Sei apenas que, olho para ti, e continuo a ver a cabecinha tão redonda e o olhar malandreco com que nasceste, olho para os teus dedos compridos e fininhos entretidos no magicar de uma engenhoca qualquer e recordo a primeira vez que se fecharam em torno do meu indicador, agarro-te pelos incontáveis motivos que nos preenchem a actividade dos dias e revejo-te recém-nascido, acabado de nascer, ainda mal limpo e embrulhado num cobertor, nos meus braços, pela primeiríssima vez, nos meus braços. Tudo isto acabará por se esbater nesse tempo brutal que teimo em parar, nesse tempo injusto na sua brevidade. Sei que tudo passa, tudo se esquece, tanto o bom como o mau, e a vida nada mais é senão uma alegria breve. Mas como eu gostaria de fixar esta brevidade para o resto das nossas vidas! Hoje sinto-me exactamente assim, como se diz popularmente, com o coração nas mãos. Ou então, apenas sentimental e dramático.
Um ano de ti. Como é possível já ter passado um ano? Ao olhar para trás e ver o quanto escrevi de nós, penso que tudo ficou por ser escrito. É claro que houve uma imensa inocência minha ao pensar que escrever-te fixaria para sempre a memória de todas as coisas. Contudo surpreendo-me pelo pouco de ti que consegui efectivamente captar nestas notas. Um ano de ti, tão pouco de ti. Porque não existem ainda todas as palavras que um pai precisa para transmitir a essência de um filho ou o espanto da sua própria paternidade. Se, em tempos, me perguntei porque não escreveriam os escritores que aprecio sobre os seus filhos, só agora entendo que não o fizeram porque sabiam de antemão ser impossível fazê-lo com as palavras disponíveis – certamente seria necessário inventar novas palavras, novas gramáticas, novas linguagens. Resta-me conformar com o que consegui, com o quase nada que escrevi e pedir-te desculpa por não te ter escrito mais e de melhor forma.
Eu digo que um filho muda tudo. E o que é esse tudo? Olho para nós e tenho a certeza absoluta que nem tu sabes o que é ser filho, nem eu sei o que é ser pai. Antes de começar este relato, antes de nasceres, antes da verdadeira mudança em mim e na minha vida, acreditei que, ao longo deste ano, descobriria todas as respostas para essas perguntas tão simples. Estava de tal forma errado que só agora consigo concluir que apenas descobri os limites da minha presunção. Aprendi a mudar fraldas, a limpar chichis e cocós, e uma série infindável de pequenos procedimentos para te manter em funcionamento – e o resto? Do resto, nada sei, continuo tão espantado, curioso e questionado como no primeiro instante. Eu digo que um filho muda tudo. Sei que, ao longo deste nosso primeiro ano, muitos foram os amigos que se afastaram, os que me disseram que mudei, os que deixaram de encontrar em mim tudo aquilo que, de alguma forma, nos aproximava e mantinha num estado de amizade, mas sei também que fizemos muitos novos amigos, pessoas maravilhosas, reunidas em torno do amor aos seus filhos. Vejo agora, só agora, que durante este ano dei demasiada importância a tudo o que perdi quando, afinal, deveria ter apreciado muito mais e melhor tudo o que ganhei. Aprendi também a conhecer-me melhor, a focar-me no que importa, a entender que não posso deixar-me arrastar pelo cansaço e pela mudança e acomodar-me ao que me é dado e como me é dado. Para além de pai, continuo a ser um indivíduo com vontade própria, com objectivos na vida, com necessidades, desejos e ambições. Um filho não é uma invalidez. Continuo a acreditar que tudo o que preciso e desejo é atingível e realizável, apenas tenho de dar voltas diferentes das que inicialmente imaginei. Aprendi também que nunca ninguém está preparado para ser pai. Podemos ler todos os livros e ouvir todas as experiências dos outros, podemos pensar “eu não serei assim”, ou “não cairei nos erros dos meus pais”. Contudo, todos somos pais perfeitos antes – e apenas antes – de termos os nossos próprios filhos. Todas as convicções e certezas que me enchiam antes de ti desapareceram por completo. Por muita diferença de idade que tenhamos, por incomparável que seja a diferença entre as nossas experiências de vida, tenho a certeza que, desde o primeiro momento, ambos perguntamos e mesma e exacta questão: e agora? Cada filho é um infinito de diferença. Passámos este primeiro ano a negociar, tudo, sempre. Cada sono, cada refeição, cada brincadeira, cada “não faças isso” ou outra coisa qualquer, é uma negociação entre nós – é com a experimentação, com o procurar outras abordagens ligeiramente ao lado, com uma soma incalculável de sucessos e fracassos e algum desespero que chegamos a um ponto de equilíbrio no nosso entendimento. Sei que muitas das nossas opções vão correr mal. Sei que, por muito que nos esforcemos, haverá no futuro algum ponto em que reconheceremos que não te educámos da melhor forma. Mas pais perfeitos não existem, apenas pais esforçados, que se questionam, que amam sempre, que sabem que, apesar de todos os esforços, algumas coisas correrão bem, outras mal.
Um ano de ti. Nesta altura, arriscas os “primeiros passos” sozinho, ainda hesitante, num moroso processo de tentativa e erro. Vemos na tua cara a satisfação do pouco que alcanças, é um pouco que já parece tanto, quando sais do teu parque, te levantas, e andas pelos teus próprios pés até ao corredor, de rabinho pesado e um sorriso resplandecente coroado por três dentes e meio. São estes momentos que me tranquilizam no meu questionar de todas as coisas, são estes momentos que fazem sentir mais seguro de mim, mais descontraído, mais calmo e confiante, em última análise, mais maduro. Ao longo deste ano, desde o momento do teu nascimento até ao chamares-nos por “papá” e “mamã”, saberes já os nomes de bastantes dos inúmeros objectos que te rodeiam, estes teus primeiros passos, ainda tão a medo, sinto que tanto eu como a tua mãe percorremos um longo caminho, feito de avanços e recuos, feito de bons e maus momentos, mas acima de tudo, pavimentado de amor e, se é impossível sermos pais perfeitos, temos pelo menos a sensação de estarmos a fazer um bom trabalho, o melhor que conseguimos.
Um ano de ti. E o que dizer por fim? Atrevo-me a generalizar, a arriscar uma frase onde tente despejar tudo o que aprendi até agora, mesmo sabendo que tudo em mim muda e se transforma, mesmo sabendo que este é apenas o princípio de uma aventura que desejo longa, infinita, uma vida onde me imagino sempre a teu lado, de mão dada, como teu pai, teu amigo e teu companheiro de jornada. Mesmo desconhecendo o dia de amanhã, ou especialmente por o ignorar, arrisco dizer: um filho ensina-nos a olhar para o futuro, saboreando o presente e vivendo em paz com o passado.
Quando nasceste, decidi escrever-te o primeiro ano da tua vida. Não relatar apenas os bons momentos como também, especialmente, os outros momentos, aqueles onde os pais fraquejam e hesitam. Quis também relatar-te as minhas interrogações, as minhas dúvidas, o impacto de ti na minha vida e no meu ser. O relato está feito. Bem ou mal, justo ou injusto, completo ou incompleto, chegou ao fim. Cumpro agora o meu objectivo. Se tudo correr de acordo com a minha ideia, passar-se-ão muitos anos sem que saibas desta longa missiva, desta carta de um ano, tosca, imperfeita, muito incompleta mas sempre escrita com muito amor. Se, o eterno acaso da vida assim nos permitir, oferecer-te-ei estas páginas quando estiveres prestes a ser pai, para que então conheças este “pouco de nós” do qual não terás qualquer recordação. É certo que nessa altura já terás uma opinião formada sobre mim. Talvez até por isso seja interessante para ambos leres estas palavras e pensares então o teu pai de uma forma diferente. O filho pelos olhos do pai tornar-se-á então, o pai pelos olhos do filho.
Um ano de ti. Este relato termina aqui. Resta-me apenas acrescentar mais uma frase para esse futuro incerto: Aconteça o que acontecer, amo-te muito, meu filho, amar-te-ei sempre, obrigado por existires.
23.1.05
Gosto de te ver no banho. Não sei porque não falei nisto mais cedo mas, para mim, foi sempre um momento divertido e especial. Gosto da irreverência, por vezes exasperante, com que mexes em tudo. Nesta altura já não te contentas com a quantidade de bonecos que saltam contigo para a banheira. Tem-los de todas as cores e feitios, uma parafernália de distracção. Contudo, muito melhor é puxar o tubo, mexer nas torneiras, puxar a corrente do ralo, tentar sair da banheira a meio do banho e insistir em arrancar a pala que te protege os olhos e ouvidos do champô. Por vezes, o banho é sincopado, dado a fugir, negligenciando uma ou outra parte, quando é impossível manter-te sentado sobre o tapete colorido de borracha, o tapete-peixe no fundo da nossa banheira, onde há já bastantes meses tomas o teu banho.
O teu primeiro banho, pelo menos em casa, foi dado a quatro mãos, comigo e a tua mãe atrapalhados, sem sabermos como nos mexermos, numa espécie de natação sincronizada mas baralhada de todo. Foi na altura em que um banho ou uma troca de fralda pareciam um cirurgia complexa, requerendo uma equipa especializada, uma coreografia bizarra e meticulosa, um sem número de procedimentos parecidos com o lançamento de uma nave espacial. Recordo esse tempo com uma certa nostalgia. Talvez o mais normal fosse esquecer tudo isso, rir-me até dos nossos sincronismos atabalhoados, contudo, recordo essa inexperiência com doçura, talvez até com o desejo de voltar a passar por tudo isso uma vez mais. Recordo que detestavas tomar banho. Nunca chegámos a perceber o porquê, afinal, tinhas passado toda a tua vida de molho, portanto, o prazer do banho deveria ser natural, reconfortante. Agora, na minha memória, eras minúsculo nas minhas mãos, um corpinho ainda tão frágil, tão bebé, tão absolutamente recém-nascido. Lembro-me do teu esforço em manter pés e mãos fora da água – era esse o teu esforço. Ficavas muito quieto, muito sossegado, cómico até, com o ar mais desamparado do mundo, pés e mãos no ar, fora da água. Eu segurava-te e tentava lavar a parte de cima, a tua mãe, a de baixo. Isto numa banheira que rapidamente se tornou minúscula. Lembro-me que, quando começaste a sentar-te, a tua mãe ficava tristíssima de não chapinhares. Na altura, o Guca já chapinhava, víamo-lo nos vídeos que a mãe dele nos enviava por email. Tu, nada. Quieto. Imóvel. Estagnado à espera que aquilo acabasse depressa – com pés e mãos fora da água. Mal imaginávamos o «vandalismo» que se aproximava. Assim que passaste para a nossa banheira, decidiste (com cuidado) explorar bem a área. Aos poucos perdeste todo o medo. O chapinhar cresceu para uma lavagem integral das paredes e chão da casa de banho. Evoluímos ainda para um não quereres sair do banho e, neste momento, difícil é segurar-te dentro da banheira.
Relato-te estas peripécias como se costumasse dar-te banho. Mas, a verdade é que não dou. Tenho um medo pavoroso de te dar banho. É estranho porque, felizmente, não tivemos qualquer má experiência. Fugiste-me das mãos uma ou duas vezes e engoliste um pirolito, mas nada de mais, também aconteceu com a tua mãe e ela dá-te banho como a coisa mais natural do mundo. É estranho porque, eu e ela trocámos a atitude. Lembro-me que no início era ela que tinha medo e eu era mais afoito a enfiar-te dentro de água. Agora é o oposto. Se acontece só estar eu em casa à hora do banho, aviso logo a tua mãe que não há banho para ninguém, não dou, recuso-me. Não me importa nada que fiques “porco” por um dia. Talvez seja por estares mais irrequieto, ou por eu ser distraído e ter sempre medo de não conseguir controlar todos os teus movimentos. A morte por afogamento é rápida e silenciosa, dizem. Mas daí a bloquear completamente perante a ideia de te meter dentro de água e lavar integralmente sem que nada de mal nos aconteça, vai uma grande distância. Talvez um dia aprenda a lidar com esta fobia. De preferência, antes de aprenderes a tomar banho sozinho.
O banho é também o momento em que olho para ti e vejo o teu corpo como é. É raro não te ver quatro números acima do teu, com várias camadas de camisolas, e peúgas, e mais um casaquinho. Por vezes, nem sei como és por baixo de toda a roupa com que te vou fixando na memória. És sempre mais qualquer coisa nas polaroids da minha lembrança. Aqui estás com as calças de ganga das joelheiras, ali com a camisola desportiva vermelha, com número nas costas, ou com as peúgas de fantasia e anti-derrapantes iguais às da tua mãe. É quando te vejo despido na banheira, reduzido ao irredutível de ti que me apercebo como és nessa matéria ingrata que é o corpo que nos calha. Ao mesmo tempo que sei ser uma patetice completa procurar parecenças, tentarmos encontrar-nos num outro corpo que não é o nosso, por vezes, surpreendo-me com as parecenças que herdaste. Segundo a tua mãe, és muito parecido comigo de “cabeça”. Costumo brincar com ela a perguntar-lhe se só herdaste de mim, então, os defeitos. Claro que é uma brincadeira (até para bem do meu próprio ego) mas o seres irrequieto, observador, a resistência ao sono – sais a mim. A tua cara, segundo “toda a gente”, é a da tua mãe. Eu não confirmo nem desminto. Acho que é cedo para saber e, em última análise, só quero que sejas parecido contigo. Contudo, dois pormenores onde a parecença vai ao ponto da fotocópia: os teus polegares são iguais aos meus, curtos, mal feitos, em forma de frigideira; os dedos grandes dos pés, são sem dúvida a réplica dos da tua mãe, rechonchudos, as pregas da pele dão-lhes sempre um ar encaracolado. Fora as parecenças, gosto de olhar para ti, gosto de te ver na alegria de ti, de seres e estares, ainda na ignorância de tudo o que virá depois. Cada vez que te vejo sentado na banheira, nas tuas prospecções próprias e impróprias, penso sempre que te quero fixar assim mesmo, para sempre, ao longo de toda a minha vida. E pensar, num dia próximo do meu fim, como tu foste, quando eras pequenino.
16.1.05
- Onde está o papá? – Pergunta a tua mãe.
Estás sentado na tua cadeira, a tentar enganar a sopa que não há meio de comeres. Ela pergunta e tu viras-te na minha direcção, apontas-me com a tua pequena mão, cinco dedinhos a apontarem para mim. Depois dizes: “pa” – deixas o som ecoar bem, para de seguida acrescentares, um perfeito – “pá”. Exactamente assim, sem hesitações, sem falsas partidas, sem enganos. E sorris imenso quando vês, na tua frente, no alvo desses dedinhos, um homem devastado, não por nenhuma maldade ou injustiça, mas apenas pela comoção de uma palavra perfeita, única, que o abala completamente na sua certeza do mundo e da vida. “Papá”. Sou eu, filho. Ao contrário das tentativas no passado, em que dizias “pa pa pa” e não existia qualquer ligação a nada de concreto, agora tenho a certeza que já me reconheces como o teu pai entre todos os homens do mundo. Todos nós somos únicos mas, nesse momento, sou mais único que qualquer outro homem. Nesse instante, nomeias-me para todo o sempre como o teu pai.
Concluo que é fácil deitar por terra um adulto, é fácil ter tudo o que se quiser, satisfazer todas as vontades e apagar todos os erros. É tão fácil! Naquele momento, poderias ter tudo o que quisesses, bastaria pedires. Se alguma asneira fizeste, foi instantaneamente absolvida. Acho que, pela primeira vez, me senti completamente assente na expressão “pai babado”. E achaste imensa piada. E depois disso repetiste-o muitas vezes até adormeceres. E de todas elas, quase não quis acreditar na felicidade de te ouvir essa palavrinha tão simples mas cujas ondas de choque me abanam até ao mais profundo de mim.
Só muito raramente nos apercebemos da passagem do tempo. Como hoje.
Almoçámos com dois amigos meus, daqueles que têm ficado, no bom e no mau. Conhecemo-nos há quinze anos e, julgo que só hoje me perguntei como já passou tanto tempo. Não é facto de já estarmos casados e, portanto, já não sermos apenas os três amigos mas, sermos também, três casais. É talvez algo de mais subtil, profundo, em cada um de nós. Como um deles estar a poucos dias de ser pai pela primeira vez. Ou do outro estar a planear uma viagem à China para adoptar uma criança, depois de todos os exames imagináveis, depois de todos os tratamentos possíveis, ao fim de várias inseminações artificiais correrem mal. Num momento em que me afasto contigo ao colo, para te distrair um pouco com a televisão, o pré papá ansioso diz à tua mãe:
- Nunca imaginei aquele marmanjo com um filho nos braços.
Eu também não, contudo, o marmanjo sou eu e, o filho, és tu.
15.1.05
Almoçamos chinês ao som das músicas da carochinha. Antigamente refilava muito com a tua mãe quando ela se sentava à mesa de avental, agora nem reparo, nem quando ela se esquece nem nas raras vezes em que sou eu a sentar-me de avental. Assim como agora não reparo ou não me incomodam as vezes em que a cozinha parece um acidente de avião. Quando há oportunidade, limpa-se; no resto do tempo, vive-se com as condições que existem – ganha-se essa tolerância à desarrumação.
Enquanto comemos, observas-nos da tua cadeira, que estacionámos bem no meio da cozinha para que te sintas mais integrado nos momentos familiares. A tua curiosidade apenas tem como rival a tua impaciência. Já nos habituámos a comer o mais rapidamente possível. Quando queremos almoçar com o tempo próprio que um casal necessita para conversar, decidir ou dizer apenas as coisas tolas que os adultos apaixonados tendem a dizer, temos de te deixar umas horas com os avós e almoçarmos, assim, sozinhos, com tempo.
Tens andado impossível de alimentar. Tudo o que te levamos à boca é rejeitado no instante seguinte. Não sabemos se te fartaste de tudo o que te damos ou se é apenas birra. Mas é sem dúvida um retrocesso, quando já era relativamente fácil alimentar-te. Hoje, teve de ser com música, comigo a folhear livros com ilustrações garridas (e não interessa de quê), com a tua mãe a perder totalmente a paciência contigo só para, no momento seguinte, descobrir uma nova paciência pronta a ser empregue. Há isso, também, o aprendermos que a paciência nunca se esgota. Seja como for, quando acabaste de almoçar, nem a música desligámos. Almoçamos mesmo ao som da “loja do mestre André”.
E tu observas tudo o que fazemos, desde o que comemos e bebemos à forma como o fazemos. Enquanto falamos, viras a cabeça alternadamente para nos descobrir na mímica dos lábios um significado qualquer que faça sentido na tua compreensão. Queres provar, também, a nossa comida. Se acompanharmos a refeição com pão, sabemos que temos de o repartir contigo – é um fascínio. Por muito satisfeito que estejas do teu próprio almoço (geralmente antes do nosso), há sempre lugar para uns bons nacos de miolo de pão, de qualquer tipo de pão, que deves classificar como uma iguaria pois os teus olhos brilham, rir, mexes as pernas da forma que já aprendemos ser um sinal próprio e inequívoco de satisfação. Enquanto comemos chinês, vou-te passando para as mãos uns pedacitos de miolo de pão. Consigo assim “comprar-te” mais uns minutos, não muitos, apenas o suficiente para conseguirmos despachar o comer sem uivos ou choros. Se entretanto te saturas, tudo o que tens sobre o tabuleiro da cadeira vai para o chão. Deves achar que é melhor forma de reclamares toda a nossa atenção. É deliberado e sistemático. Bonecos, objectos diversos, o livro das focas – chão com tudo isso, um objecto de cada vez. É ao sprint que terminamos a refeição que supostamente devíamos ter almoçado no restaurante mas que, afinal, acabamos por comer em casa – abençoado take-away.
Esta calma (porque hoje o almoço até está a ser calmo) acontece depois de uma semana de noites mal dormidas. Uma semana em que não conseguiste dormir mais que umas sestas curtinhas antes de te engasgares outra vez com a expectoração que quase te bloqueia a respiração. Noites em que acordámos de duas em duas ou de três em três horas, aflitos por estares a chorar, também tu assustado por não respirares bem, por aquela massa invisível que te incomoda e mantém acordado, ou que quase te sufoca enquanto dormes. É impressionante como, nesta altura, até uma simples constipação pode ser uma ameaça – esquecemo-nos disso à medida que crescemos, passamos a menosprezar todas as pequenas doenças vencidas. Mesmo hoje, durante a manhã, lá andámos a aspirar-te as narinas enquanto fazes um berreiro do tamanho de uma casa. Já me habituei aos chichis em repuxo, para cima de mim, ou para a parede, ou para roupas próximas. Já me habituei a limpar-te os cocós – tarefa que, por vezes, correu francamente mal. E o bolçado, as manchas de comida que, após dar-te de comer, levo alegremente a passear na minha roupa sem que me aperceba. Nem me fez qualquer confusão estar a aspirar-te as narinas enquanto a tua mãe faz uma força enorme para te segurar a cabeça e, a certo ponto, olhar para os meus dedos e ver fios mucosos entre eles. Já nada disso me impressiona ou enoja ou me desperta outro pensamento qualquer que não o da maior normalidade possível. O que me impressiona é ser assim confrontado com o meu lugar no mundo e na vida. O que te faço, alguém o fez por mim. O que te faço, farás um dia por alguém. É assim que o círculo se encerra. É assim que a vida me mostra tão claramente que, o presente que sou está ligado a um passado e a um futuro, que é impossível dissociar-me de todos os que me antecederam e de todos os que me sucederão. Os meus pais passaram exactamente pelo mesmo, e antes deles os meus avós, e antes deles todos os outros até chegarmos ao primeiro homem e mulher à face da Terra. É imemorial. Tratar de ti é, ao mesmo tempo, o melhor agradecimento que posso prestar aos meus pais, afinal, não estou a dar nenhum amor, nenhum carinho ou cuidado que não tenha recebido já. É nestes actos tão pequenos e simples que toda a existência humana ganha perspectiva. Dar e receber. Receber e voltar a dar. Almoçamos chinês - cansados, ensonados e apressados. E penso neste tão perfeito ciclo da vida enquanto te dou mais um pedaço de miolo de pão.
13.1.05
Cresces sem que eu dê por isso. É a tua mãe que me relata a tua vida, aquela que deixo de presenciar por estar a trabalhar. Quando estou contigo, pareces-me sempre igual, o que é também uma forma de dizer que me pareces sempre diferente. Vejo o teu cabelo crescer, as feições de bebé transfigurarem-se lentamente nas de uma criança. Mas talvez espere secretamente que não cresças nunca, como se pudesse conservar-te eternamente bebé, um filho, o meu filho, assim – para sempre.
Agora treinas alguns sons que se começam a parecer com palavras. Ainda não usas o indicador mas apontas de “mão inteira” para o que te desperta curiosidade ou desejas. Pouco vejo desses momentos. É a tua mãe que me conta como lhe pedes bolachas, como depois do banho pegas na escova do teu cabelo e a tentas pentear, como te olhas ao espelho e já sabes que «aquele» bebé és tu, ou ainda como procuras o Ben quando ela te pergunta onde está e, uma vez descoberto, apontas com a mão toda e dizes “Bê”, mesmo que o «Bê» já não esteja lá muito funcional depois de tantos carinhos teus, mesmo que acenda num olho um sinal de mais e, no outro, um sinal de menos – o que não é de todo o funcionamento correcto. Diz-me ainda que andas a praticar a palavra “papá”. Ainda não ouvi essa palavra na tua boca. Talvez seja uma surpresa que me estejas a preparar. Contudo, a cada dia que passa, o teu pequeno mundo aumenta, tornas-te maior, ainda desconhecendo que, quanto maior fores, mais pequeno serás no tamanho do mundo todo. É o despontar da tua consciência de todas as coisas, um dos primeiros sinais de uma ininterrupta viagem de auto descoberta. Os primeiros passos interiores do resto da tua vida. E custa-me muito saber desses passos em diferido, apenas pelas palavras da tua mãe, embora esteja conformado que existem e existirão sempre inúmeros momentos que, simplesmente, não verei. São as trocas que fazemos na vida, todos os dias, a cada momento. Se não trabalhasse, nunca teríamos as condições para que existisses. Portanto, sobre esse ponto, nem vale a pena divagar mais.
Também a nossa relação muda. Embora seja uma mudança imperceptível, muda todos os dias – ou melhor, todas as noites. Durante muito tempo pensei que te era completamente indiferente. Talvez fosse, não sei, nunca o saberemos. Mas sei neste momento que ris quando chego do emprego e ainda estás acordado, que estendes os braços para mim e que, poucos minutos depois, sou eu que me sento junto à tua cama e te leio um pouco mais de um livro para crianças, numa sessão de leitura sempre improvisada e que ignoras totalmente, mas que faço questão de repetir uma e outra vez para que me sinta mais pai e tu mais filho. Depois, a tua mãe sai do quarto e choras, não entendendo ainda que não é para sempre. É nessa altura que te abraço e te faço festas no cabelo que começa a ondular, que te digo que está tudo bem, que estou contigo e que gosto de ti. É assim que te deito, te aconchego a roupa e te desejo que durmas bem. E durante uns minutos ficamos os dois tão próximos que até me custa respirar. No escuro, ouço apenas o sugar na chupeta, a tua procura de um lento resvalar para o sono. A tua respiração abranda. Mais uma festa. Apenas mais uns instantes junto a ti, porque me custa afastar, porque te custa saberes-te sozinho. E só depois saio do quarto, o mais silenciosamente que consigo, mesmo sabendo que ainda estás acordado e que sabes que estou a sair – a tua mãe não te consegue deitar assim tão facilmente. Sei que esta forma é nossa (este método, como lhe chamo), uma pequena cumplicidade entre um pai e um filho extraordinariamente curiosos relativamente a esta vida que lhes calhou, porque não nos escolhemos um ao outro, “acontecemo-nos” e, nesse acaso fecha-se inteiro o milagre das nossas vidas.
2.1.05
As férias chegaram e partiram com a brevidade de uma tarde enevoada. Coisa louca, passar as duas últimas semanas do ano em férias, quando há tanto trabalho, quando há tanto ainda para tratar antes de fechar o ano, quando, quando, quando. Mas eu não mudei as férias – desta vez não. Precisava mesmo de parar, esquecer o emprego, a correria habitual, as tiradas de problemas que surgem sempre juntos e ao trambolhão. Acima de tudo, precisava de estar contigo e com a tua mãe e, nesse tempo, estar também um pouco comigo – reflectir finalmente sobre muitas pequenas coisas que me rondavam o pensamento e que fui sempre adiando para outra altura.
Aproveitámos para reviver um pouco a amizade. Talvez seja mesmo por aí que começaram as férias. Mais ou menos um ano depois, as “barrigudas” reencontraram-se no mesmo lugar, à mesma hora, da mesma forma. Tudo igual. Só que agora já não são barrigudas. Tu e o Guca já vivem cá fora, neste outro mundo muito menos quente e protegido. Fomos à Figueira da Foz. Poderíamos ter combinado o reencontro em qualquer outro lugar mas não seria a mesma coisa. Claro que a viagem não correu tão bem como eu gostaria. Mas portares-te bem seria pedir demais. Completámos o último terço da viagem animados pelos teus “muuuus” e com direito a uma paragem em quatro piscas em plena auto-estrada para limpar uma colossal golfada de vómito – nada que não esperássemos. A partir daí as coisas correram bem melhor. Apesar de nunca se conseguir dizer tudo o que se vai guardando para esses momentos, houve tempo para conversar, para tirar imensas fotografias mas, essencialmente, para rirmos e recordarmos os momentos desta amizade “barriguda”.
Mas esta viagem foi apenas uma trégua porque, no dia seguinte, começaram as últimas compras de Natal. Fiquei saturado de tantas lojas, de tantos sacos e apertos e empurrões. E depois, escolher à pressa, escolher prendas por escolher, escolher quando nem sei o que quero oferecer apenas tira ao Natal um pedaço do seu gosto especial. Até à noite de consoada impossível parar. Tanto eu como a tua mãe cansados, irritados, a discutir sem motivo, só porque o tempo escasseava e ainda havia tanto por fazer, tantas compras, tantos preparativos, tantas prendas por entregar em casa de amigos e família. Foi muito mais do que desejava. Quando finalmente chegou o dia de Natal, já estava farto dele. Para aumentar ainda mais o meu descontentamento, este ano programámos de uma forma diferente a distribuição do tempo com os teus avós – para nos poupar algum trabalho e para evitar interferir tanto com a tua rotina. Os meus pais não gostaram e acabei por não os ver no dia 25. Custou-me imenso – a presença deles era a única prenda que lhes pedia, nada mais, apenas estarem connosco, conversarmos um pouco, sorrirmos enfim. Não foi uma tragédia nem o fim do mundo, apenas uma contrariedade que podiam ter evitado, um pequeno gesto que me teria sabido imensamente bem.
Tal como já desconfiava, foste sem dúvida o grande premiado pelo Pai Natal. Não podendo de forma alguma queixar-me (eu ou a tua mãe), recebeste imensas prendas. Até pessoas com quem nunca falei nos fizeram chegar “uma lembrancinha para o menino”. Surpreendente, no mínimo. Com tantas coisas à tua volta, nem sabes bem com que brincar. E, aliás, agora temos um problema semelhante que é o de não saber bem onde arrumar... Para além disso, não me parece que tenhas percebido bem o que são prendas – é natural, ainda és tão pequeno. Por vezes, os laços, o papel colorido, ainda te despertam a atenção durante um curto período de tempo mas, de uma forma geral, não te sentes muito fascinado pelas prendas. Continuas a preferir as coisas improváveis. O meu relógio. Os comandos da televisão e DVD. Uma cenoura. A tua fralda. As portas cá de casa. Não consigo entender mas são de alguma forma as coisas simples e corriqueiras que mais te atraem, de uma forma arrebatadora, total. Passas imenso tempo a contemplar qualquer um destes objectos. São, talvez, os marcos mais importantes desse teu mundo pessoal.
Pensava que na segunda semana de férias, teria finalmente o sossego que procurava. Mas pensava mal. Nessa semana começaram a querer romper novos dentes. Depois de ter melhorado e afinado o meu método para te adormecer, quando já me parecias gostar de ser adormecido por mim, chegam essas dores e andamos tudo para trás, voltamos à estaca zero. Uma semana medonha: tu impossível, rabugento, birrento, total e completamente desregulado. Os sonos da noite e do dia misturam-se, tornam-se irregulares e incertos por igual. Tanto eu como a tua mãe entramos num ciclo de ainda maior cansaço. Nos momentos piores, a tua mãe pergunta-me se estamos em crise. O “nós” que somos não está em crise, apenas o “eu” de cada um de nós. É demasiado cansaço, demasiadas pequenas coisas que, quando somadas, escavam um buraco negro na vida de um casal. O ano de 2004 foi maravilhoso mas também violento. Agora, sinto que passámos os meses a tentar gerir o caos, onde a desesperança rondou muitos dos nossos dias. Olho para trás e apenas penso no mais de ti que desejava ter saboreado e que agora se perde irremediavelmente. E estou sempre a repetir para mim mesmo: aproveita tudo, aproveita agora porque amanhã já é tarde.
À medida que a passagem de ano se aproxima, desenvolves febre, um mal-estar adicional. Passámos duas noites acordados, não dormes, choras muito, andamos contigo ao colo e não sabemos o que fazer para te acalmar nas maiores crises. É frustrante ver-te, sentir-te a dor em cada lágrima e não puder (ou não saber) fazer rigorosamente nada que te possa aliviar – sempre achei que ser pai também é isso, é cumprir a promessa que todos nós fazemos secretamente de, perante tudo e todos, te proteger sempre. No dia 31 de Dezembro, à hora a que completas onze meses, decidimos levar-te ao hospital. Espero cinco horas dentro do carro, cheio de sono, calor, um estado de tal forma enrolado por dentro que nem me apetece comer, não me apetece nada. Passadas essas horas a tua mãe diz-me que é laringite, que temos de ter cuidado, podes não conseguir respirar durante a noite – acho demasiado dramático mas ela garante-me que a médica a alertou para esse perigo. Sais do hospital com um aerossol feito. Desmarcamos o jantar. Tentamos dormir um pouco no último entardecer do ano. Consegui dormir meia hora antes de acordares novamente. Depois, só muito depois, voltas a adormecer. À meia-noite e dois minutos deste ano, enquanto na rua estalam foguetes, chocalham tachos e tampas, tocam buzinas e se comemora a passagem de ano com a enorme euforia de quem quer mesmo ver 2004 pelas costas, estou parado, às escuras, de pé junto à porta do teu quarto. Tenho medo que acordes assustado com tanto barulho. Fico ali um, dois, cinco minutos. Só quando tenho a certeza que dormes bem volto para a janela e fumo o primeiro cigarro do ano, pensando que deveria ser o último.
Hoje é domingo. Amanhã estarei de volta ao emprego, à rotina sufocante de todas as certezas, de todo o stress e ansiedade. E destas férias? O que ficou? O que ganhei e o que perdi? Ficam-me alguns bons momentos. Fica-me o estar deitado no chão do teu quarto, contigo a brincar, a explorar esse pequeno mundo à tua volta, depois puxares os joelhos para baixo da barriga, fazeres força e todo o teu corpo empreender um esforço coordenado de mãos e joelhos e começares a gatinhar – quando a tua mãe passa por ali, fica parada à porta, a ver, e apenas lhe digo, “vês? aprendeu a gatinhar”. Ficam-me os momentos em que saí orgulhoso do teu quarto, depois de te adormecer sem lutas, suavemente, com festas no teu cabelo que começa a ficar comprido e revolto. Mas ficam-me também os momentos em que julguei desesperar contigo, em que apenas precisava de um pouco de sossego, tranquilidade, silêncio à minha volta e não consegui – os momentos em que achei que nunca mais queria ter férias, em que não me acho à altura de tudo o que exiges de mim, incapaz de todo o carinho, calma e paciência que me obrigas a ter e que nunca mais aprendo a conseguir. Sensações contraditórias. Porque és o melhor na minha vida, és mesmo. Agora que te conheço, agora que chegaste, a minha vida sem ti não seria vida, apenas um vazio, um espaço oco, denso da certeza que seria impossível de preencher. Agora és tudo. Há a tua mãe e um amor único por ela, é certo, mas tu, tu entraste pela minha vida dentro e mudaste tudo – tudo – a minha forma de ser, de ver o mundo, de estar na vida. Acho que estes meus momentos de desespero ainda são as ondas de choque, o lento caminho para o homem melhorado que tenho de ser, mas apenas isso, nada mais que isso. Porque ao final do dia, apenas me posso sentir feliz por existires, e nós junto de ti, a ver-te crescer.
12.12.04
De nós os três, tu és quem perdoa melhor. Hoje, tive a certeza. Talvez por hoje ter sido um dia particularmente mau, pior ainda que mau, daqueles que consideramos para esquecer. Mas eu não quero esquecer, prefiro antes agrafar o dia de hoje com as palavras que encontrar – para que fique, para que aprenda. Se todos nós temos altos e baixos, o que é perfeitamente normal, hoje, para mim, foi um baixo muito fundo. Se não tivesse passado a noite em claro com terríveis insónias, poderia ter-me sentido melhor. Mas a verdade é que, desde que, há duas semanas, deixei de tomar os anti depressivos (o preço que ainda pago por ter perseguido e alcançado todos os objectivos que estipulei para este ano) as insónias, o cansaço extremo e o abatimento voltaram em força. E o dia começou com uma noite em branco, seguida de uma total desorientação e incapacidade de concentração. De manhã, a tua mãe avariou uma das maquinetas fundamentais de cozinha e tu também estiveste rabugento, numa ladainha persistente, cansativa. Uma vez que ando outra vez sem forças para o que quer que seja e ontem foi-me esgotante passar a tarde num centro comercial a abarrotar de gente nas compras de natal, tínhamos decidido passar o domingo em casa para carregar baterias para mais uma semana de trabalho. Após o almoço arranquei sozinho para o centro comercial, em busca de um robot de cozinha que resolvesse de vez os problemas à tua mãe. Se era importante comprar hoje qualquer coisa que substituísse a máquina avariada, também foi um péssimo momento para o fazer. Passei imenso tempo no trânsito, quase meia hora já dentro do parque de estacionamento à procura de um lugar, e depois, quando finalmente subi as escadas rolantes para o Colombo, a confusão acertou-me em cheio como uma verdadeira bofetada. Para onde quer que me virasse não conseguia dar umas quantas passadas sem ser obrigado a parar, a ziguezaguear, procurar espaços para ultrapassar as famílias numerosas que passeiam em bando. E o barulho de fundo, o burburinho incessante, irritante. Para tudo existiam longas filas de espera. Para beber um café, estive na fila. Depois, fui ao hipermercado comprar Fissan e, para pagar as quatro embalagens do creme e dois livros de histórias para crianças, estive na fila, atrás dos perus, dos salgadinhos, das garrafas de vinho e de sumo, dos rolos de papel higiénico e de alumínio, do pão, dos pensos higiénicos e de imensas latas de todas as cores e conteúdos possíveis. Quando finalmente saí daquela fila, enfiei-me na loja dos electrodomésticos. Foi ainda pior, ainda mais confuso e esgotante. Só ao fim de muito tempo consegui fugir dali para fora. Quando entrei no carro, com as lágrimas quase a rebentarem-me nos olhos, tremia e começava a sentir as tonturas habituais que me têm surpreendido nos últimos dias. Depois foi o regresso a casa, o lento regresso a casa, onde cheguei de rastos, esgotado.
Quando acordaste, ainda nem tinha tirado o casaco. A tua mãe estava a preparar-te o lanche. Fui eu quem te fui tirar da cama e entreter até se fazer a hora do banho. Continuaste rabugento como de manhã, talvez mais cansativo, ou talvez eu já não conseguisse ter paciência nenhuma. Querias mexer em tudo, puxar tudo. Ao mesmo tempo, nada te prendia a atenção, nada te contentava. Não estavas bem em lado nenhum nem de nenhuma forma. Era sempre o sítio onde não estavas ou o objecto que não tinhas que te atraíam. Desde essa altura até finalmente adormeceres um bocado para lá da hora a que supostamente deverias, fartei-me de gritar contigo, de agarrar em ti bruscamente e sentar-te direito quando querias explorar as redondezas. Houve momentos em que te ignorei por completo ou em que te gritei que te calasses, que parasses quieto, que largasses isto ou aquilo. Antes do banho, andavas de andarilho atrás de mim e foste para um sítio que eu não queria, com um forte esticão empurrei-te para o meio da cozinha. E o que tive em troca? Que queixa? Que juízo? Olhaste para o relógio que temos na parede e riste muito, olhavas para mim, depois para o relógio e rias com uma felicidade genuína. E é assim que me desarmas, que me obrigas a reflectir no que faço. Especialmente hoje que fui tão pouco pai. Mesmo que hoje me sinta a enlouquecer e tenha medo, mesmo que, assim que acabar de escrever, tome um daqueles comprimidos que o médico me receitou para situações de S.O.S. e me enfie na cama, mesmo assim, tu não mereces que te ignore, que te grite como gritei, que te despreze como hoje fiz – nunca te tinha tratado assim. Todos os dias, mereces mais e melhor de mim, e hoje fiquei chocado comigo mesmo. Desiludido, até. Agora, que vou certamente dormir, sei que tu, na tua inocência genuína de criança, ainda não conheces o rancor, a sensação de injustiça, as culpas, as ofensas. Tu, ao continuares a rir para mim, a puxares-me, a palrar para mim, perdoaste-me, fizeste-me sentir perdoado, sem sermões, sem vinganças, sem confianças perdidas ou abaladas. E ao mesmo tempo que essa tão sincera absolvição me enche de felicidade, ainda me faz sentir pior.
10.12.04
Como hoje tudo se atrasou na tua rotina, quando cheguei a casa ainda estavas acordado. Apanhei-te mesmo a tempo de ires para a cama. Depois de te deitarmos, começámos a aquecer o jantar, que entretanto esfriara, feito que fora para duas horas antes. Entretanto decidiste que ainda não querias dormir. Começaste a chorar. Talvez seja uma fase, não sei. Agora andas assim. Tens sono e não queres dormir. Reclamas, no teu reclamar típico de cama, contudo, quando te metemos na cama recusas-te a adormecer. Tens adormecido ao colo da tua mãe. Eu decidi que me calhava a mim “resolver o assunto”. Antes de ir para o teu quarto, disse à tua mãe que começasse a comer, que certamente demoraria. E demorou.
Estás na tua cama e todo o teu esforço é para te levantares e andares de um lado para o outro agarrado às grades. É um esforço descomunal para te içares de entre os cobertores até às grades. Fazes tamanha força que chegas, por vezes, a bolçar. Ainda por cima, não desistes. O sono era tanto que chegavas a deixar cair a cabeça sobre as mãos cruzadas nas grades – mas sempre de pé. Como não suportas vir ao colo para adormecer (nesta altura o meu colo só te serve para meio de transporte, nunca de rendição) fiquei sentado ao lado da tua cama. Sussurrava-te baixinho que dormisses, dizia-te que és impossível, dava-te a tua fraldinha do “sono” de que tanto gostas e precisas quando chega o momento de dormir, e certificava-me que tinhas a chupeta na boca. À medida que o tempo passava, os teus risos e a tua algaraviada não cessavam nem paravam. Pulavas, batias com as mãos na parede, puxavas-me o nariz, puxavas o coelho de peluche que, por pouco, deixava de ficar suspenso no móbil sobre a cama, caías, redondo de sono, bêbado de sono. Mas com um esforço cada vez maior, erguias-te sempre, para meu espanto e incompreensão. Ao fim de muito tempo, com uma irritação e cansaço crescentes, comecei a sabotar a tua actividade. Debrucei-me sobre a cama. Querias levantar-te e tinhas o meu corpo a ocupar o espaço essencial para te conseguires erguer, portanto, o teu percurso era menor e mais cansativo pois causava-te desconforto – como alguém com um metro e oitenta andar dentro de uma assoalhada com metro e meio de altura. Mas nem assim desistias. Insistias sempre, mesmo que fosse apenas para cair, insistias novamente. O teu esforço, lembrou-me da clássica cena cinematográfica em que o herói leva um soco e cai, mas mesmo sabendo que vai apanhar outro e mais outro, levanta-se sempre, optando por morrer de pé, como as árvores. Já bastante irritado, acabei por te manter na posição de deitado. Deitei-te mesmo, tapei-te o melhor que consegui e depois mantive a minha mão sobre o teu traseiro de forma a não conseguires mesmo levantar-te. Choraste um pouco e aninhei-te a fralda. Depois fugi dali para fora o melhor que consegui. Tempo: uma hora.
Quando cheguei à cozinha, a tua mãe já tinha jantado, obviamente, e só o meu prato restava na mesa. Aproveitei para fumar um cigarro. Perguntou-me se não ia comer. Respondi-lhe que já nem tinha vontade. Ah! Agora entendes o que eu passo para o adormecer, não é? Disse-me com ar triunfante. A questão é que eu sempre compreendi, e sempre lhe dei o valor. E além disso, arranjei uma forma de te obrigar a dormir sem colo e sem te tirar da cama. Por muito desgastante que seja para os nervos, quer os meus, quer os teus. E nesse momento, às onze da noite de uma sexta-feira com uma semana de trabalho sobre os meus ombros, dei por mim a pensar porque não és diferente – um bocadinho que seja. Acontece que, por vezes, tenho medo das coisas que penso, daquilo que desejo, porque de uma forma ou de outra, tudo aquilo que desejamos acaba sempre por se concretizar, portanto, aprendi a ter sempre muito cuidado com o que desejo. E depois penso que só tenho motivos para me sentir feliz contigo, como és. Penso que é um pensamento devastador desejar-te diferente de ti. Afinal, nós somos felizes e, todos os dias, me devo sentir feliz só por esta pequena família que somos. São tantos os relatos que ouço, tantos os casos que conheço de famílias onde a felicidade se esqueceu de parar que só posso estar completamente derreado para poder desejar que sejas de outra forma. Uma amiga de uma amiga nossa vai dar à luz uma criança que, numa das mãos, só tem dois dedos. E os que nascem inválidos, deficientes, atrofiados? Por cada não sei quantos milhares de bebes nascidos saudáveis e perfeitos, há um que recebe a factura dessa felicidade, uma criança que nunca será completa para a vida, que nunca viverá da mesma forma que todas as outras à sua volta. Mesmo com pais extremosos, que amem incondicionalmente essa criança, esse injusto “desvio” estatístico estará lá todos os dias, a todas as horas, entre essa criança e todas as outras. Essa factura é tão tremendamente injusta que chego a pensar que opostamente a nossa felicidade também acaba por ser injusta. É uma ideia esmagadora. E é uma ideia persistente, com diferentes cambiantes ao longo da tua vida. Durante a gravidez, as ecografias sempre nos tranquilizaram, mas só quando te vi nos meus braços e pude fazer uma contabilidade rápida dos teus membros é que me senti verdadeiramente tranquilo. Mas essa tranquilidade durou pouco, logo passei para outro desassossego que é o medo de não evoluíres normalmente, ou de, a dada altura, começares a regredir e deixares de ser uma criança normal. A sério, tenho medo, um pavor enorme perante a ideia que algo possa vir a correr mal. Depois penso que, para que tu, meu filho, e mais umas centenas de crianças tenham “sorte”, alguém algures pagará a factura. E no meu pensamento torna-se tão injusto ser infeliz como ser feliz. Ao mesmo tempo, sinto-me tão feliz por estarmos deste lado, do lado da felicidade, mesmo que sejas um terror para adormecer, mesmo que sejas um “osso duro de roer”, mesmo que estafes a tua mãe e a mim, és como és e nunca serias mais meu filho ou melhor se não fosses assim.
Acabei por jantar após o cigarro. Já passava das onze. Mesmo aquecido duas vezes, o comer estava óptimo.
5.12.04
Nós os três e um prato de arroz. É inexplicável a porcaria que consegues fazer com um único prato de arroz. Como a tua comida sempre foi passada, queremos começar a habituar-te à fascinante arte da mastigação, vulgo “dar ao dente”. A ideia, em si, é simples. Coze-se um arrozito, mete-se no prato e, depois de comeres a tua refeição normal, quando já estás alimentado e satisfeito, damos-te algumas colheres com o arroz para começares a dar uso a esses dentitos de coelho.
É claro que, da teoria à prática, há espaço para um mundo. E bem o pudemos constatar. Começou com o simples acto de cuspires os bagos de arroz. Nada de mais. Continuámos a insistir. A questão tornou-se mais séria quando quiseste conhecer a textura e densidade do produto propriamente dito, dentro do prato, portanto. Assim, sem arregaçar mangas nem qualquer prurido, afundaste mesmo as mãos no arroz e começaste a experimentar o que podias fazer. E aí, valeu tudo. Enormes pedaços de arroz começaram a espalhar-se por todo o chão da cozinha. Acabámos por aprender que o arroz serve de plasticina, como nos demonstraste ao comprimi-lo e desfia-lo entre os dedos. O arroz serve para atirar. As mãos cheias de arroz são óptimas para esfregar na cara. Resumindo ligeiramente o que aprendemos esta noite, o arroz serve mais ou menos para tudo, menos para comer.
A certa altura, quando nos apercebemos que não ias mesmo decidir-te por mastigar o arroz ou engoli-lo sequer. Decidi dar-te algumas explicações. Uma vez que não usaste colher, eu também não. Meti os dedos no teu prato de arroz e tirei um bocado, que meti na boca e mastiguei com toda a lentidão e exagero que consegui. Eu mastiguei de boca aberta, fiz um barulho atroz a mastigar, em suma, quebrei todas as regras de boa educação à mesa que me ensinaram. Tu achaste imensa graça. Para ti, estas explicações práticas fizeram-te rir a valer. Especialmente a parte em que disse à tua mãe que “explicasse” também e ficámos os três a meter as mãos no teu prato de arroz, comigo e com a tua mãe a demonstrar as nossas habilidades mastigadoras e perante a nossa própria surpresa por conseguirmos comer de forma tão exposta e sonora.
Se foi divertido o tempo que passámos às voltas com o teu arroz? Sem dúvida que foi. Se foi limpo? Nada. Se deu trabalho depois a limpar o chão da cozinha e descobrir bagos de arroz branco colados nos sítios mais incríveis? Deu sim senhor. Agora, se tu comeste um bago que fosse de arroz? Não, nem um único.
4.12.04
Temos um cão. A tua mãe deu-lhe o nome de Ben. Para mim é apenas Canídeo. Mas não é um cão de verdade. Alimenta-se com quatro pilhas alcalinas AA e não passa de uma versão robótica do melhor amigo do homem. Pequeno, em plástico cinzento, com umas orelhitas e cauda mecânicas, dotado de movimento. Ladra e gane em playback. Uma mímica de vida, especialmente no andar, quando as patitas plásticas fazem um som caracteristicamente artificial nos ladrilhos do chão. A ideia de ter um cão “a sério” num apartamento continua a parecer-me inaceitável, desumana. Qualquer ser merece atenção, carinho, condições e respeito. Como dar tudo isso a um animal que passe um dia inteiro sozinho, fechado num apartamento onde só veja os donos umas poucas horas (sempre as piores em termos de paciência e disposição) à noite e fins-de-semana? Não, por muita pena que tenha, um cão de verdade está, pelo menos por agora, excluído dos nossos planos.
Contudo, os pais projectam-se a eles mesmos nos filhos, em tudo o que ainda está por ser. Nos supermercados de brinquedos, todos nós (os pais) voltamos à ilusão da infância, a maturidade suspende-se, esquece-se de nós e nós dela. Enquanto deambulávamos pelos corredores à procura de dois ou três brinquedos para oferecer no Natal, ouvi um pai dizer, apontando para um enorme camião de plástico, uma réplica dos camiões da construção civil: por mais uns euros levamos aquele, que sempre tem controlo remoto, agora ele ainda não vai perceber, mas qualquer dia vai saber apreciar. Afinal, quem ia «realmente» guiar e brincar com o camião? Sinceramente, não vejo nada de errado. Afinal, todos nós fomos crianças. Até acho positivo que um pequeno recanto de nós continue sempre infantil, uma criança pequenina que vive dentro de nós só para nos lembrar de sorrir quando ninguém espera que o façamos. Embora o controlo orçamental me imponha sempre outras prioridades verdadeiramente mais urgentes e importantes, ainda não perdi a esperança de comprar a Playstation...
A todos os níveis, é complicado perceber que tu, concebido e “amamentado” por nós, tens uma vida tua, só tua, feita de milhentas conexões misteriosas mas totalmente pessoais e intransmissíveis. É esse o nosso verdadeiro bilhete de identidade, mais que um nome, mais que um número, mais que uma impressão digital ou até uma cadeia de ADN, todo o indefinível que cada um de nós é e que mais ninguém, nunca, será. Mas não deixa de ser difícil entender que há uma parte de ti que não és tu, uma parte que não existe em ti mas sim na minha expectativa de ti. É como se fosses dois: aquele que és verdadeiramente e aquele que eu imagino (desejo) que sejas. A situação do Canídeo é apenas um episódio engraçado dentro desta ideia. Acho que, lidar com esta dualidade, será um desafio se atravessará no nosso caminho, uma e outra vez ao longo da vida que nos surgir juntos. Como em criança quis ser astronauta, gostava que tu fosses astronauta. Esse o lado que projecto em ti. Por outro lado, o teu caminho é, deve e será sempre só teu. E tu deverás ser sempre quem achares que és. E isto tudo porque o eu criança (assim como a tua mãe versão criança) ficou fascinado por um cão robótico que não existia na minha infância – e teria dado tudo para ter um robot assim. Projectámos em ti o nosso próprio desejo de um brinquedo, acreditando, ou querendo acreditar, que o apreciarás, que o desejas também, à imagem de nós. Portanto, olhámos para o “bicho” sob todos os ângulos possíveis, confirmámos o pedigree e trouxemo-lo connosco para casa. Chama-se Ben.
Ben conhece Gordito. Gordito conhece Ben.
Em poucas horas, o Ben perdeu uma orelha e cauda salvou-se por pouco. Ao contrário de um animal verdadeiro, o nosso Canídeo não sabe, nunca saberá, que tem de fugir de ti pois, a tua curiosidade, carinho e vontade de brincar são imensas, devastadoras, demasiado fortes para a robustez plástica de um bicho sem alma. Mesmo assim, é fabuloso saborear-te o sorriso iluminado, o riso, o espanto e a alegria genuína que só um bebé sabe transmitir face ao puro prazer. As horas correram rápidas numa euforia e algazarra estupenda – o ladrar do cachorro, os teus gritinhos felizes, nós nas imensas pequenas tarefas com que construímos o fim-de-semana, entre béu-béus, entre “não faças isso! não metas o Ben na boca!”, entre recuperar o estafado cachorro quando ficava de patas para o ar convencido que andava, ou quando ia contra portas, móveis e portas, e encaixar novamente a orelha. A certa altura, o cachorro pedia festas e carinho (traz botões e sinais próprios) enquanto tu fazias birra para comer. Estava eu absorto na fatigante luta de te convencer a comer e andava a tua mãe com roupas debaixo do braço a caminho da máquina de lavar e parava a meio do percurso para fazer festas ao cachorro. De repente a família aumentou e os carinhos, a atenção, são igualmente distribuídos. São estes pequenos momentos que me levam a acreditar que deves ter irmãos ou irmãs. Porque vejo que, mesmo na confusão, mesmo no cansaço, mesmo na correria, há sempre tempo e amor para mais, nem que seja para fazer uma festa numa cabecita de plástico atestada de fios e circuitos impressos. Estes momentos são mais fortes que as vezes em que a tua mãe me diz que vai enlouquecer e eu acredito, ou em que sou eu que lhe digo que vou enlouquecer e ela sabe que é verdade. Ou as vezes em que ando pela casa às escuras (nunca acendo a luz, decorei todos os recantos, todos os espaços) e tropeço em brinquedos desarrumados, no andarilho que ficou abandonado no corredor. Ou quando levo à boca o biberão que a tua mãe deixou no lugar do copo para a água. Há uns tempos, estavas ao meu colo, e a tua mãe andava de tal forma cansada que, em vez de te dar o biberão a ti, insistia em dá-lo a mim – apesar dos meus protestos, demorou a perceber o pequeno equívoco.
Agora, tanto tu como o Ben dormem tranquilos. Só que a ele eu desliguei o interruptor. É muito mais fácil ter algo que se liga e desliga de acordo com a nossa disposição. Um filho não se desliga – é um sentido único, para o bom e para o mau, é a fuga para a frente. Uma vez concebido, é para o resto da vida. Nós, a família quase sempre feliz, para o resto da vida.
3.12.04
Especificações técnicas:
Peso: 10,5kgs. Estatura: 77cm. P.Cef: 46,4cm.
2.12.04
Tens dez meses e dois dentes. Há momentos em que me pareces autónomo, uma vida já feita, um pequeno adulto. Sei que tudo muda no tempo. Sei que as pessoas mudam no tempo. Mas por vezes, só por vezes, pareces-me já completo, uma miniatura de um tu futuro, distante na vida. Nesses momentos, eu e a tua mãe somos acessórios, assistentes pessoais de um homem sem tempo para tratar de todos os seus assuntos. A cada dia que passa espanto-me perante o milagre da vida. Olho para ti e penso que nem sempre exististe, que nem sempre foste, contudo, apresentas-te aos meus olhos completo, com uma personalidade que não mudará muito, com um corpo perfeito, teu, só teu. Espanto-me. Agora existes, agora és. Reduzo o meu pensamento ao lugar comum que ronda o inexplicável: agora tu és tu.
Ao mesmo tempo, pergunto-me quando de ti é aprendizagem e individualidade. Que percentagem de ti é rotina, mecanismo, mímica ou repetição? Eu sei que é impossível (felizmente) traduzir um ser humano em números. Sei que existe em cada um de nós uma zona secreta completamente fora de todas as equações e fórmulas dos homens. E podem inventar nomes, teorias, análises estatísticas e uma infinidade de gráficos esplendorosos mas, o «eu» que cada um de nós é, estará sempre para lá de qualquer definição ou catalogação – o «eu» é único, indizível, impossível de pronunciar. E como sabemos onde começa o nosso «eu» e onde acaba tudo o que nos é inculcado? Onde acaba o manual de “boas maneiras” e começa a poesia efémera que habita cada um de nós? Não vou encontrar resposta. Não vou sequer procurá-la sob risco de me tornar prisioneiro de uma quimera. Apenas o pergunto quando a tua mãe me diz para te lavar os dentes antes de ires para a cama. Pergunto estupefacto: lavar os dentes? Sim, claro, responde, desde que ele tem dentes que os lava de manhã e à noite, e olha que ele gosta. Não quero acreditar, mas lá vamos os dois para a casa de banho. Num copo só teu, uma pequena escova azul. Uma escova minúscula, de um tamanho verdadeiramente infantil. Pego nela, molho-a e aproximo-a da tua boca. Tu, com o ar mais natural do mundo, abres a boca, tendo o cuidado de baixar o lábio para exibires os dois dentes órfãos que tens. Passo a escova, não a tentas morder, nem roubar, nem fazer nenhuma das tropelias habituais. Aceitas a lavagem de dentes como a coisa mais lógica de se fazer antes de ir para a cama. E eu penso, apenas isso, penso que parte de ti age com tal naturalidade. Estou a lavar os dentes à parte robótica de ti, ou é aquele que sempre foste e sempre serás que acha assim tão natural a lavagem?
Quando chego contigo ao quarto, a tua mãe pergunta:
- Então, não gostou?
- Sim... Gostou. Eu é que não sabia que ele gostava.
Enquanto dentro de mim me limito a aceitar o espanto. E a pensar um pouco sobre quem és. Ou quem estamos a fazer de ti.
1.12.04
Estou contigo ao colo e vamos à janela da cozinha. Entre nós e os outros prédios estende-se o relvado, com a erva agora fresca e verdejante, alguns pedregulhos perdidos, e os plátanos. As folhas amadurecem para uma cor amarelada atravessando várias cambiantes de verde. É um amadurecimento que lhes cresce de dentro, lembram-me limões – são bonitas, tranquilas face ao vento que as empurra, puxa, despenteia. Junto a cada uma delas, amontoa-se um tapete de folhas caídas, ainda vivas, ainda amareladas – um tapete que o vento espalha depois, no ritmo próprio do Outono. Esta estação do ano traz consigo uma beleza própria, é uma beleza serena, melancólica, uma beleza para se ver de uma janela ou em passeio calmo num fim de tarde, quando os lumes se acendem nas lareiras e com a luz tomba também o cheiro da madeira queimada. É necessária uma certa paz para se poder apreciar a beleza das árvores que perdem a folhagem, da relva salpicada de folhas, da chuva miudinha que marca o ritmo das horas, dos dias, dos meses.
Durante uns instantes, ficamos os dois à janela. A ver o Outono lá fora. Desvio os olhos da paisagem para ti e vejo-te sereno, tão calmo, a veres a mesma beleza que eu, talvez a sentires exactamente o mesmo que eu, talvez com palavras diferentes, ou com uma intensidade distinta, mas sem dúvida, preso no mesmo sonho. Um pai com o seu filho ao colo. Ambos encostados ao vidro meio embaciado. Roubando, juntos, um absurdo instante à eternidade. Antes de te lembrares que és criança e a vida não pára. Antes de bateres com as mãos no vidro e procurares novos objectos, outras coisas que te despertem a atenção. Um instante, apenas. Mas um instante enorme, gigante, profundo, do tamanho do mundo, da vida, do amor que há entre os pais e os seus filhos.
30.11.04
Às quatro e tal da manhã, os cinco minutos que um biberão demora a aquecer parecem horas. Quando estamos a dormir profundamente depois de um tempo indefinido de insónias. Quando sentimos o frio rondar-nos a pele mal destapamos cara e orelhas. Quando estala o grito no silêncio e estamos demasiado estremunhados para perceber o que se passa, a não o facto de estares a gritar. Quando saímos da cama em tropeções, ainda a dormir, a sentir o momento mais frio da noite.
Depois a tua mãe fica contigo ao colo enquanto eu vou preparar o biberão. Vocês mantêm uma ligação invisível que me exclui durante a noite. De mim não aceitas o biberão de noite. Nos meus braços não adormeces, choras. É certo que não tentei muitas vezes, apenas as suficientes para saber que não gostas e, o sono faz-nos optar pelas soluções mais práticas. A tua mãe abraça-te, tira-te da cama, embala-te e numa sabedoria que só as mães sabem ter, diz-me que é fome, que vá preparar-te um leitinho. O tempo, à medida que passa por nós, torna-te mais fácil, mais compreensível, mais adaptado a nós ou possivelmente nós muito mais adaptados a ti. Sinto-te cada vez mais fácil, mais simples. Custa-me cada vez menos. Faz parte da aprendizagem, creio.
Aos encontrões a paredes, esquinas e ombreiras de portas, descubro o caminho para a cozinha. Tiro um biberão do esterilizador, encho com água, oito colheres de leite em pó, aqueço durante cinco intermináveis minutos. Testo no pulso. Está bom. Levo-vos o leite. Cego pela transição da claridade para a escuridão mal vos consigo ver. Eu e tua mãe trocamos gestos secos, rápidos, uma vez mais, baseados na optimização da rotina, do destilar da comunicação até ao eminentemente prático. O mínimo. Como quando cheguei a casa já dormias, ainda não te tinha visto. Faço-te uma festa rápida nos cabelos enquanto a tua mãe troca rapidamente a chupeta pela tetina morna do biberão. Saio o mais silenciosamente que consigo, mesmo assim ainda bato com o ombro no roupeiro. Felizmente era mesmo fome e não ligas.
Volto à cozinha, à janela, onde fumo um cigarro a tremer com o frio da noite. Com isto são cinco da manhã. Toda a vizinhança fechada na sua própria tranquilidade. Os carros estacionados, as ruas desertas, um céu enevoado e baixo de nuvens. Muito frio. E o calor do cigarro a arder-me entre dedos. Depois volto para a cama, onde ainda repousa o meu calor. Onde me sinto descongelar. Onde fico deitado de barriga para cima a ouvir-te sugar o leite do biberão. Poucos minutos depois a tua mãe deita-se a meu lado. Bebeste quase tudo, diz-me. E em pouco tempo, o silêncio preenche novamente todo o espaço, o calor abraça-nos, e finalmente, o sono deita-se connosco e as horas passam breves até que a madrugada se desvaneça na manhã de um novo dia.
28.11.04
Por vezes, passear-te é muito semelhante a passear um Rottweiler. Com toda a tua vontade, energia e vivacidade, e mesmo não andando sozinho, sendo nós a apoiar-te o corpo enquanto vais ensaiando os teus passos, acabamos por correr, por suar, atrás de ti. Ainda hoje tivemos mais uma prova disso mesmo. Fomos à Baby Feira Mix.
Assim que sentiste os pés no chão, não paraste mais. Numa cabana em madeira para as crianças brincaram, quiseste entrar pela janela. Sem que ninguém te convidasse, gritaste lá para dentro, dirigiste-te às crianças que brincavam lá dentro, ainda puxaste os cabelos a uma rapariga, enquanto rias e os teus olhos brilhavam de contentamento, enquanto batias com a mão na madeira, enquanto inclinavas todo o corpo para entrares pela janela e juntares-te às outras crianças. Quando a rapariga a quem puxaste o cabelo saiu da cabana, quiseste ir atrás. Muito mais velha que tu, acabou por fugir de ti. Eu com as costas a doerem, da posição incómoda de estar dobrado a meio para te segurar por baixo dos braços, e tu, feliz, contente, inebriado com tantas cores, bonecos, crianças, vida à tua volta. Quando precisei de descansar um pouco, sentámo-nos numa mesa para criança, com papéis brancos e lápis de cor. Quiseste comer todo o arco-íris que se espalhava sobre o tampo. Ao teu lado estava a uma criança a pintar. Cada vez que ela escolhia um lápis tu roubavas-lho. Depois a menina dizia muito baixinho que estava a precisar daquela cor e eu devolvia o lápis que entretanto tentavas abocanhar. Ao mesmo tempo que o suor me escorria pelas costas e tu tentavas mergulhar numa gigantesca caixa de Lego, senti-me deslumbrado pela tua alegria, pela tua voracidade em tudo ver e em tudo mexer. Não paravas, simplesmente não paravas. Lanchaste de pé, aos pulinhos sobre as minhas pernas, enquanto a tua mãe tentava acertar-te com a colher na boca o melhor que conseguia. Ainda correste a feira inteira pelos teus pés, rindo, sorrindo e chamando a atenção de quem vias por onde passámos. Como sempre, imparável, na facilidade com que te “metes” com adultos e crianças, no fascínio com que exploraste o espaço, no rigor com que tocavas todos os objectos que te interessavam, o tempo que os apertavas entre o indicador e o polegar.
Quando saímos, chovia. Deixámos o carro a duas ruas de distância. Carreguei-te ao colo. Foram duas ruas que atravessámos deslumbrados, eu contigo, e tu com a chuva. Olhavas para o céu, abrias e fechavas as mãos como se pudesses agarrar as gotas grossas e esparsas que tombavam sobre a cidade cinzenta na tarde deste domingo. No caminho, adormeceste na cadeira do carro de que tanto gostas. Foi a primeira vez que adormeceste sem birras, sem reclamares pela tua cama. Eu e a tua mãe trocámos um sorriso quando te vimos de braços abertos, as palmas das mãos abertas, viradas para cima. E os olhos fechados num sono sereno. Quando parámos à porta de casa, desliguei o carro e ficámos ali os três, eu de mão dada com a tua mãe. A tarde anoitecia-se por fim. Apenas ouvíamos a chuva a estalar sobre o carro. E tu pacífico, a dormir.
Estás a crescer. E eu maravilhado em testemunhar-te essa vida.
27.11.04
O fascínio obsessivo do pormenor. Sempre. É mais forte que tu. O que te interessa é o detalhe, a insignificância, o que mais ninguém vê. Ao mesmo tempo, a alegria e o prazer nas pequenas coisas. Olho para uma porta e penso que é apenas uma porta. É uma miopia da idade adulta – fechamos os olhos da percepção, tomamos tudo por compreendido e adquirido. Se viajasse a um lugar desconhecido, olharia para cada detalhe, agora no dia a dia, acabamos por viver cegos do que nos rodeia habitualmente. Esqueço-me que, para ti, este é um mundo excepcionalmente novo, pleno, denso com todas as coisas. Não vês uma porta, uma gaveta, um qualquer objecto como eu. Não consigo evitar o riso que me provocas ao ver-te fascinado com qualquer coisa que te desperte a atenção, especialmente tudo o que é pequeno, minúsculo.
As portas fascinam-te indescritivelmente. Não são os veios da madeira, ou as cores, ou os puxadores – é algo para além de tudo isso, algo que não consigo ver ou entender. Passas imenso tempo diante de qualquer porta, tocando, batendo, abrindo e fechando até entalares os dedos. Quanto maior for o barulho, maior o teu riso, o teu gozo inexplicável. Uma migalha de pão, uma etiqueta de um boneco ou de uma peça de roupa, qualquer objecto. Brincas, tempo e tempo, com prazer, com risos, com uma satisfação enternecedora. Sinto-me rendido em todos esses momentos, quando te vejo perseguir uma migalhita de pão que insiste em escapar-te entre os dedos, quando ficas muito sereno a revirar um boneco para lhe apanhares a etiqueta, que depois miras, observas, e voltas a ver. São três fases distintas. Começas pelo toque, é por aí que um objecto tem de te cativar segundo uma métrica que só tu conheces. Depois de virares e observares de todos os ângulos, abanas. Fazer barulho, qualquer que seja, é bom, pontua na tua consideração. Passadas essas duas fases: boca. É aí que intervimos. É aí que ora fazes birra, ora testas a persistência aos limites. E também já sabes o que é «não», de preferência dito por mim, num tom autoritário que não é nada meu, que me faz virar a cara para o lado e sorrir. É nesse exacto instante que paras, olhas para mim, vês e ouves-me dizer a palavra «não» e depois, logo a seguir, e sem desviares os olhos dos meus, boca. Já sabes perfeitamente. E és teimoso e persistente. Quando estou com o tempo e paciência suficientes, ficamos ali imenso tempo num ciclo infinito, tentas abocanhar, eu digo que não e impeço-te, paras, volta tudo ao início. Geralmente ganhas, ou seja, eu perco a paciência e tiro-te das mãos o objecto da disputa. Se formos rápidos a distrair-te, não há birra. Quando não somos, temos choro durante um bocadinho. Mas também não és muito insistente, rapidamente arranjas outro objecto qualquer para o teu fascínio e tudo volta à estaca zero.
Também já sabes ser sorrateiro, quase discreto, como esta tarde, em que tivemos a visita do Rafael, que é pouco mais novo que tu. Não gostas muito de contacto corpo a corpo, isso já nos apercebemos. Agarrarem-te, darem-te beijos ou acariciarem-te não te agrada, evitas. Mas não estranhas o colo de quem não conheces ou a quem não estejas habituado. Também não te importas de brincar e interagir com outras crianças. Também não me parece que sejas ciumento por nos veres com outras crianças ao colo, ou possessivo para com os teus brinquedos. Deu para experimentarmos tudo isso com o Rafael e com os pais. Eles pegaram em ti, nós pegámos nele, sentámo-vos juntos e não houve o mais pequeno problema. Felizmente não estranhas. Mesmo quando fomos a casa deles, não tiveste o mais pequeno problema em quereres agarrar a cadelita pequena que lá têm – e que muito mais sensatamente, fugiu de ti. Da mesma forma em como hoje tu e o Rafael brincaram com os mesmos brinquedos, numa abordagem de “ora te tiro o brinquedo, ora mo tiras a mim”. Por isso, por todo o à-vontade, ninguém reparou quando sorrateiramente, puxaste a peúga do Rafael por baixo do tabuleiro da tua cadeira e ficaste muito sereno, discreto, até, de ar sorridente e peúga em punho. Até o Rafael demorou algum tempo a reparar, olhando horrorizado para os pés e vendo um dentro da peuguita quentinha, e o outro ao frio, com os dedinhos a esfregarem um no outro. Tu, calmíssimo, um exemplo de serenidade e fascínio, por todos os pormenores.
23.11.04
Um pai. Um filho. E uma tristeza enorme pelo meio. Foi assim que me senti hoje quando saíste com a tua mãe. Habitualmente eu saio primeiro e são vocês a levar-me à porta. Hoje foi ao contrário. Eu de roupão. Eu ainda remeloso. Eu mal acordado a ver-vos esperar pelo elevador, os dois a olharem para mim. Tu sentado no teu carrinho, com um casaco e capuz que te fazem ainda mais redondinho, o meu gordinho. A tua mãe atrás. Fiquei ali, à porta, a olhar para vocês e a ser olhado de volta. Aqueles segundos pareceram-me eternos, intransponíveis, imensos. Apesar de tudo estar bem, apesar de ser um dia apenas ligeiramente diferente por vocês saírem antes de mim, apesar de tudo, uma tristeza enorme dentro de mim, uma sensação de perda, uma vontade doida de vos agarrar e pedir que fiquemos os três em casa, juntos, só mais um bocadinho, só para te fazer festas, para vermos juntos os desenhos animados, para te deixar puxar e amarrotar as fotografias que temos penduradas no frigorífico, ou arrancares o aspirador do suporte da parede, ou derrubares todos os DVDs alinhados no móvel da televisão. Mas tu estavas calmíssimo, tão estranhamente sereno. Olhavas para mim. E que verias tu em mim? Verias a tristeza que sentia sem saber explicar? Fiquem só mais um bocadinho. Hoje, fiquem só mais um bocadinho, assim, os três juntos.
Depois, entraram no elevador. Trocamos um adeus a que ainda não sabes ou não queres responder. Gestos rápidos. Cruzados num instante suspenso da pressa da manhã. Depois, a vida arrancou novamente e só ficou uma vaga sensação de tristeza. Até à noite, quando cheguei, tarde como sempre, mas com muitas, muitas saudades.
15.11.04
Preencho uns papéis simples. Nada de extraordinário. Como de costume, deixo andar até ao último dia do prazo. Mesmo no último dia, guardo para a noite, para quando já dormes, quando me sento na sala com uma luz fraquinha e aí apenas escuto o silêncio que desce sobre a casa. Junto os papéis à minha volto, uso um livro do Astérix como secretária. Vou preenchendo. Quando finalmente chego ao último formulário, deparo-me com a frase “beneficiários em caso de morte”. Preencho na primeira linha o nome da tua mãe, a data de nascimento e o deselegante termo “esposa”. Digo deselegante porque afinal trata-se da mulher com quem decidi passar todos os dias da minha vida, a pessoa para quem tenho de estar sempre, a pessoa a quem disse que sim na “saúde e na doença”, no bom e no mau, nos dias de felicidade e no dia de tristeza. É uma pessoa de tal forma única e especial que do nosso amor surgiste tu, meu filho – também tu único e especial em todas as formas possíveis. E para mim, o termo esposa é longínquo, distante, impessoal – em última análise, o amor formalizado no seu oposto. Na linha imediatamente abaixo, preencho o teu nome, a tua data de nascimento, o grau de parentesco: filho. Começo por estranhar ver-te assim preenchido num formulário insípido. Os teus dados – filho. És sempre tão mais que apenas um nome, uma data de nascimento e um parentesco que me faz confusão a redução de ti a uma entrada num formulário. Como podes ser tão pouco no papel?
Entretanto, a tua mãe termina a sua higiene nocturna e vem aninhar-se no sofá, ao meu lado.
- Então? Já preencheste tudo?
- Estou no fim.
- E isso é o quê? – Pergunta.
- Isto é um papel a dizer que, se eu morrer, vocês recebem uma ninharia.
Ela lê o papel com atenção. Vê o teu nome lá gravado. Também a ela faz confusão. Diz-me que precisas de um pai, sempre. Que se torna estranho, tão estranho, preparar assim a eventualidade da minha morte. Entendo-a perfeitamente. É confuso viver a vida preparando-nos sempre para a morte, uma morte que, simultaneamente, julgamos impossível, demasiado distante, absurda. A tua mãe não chora mas fica com aquele brilho de comoção no olhar que lhe conheço tão bem. É a primeira vez que te formalizo num papel como meu “herdeiro”. Mas há tanto que te quero dar, tanto para além de ninharias materiais. Há uma educação, uma forma correcta e justa de estares na vida, tomares sempre as tuas opções mas saberes tomá-las sempre com uma boa consciência. Há momentos, momentos que terão certamente um fim que desejo adiar ao máximo, tantos momentos ainda que quero viver com vocês. A vida, quando espremida a tudo o que se resume, deixa-nos apenas uma desordenação de momentos, bons e maus, mas todos eles vividos, batalhados, sofridos ou amados. Momentos. No fundo, como registo este momento em que, reduzindo-vos ao ridículo de uma linha num papel, me lembra o quanto preciso de vos viver mais e mais. E ainda mais.
14.11.04
Hoje montámos a nossa árvore de Natal. Eu não sou de grandes festas nem comemorações mas a tua mãe é. Há imenso tempo que perguntava quando preparávamos a casa para o Natal. Ainda consegui adiar a decoração festiva por alguns fins-de-semana, mas de hoje já não deu para passar. Depois de minutos enfiados na dispensa, surgiram luzes coloridas, bolas imensamente vermelhas e de vários tamanhos, a estrela que brilha no topo e a árvore – ou a capoeira das galinhas, como dizem os nossos amigos e familiares. Tenho uma estima doida por aquela árvore, até porque pode ser tudo menos uma árvore. Trata-se de um imenso cone em arame que vi numa montra, ainda não tínhamos casado sequer. Mas decidi que aquele cone desmontável em três segmentos era a «árvore de natal» perfeita. Foi num sábado de manhã em que tive de ir trabalhar. A tua mãe estava na nossa casa em arrumações e quando lá cheguei delirou com a compra. Desde aí que todos os anos montamos a gaiola com pompa e circunstância. Não há presépio. Limitamo-nos à capoeira, às luzes coloridas e às bolas vermelhas. Depois, à medida que o Natal se aproxima, os embrulhos amontoam-se junto à “árvore” numa verdadeira escala de proximidade natalícia. As únicas prendas que não se juntam a esse molho, são as que ofereço à tua mãe. Essas têm de ser escondidas fora de casa até ao último minuto. Ela tem um olfacto certeiro para tudo o que lhe cheire a prenda e, sem este método, é impossível surpreendê-la.
Este ano, para além da habitual alegria de montar o palco natalício, há ainda a adicional de ser o teu primeiro Natal “cá fora”, a ver, tocar e ouvir a magia ou o apelo consumista da época. Decidimos montar tudo contigo presente, sentado na tua espreguiçadeira. Eu montei a estrutura de fazer inveja a quaisquer torres Watts, depois de destrinçar arames, endireitar encaixes, garantir um mínimo de estabilidade. A engenharia do processo fascinou-te. Mas nada te fascinou tanto como as bolas vermelhas carnudas que a tua mãe pendurou, nem, especialmente, as luzes coloridas. Quando, no final da obra, te satisfizemos o desejo há tanto patente de mexeres na árvore, foi o delírio! Puxaste arames, mordeste as luzes arrancaste uma bola e se fosse o trabalho conjunto entre mim e a mãe, terias conseguido derrubar toda a imensa capoeira das galinhas! Ainda me pergunto (pergunta parva, claro) como é que um anjinho de nove meses e meio tem tanta força e energia. Mas a tua mãe já decorou a minha resposta “oficial” para as tantas pequenas coisas que fazes e nos surpreendem: ele é um bebé, não um parvo. Agora não podemos ter as luzes acesas contigo por perto. Este ano, o Natal promete...
13.11.04
Detesto papéis. Sempre detestei. Tudo o que envolva classificar, arquivar, guardar deixa-me numa profunda neura. Na maioria dos lares, é o homem que “trata” de tudo o que são papéis, facturas, declarações de IRS e afins. Na nossa casa esse papel é, felizmente, desempenhado pela tua mãe. Se não fosse a paciência diligente com que separa tudo, classifica, arquiva e arruma, possivelmente não entregaria as inúmeras declarações, certificados e outras burocracias com que se preenche e documenta uma vida. Algumas coisas, muito simples, estão ao meu encargo: abrir a correspondência; arrumar o cesto onde, todas as noites, despejo os bolsos. Coisas que, na linguagem própria da tua mãe, até um homem consegue fazer. O que é certo é que já aconteceu correr tudo à procura de contas que ficaram por pagar porque me esqueci de separar as cartas, ou um dos cheques do teu abono que ficou por receber porque não cheguei a abrir o envelope durante o mês e tal de validade.
Hoje não falhou. Olhei para o cesto pejado de papéis e papelinhos e meti mãos à obra. Um a um, revi pacientemente centenas de talões de multibanco, facturas, rabiscos apressados, listas de compras e bilhetes de cinema. Alguns papéis tinham dois anos! Se há papéis que nada despertam, outros há que me abrem um mundo de lembrança, uma vida inteira de momentos perdidos. Descobri um talão de uma loja de roupa de dia 29/9/2003. Ri sozinho e chamei a tua mãe quando vi este papelinho. Nesta tarde fomos a uma das ecografias. Estivemos a olhar para ti. Lembro-me da sala minúscula, do médico sisudo, de poucas falas, sem nos dar grande espaço para perguntarmos tudo o que a ansiedade nos leva a conjecturar (na altura estava muito preocupado por nunca te ver nada que parecessem orelhas). A certa altura, ele perguntou se queríamos saber o sexo do bebé. Respondi prontamente que sim. Ele corrigiu-me: a mamã quer saber? E a mamã queria saber, muito, muito. Então vocês têm aqui um “pilas”. Suavemente, as lágrimas escorreram dos olhos da tua mãe. Eu fiquei a olhar para o monitor. Um filho. Sou pai de um menino. Desde o primeiro instante que desejávamos um rapaz. Desde o primeiro dia. Acho que sabia dentro de mim que serias um rapaz. Lembro-me de ter dito à tua mãe, no primeiro dia da gravidez: vai ser rapaz como eu, vai ser aquário como eu, vai ter como nome próprio um dos mesmos nomes que eu. Naquele momento, senti que tudo se concretizava. Um desejo tornado realidade, evidente, aos meus olhos. Quando saímos da ecografia, entrámos no primeiro centro comercial que encontrámos e compramos-te uma camisa à “homem”, de flanela quadriculada, com um macho nas costas, com todo o corte e feitio típico de um adulto. Foi uma brincadeira, é certo, mas foi a primeira coisa que comprámos exclusivamente para ti, sabendo já o teu nome, a tua identidade, conhecendo já a pequena vida que crescia harmoniosa no mistério da tua mãe. Um momento que não se esquece.
Outra das facturas é de 26 de Outubro. É uma simples factura de restaurante. Nessa noite decidimos jantar fora. Um restaurante italiano, como eu gosto. Encontrámos um casal meu amigo que não via há anos. Quando os conheci eram namorados. Quando me surgem à frente estão casados, com filhos. Uma história que correu bem – tão raro nos dias que correm. Enquanto conversávamos a tua mãe sentiu algo estranho acontecer dentro dela, algo de intimo, só entre ela e tu. Algo que não voltou a sentir mais durante a gravidez. Não há forma de confirmar a ideia dessa sensação. Disse-me: senti o bebé virar, ele deu a volta. E ainda hoje vivemos convictos que, naquele momento, decidiste que era a hora de encontrar um novo conforto dentro da tua mãe, um novo passo no processo de criação da tua vida.
Não consigo disfarçar o sorriso com que encarei a factura da bateria do carro. É de 30 de Janeiro. Nessa noite já não dormimos. A tua mãe estava com contracções certas, ritmadas, exactas, de cinco em cinco minutos. Sabíamos que estávamos na iminência de ti. Era uma questão de horas. E o carro decidiu ficar sem bateria. Lembro-me da loucura de tarde. Corri todas as lojas e supermercados com o meu sogro, desesperado por uma bateria compatível. E não havia em lado nenhum. Era possível encomendar mas para entrega imediata estava fora de questão. Ligava constantemente para a tua mãe, em casa com a tua avó. De cada loja que saia ligava. Tudo bem? O intervalo entre as contracções ainda está igual? Estás bem? Quando finalmente encontrámos uma bateria, houve outro problema qualquer com o carro. Fomos para a maternidade no carro do meu sogro.
Mas a nostalgia das facturas não fica por aqui. Há ainda a do restaurante chinês, onde almocei no dia em que nasceste. Por um lado insuflado de uma felicidade maior que eu, por outro lado, cansado, triste e abatido. Saber-me ali a comer quando vocês estavam longe, onde eu queria estar, onde a minha cabeça e coração ainda gravitavam. Acho que foi o primeiro momento em que senti uma necessidade física de nunca vos perder de vista, de só querer estar onde vocês estão. Foi uma sensação estranha, discordante, ambígua. Tal como entrar em casa e vocês não estarem lá. A nossa casa ainda sem a tua vida lá dentro. Sem a tua mãe. Tornou-se um sentimento opressivo. A última factura foi da florista. Das duas e pouco da tarde. Quando decido gastar uma exorbitância num ramo de flores para a tua mãe. Tinham de ser flores diferentes. Nada de rosas, nada de habitual. Quando cheguei à maternidade levava um ramo lindo, gigante, de amarelos, laranjas e vermelhos carregados. Descobri que as flores não podiam ficar perto de vocês por causa do pólen mas ainda assim, valeu a pena. Como tudo o que faço por e para vocês vale a pena.
Facturas. Nada mais que simples papelinhos, insignificantes, inúteis. Pedaços de papel esquecidos num cesto de verga sobre um microondas. Um cesto onde despejo todos os dias um pouco de vida. Contudo, nestes papelinhos sem valor redescubro um valor que transcende todas as palavras possíveis, nos registos das nossas vidas, fragmentos da tua própria vida, dessa porção de vida anterior à própria vida. Pormenores de um tempo que nunca recordarás por ti, que se perdem, esfumam, como se não tivessem existido. Agora guardo esses papelinhos como se fossem fotografias. Espero que, um dia, quando vires no teu álbum uma factura, me perguntes porquê. Aí falar-te-ei dos tempos em que só existias dentro da tua mãe e do meu coração, da forma como tinhas os sonos acertados com os da tua mãe, da forma como ela acordava, vira-se devagar na cama e, só quando fazia uma festa na barriga e te dizia “bom dia” começavas a mexer com grande alegria. Momentos tão simples. Momentos tão plenos. Tão nossos. Tão únicos.
12.11.04
São nove da manhã e estamos os três numa pastelaria a tomar o pequeno-almoço. Acordámos cedo, muito cedo. À nossa volta, são imensas as pessoas que entram e saem na sua pressa ou vagar. Os ensonados, os despertos. Há os que levam bolos e sandes embrulhados para mais tarde, os que preferem sair com os jornais matutinos dobrados debaixo do braço. Bebo um galão, tomo os comprimidos e fico a olhar para vocês. Tu, hoje tão dócil, ao colo da tua mãe. Eu a saborear, sem sequer me preocupar por serem horas de estar no emprego e ainda nem ter iniciado a viagem diária para o escritório. Não quero saber. Neste momento nada me preocupa menos. Haverá tempo. Tempo para correr, para esperar e desesperar, tempo para trabalhar. Enquanto ouço uma confusão de chávenas, copos, vozes e passos, sorrio. E sorrio pela alegria que se eleva de todas as coisas simples, tão simples como, pela primeira vez, tomarmos o pequeno-almoço em família a um dia de semana em que, apesar do frio, o sol brilha lá fora.
9.11.04
Não sei o que é ser pai. Sempre vivi com a convicção que mal tomasse o meu filho nos braços, compreenderia com uma clareza cristalina a essência da paternidade. Quando te vi pela primeira vez nenhuma das minhas dúvidas se esclareceu. Agora, passados todos estes meses (que ora me parecem uma vida, ora um breve instante) continuo tão pasmo e ignorante de ser «pai» como sempre fui. Talvez ser pai não seja algo em concreto mas antes a soma de muitas coisas, e chamo-lhes coisas pois não sei que mais lhes chamar, subjectivas, algo de completamente inexplicável. Talvez que nesta linha de pensamento, mais para me apaziguar as dúvidas que propriamente para esclarecer, conclua que ser pai também ser mais isto ou aquilo, uma soma, um acréscimo a esse indizível incontornável. Hoje digo que ser pai também é continuar a sorrir quando fazemos asneira e sofremos por dentro, para dentro. E aprendo-o de uma forma estúpida – como só assim o poderia alguma vez aprender.
Gostas de estar de pé, agarrado a qualquer objecto que te prenda a atenção. Só que ainda não aprendeste a usar o teu próprio corpo para te equilibrares. Assim, estás de pé, agarrado a um móvel ou outra coisa qualquer e ris. Depois decides que queres agarrar-te a outro objecto qualquer e cais quando largas o primeiro. Ok. Até aqui tudo bem. Como pai solícito que me esforço por aprender a ser, estou lá, com o teu tronco entre as minhas mãos, duas gigantescas tenazes com uma vida tenra entre elas. Dou-te a liberdade de movimentos que tanto anseias, ao sabor dessa curiosidade voraz de quem quer o mundo inteiro e já. Ora afrouxo um pouco, ora aperto um pouco mais. Das vezes que afrouxo essas guias paternas, pareces um imenso plano rebatendo-se geometricamente para o chão. Volto a apertar no último instante, quando todo tu te aproximas do chão, quando só eu te posso segurar, quando sei que sou a diferença entre a verticalidade e a queda iminente a cada milímetro. Ao contrário da minha expectativa, deliras com a brincadeira. Escancaras de riso essa boca coroada por dois pequenos dentes, os tais que apareceram, desapareceram e que finalmente voltaram a mostrar-se em definitivo. Pautas o riso com umas palminhas encantadoras, essas duas pequenas mãos que se procuram num gesto que tanto nos anima e diverte. Nós, as quase quedas, as palminhas e os risos.
Tendo tu o gosto pela queda, decido que devemos procurar sítios mais altos. Quando maior a queda, maior o gozo, claro! Seguro-te de pé na bancada na casa de banho e deixo-te entrar em queda livre rumo a um chão longínquo. Claro que não te largo, nem por uma fracção de segundo que seja, mantenho-te firme entre as minhas garras tão paternas, enquanto cais num improviso desnorteado de kamikaze. Só me esqueci que a casa de banho não é assim tão ampla, e bates com a cabeça na esquina da nossa banheira. O barulho é aterrador. Estanco, abrupto, com a consciência da asneira que fiz. Os olhos da tua mãe, à nossa frente, abrem-se como duas imensas lanternas, dois faróis incandescentes, raiados de pavor. No instante seguinte estalas de choro – é tudo o que ouvimos. Puxo-te para cima. Todo eu olhos sobre a tua cabeça. Digo à tua mãe: continua a sorrir, não é nada! Mas estamos os dois apavorados. Queremos apenas fazer-te acreditar que não foi nada de mais, apenas uma pequena pancada. Opto por agir assim na esperança que, à medida que te aproximas de uma infinidade de quedas, cabeçadas e outros percalços, não te tornes piegas, que aprendas a superar sozinho os teus próprios acidentes. Vejo à minha volta crianças que quando caem choram até os pais os levantarem e, quando novamente de pé, está tudo bem. Vejo também outras que caem e se levantam sozinhas, sem fitas, sem birras. Algures entre tudo isto estarás tu, com o teu próprio feitio e maneira de ser. Não sei qual o certo ou o errado. Não deve existir sequer uma abordagem correcta para te educar nestas situações, apenas uma infinidade de tentativas e erros até te tornares adulto e resolveres a tua vida à tua própria maneira. Entretanto, opto por aqui, por estar atento e preocupado mas não te transmitir a urgência e perigo das situações, dar-te antes a imagem que tudo isso é normal. E é o que faço quando volto a pôr-te de pé sobre a bancada. Tu choras, nós sorrimos e brincamos enquanto te olhamos apreensivos para a cabeça. Está lá a mancha vermelha mas não há sangue. Em breve cantará um galo. Tu, na inocência que só os bebés sabem ter, choras e bates palminhas ao mesmo tempo. Estás dividido entre a dor e a paródia. Parte-se-me o coração sentir-te essa divisão, essa incerteza. A bateres palminhas e a chorar. O quereres agradar e o sofreres, em simultâneo. Que asneira, a minha. Como se não bastassem as tuas próprias asneiras ainda seres vítima das minhas. Felizmente não foi grave e sinto que tive muita sorte. Mais uma vez, a sorte esteve do meu lado, totalmente. Nunca me perdoaria se te magoasses a sério. E fica-me a lição do quanto custa sorrir-te quando sei que meti água, que não fui um pai consciente, protector.
2.11.04
Especificações técnicas:
Peso: 10,050kgs. Estatura: 76cm. P.Cef: 45,8cm.
31.10.04
Nove meses. Já passaste tanto tempo “cá fora” como aninhado no ventre da tua mãe. Nove meses de gravidez. Nove meses de vida. Diz-me: está a valer a pena? Agarro em ti, olho-te. Procuro nesses olhos enormes uma resposta, um sinal, qualquer coisa que me diga que estamos no caminho certo. Sei que procuro algo que requer quase uma vida inteira para ser formulado. Procuro demasiado.
Sei apenas que, todos os dias, cresces um pouco mais, aproximas-te um pouco mais de ti, de quem realmente serás um dia, do teu verdadeiro eu. Apenas te consigo dizer que, cada dia contigo na minha vida me aumenta a certeza que a minha vida está a valer a pena. Mesmo com todas as minhas faltas e limitações. Mesmo quando aos fins-de-semana divido mal os tempos entre ti, a tua mãe e o jogo de computador onde, de há umas semanas para cá, me esqueço de mim. Mesmo quando continuo a fazer as mesmas perguntas parvas (onde estão as toalhas do Gordo? onde sempre estiveram desde que ele nasceu!) e quando nem sei muito bem como interagir contigo. Mesmo quando tudo o que me apetece é olhar para ti e não dizer nada, não fazer nada, olhar-te apenas, como se te procurasse bem no fundo de ti.
Se alguém me perguntar o que te fascina, não sei. Qual a tua fruta preferida, não sei. Se gostas de vitela com legumes, não sei. Sei tão pouco sobre ti. Pais e mães perfeitos não existem mas estou ciente que ainda é muito longo o meu percurso, que ainda não aprendi nada, que estou aquém das minhas próprias expectativas como pai. Contudo, também sei que a minha vida sem ti já não faria qualquer sentido. E para ti, está a valer a pena?
21.10.04
Passo dois dias fora. Faço das tripas coração para chegar mais cedo a casa. Às cinco da tarde bato à porta. A tua mãe abre contigo ao colo. Estou doido de saudades. Sorris imenso. Pai babado. Só que não é para mim, é para a porta. Não desisto facilmente e meto-me à tua frente. Desvias-te. Eu não interesso nada. O que importa são aqueles efeitos tão giros no lado de fora da porta da rua. Mesmo ao colo da tua mãe dás saltinhos e esticões, tens de mexer naqueles relevos fascinantes! Pai destroçado. Isto foi ontem.
Hoje, sem mais nem menos, só tens olhos para mim. Pedes o meu colo. Puxas-me nariz, cabelo e óculos. Palras para mim. Até te manténs meigo quando te faço festas no cabelo. E ris! Não há pai que aguente.
4.10.04
A tua mãe faz hoje 29 anos. É estranho escrever-te assim, a partir deste momento presente. Que idade terá ela, ou eu, quando leres estas linhas? Possivelmente, nessa altura seremos aos teus olhos criaturas totalmente diferentes. A não ser quando se é pai ou mãe muito jovem, a consciência dos «pais» chega sempre numa idade em que eles já são “velhos”. Alguma vez te ocorrerá que já fomos realmente jovens? Quando tiveres a minha actual idade, eu terei (se ainda andar por cá) 64 anos. Nessa altura, quando olhares para nós, o que verás? Imaginarás que os nossos corpos já foram elegantes e firmes? Que as rugas nem sempre estiveram lá e existimos numa era pré reumático?
Recordo uma noite de verão, na minha infância, em que passeava à noite com os meus pais e irmão. No calor suspenso da minha memória descíamos a pé a avenida. Não havia muito mais para fazer a não ser dar a “voltinha” ao quarteirão. Já não recordo com clareza a fisionomia dos meus pais, mas lembro-me nitidamente de andar pela mão do meu pai enquanto o meu irmão seguia pela mão da minha mãe. A dada altura o meu pai começou a ficar para trás. Perguntei-lhe porquê. Para olhar para a tua mãe, respondeu-me. A minha mãe seguia meia dúzia de passos à nossa frente como uma alta ânfora, delicadamente equilibrada no cimo dos sapatos de salto. Imagino-a vestida de preto. Só agora, quando recordo este fragmento já tão longe na minha existência, entendo melhor o passar da vida por nós, ou nós por ela. Cada vez que olho para os meus pais (já tão velhinhos) só vejo o problema do joelho do meu pai, o cabelo e bigode grisalhíssimos, o esforço a subir as escadas. Da minha mãe há a coluna que não lhe dá descanso, as rugas que lhe enfeitam os olhos e cara, a elegância apagada. Não dá para imaginar que foram jovens, que se apaixonaram, cuja única razão de ser na vida não tenha sido sempre a de pais e, acima de tudo, que eu e o meu irmão tenhamos surgido do amor entre eles. A idade torna os pais tão assépticos aos olhos dos filhos.
Hoje a tua mãe faz 29 anos. Quando começares a chamá-la por palavras, será natural que passe a ser A Mãe. Eu também deixarei de ter nome, passarei a ser O Pai. Aos poucos, ficaremos assexuados, reduzidos aos nossos papéis de protectores, às identidades que os filhos nos trazem na eterna cadeia da raça humana. Quando um dia pensares nisto, a Mãe será sempre quem tratou de ti, quem se levantou de noite todas as vezes que choraste, quem te lavou, quem te alimentou, quem te fez festinhas mesmo quando não tens feitio para meiguices (pelo menos por agora). Quem te deu todo o amor do mundo, e acredita que é mesmo todo, ao ponto de não sobrar nenhum para ela mesma, nem, muitas vezes, tempo para comer ou para dormir. E ainda assim terá sempre um sorriso único, especial e que talvez chegues mesmo a achar enigmático sem perceberes porquê. Ao longo da tua vida, quase esquecerás que ela tem um nome só dela e recordá-la-ás sempre pela missão que decidiu desempenhar – sim, tu não pediste para nascer, nem és um acaso, um acidente, ou um erro, és o fruto do amor entre duas pessoas que querem muito. E ser tua mãe é uma missão que ela executa de uma forma fantástica, como só uma mulher fantástica consegue. Mas hoje, só por hoje, deixa-me avançá-la uns passos à frente da minha imaginação desvairada, deixa-me suspendê-la assim no eterno, sem antes nem depois como se o tempo nada mais fosse que um dos teus brinquedos coloridos, e olhar para ela, apenas isso, saboreá-la em todo o seu corpo tão vestido de mulher. Apenas isso. Enquanto somos novos. Enquanto o depois ainda não chegou.
1.10.04
Especificações técnicas:
Peso: 9730gr. Estatura: 73,8cm. P.Cef: 45cm.
29.9.04
Cada dia que passa traz consigo uma novidade, aumenta o meu espanto de ti, o milagre absurdo de testemunhar a tua vida espreguiçar-se e pular um pouco mais. Hoje o teu jantar atrasou-se porque decidiste trocar completamente a rotina e adormecer quase à hora de acordares. Como só dormiste meia hora em todo o dia, a tua mãe fez-te a vontade e só te acordámos depois de jantarmos quando, apesar de tudo, a noite está feita e podemos finalmente sentir tudo mais devagar. Para mim foi óptimo este atraso, qualquer hipótese de te ver, de estar contigo é sempre um motivo de alegria.
A minha alegria aumentou ainda mais quando, ao sentarmos-te na tua cadeira, vimos um ponto branco na tua gengiva, um minúsculo ponto, ali, mesmo a meio do teu sorriso estremunhado. Nem queríamos acreditar. Mesmo contigo a reclamar, puxámos bochechas, queixo, nariz, tudo o que nos permitisse ver um pouco melhor, ter a certeza. Ao fim de algum tempo concluímos que o teu primeiro dente nasceu hoje para os olhos de todos nós. Ainda é só a pontinha mais tímida do dente, mas é inegável, bem no centro do teu maxilar inferior. Com atenção, reparámos que no mesmo sítio do maxilar superior, há já um prenúncio esbranquiçado, uma iminência de dente. Talvez esse segundo rompa amanhã.
Eu sei que tudo isto é perfeitamente natural, o mais natural que possa existir na vida, contudo, sinto-me pasmado pela perfeição dessa mesma vida, pela felicidade que é presenciar tudo isto, por tudo o que não consigo exprimir ao ver-te crescer. É perante todo este espanto que me esforço por registar este dia, exacto, preciso, inconfundível com todos os outros dias da tua vida. Isto não aconteceu ontem nem amanhã mas hoje, eternamente hoje. Sorrio ao pensar no quanto algo tão simples me faz sentir tão mais pai: hoje nasceu o teu primeiro dente.
28.9.04
A tua mãe tinha razão: já não paras quieto no andarilho. É um espectáculo ver-te correr a casa toda ao sabor da tua curiosidade naquela engenhoca “prodigiosa” que te dá tanta liberdade. Estava convencido que ainda tinha algum tempo para começar a arrumar CDs, DVDs e livros soltos por todos os cantos mas afinal, já começaste a indagar tudo o que consegues alcançar. Não são precisos mais que alguns segundos para os ouvir caírem-te das mãos ou descobrir-te calmamente a roer um filme ou livro.
Hoje de manhã, enquanto me preparava para sair, lá andaste atrás de mim a ver tudo o que fazia. Se ia à casa de banho, aparecias à porta, se voltava ao quarto, ali estavas a querer agarrar tudo e a rir para mim. Se há uma semana te sentávamos no andarilho e te aborrecia aquela imobilidade, agora já não tens qualquer dificuldade em rumar à direcção pretendida, ou em acertar com as portas. Estás verdadeiramente na fase da navegação à vista.
No fim-de-semana também tive oportunidade de te ver deitado, de barriga para baixo, a conseguires chegar aos objectos que te atraem. Ainda não gatinhas, o peso do traseiro ainda te deve parecer muito, contudo, arrastas-te eficazmente, parece que estás a nadar bruços, com destreza e rapidez. Não há dúvidas que descobres uma nova forma de liberdade. Sorridente e veloz, deitas mão a tudo, a tua curiosidade aumenta na proporção da amplitude dos teus “passeios” e da casa que, pelo menos por agora, se desdobra em novos mundos por explorar. E ris, ris tanto. A mim, nada mais me ocorre senão rir também, como se crescêssemos juntos. Quem sabe se não é mesmo isso que estamos a viver?
24.9.04
Tenho dificuldade em encontrar palavras que descrevam razoavelmente estas duas últimas semanas, especialmente a que termina hoje. É costume dizer-se “rei morto, rei posto” e foi com brevidade que o novo chefe assumiu funções. Se na primeira semana ainda conseguiu manter alguma cordialidade, esta semana está igual a ele mesmo, ou seja, intratável. E só o consigo caracterizar através de uma frase que ele mesmo proferiu há uns anos “vocês são todos uns egoístas, vão para casa, para os filhos, que eu fico cá a trabalhar”. Esta semana voltou a esse pensamento noutra tirada fantástica: tenho quarenta anos e não tenho filhos porque é preciso trabalhar. Assim, é-me de todo impossível descrever a pressão e a quantidade de trabalho destes últimos dias. Foi demais. Na verdade, hoje é sexta-feira e foi o primeiro dia desta semana em que consegui ver-te acordado – tivemos cinco minutos esta manhã, mesmo antes de ir para o emprego. Nos restantes dias as nossas agendas não permitiram encontrarmo-nos. Só me ocorre a palavra estupidez para descrever o facto de vivermos na mesma casa e eu não ter tempo para te ver, estupidez sobreviver neste ritmo, estupidez consentir continuar a relegar para segundo plano o mais importante na minha vida.
Muitas vezes, antes de tomares banho, consigo ver-te ao colo da tua mãe uns minutos pela webcam. Nunca é muito e o som não funciona mas é um momento revigorante, ver-vos aquele bocadinho, ao vivo e em directo, num cantinho do meu monitor enquanto estou fechado no escritório a terminar tudo o que não pode ficar para amanhã. É sempre hilariante ver-te agarrar tudo o que consegues alcançar, puxares, levares à boca. Por vezes, apanhas o fio da câmara e tudo se parece uma montanha russa enquanto a tua mãe tenta tirar-te a câmara das mãos ou da boca. Até já aprendi a escrever apressadamente e por antecipação umas mensagens de relato para aquele filme mudo. Riu-me por dentro enquanto te invento a conversa. “Dá cá a câmara! Eu quero comer a câmara já! E isto? O que é isto? Hum... já sei, vou comer isto!” E o isto podem ser todos os papeis ao teu alcance, o teclado, o rato ou as deliciosas canetas transviadas que rondam o teclado. Já aconteceu ficares com o ar mais cândido que se possa imaginar com o fio do rato na boca e o “roedor” balouçando à laia de pêndulo. Mas esta semana limitei-me a responder: agora não, desculpa, não tenho tempo. Todas as noites.
Em casa, não me atrevi a entrar no teu quarto enquanto dormes. Sou desajeitado, tenho os pés grandes e uma tendência enorme para pisar o que não devo, o único objecto que possa fazer barulho ou distribuir pontapés em tudo o que vá aparecendo no caminho e que não vejo às escuras. O meu momento de consolo nestas noites, tem sido encostar-me à ombreira da porta e ficar ali, às escuras, a ouvir-te respirar levemente na quietude da noite. E depois vou para a cama e espero que o sono chegue rápido para me aliviar de um cansaço enorme, esmagador e cada vez mais profundo. Nestas alturas apercebo-me como o cansaço parece uma raiz que alastra silenciosa e submersa dentro de mim. Ontem de manhã, enquanto conduzia para o emprego, os olhos começaram a encher-se de lágrimas sem que me apercebesse porquê, sem nenhuma razão aparente. Enquanto tentava conduzir com a visão enevoada só pensava “o que passa comigo? Mas o que se passa comigo?”. Foi assustador.
Pior que o cansaço, é saber o quanto perco de ti todos os dias. Tanto nas grandes como nas pequenas coisas. Há umas semanas que fazias dois sons (não são obviamente palavras nem conceitos) distintos: papapapa e mamamama. Neste momento, a tua mãe diz-me que só dizes “mamamama”. Respondi-lhe: é natural, não vê o pai. Mas isso é tudo menos natural! Qual a naturalidade de vivermos na mesma casa e não nos vermos? Segundo a tua mãe, ainda não gatinhas mas já te vais arrastando em direcção aos objectos que te interessam. Eu ainda não vi nada disso. Porque não estive cá. Mais: temos em casa um andarilho (ou voador, como diz a tua mãe, ou aranha como se dizia na minha infância) que nos emprestaram e onde, por desconfiança em relação a tal engenhoca, só te sentamos dez minutos de manhã e dez minutos de tarde – sempre sobre controlo atento. É claro que a semana passada te aborrecias porque “aquilo” não andava sozinho. Bem resmungavas, batias com a mão nos plásticos como quem diz “anda burro!” mas o “burro” não andava. Aparentemente, agora já andas de um lado para o outro (embora de lado) pelo teu próprio pé. Todos esses pequenos primeiros momentos, perdidos, porque estava fechado num escritório a trabalhar até à exaustão, até ao momento em que o cérebro vê muitas vezes a mesma frase mas já não a lê, até a folha de cálculo parecer uma vedação e até o processador de texto não passar de uma guilhotina.
É praticamente meia-noite de sexta-feira. Dormes. Estou derreado e sei que não conseguirei adormecer tão cedo. Não faz qualquer sentido mas sinto-me cansado demais para conseguir adormecer. Tenho, contudo, uma esperança. Este fim-de-semana vou estar contigo, ver-te, tocar-te, sorrir dos teus avanços e gracinhas novas, rir das caretas que fazes perante os teus insucessos. E, acima de tudo, saborear tanto quanto consiga o ser teu pai e estar a teu lado nessa felicidade.
15.9.04
Há muitos anos atrás ouvi uma história que me foi relatada como verdadeira e que fixei pelo contraste entre os filhos na sua irreverência típica e os pais na sua eterna canseira dessa irreverência e preocupação constante. Aparentemente, o herói desta história foi sempre um traquina. Marcava todos os seus dias com mais uma travessura que deixava os pais exasperados. A mãe, de nervos em franja, dizia-lhe: tu não mereces nem o leite que mamaste! Passaram anos nisto. Mais tarde, na adolescência, quando só via à sua frente o caminho da guerra ultramarina ou uma vida sem futuro no campo, optou pelo “salto” para França. Escolheu a viagem clandestina, as privações, as hostilidades de um país e idioma desconhecidos, o trabalho brutal, sem qualquer segurança ou condições condignas. Contudo, devido àquelas estranhas coincidências e ocorrências de que se faz uma vida, tudo lhe correu bem, muito melhor do que alguma vez correria se não optasse por aquele salto na noite mais fria da alma. Naquela época não se ligava para casa, não se faziam férias de verão, uma carta muito ocasional era tudo o que mantinha unida uma família e, durante muitos anos, foi tudo o que os lembrou da existência uns dos outros. Muitos anos mais tarde, quando tirou férias pela primeira vez, chegou a casa dos pais de noite, muito tarde, de uma forma tão inesperada como a que viu partir. Quando a mãe, estremunhada de sono e embrulhada num xaile, lhe abriu a porta, ele diz-lhe: minha mãe, diga-me lá quantos litros de leite lhe bebi que eu pago-lhos já todos!
Os meus pais nunca chegaram tão longe nas “críticas” às minhas travessuras. A época foi diferente, ou então fui eu, ou eles, que nos portámos de forma diferente, ou que entendemos de outra maneira todas as recomendações que invariavelmente ignorei, todos os momentos que os preocupei para além do razoável. Mas a minha mãe ainda hoje diz: um filho tira-nos anos de vida! Claro que nunca percebi completamente esta ideia. E claro que as minhas reacções mudaram muito ao longo da vida. Desde uma infância em que me sentia magoado com essa frase, passando pela adolescência em que disparava um ofensivo “eu não pedi para nascer”, até à idade adulta em que comecei a aceitar aquela ideia com um sorriso nostálgico de muitas, imensas, traquinices que resvalam na memória como água. Agora entendo perfeitamente todo o conceito.
Ontem foste para o hospital. Agora que o escrevo, já não me parece nada de mais, mas ontem, quando a tua mãe me liga para o telemóvel, a chorar contigo por trás a gritar a plenos pulmões, e me diz que caíste, que te magoaste, que não paras de chorar com dores, e quando eu disparo uma série de perguntas e não consigo entender as respostas ou sequer o que ela dizia, pois só dizia “ele caiu e a culpa foi minha! E agora? Ele magoou-se!”, aí pareceu-me que o mundo me fugia debaixo dos pés. O que me conheço de mim já me demonstrou várias vezes que, nestes momentos, mantenho uma frieza implacável para fora e sofro tudo para dentro. Calculei quanto tempo precisaria para chegar a casa, o trânsito que iria encontrar, o melhor caminho. Lembrei-me que os meus sogros vivem mais próximos. Telefono-lhes: vão com ele para o hospital. Falo outra com a tua mãe. Pergunto ao certo o que se passa. Ela chora. Estavas deitado na nossa cama e rebolaste enquanto ela foi ao teu quarto buscar fraldas. Caíste da cama, de barriga para baixo, bateste com a cara no chão. Tens um galo na testa e o nariz esfolado. Mas há sangue? Não, não há. E tu choras desalmadamente. Tento acalmar a tua mãe para que ela te acalme. Não funciona. Continuo a trabalhar enquanto os teus avós correm para nossa casa. Por dentro o mundo retorce-se e gira, é um turbilhão. Comento casualmente o que se passa e rapidamente me falam na linha de apoio telefónico “dói dói trim trim”. Ligo à tua mãe e dou-lhe o número de telefone. Liga já! E continuo às voltas com tudo o que tenho para fazer, pensando que, de um momento para o outro, poderei ter de sair disparado para o hospital e, a acontecer, será o fim do mundo. Quando uns minutos mais tarde a tua mãe liga, diz-me que aparentemente não há nada de errado. Em todo o caso, insisto numa radiografia à cabeça. E lá vão vocês para o hospital. Por fora sou calma, por dentro tremo.
Quando saio do emprego, às nove e tal, estás a chegar a casa. Aparentemente está tudo bem mas temos de te observar durante vinte e quatro horas, procurar os sintomas típicos: sonolência, vómitos, comportamentos pouco habituais, a visão. A tua mãe diz-me que bolçaste. Mas bolçar não é vomitar, pois não? Claro que não consigo manter muito mais tempo a calma aparente, a ilusão de controlar o que não é controlável. No caminho espremo completamente o carro, muito para lá do razoável mas quero ver-te, tocar-te, sentir-te bem. Quando chego a casa já estás deitado. Jantamos, cansados, desmoronados. A tua mãe continua a culpabilizar-se, chora. E se alguma coisa não fica bem, pergunta. Tento tranquilizá-la. Está de rastos. Eu não me sinto melhor mas digo-lhe que vá dormir que eu fico na sala, de plantão. Assim fazemos.
É quando estou deitado no sofá, a tentar ler qualquer coisa, que as dúvidas se tornam piores, mais agudas e implacáveis. Interrompo a leitura a cinco minutos. Deves estar com dores no corpo, cada vez que te viras na cama acordas a chorar. Só podem ser dores, o que é natural, mesmo não tendo nada, pelo menos o sentires o corpo dorido ninguém te tira. Para mim é uma aflição. Depois, fico ali, com o livro nas mãos sem conseguir concentrar-me. Olho para o teu chapéu azul de ganga, enrolado em cima da mesa e fico a pensar se alguma coisa não corre bem. É uma dor tão grande e tão profunda que me parece uma pequena morte antecipada. E se? Ao mesmo tempo refuto-me: qual se?! Não há se nenhum! Tudo está bem! Nada poderá em tempo algum correr mal contigo! É angustiante, tremendo, questionar, por um segundo que seja, o mundo sem ti, ou contigo mas mal. Não há se! Fico ali muito tempo, a olhar para o boné e a sofrer, só na solidão da noite me permito sentir tudo o que empurrei para longe do meu pensamento durante a tarde. Cada vez que acordas corro para o teu quarto. Numa das vezes escorrego e quase caio pelo caminho, mas nada disso tem importância. Quando chego ao pé da tua cama, toco-te, observo-te com uma atenção cirúrgica. Passamos a noite nisto. Uma noite longa, imensa, branca.
Hoje de manhã, acordaste bem disposto. Tal como é habitual, puxas-me o nariz, o cabelo, especialmente aquela madeixa mais grisalha que me cresce bem no alto da testa e à qual achas tanta piada. Rimos todos numa felicidade que nunca te saberemos explicar. O mais complicado passou. Tudo está bem contigo e isso é uma felicidade bem maior que mil alvoradas juntas. Agora entendo bem quando os filhos nos tiram anos de vida, ou quando “não merecem nem o leite que mamam”. É um amor que nos faz morrer por dentro nestas aflições e nem sequer levamos isso a mal. Nestes momentos, é um sofrimento indescritível mas, quando passa, tudo está bem, sorrimos, beijamo-nos e seguimos em frente. Penso, com alguma pena, coitados dos meus pais, o que passaram comigo! E o pior, é saber que esta “fase” das nossas vidas, ainda só está a começar.
7.9.04
Especificações técnicas:
Peso: 9370gr. Estatura: 72cm. P.Cef: 44,6cm.
5.9.04
O meu chefe morreu esta madrugada. Não era muito mais velho que eu. Deixa uma única filha da qual não chegou sequer a ver o segundo aniversário. A combinação foi fulminante: stress, tabaco e café. A mesma que uso diariamente. Não consigo deixar de pensar como tudo isto é uma estupidez indescritível. Matamo-nos a trabalhar ou por outros motivos perfeitamente insignificantes e a vida acaba de um momento para o outro, sem aviso, sem negociação, sem uma segunda hipótese, sem que a cheguemos a viver por completo. Nunca te beijei tanto como hoje. Nunca pensei que, a cada momento, corro o risco de nunca te levar à escola pela primeira vez, de não jogar contigo à bola ou irmos ao cinema juntos, de não te aconselhar, melhor ou pior e não te ver crescer. Corro o risco de não te celebrar todos os inúmeros aniversários onde farei diferença, de não te ver casar e de nunca poder pegar num filho teu ao colo. É demasiado triste imaginar-te um futuro sem mim. Pode ser egoísmo pensar assim mas não o consigo evitar. Imaginamos sempre que a morte só acontece aos outros, que passa perto de nós sem nunca nos tocar que, de alguma forma, nos esquivaremos eternamente. Por muito que saiba que não é assim, continuo a imaginar-me sempre no teu futuro. Imagino que quando morrer já não te farei assim tanta falta e terei uma boa fatia da tua vida, desta nossa vida que vamos construindo e partilhando. Tudo isto obriga-me a pensar no que posso e no que não posso fazer para viver um pouco mais de ti. Afinal, ando a matar-me para quê? Feitas as contas, o que é realmente importante? De um momento para o outro, tudo se acaba, e afinal, se sabemos para onde todos corremos, porque continuamos a correr?
31.8.04
Dormes. Deitado de barriga para cima, pernas e braços abertos. A cabeça repousa sobre um dos lados, virada para a fralda de que necessitas para adormecer. Entro e saio do quarto sem fazer qualquer barulho, só para te ver, para partilhar um pouco dessa paz que te envolve, dessa serenidade que se apaga no tempo porque só uma criança consegue abandonar-se assim ao sono. Por enquanto a cama ainda é espaçosa, ainda te permite virar para uma qualquer direcção numa doce inconsciência do espaço. Ali dentro, tudo te deve parecer um mundo.
Fazes hoje sete meses. Para onde está a fugir o tempo? Aprecio a doçura de cada dia que passa e sei o quão pouco vejo de ti, o quanto perco por não termos mais tempo. Sempre construí a minha vida com inúmeros ideais e projectos. Tudo o que tenho, tudo o que sou foi conquistado palmo a palmo, mantido com um esforço maior que eu. Agora, olho para ti e tudo o mais me parece tão vago, tão insignificante. Gostava de ter mais tempo para nós, para te ver crescer, para te saborear cada dia que passa, cada pequena vitória ou cada simples sesta.
Saio do teu quarto grato por aqueles instantes, aqueles míseros e curtos e instantes. Esmagado pela doçura de um sono. Abismado pela rapidez com que a vida passa por nós, por todos nós. Já passaram sete meses? Temos pela frente uma vida inteira de momentos e acontecimentos a partilhar. Sei disso e quero agarrar tudo, viver tudo contigo. Por outro lado, a cada dia que passa “pertences-me” menos, tornas-te mais tu, mais total e independentemente tu e sinto um medo ridículo de te perder, ou de me perder de ti. É bizarro, por um lado quero ver-te crescer, por outro, adorava que nunca crescesses, que ficasses sempre assim – o bebé que és, só meu e da tua mãe, tão nosso, só nosso. Sete meses? Já?
30.8.04
Os primeiros dias em que te alimentaste de papas e sopas foram, no mínimo, curiosos. Oscilaste entre adorar e detestar. Não foi uma adaptação nem fácil, nem insuportável. Julgo que foi “normal”. Contudo, nas refeições em que estavas mais propenso a não quereres comer, foi necessário distrair-te. Se não te “concentrasses” muito no acto de ingerir até corria bem. Uma vez que a mãe já tinha o trabalho de conseguir acertar com a boca e gerir o grosso bolo de papa ou sopa que insistia em sair, sobrou para mim a outra pequena tarefa de te distrair. Nem consigo contabilizar a quantidade de estratagemas que usei. Acho que tentei de tudo. Por fim acertei. Tens uma girafa cor de laranja e amarela com argolas coloridas à volta do pescoço, com um apito embutido no corpo e um outro som numa das patas. E gostas de me ouvir “tocar” aquele bizarro instrumento. É claro que nunca tive qualquer jeito para a música nem sequer a capacidade de manter o ritmo. Não sei se foi isso que te divertiu ou apenas uma certa pena das tristes figuras que fazia, acabado de chegar a casa, sentado à mesa, ainda de gravata e ar estafado, agarrado a uma girafa sonora e a tentar coordenar todos aqueles sons numa música qualquer. À laia de homem dos sete instrumentos, nesta versão são apenas três, ali ficava toda a duração do teu longo jantar. Apito, argolas, pata. E cantei de tudo. Todas as canções que sempre achei detestáveis integraram um repertório improvisado exclusivamente para o teu riso. Acho que me tornei bastante bom naquela tarefa.
Agora, andas numa fase em que não queres comer. Nada, de forma nenhuma. Mais uma vez, todas as noites lá estou eu, agarrado à girafa musical, tornando-me assim estrela forçada da música popular, tocando, cantando, fazendo caretas e levando o fôlego para além das minhas capacidades. Há uma quase insignificante inovação. À medida que os meus “dotes” musicais melhoram, também o teu grau de exigência aumentou. Agora requeres coreografia. Eis-me então cantando, dançando, sincronizando a minha cabeça com a da girafa que aprendi a detestar. Se já podia integrar uma boys-band? Ainda não mas, se continuares assim, daqui a umas semanas podemos partir em tournée. Los chichos de la girafita!
26.8.04
Pergunto-me se um instinto nasce connosco e nunca muda ou se, por outro lado, se descobre, cria e evolui. Talvez não exista uma resposta para esta questão, ou então uma infinidade delas, quem sabe. O que é certo é que nunca reconheci em mim o instinto de pai e agora, ter-te na minha vida, está a mudar tudo, ou talvez apenas mude a minha percepção desse “tudo”.
A meio da tarde fui beber um café com alguns colegas. Na fila, à nossa frente, estava uma mãe recente com o seu rebento. Senti-me embevecido a olhar para aquele bebé ainda tão pequenino, tão “recém-nascido”. Orgulhosa, a mãe disse-nos que tem apenas três semanas. Três semanas? Ninguém tem três semanas! Um dos meus colegas, também ele pai embora mais amadurecido no tempo que eu, pergunta-me se já estou com saudades. E estou. Estou mesmo. Ao mesmo tempo que me maravilho e desespero contigo, sinto já uma saudade imensa daquelas primeiras semanas, em que tudo em ti era uma miniatura de homem. Lembro-me especialmente dos teus dedos, tão infinitamente pequenos, tão perdidos nas minhas mãos. Pergunto-me sobre este instinto. Olho para trás e não o vejo. Olho-me agora e sei que o sinto com todas as forças de que sou feito.
22.8.04
Um momento de felicidade na minha vida. Qualquer um, em qualquer tempo. Mas momento de felicidade consciente, momento em que possa dizer “isto é felicidade”. Sem dúvida o aqui e agora, neste fim de tarde de domingo, neste Agosto lento e sufocado. Agora.
Eu e a tua mãe víamos um filme. Entretanto acordaste, particularmente bem disposto. Trazemos-te para o sofá e paramos o filme que retomaremos mais tarde, se possível. A sala pinta-se de todos os tons quentes do entardecer. Não temos pressa para nada. Tu nada reclamas. Estamos os três deitados no mesmo sofá. Tu com um body verde alface, o sofá cor de laranja. Nós os três. A tua mãe beija-te de um lado, eu do outro. Brincamos, rimos, fazemos-te cócegas até à gargalhada. E tu puxas narizes e cabelos, arrancas óculos, puxas-nos. Nos teus olhos, um brilho de felicidade genuína. E brincamos. Neste momento, tomo consciência da felicidade que sinto.
Tu ainda vives na inconsciência das coisas. Desconheces que a felicidade só existe em momentos e nunca num estado contínuo e permanente. Da mesma forma como a infelicidade, a alegria e a tristeza. Tudo são momentos e é deles que se soma uma vida. Ainda não conheces a angústia de te saberes condenado à liberdade absoluta, em tudo o que isso tem de assustador, vivendo para a morte e sem que nada exista para lá dela. E se só a ideia da morte dá valor ao instante da vida, descobrirás, um dia, que nessa angústia só a solidão é real, uma solidão avassaladora, permanente, total, uma solidão impossível de partilhar com quem quer que seja pois todos vivemos encerrados e reduzidos à nossa própria e única solidão. E espero ainda que aprendas que só o amor nos oferece uma saída, proporcionando um sentido a essa solidão, tornando a vida possível e inestimável. Mas sempre em pequenos momentos. E agora, olho para ti, para os teus olhos e sorriso, para a tua mãe, para nós encostados, abraçados, rendidos num riso inocente e sei. Sei que neste preciso instante estou feliz.
20.8.04
A tua mãe liga-me a meio da tarde. Estou no café, na pausa para o lanche que se resume a mais um café sobre os muitos que já bebi – demasiados até. Desde que nasceste, o telemóvel nunca está desligado, nem sequer em reuniões. Cada telefonema da tua mãe adquiriu uma urgência que nunca imaginei possível. Atendo imediatamente.
- Sim? Tudo bem?
- Oi... O gor... tá... er... pa...
- O quê? Não estou a perceber nada?
- Gor... er... pa!...
Repetimos isto várias vezes até só entendermos a ligeira irritação que se ergue de ambos os lados da chamada. A tua mãe desliga. Está certamente num sítio com má cobertura. Espero um minuto, dois. Ligo.
- Então? O que é que se passa?
- Estou a conduzir. Não me dá jeito falar. Tinha isto em alta voz para ouvires. O gordito estava a dizer papá.
- O quê?!
Despacho o resto da tarde e saio cedo ou, pelo menos, mais cedo que o habitual. Não quero saber do trabalho! O meu filho disse papá! Voo para casa. A estrada abre-se à minha frente como uma bandeira desfraldada. Saiam-me da frente. Deixem-me passar!
Chego a casa e agarro em ti ao colo. Diz papá, filho! Sou eu, o papá! Vá lá, diz papá. Tenho risos, sorrisos e pequenas gargalhadas. É bom, é lindo mas diz então a palavra mágica que me arrancou tão abruptamente à minha rotina. Nada. Conversas muito naquela tua língua que me lembra uma aula de japonês ou os filmes do Kurosawa, essas “palavras” que dizes em tom grave e arrastado enquanto olhas fixamente para um boneco, mirando-o de todos os ângulos possíveis como se o visses pela primeira vez e o quisesses fixar para sempre.
Em breve, estou eu e a tua mãe a disputar a tua atenção, eu dizendo “papá” e ela “mamã”, empurrando estas palavras com todos os gestos que nos lembramos e que possam de alguma forma tornar-te clara a associação. Quando nos faltam os gestos, metemo-nos à frente um do outro, lutando pela tua total atenção. Olhas-nos calado. Sorris. Devemos parecer-te doidos, empurrando-nos, fazendo gestos, repetindo as palavras. Possivelmente somos. Divertimos-te. Mas não disseste papá nem mamã.
Quando, depois do banho, jantavas, eu arrumava a casa de banho. Já se tornou de tal forma rotineiro que demoro cada vez menos tempo. Enquanto lavava e limpava os patinhos, depois de ter arrumado frascos e limpo a tua banheira, ouço-te dizer claramente “pa... pa... pa... pa...”. Entro de tal forma desvairado na cozinha que tu e a tua mãe ficam quietos, estáticos a olhar para mim. A sopa a escorrer-te em grosso fio a um canto da boca. A tua mãe com a colher parada a meio do percurso. Diz outra vez, filho. Diz outra vez. Claro que não dizes.
Mais tarde, enquanto eu e a tua mãe jantamos ao som do teu miar no intercomunicador, discutimos melhor a tua “palavra”. É claro que não disseste papá. É claro que perante a tua mãe, defendo até à inconsciência que o disseste, obviamente. Na melhor das hipóteses, poderias estar a dizer papa, ideia que me parece fazer mais sentido. Mas julgo que nem isso aconteceu. Embora não conheça qualquer dado científico sobre este assunto, penso que nesta altura ainda não saibas que as coisas têm nomes. Para ti, aquele urso com que adormeces é “aquele” urso, não um urso genérico, nem uma representação de urso, nem nada mais que aquele objecto concreto e específico. O “pa” de hoje deve ser apenas o começares a articular sons de forma semelhante à que usamos na linguagem, só que sem qualquer linguagem por trás. É claro que não senti qualquer desilusão por isso mas antes uma satisfação enorme por ter acompanhado mais um pequeníssimo passo na tua evolução, não uma palavra mas um pequeno som que nos aproxima ainda mais. Mesmo sabendo e entendendo tudo isto, continuo a dizer à tua mãe que disseste claramente “papá”, embora ela não me pareça convencida...
16.8.04
Estas foram as férias mais difíceis, até agora. Se as anteriores se resumiram sempre ao cansaço e algum desespero, chegando a achar que preferia trabalhar a estar em casa convosco, desta vez consegui saborear-te. Não que isso elimine todo e qualquer cansaço, porque basta o facto de seres criança para que exista sempre demasiado a fazer e para que toda a atenção seja canalizada para ti, só para ti. Contudo, nunca me soube tão bem estar contigo como agora.
De acordo com a tua mãe, agora dás-te muito melhor comigo porque aprendi a “ligar-te”. Não consigo ter uma opinião tão extrema. Julgo apenas que agora já percebeste que tens um mundo à tua volta com pessoas dentro. Tu próprio procuras o contacto. Talvez a relação de um pai e de uma mãe com um filho seja muito diferente. Eu nunca tive contigo a cumplicidade que tens com a tua mãe desde o momento zero. É tão simples como ser no corpo dela que “nasceste”, ou ser ela a amamentar-te. É uma química de pele com pele que nada pode alterar. Mas agora já sabes que não é só ela que existe. Agora brincas, ris, gargalhas comigo e de mim. Finalmente entendemo-nos. Isso muda tudo na nossa relação.
Durante estas férias dei-te todo o meu tempo. Estive sempre, sempre, disponível para ti, para os momentos de brincadeira e para os momentos em que apenas trocámos festas. É comovente estar junto a ti e ver, sentir-te, a mão minúscula tocar-me cara e cabelo, aprender-me as feições. Ambos nos esforçámos por dar e ter mais de cada um. Entretanto, aprendeste gracinhas novas. Sinto também que aprendes todos os dias a aproximar-te do meu mundo. No fundo, ambos aprendemos a conquistarmo-nos mutuamente. Agora sim, quero mais e ainda mais tempo contigo. Agora imagino futuros nossos, momentos únicos, um papel de pai que anseio por desempenhar da mesma forma como todos os dias te imagino ainda mais nesse papel de filho que efectivamente és.
Custou-me muito voltar ao emprego. Hoje, quando cheguei a casa, ainda estavas acordado. Foi deslumbrante entrar no quarto e rires para mim, sentir-te essa alegria de me reconheceres e apreciares a minha presença, com as gracinhas que todos os dias aumentam em número e género. É um sentido qualquer que se revela e encanta. Estamos todos a aprender. Nós contigo, tu connosco. A família cria raízes, consolida-se, cerra-se no sentimento de que nada nos poderá separar, somos nós e, nesse nós, somos tudo.
12.8.04
A tarde arrastou-se suspensa de um calor absoluto. Tudo se imobilizou na horizontalidade de um sol implacável, vergando animais e homens à sua inclemência e obstinação. Nada se ouvia na estagnação da tarde excepto um ou outro automóvel que rasgava o silêncio num contra-senso absurdo. Passámos assim toda a tarde, refugiados na penumbra de uma casa adormecida, sonolenta, prostrada na pouca frescura que conseguimos encontrar. O suor empapou-me pele e roupas. Cada cigarro fumado à janela constatou apenas o aguardar do depois, uma valsa lenta como toda a vida em tardes de verão. Aguardar.
Ao fim da tarde levantou-se do chão uma brisa ligeira, leve, quase seca. Prenúncio, contudo, da frescura que afaga ervas secas e folhas. Os pardais foram os primeiros a abandonar os ramos abrigados das árvores empapadas de verde e procurarem todas aquelas coisas secretas que só uma alma de pássaro sabe entender. Depois vieram as crianças atrás de uma bola, trazendo os gritos e alegrias fugazes das férias, de um tempo maior que eles, ilimitado, pleno.
Perto da nossa casa existe uma quinta transformada em parque onde há relva fresca, um lado com patos marrecos, escorregas, repuxos vivos e alguns animais domésticos para que as crianças não aprendam o que é um porco ou uma cabra pelo canal do National Geographic. Decidimos levar-te até lá. A ideia começou de uma forma simples. Estamos de férias, sem outros horários que não os teus, entediados do refúgio nestas paredes, procurando desesperadamente qualquer coisa para fazer que nos possa distrair e que também para ti possa ser interessante. Vamos então ver as cabras raquíticas.
Peguei no telemóvel, no maço de tabaco e disse “estou pronto”. E estava. Bastaria meter-te no carrinho e empurrar-te por essa meia dúzia de ruas até ao parque. É claro que não estava a ver completamente a situação. A tua mãe pediu-me que fosse à janela ver se estava frio ou calor (porque daqui a pouco anoitece...). Está um fim de tarde abrasador. Depois, as dúvidas da tua mãe. “Achas que lhe vista manga curta ou comprida?”, “calças ou calções?”, “é preciso levar a mochila, claro, para levarmos o biberão, um ou dois brinquedos, talvez seja melhor levar também uma meias para o caso de ter frio...”. Começo a subir pelas paredes. Vamos enfiando coisas na mochila. O biberão, a Rã Renata, boné, peúgas, o kit de troca rápida de fraldas. Nem sei bem ao certo o que levamos. Preparamo-nos para todas as contingências. Talvez uma expedição ao fim do mundo requeira menos aparato. E o tempo passa...
Quando estamos “quase” prontos, decido que afinal vamos de carro, caso contrário, só veríamos vultos de animais no recorte do luar. Pressiono a tua mãe. Quero sair. Sob protesto lá vos consigo arrancar de casa, sabendo que não estamos a trazer todas as coisas essenciais à “viagem”. Quando chegamos ao carro a tua mãe lembra-se que talvez o automóvel esteja muito quente por dentro. Há que esperar à sombra enquanto o ligo, abro janelas, potencio o ar condicionado para lembrar um clima árctico. Entretanto decides bolçar. Eu a querer arrancar e a tua mãe a limpar-te com o babete que trazia limpo na mochila. “Afinal vês como fiz bem?!”. Nesta altura eu já estava impaciente, na verdade, preferia voltar para casa a ir onde quer que fosse. O suor escorria-me em bica. A roupa colava-se-me ao corpo num abraço desconfortável. Tudo me parecia excessivo e sufocante. Demorámos quanto tempo em preparativos? Uma hora? Mais?
Conseguimos por fim ver as cabras desgrenhadas, sujas e remelentas. Até vos tirei algumas fotografias à laia de safari fotográfico. Ficaste fascinado e querias obviamente agarrar os bichos, atirar-te do colo da tua mãe para o lago e morder repuxos e relva. Contudo, se ver-te tão entusiasmado foi fantástico, voltar a casa foi um alívio. Temos as fotografias tremidas, desfocadas, desenquadradas mas também testemunho intemporal de ti com olhos esbugalhados para bichos que desconhecias, memória fixa de um bocado bem passado. A mim fica-me também este preâmbulo quase cómico de um fim de tarde de Agosto, em que ver as cabras se revelou uma aventura. Quem sabe seja esta a sensação de um qualquer Indiana Jones no momento do regresso...
9.8.04
Da passada quinta para sexta-feira mudámos-te de quarto. Saíste do nosso quarto para dormires agora no teu próprio. Aquele que, ainda antes de nasceres, pintámos, decorámos e, de certa forma, amamentámos como o teu espaço. Lembro-me das horas que lá passámos quando ainda eras apenas um novelo de vida no útero da tua mãe, imaginando as tuas reacções, a tua vida futura repleta de brincadeiras e pequenas actividades. Arquitectando espaços para as tuas roupas e brinquedos. Aqui fica o hipopótamo da roupa suja, além a cama, com o roupeiro deste lado para ficar um espaço amplo para espalhar bonecada. Horas. Olhando para a cama pronta que te esperava. Saboreando por antecipação o milagre de ti.
Sempre mantivemos a opinião de te mudar o mais cedo possível. Antes de te habituares demasiado ao nosso quarto, cheiro e presença. Antes mesmo de transformar a mudança num processo demasiado longo e penoso. Se, por um lado, nos diziam que pensávamos mudar-te demasiado cedo, por outro, ouvimos histórias arrepiantes, de bebés que se enraízam de tal forma na vivência dos pais num mesmo espaço a ponto de ser quase impossível a mudança. Não, para nós é-nos inconcebível manter-te no nosso próprio espaço mais tempo que o necessário, embora nunca possamos saber qual o momento certo para te mudar. Definimos assim uma data perfeitamente arbitrária – seis meses. Aos seis meses passarias para o teu espaço. E assim fizemos, aproveitando as minhas férias como salvaguarda para as noites que imaginámos difíceis.
Durante a tarde de quinta-feira, empurrámos e desviámos móveis, limpámos pós antigos, lavámos tudo o que tinha de estar limpo no teu cantinho desta casa, nesse espaço que te apresentei como teu quando no dia em que chegámos a esta casa vindos da maternidade. Contigo ao colo, mostrei-te toda a casa, explicando-te a função de cada uma das assoalhadas tal como o meu pai fez comigo trinta e dois anos antes, quando, pela primeira vez, transpuseram comigo a porta da rua. «Este é o teu quarto, filho», lembro-me. Foi assim que te mostrei aquele rectângulo de casa só teu.
Para a tua mãe, este, foi o pior momento. O momento em que percebeu que a vida não pára nunca, em que o tempo é uma mera ilusão, em que foi confrontada com a realidade do teu crescimento. Penso que, de uma certa forma, foi como se te estivéssemos a arrancar dos seus braços. Senti nitidamente que lhe custou imenso ver que o seu bebé estava a ficar-lhe mais longe no espaço, mais afastado do seu abraço, da sua atenção permanente, da sua área de protecção. Eu não senti nada disso, por estranho que me pareça, uma vez que sou tão sensível ao fluir do tempo e ao absurdo incompreensível de tudo isso. Era mais uma tarefa que tinha de ser feita. Ao mesmo tempo que era, talvez, um reposicionar da vida na sua ordem normal. O meu filho no seu quarto. O nosso quarto devolvido à nossa intimidade. O nosso espaço.
Só senti o verdadeiro embate da mudança nessa noite. Demorei muito tempo para conseguir adormecer. Mesmo com o intercomunicador ligado, atento a cada som, a cada pequena oscilação, senti que faltava qualquer coisa. Senti-te a ausência como um espaço vazio incómodo. Mesmo sabendo ali tão próximo, no quarto ao lado, a sensação de faltar qualquer coisa no nosso quarto foi tremenda. Foram horas até conseguir adormecer. Não deixa de ser irónica a transferência de sensações. Sempre pensei que sentiria o que a tua mãe sentiu da mesma forma como sempre a imaginei a não dormir na tua ausência.
E tu? Como eu disse à tua mãe, para nós, dormes no nosso quarto há seis meses. Para ti, tens dormido no nosso quarto toda a tua vida. Não se podia esperar que fosse uma adaptação fácil. Durante a primeira noite só adormeceste ao colo. Cada vez que acordaste foi um berreiro. Passámos a noite a caminho da tua cama para te embalar. Mesmo assim, acho que correu muito bem. O pior foi mesmo essa noite. Para cúmulo, e por motivos puramente estéticos, a tua mãe sugeriu posicionarmos a cama numa posição relativa oposta à que tinha no nosso quarto. Penso que isso tenha sido o pior. Sempre te surgimos de um lado, do lado para onde te virávamos ao dormir. Julgo ser muito complicado adaptares-te facilmente a uma mudança tão profunda. Quando, no dia seguinte, sugeri reposicionarmos a tua cama na mesma posição relativa que tinha no nosso quarto, tudo melhorou, embora tenha demorado alguns dias até te habituares ao teu novo espaço. Durante o dia só adormecias ao colo assim como acordavas sempre com uma sensação de pânico, quase abandono. Não deixa ainda de ser curioso ver como olhas para a porta do meu quarto cada vez que te levamos ao colo para a tua cama, como numa vaga esperança de regresso ao “teu” antigo espaço.
Agora, passados estes dias, já estás praticamente habituado. Noites e dias já passam como anteriormente. Nunca dormes de uma forma linear nem seguida mas, pelo menos, fá-lo de uma forma normal. Também já me habituei à tua distância. Tento compensar o vazio com um sentido de maior participação nos pequenos actos. Vou mais vezes dar-te a chupeta durante a noite. Faço questão de, todas as noites, acompanhar-vos, quando a tua mãe te deita, e digo «dorme bem, meu filho», beijando-te a testa como quem apaga a luz. Os sentimentos são mais incertos que aquilo que habitualmente supomos. Imaginava a tua mudança de quarto de muitas outras formas mas nunca assim, nem sequer pelos actos em si, mas por aquilo que eu próprio viesse a sentir. Contudo, sei que agora vives no teu próprio quarto, rodeado dos teus próprios objectos, imerso num sono que, mesmo irregular, depende única e exclusivamente de ti. Sobra-nos o resto do tempo. Compensa-me a alegria que transmites quando me aproximo da tua cama e te digo «bom dia!». E essa alegria é de tal forma pura e genuína que nenhuma palavra a poderá algum dia descrever.
31.7.04
Meio ano de ti.
Estás muito mais calmo que nos primeiros meses. Se ao início devo ter-me aproximado de um esgotamento psíquico qualquer, sinto agora que essa fase se desvanece lentamente no tempo. Mas nem por isso tudo se transformou em rosas com céu límpido e azul por trás. Aos poucos vamos encontrando formas de te compreender e habituar à nossa vida sabendo sempre que somos e seremos nós quem mais nos teremos de habituar à tua própria vida com todas as exigências que tal aproximação acarreta. Há momentos para palavras bonitas, sorrisos e dezenas de fotografias felizes. Assim como há todos os outros momentos de um quase desespero, de palavras mordidas, de dias que passam sem qualquer entrada no livro de bordo imaginário da memória. Por vezes, penso que há tanto para lembrar como para esquecer. Mas um filho nunca é um erro – ou, pelo menos, tu não és. Da mesma forma que nunca se odeia um filho nem se lhe apaga a lembrança. Habituamo-nos a sentir mais carinho por tudo o que acontece de bom assim como vamos relegando para segundo plano as contrariedades consideradas “próprias” de uma criança na vida dos pais. Não adianta florear mais a questão, é mesmo assim.
Neste momento já entendemos que só fazes birra para dormir. Cada ser tem uma relação única com tudo o que o rodeia. Assim como existem relações simples, de igual forma existem complicadas. Tu dás-te bem com tudo, menos com o sono. Talvez seja uma das particularidades que herdaste de mim. Preferes ver tudo, querer tudo, fazer o que quer que seja a dormires. Em ti, o sono é a derrota de uma longa e penosa luta que travas contigo próprio e connosco por acréscimo. Quando finalmente adormeces é porque não consegues manter-te acordado mais tempo. Mesmo assim, acredito que temos muita sorte. Não tens problemas de saúde, comes bem e, durante a noite, dormes pelo menos seis horas quase seguidas. O único problema é o dia. Durante o dia só dormes de uma a três horas. Divides essas horas em períodos de dez minutos, de trinta, por vezes, de uma hora seguida. Para adormeceres uns minutos tens de chorar imenso tempo. Quando estás bem disposto substituis o choro por um balido, um chilrear ou um miar, eventualmente, nos dias em que estás muito bem disposto, palras. De uma forma geral, quando finalmente adormeces, estamos extenuados, exaustos das viagens persistentes para te dar a chupeta, do teu choro ou dos teus gritos, esmagados pelo peso das tarefas que temos forçosamente de realizar mas que vão deslizando para a noite ou para o dia seguinte por não nos dares tempo para as concretizar. Mesmo assim, eu e a tua mãe demorámos todo este tempo para entender algo de tão simples como a singularidade da tua relação com o sono. Nunca foram cólicas, nem dores, nem problemas «de cabeça» como a tua mãe chegou a temer. És assim, preferes não dormir. E nós vamos aprendendo a lidar com isso.
O cansaço nunca acaba. Acho que nunca acabará. É desmoralizante quando penso nisso. Sinto-me melhor agora que quando tinhas dois ou três meses. Contudo, sempre pensei que a minha capacidade de aprendizagem e concentração eram dados adquiridos e permanentes. Agora apercebo-me que até ler a mais simples das revistas ou jornais me cansa, que o conteúdo passa-me ligeiramente ao lado e o meu rendimento no emprego tem vindo a diminuir consideravelmente. Se antigamente lia sem receio um qualquer “tijolo” de Dostoievsky, agora tenho de me contentar com contos, de preferência muito curtos. E mesmo esses, tenho a sensação de não os compreender em pleno. A tua mãe não está melhor que eu. Andamos num estado em que tudo nos faz muita confusão, tudo se torna muito complicado. Ir a um centro comercial, por exemplo, provoca-nos dores de cabeças e uma sensação de desorientação. Num acordo tácito, começamos a evitar todos os sítios com muitas pessoas. Por vezes, evitamos sair de todo.
Este cansaço reflecte-se em tudo. Nesta altura tudo és tu e as tarefas que têm de ser feitas. Não há tempo, disposição, vontade para mais nada. Quando paramos, adormecemos. Os dias marcam-se no calendário pelas tarefas que temos a fazer. Não estamos em crise mas estamos sem dúvida em pausa. Acredito que esta seja a pior fase. Depois só poderá acalmar, melhorar de alguma forma. Ouvi dizer algures que muitos divórcios acontecem no primeiro ano de vida do primeiro filho. Vamo-nos mantendo firmes, crentes até. E isso tem sido a plataforma mínima para a estabilidade.
Há ainda o dinheiro. Ou a falta dele. É cada vez mais complicado tapar todas as despesas que se abrem como fendas traiçoeiras. Vivemos no arame, sem qualquer espaço para enganos ou deslizes. Como se costuma dizer, “é chapa ganha, chapa gasta”. A cada dia que passa, aumenta a lista de coisas essenciais a comprar, sem falta. Espanta-me como vamos conseguindo. E nunca o gerúndio se aplicou tão bem como agora – conseguindo. Perguntava-me como é que o Governo (independentemente do partido que o constitui) ainda tinha coragem para se perguntar porque diminui a nossa taxa de natalidade quando são precisos bebés e que, sem eles, não há quem nos assegure o amanhã. Quando é tão óbvio que, quando se estuda até mais tarde, quando os empregos são uma insegurança, quando os ordenados não chegam sequer para um casal comprar uma casa, qualquer ser sensato pensa seriamente inúmeras vezes antes de optar por filhos. Ainda por cima, quando as mulheres casadas e, especialmente, as que são mães, continuam a sofrer de todos os géneros de discriminações profissionais. Não seria simples, e crucial até para o desenvolvimento económico e social do nosso país, criar mais e melhores incentivos sérios e honestos para aumentar a nossa população? Agora já não me pergunto com a cegueira do Governo, finalmente entendi: os nossos dirigentes não gostam de fazer publicidade enganosa quanto ao futuro do nosso povo, por isso, preferem continuar a contemplar o problema para não serem confrontados com a solução. Mas isto é apenas a minha opinião e eu sempre fui conhecido pelo meu mau feitio... A nós enviam-nos todos os meses um cheque de trinta euros. Chega para comprar duas latas de leite, ou então, um vírgula qualquer coisa pacotes de fraldas. Mas não chega para ter e criar bebés. Uma pergunta simples: os subsídios para a criação de caracóis ou avestruzes não serão significativamente melhores?
Este registo. A ideia inicial era simples: guardar-te o primeiro ano de vida visto e sentido por mim, pelos meus olhos, dedos e palavras. No fundo, são dois objectivos distintos. Por um lado, relatar uma vida, a tua. Por outro, partilhar uma visão que, pelo menos na minha opinião, seria rara e que é a de ver um filho pelos olhos do pai e não, como habitualmente, pelos olhos da mãe. De uma forma geral, todos os relatos que ouço por parte dos pais são sempre cor-de-rosa, maravilhosos, verdadeiros álbuns fotográficos falados. Têm de existir certamente mais que isso num filho. Interessou-me assim contar esse mais, esse para além do trivial que nos preenche os dias. Julguei até que poderia compreender e relatar o que é ser pai – que todos concordamos ser diferente de se ser mãe mas sem que saibamos explicar o como e o porquê. Ao fim destes seis meses sinto que falho por inteiro.
É frequente apontar frases ou situações que não quero esquecer num caderno preto. Chamo-lhes âncoras pois são a forma de fixar um ponto que, mais tarde, quando consigo descobrir algum tempo para escrever, me desbloqueiam o conjunto ou sucessão das memórias permitindo-me escrever tudo o resto. A partir de uma frase que represente correctamente o momento, consigo ir recordando o resto desse mesmo momento de uma forma sistemática e numa espiral que desce cada vez mais fundo, como uma broca. É assim que funciona o meu sistema de memória. Por vezes recordo porções impressionantes de memórias através de um cheiro, de uma frase dita ou ouvida. Do padrão do papel de parede reconstruo a casa. Como disse inicialmente, todos os textos deste registo são escritos posteriormente à data que os identifica. Na verdade, na data em que tal situação ou pensamento ocorrem, posso anotar apenas meia dúzia de palavras no meu caderno. Mais tarde, folheio o caderno, pego nessa frase e reconstruo o resto na minha lembrança, escrevendo assim o texto. Tudo isto me parece linear excepto o facto de existir uma distância intransponível entre o que penso ou sinto e o que consigo escrever. É a primeira das falhas. As palavras contam muito pouco. Talvez alguém com o génio suficiente ou com o dom da escrita soubesse transpor esse fosso. Eu não consigo. Das poucas vezes que releio o que escrevo contrapondo-o às minhas recordações tenho a clara certeza que tudo (ou pelo menos o que realmente importa) ficou por dizer, reduzindo-se assim a uma questão de tempo até se desvanecer por completo no anoitecer da memória. Como escreveu Mário Cesariny, “entre nós e as palavras há metal fundente” – e como essa ideia me parece verdadeira, não só pela magia fundente do metal como, acima de tudo, no que ele tem de intransponível.
Outra das grandes falhas neste percurso é sem dúvida a falta de resposta à minha pergunta: o que é isso de ser pai? Passado todo este tempo continuo tão pasmado como no primeiro dia. Tudo em ti é mistério e novidade, mesmo os pormenores que se repetem milhentas vezes ao dia. Uma coisa é relatar um acto, outra totalmente distinta é transmitir o que dele sentimos ou conseguirmos entender sequer o que sentimos. Até porque não quero relatar a tua vida como uma lista de supermercado. Se um acto concreto é apresentado é apenas porque detrás desse acto se levanta uma ideia, uma reflexão, um sentimento, algo que transcende o acto em si. Se assim não fosse, bastar-me-iam as fotografias. Mas a única conclusão que consigo atingir é que não faço a mais pequena ideia do que é ser pai. É ter mais responsabilidades? Sim, mas não só. É o amor? Sim, mas também não é só isso. E isto sem entrar em terrenos mais filosóficos como a repercussão de toda a espécie numa nova vida projectada no futuro ou ainda, de uma forma mais simples, perguntar-me se serei um bom pai – pergunta essa para a qual nunca poderei encontrar resposta sem primeiro entender a definição de “ser pai” e, mesmo que atinja essa definição, presumo que a resposta nunca poderá ser dada por outrem que não tu.
Para além de todas as definições, processos e dificuldades da escrita como acção, há, claro, o pequeno facto de andar demasiado cansado para pensar, escrever, e pensar a escrita. Os textos que me deixam são cada vez mais confusos, com um fio condutor dúbio, com os pensamentos por desenvolver até à sua última instância. As frases atropelam-se mutuamente, as palavras estrangulam as ideias, tudo é reboliço, alvoroço e confusão. Estes textos lembram-me cada vez mais as pessoas que nunca acabam uma frase obrigando assim o seu interlocutor a, na sua própria cabeça, colar as palavras que faltam, criando assim sentidos totalmente novos. É assim que me sinto. Escrevo mas não atinjo a conclusão. Quando sei que há tanto por expressar e quando sinto que se torna impossível escrever sobre ti sem que o faça também sobre mim, tudo me parece rascunho, farrapos de pensamento, meia memória de ti.
30.7.04
Está tudo bem. Se no outro dia estivesse assim, não lhe teria receitado nada. Boas férias, até Setembro – Foi assim a consulta desta manhã.
29.7.04
Chego a casa à meia-noite e dez. A tua mãe dorme, no sofá, vencida por mais um dia de ti. Eu não estou melhor. Custa-me cada vez mais trabalhar até tão tarde. Nem vou considerar que seja «a velhice» contudo, a concentração é-me gradualmente mais difícil e esgotante. Ainda consegui despir-me, lavar-me, trocar algumas frases com a tua mãe. Os dois, deitados às escuras no sofá. O calor à nossa volta e o abatimento dentro de nós.
Uns minutos depois acordaste. Sabíamos que tinhas de acordar por volta da uma da manhã. Acordaste antes, a chorar compulsivamente. Enquanto a tua mãe te foi acalmar, lá corri para a cozinha para preparar biberão e gotas. Para o leite são oito colheres e 240ml de água. As gotas são quarenta e cinco. Àquela hora já custa muito contar o que quer que seja. Tu gritas. A tua mãe pergunta se ainda demoro muito. Deixo cair gotas pelo caminho. Lá vou, todo torto, casa fora, de biberão numa mão e colher com as gotas que sobram na outra. Custa-me dar-te as gotas. Quando a tua mãe me deu a ler o papelinho com as instruções, contra-indicações e afins, fiquei completamente arrepiado. Insónias, arritmia, distúrbios psíquicos, enfim, a lista parece-me interminável. Mas tem de ser. Neste momento tens de eliminar a farfalheira que te enche os pulmões. Só que ficas completamente impossível quando tomas as gotas. Queres dormir e não consegues. Choras horas a fio. Vemos que te esforças por dormir e algo mais forte que tu te impede o sono. Ver-te assim parte-me o coração. Ontem estiveste acordado desde as quatro da tarde até às onze e pouco da noite. Não conseguias adormecer de maneira nenhuma. Se amolecias ao colo, mal a tua mãe te deitava na cama despertavas. É demais para uma criança da tua idade.
Isto começou há uns dias. A médica auscultou-te e não gostou do que ouviu. Tosse, pieira. Complicado foi entender os conceitos. Para a tua mãe, tinhas tosse de cão. Para a médica, de foca. Para mim, tosse é tosse. De qualquer forma, pediu uma radiografia ao tórax de urgência, sem relatório. Pode não ser nada, disse-nos, provavelmente não é, mas também pode ser alguma reacção alérgica, por exemplo. Há que ver. Gosto desse pragmatismo na pediatra. Sinto-me mais tranquilo com uma personalidade «pão pão, queijo queijo». Gotas, vapores com mais gotas, radiografia. A radiografia já está. A chorar. Com a tua mãe e avô a agarrarem-te entre as chapas frias do raio-X. Primeiro de frente, depois de lado. Repetir até ficar em condições. Como é que se diz a um bebé «não mexe, não respira»? Agora ainda temos de mostrar à médica. Saber então o que se passa dentro de ti.
Enquanto a tua mãe de dava o biberão, eu observa-vos sentado na beira da cama. Ela a cabecear, tu a agarrares-lhe os dedos, o biberão, os cabelos. A lutares entre a vigília e o sono. Gosto de olhar para ti. Acho-te cada vez mais bonito. Gosto de te ver ao colo da tua mãe. Quando ela te levantou para arrotares, pousaste a cabeça no ombro dela. É bonito ver-te assim, rendido àquele abraço. Os bracitos pendurados ao longo do corpo, a cabeça pousada, de lado, no ombro dela. É um dos vossos momentos que considero mais materno. É uma relação, uma confiança, uma cumplicidade que nenhuma palavra pode negociar nem nenhum dinheiro pode comprar. Ainda não o fazes comigo. Nunca adormeceste ao meu colo. Acredito que o tempo nos aproximará ainda mais e, algures no futuro, também eu te sinta assim, totalmente entregue a mim.
Depois de comeres, foram os vapores. Ali estive, um quarto de hora, talvez. Com a mangueira da máquina enfiada na tua cama, a máscara próxima da tua cara. Uma torrente de vapor a inundar-te boca e narinas, a escarafunchar-te os pulmões como uma invasão. Os teus dedos, tão finos e compridos, a desfiarem a fralda com que escondes a cara, essa tua companhia essencial ao sono. Acho que adormeceste por cansaço, quando já não aguentavas mais, derrubado pelo apelo irresistível da noite.
Quando finalmente apagámos a luz, só se ouvia o relógio de pulso da tua mãe. Faz-me confusão. Lembra-me o relógio de parede de casa dos meus pais. Nas inúmeras noites em que o sono tardava, só ouvia o passo certo daquele relógio. É como se o tempo não se limitasse a escorrer mas antes me obrigasse a notar a sua dolorosa e arrastada passagem. É horrível sentir o tempo a passar, lembra-me a finitude da vida em tudo o que isso tem de absurdo e inaceitável, ao mesmo tempo que sei que nunca nada poderá contrariar essa ordem natural da existência – agora existo, depois não existirei. Do pulso da tua mãe liberta-se ainda uma fosforescência azulada. Embora os ponteiros sejam verdes no seu brilho, rapidamente se diluem num azul indefinido. É como o led do modem, quando ela se esquece de o desligar, inunda o corredor desse verde azulado. Há vinte e poucos anos, os meus pais ofereceram-me um Dataman. Não era mais que uma calculadora em forma de astronauta, vinda do planeta dos números. O ecrã era preto e os números verdes. À noite, enfiava-me debaixo do lençol onde tudo se iluminava daquela mesma luminosidade e tentava adivinhar os números secretos, treinar contas que rapidamente se revelaram impossíveis e frustrantes. Rapidamente percebi que o meu «dom» não passava por números. Não deixa de ser interessante pensar nisso por um instante: qual será o teu dom? Acredito que todos nascemos com um. Podemos chamar-lhe qualquer coisa, apetência, inclinação, talento, o que quisermos. O importante nesta teoria é que todos nós fazemos algo com maior facilidade que tudo o mais. E não estou a falar de arte. O «dom» de uma pessoa até pode ser a arranjar canos ou abrir valas. Mas é certamente algo que dá prazer fazer, algo que não só se domine com maior facilidade que qualquer outra coisa – a apetência natural – como também dê, ao fim de cada dia, a satisfação e o prazer de o ter feito. Demorei muitos anos para encontrar o meu dom e ainda não tenho a certeza absoluta de ter acertado. E tu? Qual será o teu?
Enquanto deambulava nos meus pensamentos e procurava o caminho mais fácil para o sono, iluminado por essa ligeiríssima luz azulada, tentei ouvir-te a respiração. Só ouvia o relógio da tua mãe e alguns automóveis espaçados no silêncio da noite. Como sabia que não adormeceria sem ter a certeza de estares bem, levantei-me e fui mais ou menos às apalpadelas para junto da tua cama. Ao fim de um ou dois minutos deitei-me novamente. A tua mãe, estremunhada, ainda me perguntou «então?». Está a respirar, respondi-lhe. E só então consegui abandonar-me ao sono. Não ao meu sono ligeiro de sempre mas ao sono que descobri depois de nasceres, um sono de tal forma profundo e esgotado que não ouço nada, nem a ti, quando choras. Agora ando assim. Podes chorar e gritar à vontade que não acordo. Durante a noite, se não for a tua mãe a ouvir-te e dar-te chupeta ou tranquilizar-te depois de um pesadelo, eu não acordo. E de manhã, é um martírio para me conseguir levantar. De alguma forma, quando durmo, subtraio-me realmente ao mundo.
28.7.04
Especificações técnicas:
Peso: 8680gr. Estatura: 71cm. P.Cef: 43,5cm.
19.7.04
São quase duas da manhã. Tu e a mãe dormem. A casa é o silêncio. Termino o livro que me entreteve esta noite: Inventar a solidão, de Paul Auster. Os livros dele sempre me perturbaram por me obrigarem a pensar. Não que habitualmente não pense. Embora pensar não seja assim tão trivial como usar o cérebro. De uma forma geral, pensamos num dado assunto e chegamos a uma conclusão. A partir daí não pensamos mais nesse assunto e vivemos com a conclusão que arquivámos numa qualquer gaveta da memória. Os restantes pensamentos aplicam-se ao corriqueiro, à esperteza saloia do dia a dia: compro, não compro; vou por aqui ou por ali; faço isto ou faço aquilo. Existe mérito e necessidade no imediatismo do pensamento mas, reduzir toda a actividade pensante a esse imediatismo é castrador, é vestir uma morte antecipada, é um absentismo do eu.
Ao ler livro, penso mais uma vez no que é ser filho e no que é ser pai. Eis uma ideia que não pára quieta, pelo menos para mim. Chego a uma conclusão e, de cada vez que a penso novamente, chego a uma nova, diferente, conclusão. Ao longo de todo o primeiro texto, o autor reflecte sobre a sua relação com o pai. Esta reflexão acontece imediatamente após a morte do pai e numa altura em que o seu próprio filho – do autor – tem aproximadamente um ano. Ao longo de um longo e doloroso processo, somos confrontados com a crítica ao homem que foi o seu pai. Apercebemo-nos que é o facto do autor ser, também ele, pai que o levam a um novo encarar do pai. Se inicialmente, somos confrontados com um pai que desilude, no final desta descida ao inferno da memória o próprio autor conclui que também ele foi uma desilusão de filho. E esta conclusão dá que pensar.
A vida só tem um sentido. E vivemo-la como se fossemos imortais. Esta “liberdade” relativamente à morte, dá-nos toda a margem de manobra para nunca questionarmos quem somos para os outros ou o quanto guardamos deles. Penso que um dia o meu pai morrerá, eu morrerei e até tu, meu filho, morrerás. E nesta certeza, pergunto-me o quanto ficará por dizer e sentir entre todos nós. Eu quase não me lembro dos meus avós. Por parte do meu pai, o meu avô chamou-se Júlio e a minha avó, Mariana. Não me lembro deles. Feições, actos, palavras – tudo isso se foi. Não sei que outros nomes tinham – tirando o apelido do meu avô e porque o meu pai o usa, eu uso e também tu o usas. Mas penso que o meu próprio pai também foi criança e tem memórias de uma vida, memórias que o tempo apagará e ficarão tão perdidas no tempo como tudo o mais. Sei apontar todos os defeitos e qualidades do meu pai. Mas que pensará ele de mim? Teremos conseguido dar tudo o que podíamos um ao outro? Por vezes penso que não. Penso que poderia ser muito mais e melhor filho. E estes pensamentos aplicam-se de igual forma ao lado materno da família. O mesmo desconhecimento ou falta de lembrança para com os avós. A mesma sensação de incompleto para com a minha mãe. E passa tudo tão depressa.
Pergunto-me o que lembrarás de mim e da tua mãe, dos teus avós. E os teus próprios filhos – que recordarão eles de nós? Contaram histórias passadas connosco? Guardarão as nossas fotografias? Ser pai dá-me uma breve ilusão de imortalidade. Penso que viverei para além de mim no teu sangue, na tua recordação e no teu amor. Mas é uma ilusão tão passageira... Que foi feito de todos os inumeráveis que vieram antes de nós? Quem os lembra? Onde ficou a sua memória? E para todos os que nos virão depois de nós até ao anoitecer da espécie humana – o que seremos? No livro 1984, de George Orwell, diz-se a certo ponto: nós somos os mortos. E somos, todos sem excepção. Mas se o somos, que nos resta então senão a singularidade deste instante que nos acontece?
Na solidão da noite, penso uma vez mais tudo isto. E não é um pensamento de morte ou falta de sentido para tudo. Encontro nesta ideia uma base de amor. Porque se este instante é tudo o que tenho de palpável, então nada mais me resta senão o amor dos meus e o amá-los de volta. Porque para além disto, nada é realmente importante. E mesmo sabendo que nada somos na longa fila da descendência, sinto-me bem ao pensar em amor. Penso que tenho de amar mais, amar melhor, os que me precederam, e tu, o meu futuro. Quando entro no quarto, vejo-te dormir, assim como a tua mãe. Quando me meto na cama, sorrio, sinto-me um homem feliz.
Nota mental: um dia, faremos a árvore genealógica da nossa família.
15.7.04
Não tenho tempo. Quantas vezes ouvimos e contamos esta história? É mais uma das situações que sempre disse que evitaria. E tal como a maioria dos pais e mães, são mais os dias em que não tenho tempo que o oposto. Só que, cada dia que passa, é um pequeno universo de novos acontecimentos, de bocadinhos de ti que quero agarrar, guardar escrevendo, fixar nas palavras a memória que perderei no somatório dos dias, que se diluirá no turbilhão da vida. Porque, no fundo, resume-se a uma verdade muito simples: tudo passa. Olho para trás e recordo. Mas apenas consigo recordar acontecimentos isolados, um resumo de vida, como se a minha memória fosse um curriculum vitae com, no máximo, duas páginas. E tanto que se vai perdendo, debotando, lenta e irrecuperavelmente. Sou o que recordo e a saudade de tudo o que esqueço. Não uma saudade dos acontecimentos em si mas antes o conseguir recordá-los.
Ao mesmo tempo, nunca me senti tão próximo de ti como agora. Nas últimas semanas tenho aproveitado melhor o tempo para estar contigo. Vou mais vezes dar-te a chupeta quando acordas e choras. Participo mais. Acompanho ligeiramente mais os teus dias. Dedico mais tempo a olhar para ti apenas, ou a fazer-te festas. Gosto quando retribuis. Há umas semanas que, tanto eu como a tua mãe, estamos a investir nesse acto tão simples mas tão profundo em tudo o que possamos considerar humano. Se antes arranhavas e empurravas e tentavas arrancar-me os olhos, agora já abres a mão para sentir realmente a cara, em tudo o que são pêlos, borbulhas, relevos e texturas. Ainda me puxas o nariz, mas isso é natural, não sou propriamente um Cyrano mas sou relativamente narigudo. E adoro fazer-te festas, no cabelo, nas bochechas, passar a ponta do indicador no perfil do teu nariz e sentir a tua mão na minha cara. Há comunicação, um entendimento maior que tudo nestes pequenos gestos de carinho.
Se, por um lado, a nossa relação evolui, por outro sinto-me mal por não te conseguir escrever. Esforço-me por valorizar mais cada momento que nos acontece. Como diz a tua mãe, ser pai todos os dias e não esperar que tenhas não sei quantos anos para querer, nessa altura, começar a ser pai. E sinto que este esforço vale a pena. Ao mesmo tempo, sinto a frustração de te estar a viver mais e não o fixar nas palavras por não ter tempo. É uma situação que me preocupa. Porque o ser humano é preguiçoso por natureza. Mais facilmente nos habituamos a não ter tempo e fazer disso uma desculpa permanente, do que tratamos realmente de mudar o necessário para ganhar esse tempo. É mais um esforço, uma luta interior que terei de vencer. Entretanto, vão ficando as fotografias. Inúmeras. Imensas. Tu com sopa até às orelhas. A fazer birra. Sozinho no parque a brincar sereno e intrigado com os bonecos. De boca escancarada de espanto e um cómico fio de baba pendurado. Tu e as imagens de ti. Porções de vida fixas ao acto mas não ao sentimento, que não consigo registar mas que também não quero esquecer.
8.7.04
Especificações técnicas:
Peso: 8120gr. Estatura: 69,5cm. P.Cef: 43cm.
5.7.04
Na sexta-feira, ao fim da tarde, a tua mãe foi chamada de urgência para um trabalho. No meio de muito stress, saí mais cedo para tomar conta de ti. Foi o nosso primeiro voo solitário. O que começou bem rapidamente descambou para o caos. Quando chegámos a casa, ainda tentei dar-te banho, apesar de estar em cima da hora de comeres. Claro que não consegui. Andava contigo pendurado no colo, já rabugento, enquanto com o outro braço tentava puxar a tua banheira para a casa de banho, juntar as coisas necessárias e que não fazia ideia onde estavam assim como a própria roupa estava escondida num local misterioso qualquer que só a tua mãe conhecia. Quando percebi que já não conseguia dar-te banho atalhei para a papa.
Das boas intenções aos actos há uma longa distância a percorrer. Às primeiras colheradas já choravas. Achei que era birra para comer e que não serias mais teimoso que eu. Achei mal. Enquanto te engasgavas, cuspias, berravas e tentavas atirar-te para fora do meu colo, eu atafulhava uma colherada a seguir a outra, sem parar. Mesmo quando te engasgavas e tossias, eu enfiava-te mais comer para a boca. Ainda passámos uma boa meia hora nesta fita.
Só parei quando os teus olhos, vermelhos de tanto choro, se começaram a fechar e todo o teu corpo se amolecia nos meus braços. Só aí percebi que a birra, afinal, era de sono e não de fome ou mau feitio. Soluçavas, tremias de tanto choro. Tinhas papa em toda a cabeça, no nariz, no pescoço e na roupa toda. Levei-te para a cama e, mal te pousei, viraste-te sozinho de lado, agarraste-te à fralda que gostas de usar para tapar a cara e assim ficaste, exausto, a soluçar. A minha insensibilidade partiu-me o coração. O meu e o da tua mãe, quando chegou a casa.
- Mas então não viste logo que era sono? Quando é assim deixa-lo dormir que depois ele logo pede comer. Coitadinho do miúdo, a querer dormir e tu a enfiares-lhe comer pela boca abaixo, sujeito a engasgar-se a sério e sufocar.
Não me senti nada bem com a situação. Mais tarde, muito mais tarde, a tua mãe deu-te mama à hora prevista e dormiste bem o resto da noite. Na manhã de sábado, ao acordares, fomos dar-te os bons dias à cama e suspirei de alívio quando olhaste para mim e sorriste num desses maravilhosos sorrisos de que só tu és capaz – estava perdoado!
A conclusão deste pequeno episódio é simples. Estás com cinco meses feitos e ainda não percebo nada de ti. Por um lado, são os pequenos truques que desconheço, como por exemplo, ver que a tua mãe à noite, depois de te dar mama, te dá a chupeta para acelerar o arroto. Estou contigo e continuo a não saber interpretar os teus sinais mais simples. Tens sono? Tens fome? Tens dores? Queres brincadeira? Não sei. Talvez não me aproxime o suficiente, talvez não preste a atenção necessária. Talvez seja uma infinidade de coisas que não esteja a fazer bem ou de todo.
Por outro lado, pergunto-me cada vez mais sobre o que é ser pai. Lembro-me que comecei cheio de ideias, de planos e intenções. Agora, ao fim destes meses, não faço ideia do que é realmente ser pai. Relato acontecimentos, bons e maus, tento entender-te, tento melhorar-me. Mas o que torna a minha experiência e visão únicas? Em que é que a minha experiência é diferente da tua mãe, por exemplo? Sei que ela tem muito mais trabalho que eu, é certo. Mas tirando isso, o que distingue a forma como te vemos? A ideia inicial deste blogue sempre foi relatar-te através da minha visão e experiência – a de um pai – mas continuo sem entender onde fica essa singularidade. O tempo passa, tu cresces, mudas. Continuo pasmado. Não pelo que entendo e aprendo de ti, mas por tudo o que não consigo entender. Perguntam-me o que é ser pai e eu continuo a responder que não sei.
27.6.04
Chegámos há pouco do baptizado do Guca. Estamos estafados. Ainda não o conhecíamos pessoalmente. Mas esta história começa um pouco antes e tenho de voltar atrás para que tudo isto te faça sentido.
Nos primeiros meses de gravidez, a tua mãe conheceu a mãe do Guca num fórum para grávidas. Em termos de gestação tinham apenas três dias de diferença. Rapidamente começaram a trocar emails, depois números de telemóvel e, quase sem darmos pelo tempo, combinaram encontrar-se. Só havia um pormenor, pequeno, quase insignificante: nós moramos em Lisboa e eles no Porto. Dividiu-se o mal a meio, combinou-se na Figueira da Foz. Lá foram as «barrigudas», de sete meses, com os maridos atrás, para um encontro do qual não sabíamos mais que o ponto de encontro. Onde ou como começa uma amizade, ignoro. Mas sei que nós gostámos logo deles, assim como eles gostaram de nós. Primeiro passeámos na praia, tirámos fotografias às barrigas, falámos imenso dos planos, expectativas e receios próprios de quem tem em si os filhos e ainda não os deu ao mundo e à vida. Depois almoçámos e passeámos mais um pouco. Regressámos com a certeza de ter novos amigos. E assim foi. Os emails continuaram, cada vez mais, todos os dias, a qualquer hora.
Poucos minutos depois de nasceres, já fora do bloco de partos, liguei para os amigos e família a dar a notícia. A mãe do Guca, quando atendeu, estava sentada na sanita: tinham-lhe rebentado as águas. Doze horas depois de ti, às 10 da noite, nasce o Guca e tivemos a certeza que as nossas vidas tinham, de alguma forma, arranjado forma de se cruzarem. Desde então, temo-los visto quase todos os dias via webcam. Escrevemo-nos, mostramos os nossos miúdos, telefonamos quando a internet nos falha. Os trezentos quilómetros de distância não têm significado nada. Mas ainda não nos tínhamos encontrado pessoalmente desde a Figueira da Foz.
O Guca foi baptizado hoje. Arrancámos ontem depois de almoço rumo ao Porto. Os primeiros cento e cinquenta quilómetros correram bem. Estiveste sossegado no teu ovito. Chegámos a pensar que dormias. Mas não. Quando parei numa estação de serviço para fumar um cigarro, dei a volta ao carro e espreitei pelo reflexo do vidro para te ver. Até me assustei. Tudo em ti era seriedade, e os olhos esbugalhados, não fosse alguma coisa escapar-te. Depois de pararmos para comeres, na Mealhada, foi o caos. Como não tinhas dormido nada, tornaste-te insuportável, rabugento. Foram mais cento e poucos quilómetros contigo a gritar. Mas a gritar mesmo!
Chegámos a casa deles completamente derreados. Já não te podia ouvir. Estava pelos cabelos. Para cúmulo, não adormeceste logo. Bem que montamos uma cama de viagem. Bem que a tua mãe te tentou adormecer de toda a maneira (e ela tem muito mais jeito que eu, que começo logo a rir-me para ti) mas nada. Imagino os nossos amigos, quando viram entrar porta dentro duas pessoas desgrenhadas e uma criança que parecia uma sirene. E conhecemos finalmente o Guca, que é o oposto de ti. Até a chorar é meigo, discreto, ao contrário de ti, meu filho, que pareces a sirene de um carro de bombeiros no mês de Agosto. Quando finalmente adormeceste, já era tarde e o jantar foi sussurrado, por meias palavras e debaixo de um cansaço que nos vergava. Ao outro dia, tínhamos de nos levantar muito cedo e tudo ficou por dizer. Trocámos prendas, jantámos, demos banho aos miúdos e depois tudo se precipitou, rápido, para as poucas horas de sono ainda disponíveis.
Hoje acordámos muito cedo. Havia um baptizado por fazer. Os pais do Guca ainda tinham quinhentos mil assuntos por tratar e a cerimónia realizava-se mais para norte, na aldeia dos avós. Claro que não dormiste nada durante a manhã. Andaste mal disposto e acabaste por bolçar... na roupa da tua mãe. Seja como for, lá fomos. Primeiro a quinta, onde te tentámos adormecer ingloriamente. Depois a igreja. A tua mãe queria fotografar a cerimónia, pelo menos era essa a ideia. As igrejas do norte do país costumam ser muito bonitas por dentro, embora reservadas e austeras por fora, vivem na beleza e no detalhe da talha. Mas não vi nada disso. Entrei contigo no ovo e pousei-te na última fila dos bancos. Nesse mesmo instante começaste a chorar e saí. Foi tudo o que vi do baptizado. Poucos minutos depois saiu a tua mãe, que disse ouvir-se mais o teu choro lá dentro que as palavras do padre. No final da cerimónia foi nos braços dela que adormeceste. E assim te levámos de volta para a quinta.
O almoço correu muito calmamente. O Guca esteve sempre ao pé dos pais. Apesar de não dormir, sorria, resmungava um pouco e não deu a mais pequena chatice. Mesmo quando está zangado, é mais sossegado que tu bem disposto. Claro que tu estavas num dos quartos, comigo e a tua mãe a tentarmos, à vez, adormecer-te. Choraste, gritaste com quanta força tinhas e, ao fim de um bocado, cada vez que um de nós sai-a para o terraço, os convidados perguntavam se já tinhas conseguido adormecer. Foi tal a birra que te tornaste conhecido de todos! A dada altura, deitamos-te na cama ao lado do Guca, que tinha encostado às boxes para troca de fralda. Ele olhou para ti e riu-se. Tu, que não és de estranhar, rebentaste em lágrimas. O mais engraçado, foi vê-lo a dar-te a mão, como se quisesse tranquilizar-te. Conversas de bebés, talvez. E assim a tarde passou rápida. Depois de dormires uma hora ou pouco mais, tivemos de regressar. Para trás ficaram Guca e pais, com tudo o que não houve tempo para dizer, para conversar, para partilhar. Sempre a correr.
O regresso foi melhor que a ida. Muito melhor. Só choraste uns quantos quilómetros e até acabaste por adormecer. Tu e a tua mãe, o que foi, aliás, o melhor momento da viagem. Já estávamos perto de Lisboa. A paisagem parecia de um Alentejo profundo e verdadeiro. Colinas suaves. Casas brancas de portas e janelas debruadas a azul. E uma vegetação rasteira. O sol escondia-se no horizonte e tudo dourava de calma. Olhava para o espelho retrovisor e via a tua mãe a dormir. Tu também dormias, depois da birra. Foi nesse momento, na calma e na tranquilidade do fim do dia, que senti que tudo fazia sentido, que tudo estava bem e em paz.
Quando chegámos a casa, vimos que já sabes perfeitamente qual é a tua casa. Ficaste radiante quando viste os teus bonecos, a tua cama, as milhentas pequenas coisas que te preenchem os dias. Diz-se que não há lugar como a nossa casa. Vimos nos teus olhos que vives essa máxima. Mesmo rabugento, quiseste brincar com o que encontravas. E rias muito. Estavas bem melhor que nós.
Agora, junto os pensamentos e tento perceber o que foi este fim-de-semana. Há tanta coisa e é sempre tudo tão confuso. Tu, nós, os amigos, o cansaço, as correrias. Por muito que escrevesse nunca conseguiria dizer tudo. Sei que, no sono que não me larga, sobressalta-me especialmente um momento que, nem sei porquê, não esquecerei tão cedo. E nem sequer é importante de uma forma objectiva. Mas continuo a rever uma altura em que a tua mãe estava a tentar adormecer-te, lá na quinta. Saí para o terraço e decidi dar uma volta pela propriedade. Foi talvez o único momento em que me senti verdadeiramente alheio. As uvas pendiam das videiras enroscadas na latada. Um cão ladrava na distância. Moscas e abelhas estancavam voos e azáfamas, demoravam-se no ar, suspensas diante dos meus olhos. Enquanto andava, sentia aquele cheiro intenso a terra, a uma terra que nos sobe raízes pelos ossos e nos transforma noutra coisa. Tudo à minha volta era beleza. Não um gozo estético mas sim uma força terrestre, imparável, intensa e carnal. Olhava para o céu, de um azul perfeito, imaculado, um agasalho que a todos serve. E via os limões por baixo desse céu, a crescerem.
20.6.04
Estamos os três deitados no chão do teu quarto. Temos um brinquedo qualquer de onde pendem bonequitos com sons, texturas, cores. Acima de tudo, o fascínio das cores. Ficamos ali muito tempo a brincar contigo – e o que é muito? A tua mãe segura o brinquedo de um lado, eu seguro do outro. Tu, entre os dois, mexes. Puxas, empurras, procuras ali qualquer coisa que nós já não sabemos ver. E ris. É lindo quando ris imenso nessa alegria que só tu sabes. É um momento simples. Um instante, apenas, nas nossas vidas. Mas tão simples que espanta, faz-nos esquecer o tempo e ficamos. A família junta, a nossa família, no prazer das pequenas coisas enquanto, na janela, o sol despede-se de mais um dia e pinta o quarto a ouro.
17.6.04
Há coisas que entendo na perfeição. Outras não.
Mas porquê que as mães insistem que os filhos têm sempre frio?!
Lembro-me, divertido, dos episódios deste género a que assisti. Inúmeros, imensos. As mães que aquecem demasiado a água do banho até os miúdos fugirem escaldados, as que transportam as crianças como se vivessem no Árctico, as que, mesmo no verão, têm medo que os bebés se constipem e vai de atafulhá-los em camisolas, casacos e sei lá mais o quê. Desde que nasceste que esta história também se passa connosco. Como se costuma dizer, “pela boca morre o peixe”...
As frases da tua mãe:
- Mas achas que ele assim tem frio?
- Não achas de devia pôr mais um cobertor na cama?
- Mas, pelo menos, mais uma mantinha?
- Vou tapá-lo melhor com o lençol.
E tu suas, imenso.
Já com o «ovo», a tua mãe só se decidiu a tirar a cobertura polar quando parecia que viajavas dentro de uma máquina de lavar roupa, com as costas empapadas de suor e o cabelo molhado.
- Mas não achas que assim ele vai ter frio?
- Visto-lhe mais um casaquinho.
- Mas na rua está frio, e quando escurecer vai ficar ainda mais frio.
- Pode constipar-se.
Ainda agora, à noite, a tua mãe acorda, acende luz e vai ver se não precisarás de mais uma roupinha na cama, porque de noite arrefece... Mas é verão! Tu estás quente e até te destapas!
Ò filho, explica-lhe tu...
16.6.04
Regresso ao trabalho. Penso que é um alívio e não é. Se as férias cansaram, o trabalho continua igual a ele mesmo: brutal, intenso, esgotante – quem ler há-de pensar que trabalho num talho, mas não. Sou apenas mais uma peça numa engrenagem que se pensa, reinventa, absorve todas as peças até não se distinguirem do todo. A distância ajuda sempre a ver melhor. Agora sinto pena pelos momentos em que não soube ter mais paciência, mais carinho. Os momentos em que não consegui ser o pai que desejava.
É fácil queixar-me quando as coisas não correm como gostaria. Por vezes, até há motivos para a queixa mas, com estes dias de permeio, apenas concluo que o hábito faz a queixa. Habituamo-nos à contrariedade e fazemos disso o estado normal, tudo nos irrita, tudo está contra nós.
Agora, maior parte das vezes, quando chego a casa estás a dormir. A tua mãe já te deu banho e jantar. Dormes. Se acordas e reclamas a chupeta, vou a correr dar-ta. Mas só para te ver, para conseguir apanhar ainda um rasgo, por muito pouco que seja, de ti. Gosto quando me aproximo da tua cama e sorris à minha chegada como se sentisses saudades. Para mim é uma alegria enorme e, ao mesmo tempo, uma tristeza. Sinto que estas duas semanas nos aproximaram. Por muito que me tenhas esgotado, fizeste-me sentir mais “pai”.
Insisto em recordar tudo mas, em especial, os maus momentos. Sempre me conheci assim, em tudo. É-me mais fácil recordar a gritaria que costumas fazer antes de adormeceres que o teu sorriso sem dentes ou o brilho dos teus olhos quando estás feliz. Recordo melhor a minha falta de paciência que os momentos em que me fazes rir com as tuas graçolas.
Estes meses mostram-me que, se não aprender a lidar com a forma como encaro os momentos, acabarei por perder de todo a tua infância, transformando-a num contínuo pesadelo de recordações. Irrito-me comigo próprio quando penso ou falo de ti e só me ouço relatar cansaços e coisas que desejava fazer mas não consegui. Tenho de me esforçar mais por valorizar os bons momentos. Até porque os bons momentos existem, temo-los vivido, mas só o consigo entender depois. Há muitos péssimos momentos, mas há também o encostares a cabeça no meu ombro e acalmares, o agarres os meus dedos enormes nessas mãos minúsculas e não largares, o ouvires-me falar e rires ou tão simplesmente quereres falar de volta e ainda não saberes como o fazer. Tanto tu como eu merecemos não só mais, como, acima de tudo, melhor. Serás tu a minha redenção?
9.6.04
A tua mãe. As perguntas dela e as minhas respostas.
- És adepto da frase «se soubesse o que sei hoje não queria ter filhos»?
- Não.
- És adepto da frase «se soubesse o que sei hoje teria filhos mais tarde»?
- Não.
- Então?
- Sou adepto da frase: tenho este filho e estou a gostar.
E estou. Gosto a sério. A cada dia que passa maior é a minha certeza que chegaste na altura certa e é bom partilharmos uma mesma vida, um mesmo tempo com tudo o que há de efémero e irrepetível nesses instantes. Mesmo quando fico saturado. Quando, nestas duas semanas, não consigo ter mais que cinco minutos seguidos de sossego e digo que nunca mais chega a altura de voltar ao emprego. A tua mãe diz que agora é que lhe dou valor – sempre dei, mas estou a compreender melhor – ao mesmo tempo, diz que desde que fiquei em casa tu estás mais activo, mais eléctrico – penso que também seja verdade. De facto, andas impossível.
Comecei estas “férias” cheio de planos, de pendentes que finalmente tencionava resolver. Temos um quadro branco numa parede onde desenhei um calendário com o que queria fazer em cada dia. Tudo me parecia perfeito para umas férias. Ao fim de poucos dias o desfasamento em relação ao planeado era já inconciliável. E já nem me dou ao trabalho de actualizar o planeamento. Com a tua rabugice temos andado estafados. Ando cansado do emprego e a necessitar de férias urgentes mas não é nestas duas semanas que encontro esse descanso.
Tudo isto faz parte de ser pai, do percurso que todos os pais sempre fizeram e farão. Ou talvez seja um percurso novo para o homem. Talvez estejamos numa época em que o homem está mais próximo da família nas grandes e pequenas coisas. Uns por se interessarem mais, outros porque as ocupações das mulheres a isso os obrigam. Certo é que independentemente da época, todos nós temos de nos habituar, custe o que custar – e há dias em que custa muito. Não me considero nenhuma excepção e, acredito, o que digo sempre foi e sempre será sentido por todos os pais e mães do mundo.
Estou a explicar tudo isto porque é importante que se entenda que se ama um filho ao mesmo tempo que não se tem paciência para o aturar. É um equilíbrio desequilibrado. E esta antítese faz sentido quando se tenta conciliar tudo, quando não se tem outra hipótese senão respirar fundo e continuar em frente mesmo carregados de sentimentos tão distintos – não confundir com contraditórios, pois que o amor está sempre lá e é verdadeiro, ao mesmo tempo que a impaciência e a saturação não mudam esse amor. Mesmo cansado, o que me interessa é que ao fim do dia, quando apagamos as luzes e adormecemos continuo convicto de que tudo vale a pena.
Assim, há que ter paciência.
7.6.04
Eu não diria que foi sorte de principiante, mas quase. Depois de uma estreia suave e pacífica na fase das sopas, rapidamente decidiste fazer caretas, virar a cabeça e chorar à segunda colherada de sopa. A fruta, continuas a devorar com um apetite maior que tu. Depois há também dias em que comes tudo, sem problemas, como se nas vésperas não tivesses detestado. És completamente irregular.
Uma vez que os teus hábitos alimentares mudaram e, com a agravante de ora comeres melhor, ora pior, o teu relógio biológico está completamente desregulado. Tanto dormes em sossego como acordas rabugento em horários estranhíssimos. A fase de relativo sossego que havia antes de passares para a sopa baralhou-se completamente. Andamos a aprender tudo do início.
Já descobrimos que há alturas em que te conseguimos enganar. Ainda tentámos dar-te uma colher de fruta seguida de uma colher de sopa e assim sucessivamente. Não resultou. Tentámos seguidamente misturar a sopa com a fruta e enganar-te assim. Até agora é o que ainda vai resultando – mas tem dias... O pior é não perceber do que realmente gostas ou não porque nem isso é linear. Se não comesses nunca a sopa, eu compreendia. Mas ora decides comer, ora decides não comer – e estamos a falar exactamente dos mesmos ingredientes, nem sequer é de sopas diferentes.
Também já descobrimos que comer, para ti, tem de ser em ritmo acelerado. Nada de uma colher, limpar boca (ou cara talvez seja mais adequado) e depois dar-te nova colherada. Não. Tu não paras. Ou suamos a dar-te as colheradas o mais rapidamente que conseguirmos ou fartas-te dos intervalos e depois já não queres comer nada. E não é nada fácil chegar a estas “descobertas”. São horas de choros, de “agora vamos tentar antes assim”, de “mas afinal o que é que tu queres?” e de pequenas grandes alegrias quando finalmente comes e dormes tranquilo.
E também já aprendeste a “pulverizar-nos” de comer...
4.6.04
Inexperiência de pais: no outro dia não te calavas, rabugento ao máximo, estava na altura de dormires e, em vez disso, choravas sem parar. Depois de termos feito tudo o que nos ocorreu para te adormecer, e de acordo com todos os horários a que nos habituaste, lembrámo-nos que talvez fosse efeito das vacinas. Demos-te um Ben-u-ron. Um bocado depois percebemos que era fome. Desculpa lá, filho.
2.6.04
És um reguila, sempre foste. Quando falamos com os nossos amigos eles perguntam sempre “o que anda o gordo a tramar agora”. Também sabemos que és doce e meigo, mas está-te no sangue seres irrequieto, curioso, com um apetite voraz por tudo o que desconheças. À medida que se aproximava a hora de te dar a provar sopa pela primeira vez, preparávamo-nos para o pior. Claro que não o disse à tua mãe mas ainda me passou pela cabeça forrar a cozinha com plásticos e vestirmos umas gabardinas. Na minha ideia, imaginava já sopa pelas paredes, pelo chão e pelo tecto. Uma verdadeira calamidade, portanto.
A tua mãe preparou-te uma sopa com batata, cenoura e alface. A avaliar pela louça espalhada pela cozinha, parecia um banquete para dezenas de pessoas. Sempre que há novidades é assim, já estamos habituados, depois, com o tempo, aprendemos a gerir melhor a quantidade de louça suja assim como o próprio processo de “fabrico” da tua alimentação.
Com a tua mãe sentada à mesa, sentei-te ao colo dela e ficámos na expectativa – era hora. Tu estavas bastante bem disposto e olhavas para o prato como quem vê um brinquedo novo. Quando a tua mãe te levou a colher à boca, comeste, com o ar de quem sempre esteve à espera daquele momento. E depois daquela colher começaste a reclamar por mais, e mais, até teres comido a sopa toda, e a fruta esmagada e teres ainda bebido uma boa dose de água. Não cuspiste, não fizeste birra, não estranhaste – nada. Aproveitei para fotografar a ocasião e ainda bem que assim o fiz. Porque, se correu muito melhor que o esperado, não deixou de ser cómico ver-te com sopa na cara toda, na cabeça, mãos e até numa perna.
Eu e a tua mãe olhávamos incrédulos um para o outro. Esperávamos tudo, menos o facto de aceitares tão bem a colher, a própria comida e o facto de não ser mama mesmo sendo a tua mãe a dar-te de comer. Esperamos que não seja a chamada “sorte de principiante”. Mas, perante a tua satisfação e o apetite com que devoraste 200ml de comer, acreditamos que gostas mesmo de novos sabores, de comeres como nós e de te “sentares à mesa” connosco. Afinal, consegues sempre surpreendermo-nos como e quando menos esperamos.
Nunca tinha ido contigo às vacinas. Como em tantos outros momentos, tens ido apenas com a tua mãe, enquanto trabalho, estou longe, e apenas sei o que a tua mãe me conta ao fim do dia, quando já estamos demasiado cansados para falar com tempo e detalhe do que quer que seja. Mas hoje não faltei. Levei-te ao colo para o posto de saúde. Entrei contigo para a sala e deitei-te na marquesa. Segurei-te as mãos quando te espetaram duas cavilhas enormes nas pernas. Achei um horror, pensei que te furassem os ossos. Sei que é para o teu bem mas faz-me confusão a desproporção entre o tamanho das agulhas e as tuas coxas.
Quando te espetavam, tinha as tuas mãos nas minhas, a minha cara quase encostada à tua. Vi a tua cara ficar muito roxa. Vi-te abrires muito a boca e não acontecer nada. Depois, no instante seguinte, lágrimas grandes e redondas rolaram-te por essa face macia abaixo, da garganta subiu-te um grito que já não conseguias conter, a dor, uma dor imensa. A enfermeira disse que geralmente choram mais os avós que as crianças. Embora eu não tenha chorado percebo isso perfeitamente. Como não sentirmos dentro de nós a dor indefesa de quem amamos? Custou-me muito aquele momento. Porque sentir-te a dor dói-me, porque te segurava nas mãos e depois dei-te muitos beijos mas não te pude evitar as dores que sentiste, porque achei as agulhas demasiado grandes para o teu corpo ainda tão pequeno, tão frágil. Acho que, apesar de tudo, te portaste muito bem. Aguentaste o melhor e o máximo que conseguiste, só depois veio a necessidade do mimo – que te dei até não quereres mais. Talvez eu seja um pai piegas – e nem sequer perco tempo a pensar nisso – mas acho-te tão indefeso ainda e, desejo tanto proteger-te de tudo o que te possa magoar, que qualquer coisa me parte o coração.
Descobri ainda outra coisa – e apesar de ter esta sensação há bastante tempo, ainda não a tinha conseguido entender concretamente. Contigo estou a viver duas vidas. Ao mesmo tempo que te vejo crescer e te acompanho na tua própria vida, recordo situações da minha própria infância das quais nem sabia guardar memórias. Desta vez foi algo tão simples como a careta que fizeste quando te deram uma das vacinas em gotas que detestaste. Nesse momento, lembrei-me nitidamente do sabor amargo, desagradável, dessa vacina. E nem sabia que essa recordação estava guardada, contudo, recordei o caminho que fazia de casa ao posto de saúde, a sala, os corredores, os móveis e, acima de tudo, esse mesmo sabor que também tu detestas. Talvez ao longo de todos estes anos tivessem inventado um novo sabor para a mesma vacina mas, aparentemente, tudo continua igual. Vejo tudo isto como uma dupla prenda, que nunca saberei agradecer completamente. Por um lado a satisfação espantosa de estar na tua vida, de te acompanhar em todos os momentos que posso e que mesmo assim são sempre menos do que desejava, por outro lado e da forma mais inesperada, lembrares-me que, mesmo quando já o tinha esquecido, também eu um dia fui criança.
1.6.04
Amanhã vamos dar-te a primeira sopa. Estamos ansiosos. Desde que nasceste que só conheces mama. Da forma como nos últimos dias olhas para nós quando comemos, já percebeste que nos alimentamos de uma forma diferente da tua. Estás curioso, nós também. Vamos entrar num novo capítulo desta aventura. Daqui em diante, tudo será diferente. Pergunto-me como irás reagir ao desmame. Sei que mais cedo ou mais tarde te habituarás mas será fácil? No fundo, o verdadeiro corte do cordão umbilical, não é à nascença, começa agora.
Especificações técnicas:
Peso: 7600gr. Estatura: 66,7cm. P.Cef: 42cm.
Hoje é Dia da Criança.
Quando tudo o que se possa dizer e escrever sobre o tema já foi feito, ocorreu-me um pensamento muito simples: a sorte que nós temos. Conheço, e todos os dias ouço mais, histórias de casais que fazem tudo para terem filhos e não conseguem; casos de crianças com todos os géneros de perturbações; casos de pais que maltratam, abusam e abandonam os seus próprios filhos; basta-me ver um noticiário para ver crianças vítimas de guerras, violência, fome, doenças e miséria.
Perante tudo isto concluo que, pelo menos até agora, temos uma sorte imensa em ter-te como filho, e espero estar sempre à altura de ser teu pai e conseguir dar-te todo o amor, carinho e protecção que precisas e mereces. Nada disto muda o mundo mas, se conseguir ser um bom pai, pelo menos ter-te-ei proporcionado um futuro, servindo de exemplo, mostrando-te que há sempre um caminho bom e melhor, algo que um dia tu próprio possas ensinar aos teus filhos. E se para mim já é tarde para poder mudar o mundo, quem sabe tu ainda vás a tempo.
31.5.04
Fazes hoje quatro meses e continuas um mistério para mim. Aos poucos vou-te desvendando, compreendendo, mas muito devagar. Na maioria do tempo, continuo espantado de como te desconheço. Dou por mim parado, a olhar para ti ao colo da tua mãe e penso “este é o meu filho, mas como é possível?”. Já lá vão quatro meses e ainda não me pareces verdade. Por vezes, receio que sejas um sonho do qual possa acordar de um momento para o outro, um sonho que não quero que acabe, um sonho bom.
Já sei o que te faz rir, o que precisas para dormir. Vou descobrindo as diferentes necessidades que te mudam o timbre do choro. Nada do que sei sobre ti se compara com o que a tua mãe sabe, claro. É habitual perguntar-lhe o que queres, o que precisas, e ela responder-me “esse choro é fome” ou “está com sono”. Mas tudo isto é ao mesmo tempo secundário, apenas o essencial para te manter bem. Há depois o resto, tudo o mais, tudo o que não tem explicação e me espanta. Olho para ti, toco-te a face, as mãos, os pés e pergunto-me o que significas, o que é ser pai, o que é ser o teu pai. Já passámos por muito mas continuo tão pasmado e cheio de interrogações como no dia em que soubemos que a tua mãe estava grávida de ti. Se continuo tão igual ao que sempre fui, como és possível, em que ponto mudou assim tanto a minha vida sem que eu nada perceba?
Ao mesmo tempo, olho para ti e pergunto-me para onde está a ir todo este tempo que voa para além da compreensão. Estás enorme, cresces a cada instante, tornas-te o homem que um dia serás, mais depressa do que me parece justo e razoável. É o teu caminho, a tua vida e esse é um percurso que nunca mudará. Mas será necessário ser tão rápido? Quando te vejo, tenho de me esforçar por lembrar de como eras há uns meses atrás. Já não imagino o tamanho das tuas mãos ou dos teus dedos quando nasceste. A cada dia que passa menos recordo o que já foste. Por um lado, ver-te crescer assim enche-me de felicidade, por outro, sinto quase tristeza pela rapidez com que tudo se passa nesta vida.
Entro hoje de “licença de pai”. A tua mãe decidiu que só volta a trabalhar daqui a duas semanas. Assim, durante este tempo, estaremos os três juntos, a família completa. Sabe-me bem poder saborear-te a tempo inteiro durante uns dias. Ainda por cima, como estamos todos juntos, fico com a vida facilitada – é mais fácil ter a tua mãe por perto do que ter de descobrir sozinho como tratar de ti. Estou contente. Posso finalmente conhecer-te a todas as horas do dia. Nunca te achei tão giro como agora. Gosto da forma como olhas para as coisas e as queres agarrar, da forma como ris quando deixas cair a chupeta e eu ta vou dar. Mesmo faltando ainda muito tempo para aprenderes a falar, já fazes imensos barulhinhos engraçados. Aos poucos, começamos a desenvolver interacção e isso está a ser a luz dos meus dias.
23.5.04
Ontem fiquei chateado contigo. Agora já passou mas ontem fiquei mesmo chateado. Fomos os três ao casamento de uns amigos nossos. Preparámos isto durante imenso tempo. Comprámos prenda, alinhámos roupas para nós e para ti, calculámos horários, levantámo-nos de madrugada para dar tempo para banhos, cabeleireiro, mama e trocas de fralda... Eu sei lá. Foi uma loucura pegada para tudo bater certo.
Uma hora antes do casamento começaste a chorar com birra. E, quando o noivo chegou à igreja demos-lhe a prenda, pedimos desculpa e fomos embora. Há limites para tudo e, tanto eu como a tua mãe, estávamos fartos de te ouvir chorar ininterruptamente. Fomos para casa dos meus pais – que era a mais próxima do local – e, aí, dormiste o resto da tarde na paz mais serena que se possa imaginar.
Conheço os noivos há 12 anos. Numa das fases complicadas da vida que é a passagem de estudantes a trabalhadores, estivemos sempre lá, uns para os outros. Eles estiveram no meu casamento. Senti a nossa ausência ao casamento deles como uma falha minha.
Enquanto esperávamos no carro, um casal perguntou-nos se não adormeces embalado no carro. Adormeces sempre, menos ontem. Mas não dormiste durante a manhã? Quase toda. Cólicas? Nada. Decidiste apenas que, ou te dávamos uma cama para dormires uma valente sesta, ou então não te calavas. Decisão essa que cumpriste à letra. É impossível ouvir um bebé a chorar uma hora, sem se calar um segundo, e com o volume no máximo. Pelo menos eu não consigo.
Passei o resto da tarde furibundo. Com uma neura do tamanho do mundo. Ainda tomei um comprimido para as dores de cabeça que não me largavam. Disse tudo e mais alguma coisa. Disse que só me apetecia dar-te uma tareia e isso ainda foi pior porque tanto a tua mãe como os meus pais quase me crucificaram por tal pensamento. Claro que eu nunca iria fazer uma coisa dessas. Mas estava furioso. Eu sei que não tens culpa, se choravas é porque querias dormir e não conseguias. Sei disso tudo perfeitamente. Ainda me disseram que me chateio por pouco, que isto ainda não é nada, que um filho é isto mesmo e muito mais, que eu fui bem pior.
Apesar de nunca se estar preparado para ser pai e todos os dias fazerem parte de uma habituação que nunca vai acabar, eu só queria ter um bocadinho em que tudo corresse bem. Não me parece que seja pedir demais. E fiquei chateado por não o ter conseguido. Tal como a tua inocência, também a minha ira me parece defensável.
Hoje já me começo a afastar um bocado do que se passou. Até já sorriu quando me lembro da tua mãe sentada no banco de trás do carro, a tentar sossegar-te de toda a maneira, e tu ao colo dela, a chorar e espernear sem parar, a babares-lhe a camisa “especial” de casamento impecavelmente passada a ferro e que depois já parecia ser usada como camisa de dormir e com uma mancha enorme numa das mangas. E eu fora do carro, ao sol, a fumar sem parar, quase urrava, com o suor a alagar-me todo, a igreja ainda fechada e só um ou dois cães deitados no alpendre, adormecidos pelo calor. Olhava para vocês, dava mais uns passos, acabava o cigarro e voltava para o ar condicionado do carro e para o teu choro. Uns minutos depois já não te conseguia ouvir e saía para o calor. E repetia o ciclo todo uma vez mais.
Um dia havemos de rir disto. Poderá, até, parecer-nos cómico ou trivial. Mas ontem não. Ontem chateei-me a sério. Hoje estás um anjinho. Neste momento, dormes feliz, ignorando completamente o que estou para aqui a escrever.
14.5.04
Especificações técnicas:
Peso: 7220gr.
11.5.04
Onde começa a tua existência?
Pode ser que comece quando tiveres consciência de existires. Mas onde fica esse instante, esse primeiro momento em que sabes que és tu, um tu único e que não é mais ninguém? Penso que te descubras de fora para dentro. Nesta altura descobriste que tens mãos e começas a desconfiar que tens pés. Passas horas a olhar para as mãos, mexes dedos, desenhas com elas estranhas coreografias e leva-las à boca. Aparentemente só é real o que consegues provar. Precisas de abocanhar o mundo para o conhecer. Mas terás noção que tu existes? E podemos nós considerar que só existas a partir dessa consciência?
Também podemos considerar que existas a partir do momento em que tenhas um nome. Podemos até esquecer que um nome não significa nada, é uma convenção, um som. Se assim for, existes a partir do dia quatro de Fevereiro, quando te fui registar e deixaste de ser um “nado vivo” para passares a ser tu. De facto, para os sistemas bizarros pelos quais catalogamos o mundo com tudo o que abarca, antes de teres um nome não existias, era como se estivesses fora deste mundo. Contudo, mesmo considerando um nome como a definição da existência, tu ainda não sabes o teu, logo, será correcto usar esta definição?
A definição mais habitual é o nascimento, esse momento em que saíste para o mundo e te separei para sempre da tua mãe. Até aí, eram um só corpo – de uma certa forma. Afinal, as tuas funções vitais eram mantidas pelo corpo da tua mãe. Tecnicamente, só se nasce quando se está pronto para vingar “sozinho” no mundo exterior. E será essa a data que trarás contigo para o resto da vida como o começo de ti. Terás consciência desse momento? Penso que não. Penso que a consciência só vem muito mais tarde. Quem sabe isso seja um mecanismo de auto defesa, uma forma de nos poupar a um sofrimento traumatizante ou a uma fonte de perguntas para as quais estamos sem qualquer resposta cedo demais.
Prefiro pensar que o momento zero da tua existência foi o momento da fecundação. O instante em que a engrenagem dos genes rodou e se alinhou para te criar, único, para sempre tu em tudo o que és. Parece-me um bom momento. Talvez até o melhor dos momentos. Foi daí, desse acto espantoso pela simplicidade, que tudo ganhou forma. Foi aí que começaste. Lembro-me de ti nas ecografias, nos pontapés e outros movimentos que fazias na barriga da tua mãe. Lembro-me também de te decidirmos um nome, ainda antes de nasceres. Mesmo nessa altura, para nós, tu já não eras apenas uma abstracção mas tu, só tu.
Faz hoje um ano que foste concebido. O momento em que a centelha de vida se acendeu para ti. Um ano desta aventura sem fim, de ti, de uma vida a três. Nós sabemos que foi nesse dia e, mais tarde, a medicina confirmou-o. Ainda não sei se sabes que existes mas, se algum dia leres estas toscas palavras, saberás que neste momento existes há um ano, na tua vida e nas nossas. Ao mesmo tempo que me parece já tanto tempo, continua a parecer-me tão pouco.
Para o resto do mundo, na sua mecânica obscura, este aniversário não existe. Para eles, o teu relógio só começou a contar a partir do momento em que te saíste para o mundo e choraste pela primeira vez. Não há mal nisso, sabemos que é uma convenção tão boa ou tão má como outra qualquer. Portanto, se para nós existes há um ano, para os outros existes há pouco mais de três meses. Nisto tudo, o tempo quase não existe, não tem importância. Tu existes, e isso justifica, ou vai justificando, tudo.
10.5.04
Desligo o intercomunicador e olho para ti. É a minha rotina, a minha última tarefa diária. Dormes. Já te disse que és lindo quando dormes? Talvez este seja o único momento do dia em que tenho tempo para te pensar, para te sentir de uma outra forma que não só a infinita correria para que tudo seja feito. Por vezes temos tempo para brincar. Por vezes, consigo andar contigo ao colo sem que seja apenas para te adormecer. Mas mesmo isso é raro. Ainda mais raro é ter tempo para só olhar para ti e pensar nos milhares de sentimentos que me enchem num turbilhão. Tenho este momento, em que desligo o intercomunicador e olho para ti, antes de me deitar.
Fico ainda um instante a ver-te dormir. Quando dormes, nessa expressão serena, esqueço tudo o que detesto lá fora, nesse mundo que um dia também será o teu. Vejo-te dormir, de chupeta na boca. De vez em quando chuchas umas quantas vezes, apressadamente. Depois paras. Talvez seja esse o teu sonhar. O que sonhas, filho? Sonharás que mamas? Sonharás com uma vida anterior ao nascimento? Sonharás de todo? Torna-se absurdo perguntar-me isto. Já passei por esse mesmo início e não me lembro. Como poderia então procurar em ti as respostas para as minhas próprias perguntas?
Sei que, quando dormes, penso que tudo vale a pena, que tudo faz um sentido qualquer para o qual não há palavras. Dormes na tua paz. Aproximo-me da tua cara para ter a certeza que respiras. E sei que também eu posso dormir tranquilo, em paz, profundamente. Sei que estamos a fazer um bom trabalho, apesar da birra que fizeste para adormecer, apesar de nos teres obrigado a jantar à vez, apesar de todas as pequenas inúmeras coisas com que nos preenches todo o tempo e mais algum.
Depois de me despedir de ti, num «boa noite» silencioso, vou para a cama, na ilusão que este é o melhor dos mundos, um mundo bom, um mundo perfeito. E espero que durmas bem, que durmas sempre bem pois, enquanto assim for, enquanto te puder ver dormir, o mundo ainda tem um bom motivo para ser vivido. Penso ainda que és lindo quando dormes.
2.5.04
Hoje é Dia da Mãe. Sem o saberes fizeste com que este fosse o primeiro para a tua mãe. Sempre fora ela a oferecer as prendas e hoje, pela primeira vez, foi ela a receber. Nem sabes o que lhe ofereceste, por agora não escolhes, não sabes. Por ti, ofereci um postal à tua mãe. Não te inventei palavras, escrevi-as mesmo em meu nome. Agradeci o quanto ela se esforça mesmo quando já está para lá dos limites, o quanto me sinto grato por vê-la ser mãe todos os dias e a todas as horas, o quão doce consegue sorrir-te mesmo quando chora desesperada.
Espero que um dia saibas agradecer-lhe, não porque seja uma dívida, que não é, mas antes pelo acto de amor que é criar-te, amar-te, dedicar-te todas as forças, momentos e levar-te assim, pela vida. É isso que deverás, um dia, agradecer.
Para cúmulo, o dia passou a correr, para conseguir visitar as duas avós. Pouco dormiste e ficaste insuportável. Fizeste das piores birras que te conhecemos. Mesmo agora, às onze da noite, estamos demasiado estafados para falar, para jantar, para pensarmos sequer que hoje é o dia da tua mãe, e que todo o pouco que escrevi ficou por lho dizer de viva voz – fica para depois, para outro dia, para quando houver tempo. Como tantas outras pequenas coisas que vão caindo sem que possamos apanhá-las a tempo.
É pena que não seja um dia mais calmo, com mais tempo para nós, para as palavras certas, para o saborearmos como novidade que é.
30.4.04
Um filho provoca todo o género de mudanças nos pais. Se a maioria delas são bastante visíveis, algumas são quase imperceptíveis e, só descobrimos que já ocorreram quando menos esperamos e das formas mais estranhas.
Hoje a tua mãe quase bateu com o carro para te dar a chupeta. Quando me ligou para o emprego a dizer que estavam em casa e que estava tudo bem, relatou-me o episódio. Estavas a chorar e tinhas deixado cair a chupeta. A conduzir, desviou os olhos da estrada para ta dar. Quando voltou a olhar para o caminho, estava na faixa contrária com um autocarro de frente. Ambos guinaram e foi isso que vos salvou de um choque frontal. Segundo ela disse, «hoje vi a morte de frente». Noutra altura qualquer ter-lhe-ia perguntado «como era a morte». E ela responderia que «era grande e dizia Volvo». E assunto teria ficado por aí. Desta vez não foi assim.
Ao jantar chamei-lhe a atenção para que não volte a repetir a acrobacia. Se choras, que te deixe chorar. Se não conseguir, que encoste. Depois perguntei:
- E se me ligassem para o emprego a dizer que tu e o meu filho tinham morrido?
- Oh. Arranjavas outra mulher e tinhas mais filhos.
Ela ainda não se tinha apercebido dessa mudança subtil. Insisti:
- Agora imagina que era ao contrário. Que te ligavam a dizer que eu e o gordo tínhamos morrido.
E aí sim, ela percebeu perfeitamente tudo o que eu estava a dizer.
Até esta tarde, ainda não me tinha apercebido totalmente do horror que deve ser sobreviver à família, especialmente aos filhos. E ainda não fazia ideia que tinha desenvolvido uma sensibilidade diferente para estas questões. Quando a tua mãe me relatou a peripécia dei por mim a pensar «e se eles tivessem morrido?». É medonho. Tenho a certeza que nunca deixaria de ser um destroço, seria pior que eu próprio morrer. Espero nunca saber o que é sobreviver a um filho mas julgo que deve ser uma sensação insuportável, não só de dor, claro, mas também de fracasso. Quando criamos um filho esperamos conseguir orientá-lo na vida, dar-lhe tudo para que encontre o seu caminho e, de alguma forma, chegue a bom porto quando um dia lhes faltarmos. Se existe uma fatalidade então falhamos esses objectivos, não conseguimos guiá-los, protegê-los – é o fracasso último de um pai ou de uma mãe.
Gradualmente vou descobrindo todo este género de transformações no meu estar e sentir. Com a certeza que, uma vez descoberto, este receio ficará comigo para o resto da vida.
Especificações técnicas:
Peso: 6810gr.
27.4.04
Por vezes, a tua mãe diz que não gosto de ti. Há momentos em que se diz tudo. E nesta altura esmeramo-nos no que dizemos um ao outro. Um filho traz todas as pequenas coisas que sempre detestámos à superfície, torna-se um desgaste. A culpa não é tua, filho, nunca foi. Trata-se de nós, da nossa resistência estafada, da facilidade em vitimarmo-nos e considerarmos que as culpas estão sempre fora de nós, nos outros. Acredito que não há culpas, apenas aquilo que sempre lá esteve e que só nestes momentos adquire importância. Num casal, há milhentas razões para atritos. Quando tudo está bem, nem se notam. Quando a pressão, o cansaço, as privações aumentam, tudo isso salta à vista e torna-se grande, visível, importante. Nessas alturas falamos apenas para magoar, é uma política de terra queimada.
A tua mãe diz muitas coisas da boca para fora, apenas para magoar. Tal como eu, quando fico sem paciência, quando digo tudo o que me passa pela cabeça desde que estilhace, estrague, magoe. Diz que não gosto de ti, que para os outros pareço um super pai, um «daddy cool» que não sou, que sou muito mais sensível a escrever que na realidade, que sou egoísta. Algumas das coisas são quase verdade, outras não. Sou tão humano como o próximo e erro mais do que gostaria. Sim, sou muito mais sensível na escrita que na realidade – sempre fui assim, consigo entender-me muito melhor com os meus sentimentos escrevendo que falando ou agindo. Nunca falhei uma consulta ou uma ecografia mas chego todos os dias a casa às nove e tal da noite por sair tarde do emprego. Por cada fralda que troco, a tua mãe troca-te cem, duzentas? Sou muito compreensivo mas acontece por vezes chegar a casa e ainda ter de fazer jantar e lavar louça – em algumas dessas vezes passei-me por completo. Não li livros sobre bebés porque preferi ler romances. Tens quase três meses e apenas umas quantas fotos com a tua mãe enquanto eu tenho resmas contigo. Como de costume, tudo se esconde nas pequenas coisas, não é?
Quanto a não gostar de ti, isso seria impossível. Há dias em que consigo gostar muito mais que noutros. Já aconteceu estar tão chateado que olhavas e rias para mim e eu ignorei-te completamente, foi um erro e ainda me magoa pensar que pude ser assim. Acho normais as alturas em que me apetece atirar-te pela janela, afinal, quem disser que nunca sentiu esse desespero, mente com certeza. Mas nunca poderia não gostar de ti. Tenho a certeza absoluta que és o amor que nunca passará. Porque apesar de seres tu, e espero que sejas sempre «muito tu», és também um pouco de mim. Mesmo quando sou egoísta e reclamo que gastamos tanto tempo a preparar-te para sairmos que, quando estás pronto, já não me apetece, ou quando digo que «a minha vida não pode ser só isto» porque não tenho tempo para ler, escrever, passear e ver a quantidade de filmes que via antes. Tudo isso é verdade e esses momentos aconteceram. É-me sempre mais fácil pensar em tudo aquilo que queria fazer e não faço do que ocorrer-me sequer que a tua mãe pode estar a sentir exactamente o mesmo mas sem qualquer hipótese de fazer as coisas de outra forma. Acredito que ambos acabamos por nos fazer de vítimas, de uma ou outra forma. Existes porque assim o quisemos, porque o desejamos e, embora agora sejas obra tua, no sentido em que és um ser autónomo, continuas de alguma forma a ser um acto nosso, portanto, nunca poderemos ser vítimas, fomos nós que te quisemos.
Acredito que um percurso surge entre muitos caminhos errados ou becos sem saída. Se um dia leres isto, acabarás por ter uma opinião sobre tudo o que estou a escrever, tudo o que sinto. Pode ser que entendas, pode ser que não. Sei que criarás o teu próprio juízo e eventualmente, poderá não ser agradável. Mas, para mim, a única coisa verdadeiramente importante, é que compreendas que não existem super pais, apenas pessoas que erram, falham, tentam outra vez e erram novamente. Desde que percebas que não sou perfeito mas sou esforçado, viverei em paz com a minha consciência. Nunca serei um pai perfeito mas serei certamente o melhor pai que conseguir.
26.4.04
A nossa relação tem-se construído por momentos. Há o amor, claro, que está lá sempre, de uma forma que nem é possível explicar. Mas há também uma outra relação, algo que se constrói numa espécie de pano de fundo, que é o quanto nos conquistamos um ao outro. Essa outra relação, esse carinho, têm-se construído por momentos, aos poucos, devagar. E talvez assim seja porque não estou contigo o tempo todo e muito de ti dilui-se no intervalo dos dias que passam, e porque ainda não interages muito com o mundo exterior – há a tua mãe e pouco mais.
Há pouco tivemos um desses momentos em que me cativas, em que me fazes sentir que já te sou importante, que já faço parte da tua vida. Bem vistas as coisas, não é nada de mais e penso que muito do que vejo, é apenas o meu desejo de assim o ver. Mas convenço-me que são os nossos momentos, únicos, especiais.
Agora andas na fase em que «descobriste» que tens mãos. É uma maravilha ver-te a olhar para as tuas mãozinhas, pequenas, delicadas, miniatura de homem. Mexes os dedos, mexes as mãos, leva-las à boca, procuras uma forma de entendimento, algo que te explique como funcionam os dedos, que espécie de milagre é aquele que faz com que os dedos e mãos se mexam de acordo com a tua vontade.
Há pouco, estavas na cama e fui dar-te a chupeta. Agarraste os meus dedos. Depois, num assombro bom, viste maravilhado como podias agarrar-me as mãos, percebeste (ou assim quero acreditar) que aqueles são os meus dedos, que afinal, eu também tenho mãos e, de uma forma que ainda não entendes na perfeição, as tuas mãos podem tocar nas minhas, podes agarrar-me, puxar-me as mãos para ti quando queres festas, que tens já essa capacidade de agarrar o pai.
É certo que tudo isto é piegas, lamecha, provavelmente infundado e incerto. Mas é a minha forma de te ver e sentir, é a forma como te vou gravando para sempre num tempo demasiado acelerado, efémero. Em breve, tudo isto estará para trás de nós e preciso de ter a certeza que, pelo menos nas palavras, te vou guardando assim, pequeno, indefeso, quase em branco, para que ao olhar para trás entenda como se fez assim a tua (nossa) vida que me escapará mais depressa do que alguma vez desejarei.
16.4.04
Especificações técnicas:
Peso: 6460gr.
Demorou mas foi. Acertei-te com o tempo dos homens, o ritmo próprio dos calendários, luas e marés. Desde que nasceste que queria escrever-te, fixar-te nas palavras, prender esse teu, nosso, momento de forma que nunca me esqueça. Embora me dês mais e mais momentos para com eles encher a minha existência, custava-me deixar pelo caminho parcelas daquele instante incontornável. Poucos dias depois de nasceres, publiquei num outro sítio um pequeno texto. Mas não chegava. Lia aquelas palavras e não conseguia voltar a sentir tudo outra vez.
De todas as vezes que tentava acertar-te nas palavras que escrevia, bloqueava, deixava os dedos esquecerem-se das teclas, revia-te sem te conseguir transcrever para essa minha visão da memória que é a escrita. Entenda-se que ainda não estou satisfeito com o resultado. Mas já consigo ler e sentir-te, não só a ti como a mim e à tua mãe, em todo aquele sangue e ansiedade com que vieste ao mundo.
O teu nascimento encontrou finalmente o seu
lugar, no tempo próprio da vida e da memória. 31 de Janeiro de 2004, 9 e 55 da manhã.
15.4.04
A nossa interacção não é muita, na realidade, quase nenhuma. Nesta altura é assim, ainda não fazes muitas gracinhas, ainda não falas comigo, nem me procuras com as mãos, nem mostras que gostas ou não de estar comigo. É natural, só daqui a uns meses é que tudo isso começará a acontecer, como tudo na vida, rápido demais. Mas hoje conseguiste partir-me o coração num dos raros momentos em que me pareces contradizer toda esta ideia da falta de interacção. É que nem sequer precisaste de esforçar-te, bastou mesmo estares lá.
Acordaste às cinco e tal da manhã com fome. A tua mãe decidiu mudar-te a fralda e durante os minutos seguintes choraste com quanta forma tinhas – imagino os vizinhos! Ainda tentei dormir, em vão, até o despertador me tirar em definitivo da cama. Eram seis da manhã e fui para o banho a resmungar.
Antes de sair, passei pelo teu berço, só para te ver e dizer um «até logo» silencioso. Estavas acordadíssimo. Querias paródia. Tentei dar-te a chupeta mas não quiseste, preferias rir-te. Em silêncio, tentei outra vez dar-te a chucha e, com o indicador, fiz-te sinal para estares calado. Quando voltei à carga, recusaste, fizeste beicinho e um ar de abandonado que me partiu o coração. A tua mãe não viu, estava a tentar recuperar algum do sono perdido noite fora. Claro que não me podia ir embora assim, não dessa forma. Que interessam mais uns minutos desse trânsito que odeio? Que interessa tudo o mais se ficas triste comigo – já, tão cedo?
Fiz-te cócegas no queixo, como gostas, com a ponta do meu dedo. Riste. E esse momento valeu por um dia inteiro. Insisti em cócegas, festas e palavras doces. Ao fim de um bocadinho (tão pouco) ajeitei-te de lado, aconcheguei a roupitas e dei-te a chupeta. Ficaste assim, de olhos muito abertos, a chuchar, com essas mãos pequeninas a segurar, como habitualmente vemos os coelhos fazerem com o comer – isto ainda devem ser efeitos da Páscoa. Estavas satisfeito e fizeste-me feliz por isso.
Por vezes, todos nós nos contentamos com tão pouco que torna-se impressionante a forma como nos recusamos, a nós, aos outros, esse pouco de qualquer coisa que nos tornaria felizes. Todos nós quisemos, em tempos, mudar o mundo e, quando achámos impossível, contentámo-nos em viver com ele o melhor que conseguimos. Mas talvez mudar o mundo comece em todas as coisas simples que esquecemos no dia a dia. Compreenderás alguma vez esta ideia?
13.4.04
Não descobrimos a pólvora. Mas quase. Depois de muita investigação, mesmo muita, acredita, descobrimos que, deitando-te de barriga para baixo, dormes como um carneirinho. Não te passa pela cabeça como a nossa vida, especialmente a da tua mãe, melhorou significativamente. És um tipo muito porreiro quando dormes. Depois de uma valente sesta sorris por tudo e por nada, de uma docilidade a toda a prova. À noite, já conseguimos deixar-te na cama, de olhos abertos, sem desembrulhares uma sinfonia de choro em dó maior – dó para os nossos ouvidos, entenda-se, que ouvir-te chorar provoca-me sempre um nó cerebral.
Não te podemos deixar sozinho quando dormes a sesta. Nesse aspecto, estou sempre a dizer à tua mãe que nem por um minuto que seja enquanto não tiver confiança em ti e nas tuas capacidades de sobrevivência. Eu, vê só, que quando tens alguma coisa digo sempre à tua mãe «não ligues, isso passa, não é nada». Mas o pavor que vires a cara para baixo e sufoques deixa-me em pânico. Podes ter borbulhas, bolçar, chorar, febre, eu sei lá que mais. Nada disso me afecta. Podemos sempre agarrar em ti e levar-te ao médico ou, em último recurso, ao hospital. Agora a ideia de poderes sufocar silenciosamente enquanto dormes, isso não!
Seja como for, ainda não és um exemplo de bom comportamento e tempos sossegados mas, e isto deixa-me de sorriso nos lábios, estamos os três a caminho e havemos de lá chegar.
11.4.04
Hoje é dia de Páscoa, a tua primeira Páscoa. Ainda estás longe de saber que é um dia com significado religioso. Por enquanto, este dia é-te igual a todos os outros, comes, dormes, sujas fraldas, choras nos intervalos, fazes-nos rir umas vezes e desesperar umas quantas outras. Daqui a uns anos vais apreciar, pelo menos, as amêndoas, os ovos de chocolate e uma série de histórias com coelhinhos. Mas ainda é cedo. Mesmo assim, na quinta-feira decidi trazer um ovo de chocolate, não para ti mas para a minha namorada, que antes de ser tua mãe era já minha mulher, amiga, companheira e uma série de outras coisas que tento não esquecer nem deixá-la esquecer-se. Assim, Páscoa que se preze tem de ter ovos de chocolate.
A surpresa foi grande, com direito a abraços, beijos e sorrisos. Confesso, filho, que com esta boa acção, marquei uns quantos pontos nas tarefas da casa. O diálogo foi exactamente o que esperava:
- Mas sabes que agora não posso comer chocolate porque lhe faz cólicas...
- É assim – respondi – comas ou não chocolate, o Gordo vai ter sempre cólicas, portanto...
- Então eu como. Mas só um bocadinho. – Respondeu a tua mãe, sorridente.
- Claro, aos poucos. A validade é até ao verão.
- Não vai chegar até lá.
Estou a controlar o chocolate. E está a desaparecer a um ritmo apreciável. Por enquanto ainda não tens cólicas mas, se tiveres, a culpa não é só da tua mãe. Fui eu que achei que a tua primeira Páscoa devia ser comemorada. Quando perceberes as mulheres verás que fiz bem. E desculpa lá qualquer dorzita.
7.4.04
Que um filho pode ser uma barricada, não é novidade, já o disse há uns tempos. Mas apercebo-me agora que também podes ser, e és, uma desculpa. E isto não quer dizer que seja forçosamente mau mas antes que, como se costuma dizer, tens as costas largas.
Quando a tua mãe e eu nos casámos, optámos, mais até por insistência minha, por não comprar máquina de lavar louça. Defendi nessa altura que, lavarmos a louça juntos, todas as noites, era uma forma de mantermos um convívio saudável, um momento para conversarmos enquanto repartíamos uma mesma tarefa, em si, chata. A verdade é que esta perfeição durou algum tempo, ao fim do qual, ora lavava um, ora lavava o outro. Havia sempre mais qualquer coisa para fazer, logo, o mais prático e rápido foi dividir para despachar.
Desde o teu nascimento, a tua mãe não tem tido tempo para lavar a louça. Há noite, também não me apetece nada estar de volta da cozinha até à meia-noite, como tem acontecido. Assim, não tardou muito para termos o seguinte diálogo:
- Agora dava jeito comprar uma máquina de lavar louça. – Disse a tua mãe.
- Pois dava.
- Somos três, há mais louça...
- É verdade. Sempre era mais fácil. – Disse eu.
Desta forma, decidimos comprar a dita máquina o mais depressa possível, dentro do orçamento que se conseguir arranjar. É claro que o facto de sermos três não produz mais louça – por enquanto só mamas. Portanto, estás obviamente a servir de desculpa para as tarefas a que ambos nos queremos esquivar. Ou para justificar o que queremos ter.
Mediante este espírito – o teu bem, portanto – estou certo que a tua mãe concordará em comprarmos, lá para o verão, a playstation, claro. Ou não.
6.4.04
Um filho pode ser o melhor anticoncepcional conhecido. Pelo menos foi o que concluí há uns dias, em conversa com um amigo meu, também ele um pai recente. Por natureza, os homens não repartem as experiências menos viris, as vezes que encostam nas boxes ou que têm de se contentar com um duche frio. Mas às vezes falam.
- Então ainda andas a pão e água? – Perguntou o meu amigo.
- Mais ou menos.
- Também eu.
Desde o momento em que há um bebé na casa, deixa de haver tempo para o casal. O beijo de boa-noite torna-se o ponto alto da vida a dois. Das poucas vezes em que há tempo (depois de todas as vinte mil tarefas domésticas que são necessárias fazer), falta o intimismo, o estado de espírito certo. Sem percebermos como, acabamos por regredir a uma fase que julgávamos esquecida para sempre na nossa juventude em toda a sua ocasionalidade e pressa.
- Está dormir. Vamos aproveitar?
E tentamos, a correr, com medo de te acordar, sem cumprir todos os preceitos próprios a esse género de momentos, antes que chegue outra vez a hora de mamares. Depois choras e pára tudo. Quem aproveitou, aproveitou. Quem não aproveitou, aproveitasse. Como é possível fazer seja o que for contigo a chorar?
Sei que o tempo resolve tudo. Esta é a fase mais complicada a todos os níveis. O que é certo é que, um bebé, pelo menos nesta altura, torna qualquer casal activo em monges franciscanos. Espanta-me como é possível fazer filhos depois do primeiro.
4.4.04
Na sexta-feira, tal como estava previsto, fomos à consulta de pediatria. A tua mãe falou do teu problema com o sono e lá desabafou os seus receios relativos à tua cabeça. A pediatra foi peremptória: problemas na cabeça temos nós.
Estás saudável. Foste visto dos pés à cabeça e estás perfeitamente bem. Quando ao sono, não há dúvidas que tens mau feitio, mas isso não é defeito. Segundo ela, cada criança é um mundo, o que funciona com uma pode não funcionar com outra. Mesmo o que funciona algumas vezes não é garantido que funcione sempre. Cabe-nos a nós, os alegres papá e mamã, descobrir qual a forma de te adormecer.
Foram discutidas várias abordagens, as que tentámos, as que ainda não tentámos, as que a própria pediatra utilizou nos seus três filhos. Aconselhou-nos a evitar os caminhos fáceis. Segundo ela, há muitas mães que habituam os filhos a adormecer ao colo, ou de carro – é errado. «Quando a criança adquirir um hábito ela vai-vos exigir sempre esse hábito, é como um ritual.» Não devemos então habituar-te a coisas que nos custam imenso mas que acabamos por fazer só porque resultam, como por exemplo, passar a noite a conduzir ou a passear pela casa contigo ao colo. Quanto mais deixarmos que isso aconteça, mais nos custará e, esse género de sacrifícios pessoais paga-se caro.
Contou algumas histórias reais e arrepiantes, culminando com a de uma mãe cuja filha, com um ano e tal, obriga a dormir no chão do quarto para que esteja sempre ali ao seu lado, de mão dada! Contou-nos ainda que, com um dos seus filhos, teve de cantar a canção de Natal todos os dias, durante um ano, era esse o ritual do sono. Mas o que custa cantar sempre a mesma canção todos os dias se depois se pode dormir descansado?
Voltamos então à estaca zero. Temos de experimentar tudo e, ver com que abordagem é que reages melhor. Afinal, o que te adormece? Hoje foi mesmo andar de carrinho. Na consulta levámos na cabeça pelos nossos medos e fomos aconselhados sobre o que não devemos fazer mas, hoje lá recorri ao que não devia. Não te calavas. Tentámos a televisão, em canais de conversa, de música, filmes, novelas e jogos de futebol. Nada. Tentámos uma fraldinha a tapar-te a cabeça, a espreguiçadeira, ovo, cama e alcofa. Nada. Quando estávamos pelos cabelos, agarrei no teu carrinho e aí fomos nós os dois (a tua mãe tinha que fazer mas desconfio que queria mesmo era uns merecidos minutos de sossego) fazer o bairro a pé.
Depois de ter toda a gente a olhar para mim enquanto te empurrava avenida acima e tu choravas a plenos pulmões (deviam pensar que te estava a raptar!) lá te deixaste adormecer e foi assim que ficaste mais uma hora e tal. Eu sei que isto não me vai saber nada bem às tantas da manhã e, aposto, à chuva, quando achares normal só adormeceres com uma voltinha pelo bairro. Mas espero até lá descobrir outra forma qualquer de te adormecer. Para bem do teu conforto e das nossas cabeças, não da tua, mas da minha e a da tua mãe.
2.4.04
Especificações técnicas:
Peso: 5830gr. Estatura: 61,3cm. P.Cef: 39,5cm.
Há momentos em que um pai não consegue ser egocêntrico. Habituamo-nos com demasiada facilidade a ver o mundo só (única e exclusivamente) pelos nossos olhos. É assim que te tenho visto. Quando penso em ti, há uma tradução simultânea, uma voz de fundo que fala em privação de sono, de um choro que se atira de encontro às paredes do meu cérebro como uma bola de flippers incansável, nos projectos que deixo arrumados para daqui a vinte anos. Enfim, é uma lista que poderia continuar indeterminadamente. Mas há momentos em que essa tradução cala-se um pouco e deixa-me ver melhor tudo o que se está realmente a passar. Foi o caso desta noite.
Eram quase duas da manhã e eu tentava dormir. Tínhamos-te dado banho já passava da meia-noite e estávamos todos (estou-te incluir, vê só!) estafados. Eu tinha-me deitado e a tua mãe continuou com todos os inúmeros afazeres próprios de ti. Na altura, estava sentada na cadeira a dar-te mama. Entre a luz que me incomodava e o barulho do teu sugar e engolir, entrei naquele estado que não é, nem vigília nem sono, mas antes um ir e vir do esquecimento.
Numa das vezes em que abri os olhos, achei tudo muito sossegado. Talvez demasiado sossegado. Olhei melhor. A tua mãe estava a dormir, de cabeça pendurada e cabelo desgrenhado, contigo ao colo. Como achei que estavas muito quietinho, levantei-me. Tu também dormias, de boca aberta, como se mamasses, mas sem a mama. Havia leite que ninguém se lembrou de estancar já seco nas tuas bochechas, queixo, pescoço e nas vossas roupas.
Foi nesse momento que me apercebi que, para mim está a ser complicado, mas eu estou fora enquanto a tua mãe está dentro. Ela está contigo todas as vinte e quatro horas de todos os dias. Para ela, não és um emprego onde se entra tarde e sai cedo. Ela não telefona de vez em quando a perguntar se está tudo bem. Ela está lá, apenas, sempre. E na noite, quando tenho de dormir porque trabalho, ela continua a levantar-se para te dar mama, para te trocar a fralda. Achei aquele momento profundamente injusto. Não é assim, nestas pequenas situações, cómicas até, que se começa a separar o que é do homem do que é da mulher? Se a mim me custa, a ela custa ainda mais. Se eu, no pouco tempo que passo com vocês, digo mundos e fundos, ela continua a sorrir-te mesmo quando chora, e a tratar de ti mesmo quando não tem vontade, quando lhe apetecia... Mas afinal, o que lhe apetecia? Acho que nem lhe perguntei.
Falamos facilmente de igualdade de direitos mas este continua a ser um mundo de homens. E, quando me passo por entrar no quarto e nem saber se cheira mais a bolçado ou a cocó ou a outra coisa qualquer, é tão fácil pensar que a tua mãe tem tempo, porque está em casa, todo o dia, enquanto eu trabalho. E talvez, quando ela regressar ao trabalho continue a ser fácil encontrar uma explicação para o que ela poderia ter feito e deixou por fazer.
Filho, há muito trabalho na vida de um pai, há mesmo, mas apesar de teres nascido homem e como tal, neste mundo, a vida ser-te mais fácil, nunca deixes de agradecer à tua mãe. Por muito que lhe agradeças nunca será o suficiente. Eu fui criado na ideia que existem homens e mulheres, cada qual com as suas funções próprias e distintas. Mas tenho aprendido que, afinal, só existem dois tipos de funções, as de homens e mulheres, e as que não deviam ser feitas por ninguém. Aos poucos tenho-me tornado um homem melhor. Espero saber educar-te para um futuro em que possas viver nessa realidade. Talvez esse seja o melhor agradecimento que possas prestar à tua mãe.
31.3.04
Fazes hoje dois meses. Ao mesmo tempo que me parece pouco também me parece uma eternidade. Nem nas bandas desenhadas dos “Baby Blues” não me parece tão difícil como está a ser. É um longo percurso e penoso mas, ao mesmo tempo, já não imagino a minha vida sem ti. Só dois meses mas as frases «como está o Gordo?» ou «os amores da minha vida isto ou aquilo» parecem-me que sempre lá estiveram. Aos poucos tens-me ensinado um novo sentido para a vida. Estarei mais maduro por tua causa? Não sei, há momentos em que acredito que sim. Agora tiro o pé do acelerador mais vezes porque me lembro de ti, cada vez que me levanto durante a noite tenho de me certificar que respiras, penso nos CDs, livros e DVDs que não compro e não te levo a mal, compro-te prendas e todo o género de engenhocas quando preciso de um fato novo que não vou comprar tão cedo. Eu sei que nada disto é uma prova irrefutável de amor mas é uma forma de estar que há dois meses atrás não existia.
Lembro-me que dois dias antes de nasceres, a tua mãe teve o feeling que estava quase. Nesse dia levantámo-nos cedo, tomámos o pequeno-almoço numa Expo lavada de chuva e deserta de gente, fomos ver uma sessão de cinema ao meio-dia e tivemos a sala só para nós. Isto foi só há dois meses mas parece-me que uma vida passou entretanto. Sei que vou ser dramático mas, nestes dias em que um sorriso cansado e um beijo de boas noites é tudo o que a tua mãe e eu temos tempo para trocar, pergunto-me se a nossa vida voltaremos a encontrar tempo um para o outro.
Neste tempo, temos encontrado alguns momentos fantásticos, de rir até às lágrimas, assim como outros de lágrimas que não levam a nenhum riso. Mas é importante que saibas que não te trocaria nunca, por nada deste mundo. És um filho lindo e, bom ou mau, melhor ou pior, sei que tenho o resto da vida para te aprender.
A tua mãe está a tentar convencer-me que tens problemas de cabeça. Passo a explicar. Não é normal um bebé de dois meses dormir só oito horas por dia. Mas é o que está a acontecer. Eu não ligo muito a essa ideia da tua mãe, mas há alturas em que gostava mesmo de perceber o que se passa nessa cabecita. Que é estranho teres vontade de dormir mas não conseguires, é. Vê-se, na forma como bocejas, no esfregar dos olhos, como viras a cabeça para esconder a cara na fralda ou colcha. Depois ficas saturado e choras. Isto acontece sempre. Não é fome, não são cólicas, não é necessidade de atenção. São insónias. Será possível que já tenhas a mesma doença que eu? Esse esperar e desesperar por um sono que não chega?
A pediatra diz que não é defeito mas antes feitio. Mas será mesmo? Já tentámos de tudo, desde tentar adormecer-te com luz, sem luz, com barulho, sem barulho, com música, sem ela e em todas as combinações possíveis destes factores. Também já tentámos o colo, a ausência dele, deixar-te a chorar, ficar ao pé de ti a segurar a tua mão, automóvel (que ainda é o que dá alguns poucos resultados), estafar-te, as várias assoalhadas, ovo, espreguiçadeira, alcofa. Nada. A tua mãe até já se pergunta se será a cor do quarto! Mas já insónias? E se for? Que impacto terá no teu eu futuro? A sério, eu não acredito que tenhas qualquer problema de cabeça mas estou preocupado com esta situação. Estou mesmo.
Na próxima sexta-feira vamos outra vez à consulta de pediatria. Vamos bater outra vez neste ponto. Tem de haver alguma coisa que se possa fazer para saber se está tudo bem contigo ou não. Viver na dúvida é o pior. Sugestões, temos recebido várias. Vamo-las experimentando, aos poucos. Das mais clássicas, como estafarmos-te bem até passar a noite a passear-te de automóvel, temos riscado todas essas opções. Há uma que me agrada bastante mas tenho quase a certeza que a tua mãe não vai apreciar: sentar-te na máquina de lavar roupa quando estiver a torcer a todo o vapor. Parece-me uma ideia tão boa como qualquer outra!
A nova teoria da tua mãe é que talvez sejas como eu, que passei os primeiros seis meses de vida ao colo, e em movimento, para me conseguirem adormecer. Cada vez que paravam, eu berrava. Coitados dos meus pais! Tinham de fazer turnos para que cada um conseguisse dormir um bocado. A minha mãe diz que, para conseguir fazer alguma coisa em casa, tinha de me pendurar às costas ou ao peito e era assim que cozinhava ou limpava. Será que “herdaste” esse meu feitio? Como eu espero que não. Podias ter herdado os meus olhos, que a tua mãe bem contente ficaria, apesar do estigmatismo e da miopia. Mas não vamos entrar em transe, vamos ter calma. De certeza que não há-de ser nada. Daqui a uns tempos já dormes como um carneirinho e vamos todos adorar!
30.3.04
Há dias que não valem a pena. E no meio desse vazio há situações que dão um sentido onde não o havia. Ainda não me adaptei a esta dualidade. Da gargalhada ao choro, ou da seriedade ao riso. Ontem foi um bom exemplo do quando mudas a nossa vida a um ritmo superior à nossa capacidade de adaptação. Tu cresces, marcas o ritmo e nós corremos atrás de ti, a tentar entender-te.
Saí do emprego às nove e tal. O trabalho é cada vez mais e há assuntos que não podem mesmo ficar para amanhã. Liguei do carro para a tua mãe. A conversa habitual:
- Então? Tudo bem? – Perguntei.
- Não.
- O que é que se passa?
Nesta altura é-me fácil imaginar tudo o que possa correr mal. Pareces-me saudável mas até tremo perante estas respostas da tua mãe.
- Hoje, ele ainda não se calou nem dormiu. Estou farta disto. Não aguento mais!
E ouvi o fungar de lágrimas a acompanhar estas palavras. Bem, pelo menos estás bem.
- Amor, tens de ter calma.
- Dizes isso porque não estás cá!
Não. Não estou com vocês o dia todo. Da noite também é pouco o tempo que tenho para vocês. É um facto. Mas seria melhor se me despedisse para tratar da família? Sei que estou a divagar. Mas fico desarmado. E vou para casa já preparado para o pior.
Depois de jantar tardíssimo, fico a lavar louça até quase à uma da manhã. Lavo a de ontem e a que não me apeteceu lavar na noite anterior. Participar faz-me bem, ao menos posso ser útil, contribuir naquele trabalho o que não contribuo no resto do tempo em que estou fora. Enquanto lavo pratos, copos e talheres ouço-te chorar até à exaustão. A tua mãe de volta de ti a tentar decifrar-te. É mama? É fralda? Cólicas? Não é nada, ou é birra, ou apenas estares com a pica toda e quereres ainda mais paródia quando já estamos a cair para o lado. Desligo o intercomunicador para não te ouvir. Filho, cala-te por favor.
Depois da louça já nada me apetece. Nem escrever, nem ler, nem sequer lavar-me. Quero dormir, desligar, pensar que o dia seguinte será melhor. Mas ainda sou preciso, a fralda transbordou. Solícito, pego-te nos pés para que a tua mãe te limpe. Os pés já tinham ido ao “bolo” e fico com as mãos cheias de trampa. Regas tudo com um chichi e deixas cair a chupeta quando temos as mãos sujas. Choras até eu conseguir ir a correr lavar as mãos e dar-te a chucha. A tua mãe chora. As lágrimas rolam-lhe cara abaixo. Ficamos os dois calados a ver. Eu, contigo ao colo, e ela, com a bomba do leite que não puxa nada.
Fomos para a cama e senti que o dia não valeu nada, foi o riscar de mais um quadrado no calendário. Afinal, o que fiz de útil? Que momentos tive para meu gozo? Passei o dia e noite a correr atrás do tempo, a riscar pendentes, a cumprir tarefas. Quando finalmente apagamos a luz continuas a reclamar. Cada vez que a chucha te cai da boca choras até que um de nós se levante para ta dar. É preciso ir lá, abrir os olhos, sair da cama, sentir o frio e o desequilíbrio de nos levantarmos estremunhados. Custa muito. A certa altura decidi demorar um bocado mais a responder e começaste a chuchar nos dedos. Geralmente metes metade da mão na boca e tentas encontrar aí a substituição da chupeta. Foi lá a tua mãe.
- Estava a chupar o dedo.
- Metade da mão. – Respondi.
- Não, o dedo mesmo.
- A sério? Ele já sabe chuchar no polegar? - Pergunto, num rasgo súbito de pai babado.
- Era o indicador.
- Oh! Que tristeza de filho! Esse é o dedo errado!
Passado um bocado nova chamada. Fui lá e tirei-te o indicador da boca. Com jeito dobrei-te os dedos e empurrei-te o polegar para a boca. Quando percebeste a diferença vi na tua cara que foi uma ideia luminosa. De facto um polegar é muito melhor que um indicador! Eu estava estafado e a tua mãe tentava dormir mas não pude evitar o riso. Aprendeste a chuchar no dedo! Mesmo que não o tenhas descoberto sem a minha “ajuda”, o certo é que vi a primeira vez que o fizeste e isso apagou o resto. Pelo menos não conheci esse momento em diferido, pelos relatos da tua mãe, ou ainda com um «sim, ele costuma fazer isso». Guardaste qualquer novidade para mim, e senti que assim também estou ao teu lado a ver-te crescer, a acompanhar-te.
Voltei para a cama a desejar desesperadamente dormir. E foi com o teu choro que acordei esta manhã, tomei banho e fui para o emprego.
26.3.04
Por vezes sorris. Ainda não é frequente. Vai acontecendo. Também, é raro estar em casa para ver quando acontece. No outro dia comentei os teus sorrisos com um colega meu. Ele disse-me que, nesta fase, qualquer sorriso são gases. Até pode ser que seja verdade. Não sei, nem vou achar que és tão mais desenvolvido que a maioria e sorris porque sabes que adoramos quando o fazes.
Sem opinar porque sorris, deixa-me falar-te do teu sorriso. Começa por abrires a boca toda. É uma visão gira porque, como não tens dentes, é uma boca cheia de gengivas. Ainda não fazes barulho de riso, julgo que seja normal. Mas o que realmente me fascina são os teus olhos. Os teus olhos fecham-se ligeiramente e ficam brilhantes. E todo esse olhar sorri só por si. É um abraço terno e sincero quando sorris.
Estes sorrisos vão ficar guardados. São algo que não quero mesmo perder. Ao longo da vida vais aprender a sorrir e a rir como os "adultos" mas, tenho a certeza que em nenhum momento o teu sorriso será tão verdadeiro como agora. E mesmo que sejam gases, estes sorrisos serão sempre uma recordação do bebé que és.
25.3.04
Ao jantar, a conversa foi parar a baptizados. Não há grande novidade pois, já tínhamos decidido não te baptizar.
- Mas sabes que, se um dia ele quiser ser baptizado temos de o fazer - disse a tua mãe.
- Eu sei. Respeito isso. É algo que eu prezo, as convicções. Detesto é a falta dela. Uma coisa é respeitar uma convicção, outra coisa é impingir uma ideia só porque é a nossa. Se ele quiser ser baptizado eu dou-lhe todo o meu apoio, desde que seja ele a decidir isso por ele.
Nós só casámos pelo civil. Embora a tua mãe seja crente, eu sou ateu. Se calhar, levo as convicções demasiado a sério, mas acho que respeito verdadeiramente as crenças dos outros. Se casasse pela igreja, estaria a ser hipócrita e, ao mesmo tempo, a desrespeitar quem acredita porque, ou assumiam todos que eu estava ali por estar, o que era um desrespeito, ou então ficavam no papel desconfortável de fingir que não sabiam que eu não acredito.
Seja como for, a conversa continuou para uma sessão de perguntas e respostas, enquanto estavas ali, ao nosso lado, a dormir, aninhado no teu «ovo».
- Então e se ele quiser deixar crescer o cabelo? - Perguntou a tua mãe.
- Tudo bem.
- E se ele quiser fazer um piercing?
- Tudo bem, mas não antes dos 15/16 anos. - Respondi.
- Então e se ele quiser fazer uma tatuagem?
- Aos 18. - Respondi cheio de convicção.
- Mas nós temos!
- Sim, mas enquanto com um piercing tens sempre a opção de tirar, quando te fartas, quando passa de moda, etc., uma tatuagem é para a vida toda. Por isso fiz a minha aos 30! Repara, em ti já nem se notam os furos dos piercings!
- E festas? Quando é que o deixamos sair à noite? - Perguntou a mãe.
- Quando quiser.
- Quando quiser?
- Sim, até termos confiança nele, combinamos assim: ele diz-me onde é, a que horas começa e acaba. E eu vou lá pô-lo e buscá-lo. - Respondi.
- E namoradas?
- Isso, ele que arranje sozinho.
Olhamos para ti e continuavas a dormir. Calmo, sereno, em paz contigo e com o mundo. Olhámos um para o outro e começámos a rir. Como é que podemos fazer planos para um futuro ainda tão longe? E mesmo que planeemos, de que vale tudo isso? Tu vais ser diferente de tudo o que possamos imaginar. O que me lembra que, mais cedo do que julgo e por muito liberal que consiga ser, estarei rapidamente naquela categoria onde nunca me imaginei, serei um «cota».
E tu? Que pensarás tu disto tudo quando, daqui a uns anos, leres estas linhas? Vais-te rir imenso à custa dos cotas! Então é isto envelhecer...
Há dias melhores e dias piores. É assim a vida, sempre, em tudo. Neste caso concreto nem eu nem a tua mãe andamos bem. Ela está estafada pois, absorves todo o tempo que ela tem e mais algum. No meu caso, ando a bater no fundo, cansaço, desmotivação, falta de objectivos ou forças para os perseguir - essencialmente, emprego. E é muito fácil fazer de um filho uma barricada. É fácil vê-lo como o motivo para tudo o que nos corre mal. Acontece que tu és o único que não tem culpa nenhuma, absolutamente nenhuma.
Isto é apenas para que saibas que há dias em que nos chateamos, eu e a tua mãe, de uma forma que não costumávamos chatear antes de existires. Depois, quando falamos como deve ser sobre os assuntos, chegamos ao consenso. Entendemos que o cansaço baralha-nos o pensamento, que estamos ainda na rebentação de ti e que, a seu tempo, tudo encontrará um novo percurso, com tempos e ritmos próprios.
Pelo caminho magoamo-nos, e tu sabes disso, como quando anteontem berravas com quanta força tinhas e, quando viste a tua mãe chorar, calaste-te. Tu percebeste que ela estava saturada, não percebeste? Continuas a ser um mistério, continuo a olhar para ti, para a expressão neutra que muitas vezes tens e pergunto-me o que te estará a passar pela cabeça. Ao mesmo tempo, penso que, de alguma forma, já sabes o que se passa à volta, já aprendeste a ler-nos a alma.
Nós também vamos aprendendo, embora da forma mais dura, a adaptarmo-nos a ti, a todo o imenso trabalho que nos dás, ao quanto temos de deixar para trás, por ti. Talvez se um dia leres isto percebas que deste mesmo muito trabalho. Mas está descansado que não te vamos apresentar factura! Sei que eu e a tua mãe havemos de conseguir criar-te. O difícil é conseguirmos manter a calma e o sorriso quando tudo nos dói mas, mesmo aí, estamos a fazer progressos.
23.3.04
Especificações técnicas:
Peso: 5670gr.
Ontem à noite estavas ao colo da tua mãe e choravas. Era birra de sono, o que começa a ser habitual. Ela queria ir para a casa de banho e passou-te para o meu colo. Eu estava deitado no sofá a ver uns vídeos antigos no VH1, nem sei o que esperava, talvez adormecer rapidamente - o que não era difícil com um litro de cerveja no estômago. Além disso, não me apetecia levantar, andar contigo ao colo, mexer-me. Seja como for, deitei-te ao meu lado no sofá e, cinco minutos depois, dormias profundamente.
O ponto que me comoveu foi, num momento em que abriste os olhos, ensonado, agarraste-te ao meu roupão, com ambas as mãos. Eu sei que é um movimento reflexo, não há uma intenção por detrás. Mas naquele momento pareceu-me que tinhas medo que eu fugisse, que te abandonasse e agarraste-me como se fossemos as últimas pessoas no mundo. Eu tinha uma vontade enorme de urinar e quando a tua mãe voltou já me torcia todo com dores na bexiga mas não queria de forma alguma quebrar aquele elo, aquele momento em que, mesmo a dormir, me conquistavas um pouco mais. Numa altura em que me sinto tão em baixo, ter esse teu carinho involuntário deu um outro sentido à noite.
19.3.04
Hoje é dia do pai e vieste visitar-me ao emprego. Foi o nosso primeiro dia do pai. Cheguei a pensar que não virias. A tua mãe perdeu-se no caminho. Ligou-me em desespero, aos gritos, confusa, baralhada. Tentei explicar-lhe o caminho mas ela repetia que ia voltar para casa. «Mas é fácil!», repeti vezes e vezes. Ela tinha o sol a bater-te em cima, tu a chorar com calor e a transpirar com roupa a mais, os carros de trás a apitarem, ela sem saber onde estava. Não me ouvia. Sabes como é a mãe, não me ouvia. Eu também não estava nos melhores dias. Expliquei-lhe imensas vezes e ela continuava com o «vou voltar para casa!». A certo ponto não me contive e gritei-lhe que voltasse. Desliguei-lhe o telemóvel e atirei com ele para cima da secretária. Foi uma parvoíce monstra. Ela não merecia. É certo que estava tão desnorteada que não ouvia mas, seja como for, o que fiz não se faz. E mais tarde tive de pedir desculpa. Felizmente ela não voltou para trás.
Quando aqui estiveste, não deves ter reparado, mas empurrava-te o carrinho com um orgulho transbordante. Acho que te mostrei a toda a gente. Ser pai não faz de mim mais ou menos homem, acho que não é por aí que se mede o que quer que seja. Afinal, há pais que são uma desgraça, assim como outros que, não sendo biologicamente pais, conseguem ser tudo para um enteado ou enteada. Não é por aí. Talvez tenha sido um pouco o orgulho parvo do estilo «mas não é lindo o meu filhote?». Talvez, reconheço que por vezes caio nessa esparrela. Foi também a felicidade de te ter comigo no nosso primeiro dia do pai. Assim como o facto da tua mãe não ter voltado para trás e a coisa ter ficado por ali mesmo.
Começaste a tua existência por me oferecer um perfume dos que gosto e um postal "escrito por ti"! É fantástico. Nos últimos anos foram inúmeras as bugigangas sem interesse e até, as vezes em que não ofereci nada ao meu pai. Durante quanto tempo me oferecerás coisas que realmente goste? E quando não for a tua mãe a decidir por ti, virás ter comigo a perguntar o que realmente pretendo? Saberás, por ti, escolher algo que deseje? Eu sei que neste momento é pedir-te demasiado. Mas se falo nisto é porque só ao perguntar-me sobre este assunto vejo o quanto tenho falhado para com o meu próprio pai. Eu não faço ideia do que ele gosta!
À noite ligo para o meu pai e dou-lhe os parabéns. Ele responde-me com um «parabéns para ti também». Foi uma estreia e acho que ficámos ambos comovidos com a novidade da situação. Pois é. Agora o dia do pai já não é só dar mas, também é receber. Não só as prendas mas, essencialmente, os votos de afecto, amor e agradecimento. Ainda não consegui perceber a situação com total clareza mas sinto que foste preciso tu para me sentir cada vez mais próximo do meu próprio pai que, afinal, sempre esteve lá, para os bons e maus momentos mas, sobretudo, para os momentos em que eu nem quis saber. Será que é preciso sermos pais para aprendermos a ser filhos?
12.3.04
Especificações técnicas:
Peso: 5230gr.
27.2.04
Especificações técnicas:
Peso: 4680gr. Estatura: 56,7cm. P.Cef: 37,3cm.
17.2.04
Especificações técnicas:
Peso: 4100gr.
16.2.04
No sábado fizeste duas semanas. Foi dia dos namorados. Pela primeira vez eu e a tua mãe não fomos almoçar ou jantar fora. O almoço foi uma romântica lasanha fria pelas 5 da tarde. Depois dela te dar de mamar, trocar a fralda duas vezes e voltar a dar mama. Quando almoçamos já nem vontade tínhamos de comer. Mas ficámos felizes por acender uma vela, brindarmos ao futuro e devorarmos o comer em dez minutos pois já se aproximava a hora de acordares para nova mamada. Além disso havia ainda o chassis do teu carrinho que se partiu após três ou quatro saídas à rua e que precisava de ser trocado e tantas, tantas pequenas coisas por fazer. As tarefas agora nunca acabam e sentimo-nos corredores de maratona que nunca podem parar pois a estrada não acaba nunca e, por muito cansados que estejamos, há sempre mais qualquer coisa que não pode esperar para depois.
Tens crescido imenso. Nesta semana não te pesámos nem medimos mas olhando para ti estás maior. Bem maior. As tuas mãos, a tua cabeça, as bochechas. Não paras. Ocupas-nos todo o tempo e mais algum, toda a atenção, toda a vida. Têm havido momentos engraçados. Mas no geral fica-nos o cansaço, a falta de paciência e as primeiras discussões contigo no centro. Eu sei que tudo isto deve-se unicamente à fadiga mas não temos conseguido agir de outra forma.
A tua mãe está cada vez mais esgotada. Em vez de melhorar apenas piora. O choro tem sido uma constante, os momentos em que está farta de tudo. Há alturas em que temo que se vá abaixo. Têm sido assim os nossos dias. Da minha parte está a ser difícil também. Gostava de conseguir ajudar mais ou pelo menos ajudar melhor.
7.2.04
Fazes hoje uma semana de vida. Ainda não é muito tempo mas, quando hoje olho para trás, já mal consigo ver a vida que existia antes de chegares. Nesta última semana tudo mudou, como se fossemos outras pessoas numa outra realidade qualquer. Não houve ainda um único momento em que me possa sentir arrependido ou infeliz de existires mas o cansaço é bastante pior do que alguma vez imaginei. Nesta semana que passou tenho-me sentido no limite da minha resistência - e estou de férias! Não sei como será quando voltar, na próxima segunda feira, ao emprego mas, ou me habituo ou não vou conseguir dar conta do recado.
Segundo todos os termos possíveis de comparação, és um bebé calmo. Só nos acordas quando tens fome. Não tens feito birras, as cólicas são raras e a tua vida tem-se resumido a comer e dormir. Mesmo assim, acordamos várias vezes durante a noite para mamares. Mais ou menos de três em três horas. Tanto eu como a tua mãe estávamos habituados não propriamente a dormir muitas horas mas a dormi-las seguidas. Agora tentamos habituarmo-nos a dormir várias pequenas sestas durante a noite. Este ritmo está a esgotar-me. Sinto-me permanentemente esgotado, apático, sem forças. Obrigo-me a escrever, ler e ver alguns filmes que alugo no clube ao cimo da rua mas, na escrita não consigo alinhar as palavras, não me lembro do que leio e os filmes tornam-se cansativos pois os olhos ardem-me e teimam em fechar-se.
Temos insistido que a nossa vida não pode mudar, que temos de continuar a ser como éramos antes de chegares, com os mesmos hábitos e forma de estar. Isso não está a acontecer bem assim. Todo o tempo do dia e da noite gira em torno das tuas necessidades. Primeiro estás tu, depois estás tu e só no fim estamos nós. Lavamo-nos, vestimo-nos e comemos quando conseguimos. Organizamos as idas à rua nos intervalos das mamadas e trocas de fraldas. Quando um vai à rua, o outro fica em casa disponível para ti. Poucas palavras trocamos que não sejam sobre ti. À noite caímos na cama e desejamos adormecer o mais depressa possível para tentar recuperar um pouco do sono acumulado. «Boa noite. Dorme bem». Neste momento é todo o diálogo que conseguimos manter.
A tua mãe chora nos intervalos. Eu não choro mas vontade não me falta. Neste momento o que passamos não é vida mas sim uma sobrevivência ridícula, um simulacro de qualquer coisa mais. Dou por mim a desejar dizer qualquer coisa à tua mãe que a possa aliviar do cansaço que sente mas não sou capaz. Falham-me as palavras e, na maioria das vezes, uma festa é tudo o que consigo dar. É pouco. Ela sente-se perdida nas dúvidas sobre as suas capacidades maternas e por não conseguir ter um minuto para ela própria. Quando te dá de mamar mal consegue ter os olhos abertos. Baralha as coisas, esquece-se de tudo, repete vezes sem conta a mesma pergunta à qual respondo sempre a mesma coisa. Para ela está a ser muito duro. Apesar de tudo fala-te sempre com a mais doce das vozes, mesmo que as lágrimas ainda lhe caiam.
Esta tarde estiveram cá os teus avós. Estão radiantes. Passaram a tarde agarrados a ti e descobrir semelhanças ou diferenças na tua fisionomia em relação às nossas. Para mim foi um esforço enorme esta tarde. Fui um bom anfitrião mas tudo o que realmente desejava era apenas meter-me na cama e esquecer-me do mundo e de todas as pessoas. A tua mãe optou por se refugiar o máximo tempo possível no escritório, agarrada ao telemóvel, refugiada de todos nós. Eu compreendi e lidei com a situação o melhor que consegui. Ela não tem culpa, está apenas cansada.
Para mim o dia começou mal. De manhã tive de ir comprar algumas coisas para oferecer durante a tarde como lanche. Estamos praticamente sem dinheiro. É dia 7 e estamos falidos, não há dinheiro que chegue para comer até ao fim do mês. Não sei como iremos lidar com isto mas esta situação agonia-me. Fui rigoroso a separar o dinheiro, mal recebi, para ter a certeza que chegaria para tudo. Algures nestes dias gastámos mais do que devíamos - na verdade, mais do que podíamos. Se isto continuar assim vou ter de considerar seriamente a hipótese de arranjar um segundo emprego, qualquer coisa, à noite. Qualquer coisa que nos permita sobreviver melhor. Os meus pais perguntaram-me se precisava de alguma “coisa”. Quase chorei nesse momento. Acho que eles perceberam que isto não anda fácil mas eu mantive sempre que tudo está bem, é apenas cansaço. Da mesma forma como quase choro quando saio à rua para entregar ou levantar um filme no clube vídeo, ou quando estaciono o carro e fico uns minutos sentado ao volante, sozinho, a pensar como vou desenrascar-me. Mesmo assim, quando penso no que ganho, concluo que pertencemos à chamada classe média-alta. Imagino então todos os outros que espremem a vida a uma miséria.
6.2.04
Especificações técnicas:
Peso: 3680gr. Estatura: 53cm. P.Cef: 35,2cm.
31.1.04
Vi-te nascer.
Foram vinte horas seguidas de contracções e mais dez de sala de parto. Foram as horas mais longas da minha vida. A epidural não correu bem, a tua mãe ficou paralisada de um lado e a sentir tudo do outro. Quando voltei ao quarto vindo de um dos muitos cigarros que me acompanharam no processo, ela estava a oxigénio. A cabeça inchou completamente de um dos lados, o olho quase tapado, depois, aquele tubo ligado às narinas e tantos frascos pendurados junto à cama, descendo em tubos até ao braço. Não lhe disse nada para não a assustar ainda mais, mas pensei que tudo estava a correr mal. «Aguenta, não te apagues, por favor», disse para mim mesmo, uma e outra vez.
Na sala ao lado estava uma mulher a gritar com quanta força tinha. Chamava pela mãe, pelo pai, por os santos e anjinhos. E gritava sem parar. Tanto a tua mãe como eu sentimos os nervos subirem à flor da pele. A tua mãe não gritava, nem gritou em nenhum momento do parto, mas chorou e pediu muitas vezes ajuda a deus. Nessa altura pensei que não iria aguentar, que sairia porta fora, que não era capaz de lá estar, com vocês, como era minha obrigação. Nem sei bem o que pensei. Uns dias depois, em conversa de maternidade, constatei que o marido daquela mulher, àquela hora, estava com os amigos nos copos. Não sei se isto quer dizer alguma coisa ou não. Mas eu não seria capaz.
Durante toda aquela noite enorme, estivemos sozinhos no quarto, com o tempo marcado pelo CTG, as contracções, as lágrimas da tua mãe e a minha impotência perante o seu sofrimento – que mais dizer senão que respirasse? Ela dizia que não queria ter mais filhos, eu que não queria assistir a mais nenhum parto. O ritmo do CTG entranhou-se de tal forma na minha cabeça que continuei a ouvi-lo, como um coração, durante dias e dias, quando dormia, no duche, no silêncio da casa que esperava por vocês.
Quando chegou o momento de nasceres, o efeito da epidural já tinha passado completamente e a tua mãe não podia receber mais reforços. Foi mesmo a frio. Deu para ela sentir tudo. Só me disse que não fosse espreitar «lá para a frente». Não fui, nem precisei. Estava ao lado dela, vi a tua cabeça aparecer no meio dos dedos da enfermeira. Atrás veio o teu corpo, roxo, sujo, trémulo. Sempre vivera na ideia de ser daqueles homens que desmaiam no momento crucial mas, perante tudo aquilo, aquela sequência tão lenta e tão rápida de acontecimentos, esqueci-me completamente de mim. Estive lá. Vi-te nascer, respirar pela primeira vez, chorar pela primeira vez.
A enfermeira pergunta-me se quero cortar o cordão. Respondo que sim e tenho a tesoura na mão. Dou um corte mas não separo tudo. Parecia que estava a cortar um choco. Nesse preciso instante pergunto «mas o que estou a fazer?». Só aí é que percebo a pergunta da enfermeira, a minha resposta, o que significa tudo aquilo. Mas era tarde para parar – e nunca se deve deixar nada a meio. Respiro fundo e dou uma nova tesourada. Separo-te da tua mãe e, com esse gesto tão simples, ligo o cronómetro da tua vida. Agora estás por tua conta filho. Terás de te alimentar, terás o sono e a vigília, terás um corpo a funcionar por si, terás a tua vida, só tua, por viver. Passaste a ser tu mesmo em tudo o que isso tem de pleno e assustador.
Choraste, tremeste, olhaste tudo com o pavor de um mundo novo, terrivelmente novo. Demasiado claro, demasiado frio, demasiadamente diferente de tudo o que conhecias. Peguei-te ao colo e, com o queixo a tremer, perguntei-te:
- Então gordinho, então amor?...
Calaste-te por um instante num reconhecimento que nunca saberemos se existiu ou não. Pensei que nesse momento iria chorar contigo nos braços, ainda meio sujo do sangue da viagem, enrolado num cobertor da maternidade. Pensei também coisas sem nexo, pensei que deveria ter feito a barba, que te deveria ter dito «bem-vindo, meu filho», que deveria parar aquele queixo que não me parava de tremer. Sempre te imaginara diferente, mais bonito, com menos cabelo e olhos azuis como eu. Achei-te tão feiinho, filhote. Mas antes de eu começar a chorar, tomaste a iniciativa e choraste pelos dois. Depois tiraram-te dos meus braços, meteram-te numa espécie de incubadora e foste embora.
A tua mãe chorava. De dor, de alegria, de tudo ao mesmo tempo. Estavam já a suturá-la e ela a dizer que sentia tudo. A barriga parecia um saco de borracha vazio. Toquei-lhe na procura do bebé que sabia lá não estar mas acho que ela nem se apercebeu. Ainda pude ficar um pouco mais, fazer-lhe uma festa, dar-lhe um beijo, limpar-lhe lágrimas. Havia toda aquela dor nela e também em mim, todo aquele cansaço mas, ao mesmo tempo e, de repente, tínhamos um filho. Deixáramos de ser dois para sermos três. Para a mãe começou muito mais cedo, porque te sentia. Para mim só começou verdadeiramente quando te vi sair para o mundo, para a vida. Só nesse momento é que percebi verdadeiramente que era pai, que há trinta e dois anos atrás o meu próprio pai me vira também nascer, me pegara ao colo e que tudo isso nunca me tinha dito nada até aquele momento, até fazer uma espécie qualquer de sentido, de encaixe perfeito – como um ciclo que se completa.
Nascer não é bonito. É doloroso. É intenso. É traumatizante para todos nós. Porque a dor para a mãe é brutal – e acredito convictamente que, se os homens tivessem filhos, eu entraria em estado de choque e morreria no parto. Para o pai é frustrante assistir a tanta dor e não conseguir ou poder fazer nada para partilhar ou aliviar essa dor. Depois é a ansiedade, o cansaço. Era o terceiro dia consecutivo acordado, o meu próprio sentido de equilíbrio começava a estar afectado. Ao mesmo tempo, nascer é lindo porque é único. É o início, o primeiro momento de todos os momentos. E estive lá, sempre ao lado da tua mãe, sempre, mesmo quando pensei que tudo aquilo era demasiado para mim, mesmo quando já só queria dormir e não me importava se dormiria na cadeira ou no chão do quarto, mesmo quando o sangue começou a tingir os lençóis duma forma que parecia não parar e fiquei cheio de medo por vocês.
Umas horas depois, quando ao fim do dia me deixaram ver-vos, achei-te mais engraçadinho. Ao outro dia, achei-te lindo. E, todos os dias, superas as minhas expectativas, já não em relação ao que imaginava mas pelo ser que és.
Vamos começar por esclarecer alguns pontos. Nunca gostei de crianças. Sempre achei que a minha independência era mais importante. Depois, ouvir bebés a chorar baralha-me o sistema nervoso. Mas também nunca fui de opinião de não ter filhos. Afinal, uma coisa são os filhos dos outros, outra coisa, perfeitamente distinta, são os meus. Assim, foi de coração aberto que eu e tua mãe decidimos trazer-te ao mundo.
Um blogue sobre ti? Podia ter duas abordagens. Podia escrever-te por te achar um espanto, e relatar as tuas novas habilidades, dia a dia, truque a truque. Mas há imensos outros blogues que fazem isso, bem melhor que eu, além que é tema onde as mães conseguem sempre levar a melhor. Ou podia escrever-te porque não há muitos relatos visto pelos olhos do homem, dessa besta insensível, incapaz de sentir. Assim, escrevo-te isto tudo para que possas compreender.
Existem inúmeros livros sobre tudo o que um pai e uma mãe precisam de saber para cuidar do seu bebé. Mas o que pretendo é escrever algo diferente. Quero que saibas como foi um teu primeiro ano. Em breve vamos encher o álbum com todos os bons momentos que passamos juntos. E onde ficam os outros? Onde fica o desespero de deixarmos de ser dois para passarmos a três? Isto não é um best-of mas sim um worst-of. Este blogue faz-se daqueles momentos que vamos tentar esquecer. Aqueles onde acho que não vou aguentar, onde me apetece fugir, onde fraquejo.
É importante que compreendas que não és um erro nem um acaso. És fruto de um acto consciente de amor. Foste feito com amor e serás sempre criado com amor. Mas um filho muda tudo e, só quando fores pai conseguirás verdadeiramente compreender. E quero, acima de tudo, falar-te de ti num tempo que não lembrarás, e de nós, a aprendermos, a adaptarmo-nos a ti, às tuas necessidades e ritmos próprios. Talvez um dia quando leres estas páginas compreendas, ou talvez não, mas disso poderemos falar daqui a uns anos, quando for possível compreender as tuas próprias opções, o rumo que pretendas dar à tua vida.
Quando comecei a anotar estes pensamentos, não pensei publicá-los num blogue. Por um lado é demasiado privado, mas isso consigo resolver com o anonimato. Por outro lado, tenho esta ideia que devo anotar um ano - porque é um número certo, faz sentido, o teu primeiro ano de vida. E aconteceu outra coisa. Embora vá falsificar as datas de publicação para as acertar com as reais, descobri que não tenho escrito nada sobre ti. É verdade, tenho sido um pai desnaturado pois, perante a tarefa a que me propus, recuei, deixei para amanhã e, tu vais crescendo sem que o texto te acompanhe. Assim obrigo-me a escrever, porque vales a pena, porque isto não está a ser fácil, porque concluo que posso amar-te sem que me ames de volta e, mesmo assim, continuarás lá e a ser meu filho. E mesmo quando tudo correr mal, ainda assim, serás tu, o meu filho, visto pelos olhos do teu pai.
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